O Comprometido Espectador
segunda-feira, junho 30, 2003
 
O neoconservador Louçã
Acabo de ver na SIC Notícias um magnífico debate (isto é irónico, está bem?) sobre o processo de paz na Palestina entre Vasco Rato e Francisco Louçã. Cabe a cada um dos participantes dar uma lista das dificuldades potenciais que ambos antevêem no decurso do processo. O brilhante Louçã enumera as seguintes: Ariel Sharon e os neoconservadores na administração americana. Ariel Sharon porque é um criminoso de guerra, os neoconservadores porque na realidade não acreditam no roadmap: "querem a paz pela guerra". Arafat um obstáculo à paz? Claro que não. De resto, os seus pergaminhos pacifistas vêm de longa data: desde pelo menos 1968, quando fundou a OLP, que Arafat persegue com enlevo angelical o nobre objectivo (pela paz, está claro) de destruir o Estado de Israel. O Hamas? A Jihad Islâmica? As Brigadas al-Aqsa, que no próprio dia em que o exército israelita começa a retirar de Gaza fazem mais um atentado? Não, não e não. Os problemas são Ariel Sharon e os neoconservadores americanos. Isto é, os interlocutores dos palestinianos. Ariel Sharon, o primeiro chefe de governo israelita a reconhecer o estatuto de ocupação da Cisjordânia e de Gaza, e uma administração que empenhou os seus melhores trunfos (incluindo o presidente) no processo, são o problema. Pois, bom bom era que não houvesse interlocutores. Criava-se o estado árabe, e já está.
O que mais espanta nisto tudo é a vontade, tão clara na conversa do senhor, de que o roadmap não funcione. Mas, no fundo, percebe-se porquê. Se o conflito israelo-palestiniano acabasse e no final sobrevivesse o estado de Israel, isso seria uma extraodinária derrota da esquerda, que anda há 50 anos a apaparicar os palestinianos e os seus amigos autocratas da região. Se no final disto tudo eles se entenderem, se Israel sobreviver em convivência com uma nação palestiniana árabe, o que fazer da tralha que se andou a dizer ao longo de décadas - imperialismo judaico, conspirações sionistas, nazi-sionismo et allii?
Ficámos a saber quem é que não gosta do roadmap: é o Francisco Louçã. Eis o verdadeiro neoconservador. Ele que se acautele, senão um destes dias vai para assessor da administração americana.
 
A típica família nuclear do norte da Europa
Regresso a casa no carro, a minha mulher a meu lado, os meus filhos a dormir no banco de trás. Paro numa passadeira, para deixar passar uma família de turistas do norte da Europa: os pais à volta de 50 anos, a filha dos 18, todos envergando uma farpela hippy-chic. Faço um comentário anódino para a minha mulher: "a típica família nuclear do norte da Europa...". Ela responde: "não, não é, os progenitores são de sexos diferentes".
 
Por favor, tragam o comunismo de volta
Acabou-se. Agora sim, acredito definitivamente que o comunismo é muito mais justo do que o capitalismo. Leio no Telegraph que foi leiloado um jantar com Elton John pelo valor 120.000 (cento e vinte mil) contos. Sim, com o hodiondo Elton John! Face a este preço, os 20.000.000 milhões de mortos (só na URSS) do comunismo são um preço muito mais aceitável.
 
Não se deixem enganar
Está em curso mais uma operação de reabilitação (em que a crítica musical pop é fértil) de outra horrível banda dos anos 80: os Duran Duran (veja-se o DN de ontem). Eu, meus caros amigos, já vivi muito. Já vi a crítica musical reabilitar os Abba e os Carpenters e já me apercebi de hints no sentido de reabilitar Nick Kershaw. Mas os Duran Duran... Eu sou liberal (e não só no genital), mas isto, meus caros amigos, é demais.
Porque é que os Duran Duran não podem ser reabilitados:
1. Porque nos roubavam as miúdas nos tempos do liceu. Não que Simon Le Bon ou John Taylor tivessem andado no meu liceu. Mas elas só pensavam no dia em que os conheceriam. E tinham a certeza de que, esse dia chegado, eles naturalmente se apaixonariam por elas. Enquanto alimentavam esses sonhos perfeitamente sensatos nem olhavam para nós. E quando olhavam era sempre para aqueles sujeitinhos de bamboleante poupa loira ao estilo dos rapazes de Birmingham. Nunca para o mais hirsuto, mas fogoso e viril, genuíno produto nacional, de que este vosso criado é um digno exemplar. Eu lembro-me delas a correr para o aeroporto da Portela para os esperarem histericamente aos gritos.
2. Porque isso constituiria a sua segunda vitória sobre a minha geração. Nada de enganos, nós éramos intelectuais. E essa era a nossa consolação: "está bem, andam muito excitadinhas com eles mas nós é que sabemos, nós é que temos razão, nós é que (para além de lermos livros) ouvimos a música que o futuro vai recordar, nós ouvimos Patti Smith, Blondie, Clash, Smiths, Joy Division, New Order, Happy Mondays (OK, concedemos um bocadinho nos Police)". E não pode agora um escrevinhador de jornal qualquer vir-nos dizer que afinal a música dos rapazotes era mesmo boa. Não pode, não senhor, e acabou-se.
Meus amigos, façam-me esse favor: não se deixem enganar.
sábado, junho 28, 2003
 
Abruptamente este Verão (5)
E para acabar mais um exemplo daquilo que me parece ser um abrupto assomo de ingenuidade por que JPP se deixou atacar. Diz-nos ele que se o governo de Israel mostrar moderação e restrição (…) todas as pressões, todas insisto, passarão para o campo palestiniano (…). [E então] Israel estará mais legitimado para políticas de maior dureza (…). Eu também acho bem que Israel modere as suas reacções aos atentados, em nome da sobrevivência do Roadmap. Mas que daí resulte maior legitimidade aos olhos de uma opinião pública (tantas vezes por ignorância) genericamente pró-palestiniana é que tenho muitas dúvidas. Toda a história de Israel é feita de uma legitimidade formal e legal (à luz do direito internacional) que os países árabes, os palestinianos e a dita opinião pública pura e simplesmente nunca quiseram nem querem reconhecer (já escrevi, de resto, um post sobre isso a semana passada). Não era agora que isso ia mudar.
 
Abruptamente este Verão (4)
Prometi que terminava ontem o meu arrazoado sobre JPP e as armas de destruição maciça no Iraque. Como já sabem fui impedido de o fazer pela maldita tecnologia. Ia eu naquele que considero ser o ponto fundamental sobre o assunto.
O ponto fundamental é que este tema das armas de destruição maciça não é algo que se possa resolver como se de um caso jurídico se tratasse. Não se trata aqui de provar ou deixar de provar algo, mas antes de tomar decisões políticas contingentes. E a contingência obriga muitas vezes a antecipar aquilo que se presume que os outros vão fazer. Se para justificar uma acção militar no Iraque fosse necessário esperar que Saddam Hussein invadisse outra vez o Kuwait, gazeasse os curdos do norte do país ou declarasse guerra a algum vizinho, então estaríamos bem servidos. Critica-se muitas vezes os futuros aliados na II Guerra Mundial (Grã-Bretanha e França) por não terem reagido quando Hitler remilitarizou a Renânia em 1935 ou quando foram assinados os acordos de Munique em 1938, os quais legitimaram a ocupação alemã da Checoslováquia. Diz-se que se os aliados tivessem reagido militarmente na Renânia mal a Wehrmacht lá entrou a II Guerra Mundial teria sido evitada. E diz-se também que se os acordos de Munique não tivessem sido assinados o mesmo aconteceria. Pois no Iraque os EUA e a Grã-Bretanha não cometeram este tipo de erros.
Há muita gente que ri do argumento dado por algumas pessoas (nas quais me incluo) de que o problema não é saber se as armas de destruição maciça estão lá agora ou não, mas saber se o Iraque (mesmo não as tendo), poderia vir a tê-las outra vez. E tudo aquilo que sabíamos do Iraque de antes da guerra far-nos-ia crer que sim. E o que é que sabíamos sobre o Iraque de antes da guerra? Sabíamos que era um albergue de terroristas, nomeadamente palestinianos (mas não só). Sabíamos que financiava esses mesmos terroristas. Sabíamos que tinha, nos anos 80, conduzido uma guerra regional com o Irão. Sabíamos que tinha invadido o Kuwait em 1990. Sabíamos que tinha usado armas químicas na guerra com o Irão e contra sua própria população. Sabíamos que no final da I Guerra do Golfo possuía um vasto arsenal de armas de destruição maciça. Sabíamos que pelo menos em 1998 mantinha esse arsenal. Sabíamos das suas ambições regionais. Sabíamos que essas ambições tinham implicações não apenas à escala da região mas do planeta inteiro (sim, por causa do petróleo). Sabíamos que, há doze anos, não cumpria resoluções da ONU (precisamente dedicadas ao seu arsenal). Sabíamos que estava disposto a usar possíveis divisões entre os países do Conselho de Segurança da ONU para continuar a não cumprir essas resoluções. Sabíamos que Saddam não era reliable para, por mera diplomacia, abandonar os seus desígnios de grandeza. Sabíamos que o sistema das sanções não podia continuar, porque estava a penalizar demasiado a população sem pôr em causa o regime (e, na ausência de sanções, o que fazer?). Tudo isto sabíamos. Não justifica uma guerra? Não, desde que se aceitasse a continuação do regime de sanções e desde que se acreditasse que esse regime de sanções seria eficaz para se obter a paz regional sem grande penalização da população. Ora, justamente, o regime de sanções não só estava a ter um custo humano excessivamente elevado como não estava a manter a paz regional. Nesse caso, o melhor foi mesmo arrancar o mal pela raiz e criar um espaço político mais habitável em substituição do que lá existia anteriormente.
O que, aliás, se aplica ao resto da região. O Médio Oriente (se exceptuarmos Israel, uma genuína democracia liberal) está há demasiado tempo afundado na autocracia, na violência policial, no desastre social e económico. E eu aposto com o JPP (ou outra pessoa qualquer) o que ele quiser em como, apesar dos erros de reconstrução e administração que já houve e vai haver, daqui a uns anos o Iraque vai ser o país mais recomendável do Médio Oriente (se exceptuarmos Israel).
Claro que JPP pode sentir-se um "idiota útil" se as armas de destruição maciça não aparecerem agora. Mas não foi para isso que a guerra foi feita. A guerra foi feita para elas não voltarem a aparecer, nem agora nem no futuro.

 
Infoexclusão
Como eu percebo agora as preocupações do Fórum Social Mundial com o information gap: o meu server fez-me o favor de me manter infoexcluído durante um dia inteiro. Nem um segundinho que fosse de internet... Logo agora que eu tinha unfinished business para resolver. Vou resolvê-lo já no próximo post.
sexta-feira, junho 27, 2003
 
Eu sei quem é O Meu Pipi
Não trabalho no Expresso nem lá tenho amigos. Tenho amigos noutro lado. Sei quem é (não o conheço, mas conheço quem o conhece e sei o seu nome), mas não vou dizer... É para ajudar o grupo Balsemão, cujas acções andam tão por baixo.
 
Abruptamente este Verão (3)
Porque é que o problema da descoberta das armas de destruição maciça é virtualmente irresolúvel? Porque, como muito bem diz o JPP, só há três explicações possíveis para o facto de elas até agora não terem sido encontradas. Ou existem e não foram ainda encontradas. Ou não existem agora e não existiam à altura do início da guerra. Ou existiram antes da guerra mas foram destruídas entretanto (antes e/ou durante a guerra). Imaginemos agora que, de facto, as famigeradas armas não aparecem. Todas as alternativas acima enunciadas são possíveis, pelo que os nossos amigos poderão sempre preferir aquela que mais lhes convém, nomeadamente a de que as armas nunca existiram. Eles nunca quererão admitir a possibilidade das outras duas.
Mas imaginemos ainda, só para esgotar as alternativas, que as armas apareciam. Acha o JPP que os sempre atentos amigos supra citados se calariam? Para começar duvidariam da veracidade da descoberta (afinal nenhum avião caiu no Pentágono, não é?), já que os americanos nunca se ensaiam nada para inventar os piores horrores. Depois diriam: pois, nunca duvidámos que elas existiam, mas e a legalidade da guerra? e a ONU? e o direito internacional? E aqui tocamos no ponto fundamental (isto soa um pouco a O Meu Pipi), o qual só posso desenvolver no próximo post porque tenho que ir ali ler o Peter Pan aos meus filhos e dar-lhes banho. (juro que continua lá mais para a noite)

 
Abruptamente este Verão (2)
Vem este a propósito do artigo de ontem do José Pacheco Pereira. Parece que o JPP abruptamente decidiu passar a ser ingénuo. Custou-me um pouco vê-lo cair na última patranha dos opositores à guerra do Iraque, o famoso problema das não-aparecidas armas de destruição maciça.
Em primeiro lugar o que é que se sabe sobre essas armas? Que eu lesse, já houve duas notícias, uma no Guardian (vejam o Valete da semana passada, penso eu-de-que) e ontem outra na NBC e na CNN sobre elementos do programa nuclear iraquiano, todas elas mostrando que a vontade dos líderes do regime iraquiano em enriquecer urânio só era menor do que a vontade de se enriquecerem a si mesmos. Também que eu saiba já foram descobertos há algum tempo mísseis Scud e laboratórios móveis para tratamento de armas químicas e biológicas.
Está bem, nada disto constitui a tão desejada (pelos EUA e pela Grã-Bretanha) smoking gun, mas não se pode discutir o assunto ignorando estes dados, porque eles nos estão a indicar qualquer coisa e esse qualquer coisa não é certamente a ausência das ditas armas.
Posto isto, todo o afã que se tem posto ultimamente em descobrir ou deixar de descobrir as armas deixa-me indiferente. Sejamos claros: quem furiosamente levanta o problema só o faz por duas razões. Uma, porque quase todos os seus argumentos anteriores à guerra se revelaram falsos: que da guerra iria resultar a mais odionda (para citar Fátima Felgueiras, tão oportunamente recordada por Pedro Mexia) carnificina (três milhões de mortos, de acordo com o célebre escritor surrealista português Mário Soares, só para dar um exemplo); que a guerra ia ser um novo Vietname, com milhares (agora não sei dizer com assim com muita precisão) de mortos americanos e ingleses e um envolvimento para muitos anos; que Bagdad ia ser a nova Estalinegrado; que por cada bomba caída no Iraque dez Osamas nasceriam; que a “rua árabe” (whatever that means) incendiaria o Médio Oriente, etc., etc. A outra razão pela qual o assunto foi levantado deve-se ao facto de ele ser virtualmente irresolúvel. Curiosamente, os “pacifistas” nem sequer o mencionavam antes da guerra, porque achavam que era verdade, que as armas existiam. O que achavam também é que (talvez, não sei, pois) o Iraque ia lá com inspecções e umas palmadinhas nas costas. (continua)

 
Free as a bird
Prontos. Estou livre dos exames. Recomeço com mais afinco a minha actividade bloguística.
 
The herd effect
É o herd effect, a que se poderia chamar também o Pedro Lomba-Gato Fedorento effect. Desde que estes moços mencionaram o pasquim nético que têm diante dos olhos o número de visitas e page views praticamente quadruplicou. Quem disse que a blogosfera era diferente da forosfera (neologismo que serve para designar a esfera lá de fora)?
 
'Brigado, carago
O Mata-Mouros aprecia o Espectador. 'Brigado, carago.
quinta-feira, junho 26, 2003
 
O País Relativo Errou (outra vez)
(courtesy of Britney Spears)
Caro MC do PR
1. O Seu a Seu Dono (I): Apesar de também ter escrito um post sobre o assunto, não foi o Liberdade de Expressão mas eu quem fez o título O País Relativo Errou (a propósito pôs o seu link para um Liberdade de Expressão brasileiro com um vocabulário a roçar - salvo seja - o d'O Meu Pipi, e não para o nosso e mais digno blog nacional).
2. O Seu a Seu Dono (II): Claro que o erro era do MC e não do PR no seu todo. Mas o título do post era (oi, palmas, atenção...) UMA PIADA. UMA PIADA que remete para aquela rubrica do jornal Público, chamada precisamente O Público Errou, em que se corrigem erros de edições anteriores. MC, espero francamente que não me obrigue a assinalar piadas de cada vez que decidir escrever uma.
3. Queixinhas: o propósito do meu post, para além de assinalar uma incorrecção, não era naturalmente "fazer queixinhas sobre blogs vizinhos". Era antes falar (indirectamente, ironicamente) de algo um pouco mais profundo, que é a reacção pavloviana de muitas pessoas de esquerda quando se trata dos EUA e do seu presidente. As consequências disto não são de mero pormenor, já que o seu efeito é impossibilitar o debate, uma vez que as incorrecções factuais impedem qualquer conversa séria. (Oi, palmas, atenção... agora vou dizer UMA PIADA) OS EUA são maus, logo Wolfowitz disse "a guerra foi por causa do petróleo". Bush é estúpido, logo disse a "Europa é um continente à beira da fome". Isto mostra como pessoas, como o MC e não só, que não são estúpidas se põem na posição de dizer e fazer coisas estúpidas por reagirem de forma irreflectida quando se trata do Grande Satã.
4. Fica Para Outra Ocasião: Sobre transgénicos, comércio internacional, ajuda ao desenvolvimento, fome... fica para outra ocasião, se puder ser.
 
Abruptamente este verão
Há muito tempo que não discordava de tanta coisa dita pelo José Pacheco Pereira num só artigo (eu que em geral concordo com ele). Amanhã ou depois tentarei discutir o que ele diz hoje no Público.
 
Get me to the church
(mais uma pequena intervenção em nome da cortesia)
Os hodiondos (ia escrever ominosos, mas acho que a palavra não existe, e quis de qualquer maneira arranjar um qualificativo simpático) casamenteiros da blogosfera querem pôr o Espectador nos links mas têm receio que o meu estatuto comprometido me torne desadequado à distinção.
Nada receiem, deseperadas criaturas, ponham-me lá nos links: eu sou casado, mas pela segunda vez, o que para além de mostrar que ninguém aprende com os seus erros não exclui a possibilidade de me casar uma terceira vez (espero que a minha mulher não veja este post).
De resto, já a prever essa ocasião, deixo aqui o meu perfil para vocês o publicarem então:
Cavalheiro, alto (1,80), moreno ("estilo latino"), com qualificações escolares procura senhora fina que vista bem, saiba cozinhar e passajar meias.
quarta-feira, junho 25, 2003
 
Stinking Cat
A cortesia obriga-me a interromper brevemente a tarefa que agora me assoberba: o RAP do Gato coloca este vosso criado entre os bons blogs novos. Eu até gostava de aceitar a distinção, mas infelizmente não posso: ela vem de um jovem demasiado cheio de raiva para ser aceitável para os meus costumes.
terça-feira, junho 24, 2003
 
O País Relativo Errou (não resisti a mandar este, sobretudo porque é curtinho)
Ooops... things are changing. Parece que agora temos que usar a imprensa tradicional para escrutinar a actividade dos blogs. O MC do País Relativo fala-nos de um discurso do presidente americano deste modo: George Bush apelou, em nome de "um continente ameaçado pela fome", a que os governos desse continente subdesenvolvido acabem com as resistências à importação de alimentos transgénicos. O continente "ameaçado pela fome" é, atenção, a Europa, uma notícia que não pode deixar de nos inquietar a todos. Isto diz-nos o MC.
Passo agora a transcrever o Financial Times de hoje: Mr Bush said European governments had blocked the import of biotechnology crops "based on unfounded and unscientific fears". As a result, many African nations were afraid to use GM crops for fear that they would not get access to European markets. "For the sake of a continent threatened by famine, I urge the European governments to end their opposition to biotechnology," he added.
OK, eu traduzo: "For the sake" quer dizer "em benefício" ou "para o bem". Ou seja, para o bem de um continente à beira da fome: ÁFRICA, que não adopta produtos geneticamente modificados porque tem medo de não conseguir exportar para a Europa, porque esta proibe a importação desses produtos.
Eu sei que vocês gostam de chamar estúpido ao presidente dos EUA. Eu preferia não ser ofensivo, mas se continuam assim, um dia destes vou ter de pedir licença ao dito presidente para vos devolver o mesmo adjectivo.


 
Chegaram
Prontos (como diriam os meus alunos), ei-los aqui à minha frente, os malfadados exames. Este vosso amigo vai entrar em hibernação (três dias, talvez quatro). Eis uma pequena lista de algumas das coisas de que gostaria de falar quando voltar: a constituição europeia (and where to file it), Nick Hornby e Raymond Aron (mas há mais...).
 
Steyn rules
Façam um favor a vocês mesmos e leiam isto.
 
Public Relations
O obsessivo Pedro e o excelente Valete são óptimos relações públicas. Falam tantas vezes deste blog que até parece que ele é mesmo bom. Pena que eu a partir de amanhã não possa live up to their promises. São os exames, estúpidos!
segunda-feira, junho 23, 2003
 
Na senda do surrealismo
O espectador continua a sua busca de pérolas literárias surrealistas (v. post O clube dos Mários; quem sabe uma antologia não poderá resultar daqui?). A que se apresenta já a seguir em link é notável desde o início, isto é, o título: Presidente Angolano Vai à Suiça Falar de "Transparência e Boa Governação" (link). De igual qualidade só me lembro do título da obra Bill Clinton Fala-nos de Castidade e Ascetismo ou daqueloutra não menos notável O Amor Pelo Próximo por Adolf Hitler.
 
Ai se eles fossem de direita...
Durante a cimeira da União Europeia do último fim-de-semana, manifestantes não-sei-bem-anti-quê (anti-UE, anti-globalização, anti-neoliberalismo, anti-McDonald's, anti-mio de Azevedo) (passo a citar) danificaram 21 lojas, duas sucursais de bancos gregos, um quiosque de jornais e dois abrigos de autocarros, e ainda arrancaram as chapas que protegiam as montras de alguns estabelecimentos comerciais. Registaram-se também incêndios em dois restarurantes, um deles da McDonalds, e em três automóveis (vem no Público, podem ler o resto aqui).
Como estes jovens são contra "o sistema" (chamemos-lhe assim), o jornal não emite qualquer sinal de juízo de valor. Ninguém, em qualquer ponto da Europa, demonstra a menor indignação perante isto (que é uma repetição ritual do que acontece de cada vez que se reunem algumas pessoas importantes do mundo). Mas se eles fossem de direita... As preocupações que não haveria com o regresso do fascismo e do nazismo. Como não nos falariam do drama das sociedades democráticas, reféns do extremismo descontrolado da direita trauliteira.
Estas pessoas não percebem o essencial: elas continuam a achar que fascismo e autoritarismo são a mesma coisa. O fascismo inclui o autoritarismo, sem dúvida, mas é mais do que isso. O fascismo depende para a sua existência de movimentos de massas como estes que se repetem por todo o mundo. Eles não vêem, mas estes acontecimentos estão muito mais próximos das vésperas do fascismo do que as votações do Haider na Áustria.
 
Já só falta um dia
Batem à porta. Serão os exames?
 
Herman
Eu juro que tento. De vez em quando sento-me em frente à televisão para ver um programa do Herman José. A minha predisposição é para lhe achar piada. Eu já fui um grande fã do Herman. Posso dizer que sou um fã da primeira hora. Um fã de antes do Tal Canal. Mesmo de antes do famoso Tony Silva num programa do Júlio Isidro chamado Passeio dos Alegres. Mesmo de antes disso, quando o Herman era apenas um vulgar actor de revista. Nesse tempo, nos idos da década de 70, nos saudosos tempos em que o monopólio da televisão pública nos obrigava em certas noites apenas a ver teatro de revista, no meio da tristeza do humor revisteiro, brilhava o Herman. Já lá estava tudo, embora espartilhado pela fórmula revisteira. Ele libertou-se desse espartilho no Tony Silva e no Tal Canal e a partir daí até à Roda da Sorte eu segui-o com verdadeira afeição (no sentido tauromáquico do termo, afficción). Eu até tentava ver todos os dias a Roda da Sorte, um programa eminentemente imbecil, quotidianamente salvo pelo Herman. E depois, a partir daí, começou a queda. De vez em quando lá vinha uma ou outra coisa a lembrar o velho Herman, inclusivé no recente Herman Enciclopédia. Mas eram meros lampejos. O penoso Parabéns na RTP passou a ser a sua imagem de marca, prolongado de maneira ainda mais grotesca no corrente Herman SIC.
O Abrupto há umas semanas disse qualquer coisa do género: "Herman marcou o humor em Portugal. Há um humor antes e depois do Herman". Não, não há. Há o Herman dos anos 80. Antes e depois há exactamente a mesma coisa (apenas uma parte da actividade das Produções Fictícias escapa a este quadro).
Hoje, vejo o programa do Herman e parece-me um daqueles circos de província em que uma velha estrela decadente vem fazer uns números em fim de carreira, mas as lantejoulas já estão a caír do fato. Os programas têm todos um lado de freak show rigorosamente deprimente: o príncipe da Fuzeta, a pomba gira, o professor não-se-me-alembra-agora o nome mas que tem "um cagalhão na tola", o hipnotismo, etc., etc. O Herman faz um talk show, mas não deixa os entrevistados falar. Os entrevistados são, genericamente, desinteressantes. E depois há aquela auto-complacência de quem acha que pode fazer tudo, graças ao seu estatuto intocável. Há a aposta na mera ordinarice: Herman deve achar que mostrar homens e mulheres nus na televisão é quebrar mais uma barreira nos costumes. Pois não é: é apenas mais um passo na ladeira descendente em que ele se meteu. Alguém o podia salvar (e assim salvar a minha memória também), já que ele não parece querer fazê-lo.
domingo, junho 22, 2003
 
O clube dos Mários
Na opinião de Mário Mesquita (que o Público nos oferta semanalmente), "a nostalgia da literatura está sempre presente em Mário Soares". E diz-nos mesmo mais (invertendo a fórmula do próprio Soares sobre José Rodrigues Miguéis): "poderia ter sido um grande escritor, que não foi; mas foi mais do que isso: um grande político".
Eu estou de acordo. Quem pode não estar, se se lembrar de frases da autoria do ex-Presidente (citadas aqui ontem) como: "a água é como o ar que se respira" ou "sem água dificilmente se sobrevive". Devo notar que estas fórmulas são mais complexas do que parecem. A primeira, por exemplo, pressupõe uma equivalência entre a água e o ar, de tal maneira que é também válida se dissermos que "o ar é como a água que se respira". Reparem bem (mas é isto o génio do escritor) no desafio às convenções e ao senso comum: como se o ser humano pudesse respirar água (e porque não? afinal outro mundo é possível). Acresce que isto nos poderia levar, por exemplo, a pensar na necessidade de um programa mundial a que se poderia dar o nome "Aria per la Pace". Dado que "sem ar dificilmente se sobrevive", o ar deveria ser considerado um "direito humano inalienável". Campanhas internacionais, sob a égide da ONU, poderiam ser lançadas. Na base estaria um disco de várias estrelas pop com o título "We Air the World". Rui Veloso participaria e haveria concertos em todas as capitais europeias. O de Lisboa chamar-se-ia "Ar de Rock". Enfim, um mundo de possibilidades infinitas.
É certamente uma pena que a nostalgia da literatura em Mário Soares seja apenas isso, uma nostalgia. A literatura surrealista teria nele, sem dúvida, um dos seus expoentes máximos.
 
On va à la PESC
Pelos vistos Javier Solana condena Israel pelo assassinato de um dirigente do Hamas. Acho que sim, toda a acção violenta é, pelo menos por princípio, condenável, ainda para mais num contexto como o actual da Palestina, em que a mínima coisa pode pôr em perigo um processo na direcção da paz que é claramente titubeante.
Mas o (assim chamado lá por Bruxelas) Sr. PESC não se lembrou ontem, nem anteontem, de condenar a Autoridade Palestiniana (ou, pelo menos, o Hamas, na presunção de que este actua sem o acordo da dita AP) pelos dois atentados terroristas sucessivos cometidos pelo Hamas em Israel. Ao que parece, de acordo com a União Europeia, a paz só é posta em perigo quando Israel reage a acções violentas palestinianas. É verdade que Colin Powell também criticou Israel, mas ontem condenou explicitamente pelo menos o Hamas.
Resta-nos, como consolação, que o Sr. PESC respresenta uma entidade inexistente para efeitos de política externa, a nossa bela e mui amada União Europeia.
 
Já só faltam dois dias
Ai, ai, ai...
 
Lopes
Não gosto muito do estilo de escrita, mas acho que, sobre César Monteiro, João Lopes é bastante certeiro na crónica que fez sábado para o DN, ao contrário de um post do Pedro Mexia na defunta falecida Coluna Infame.
 
A Cigarra
Tal como o Pedro Lomba, eu também não faço diatribes contra o verão. Pelo contrário. Neste momento ostento já, qual preguiçosa cigarra, um belo "sinistro toque dos Algarves", embora adquirido aqui nas imediações de Lisboa. Para além disso, acabo de passar o solstício numa praia (junto com esposa e filhos), rematado com um belo jantar a ver o mar. Não foi um programa muito cerebral (se exceptuarmos a leitura que fiz da entrevista ao Ruy Castro, a qual aconselho vivamente, no Dna de hoje) mas lá que soube bem soube.
sábado, junho 21, 2003
 
More Merde in France
Os escassos tristes que lêem esta página virtual lembram-se da minha diatribe contra a prisão dos membros da organização iraniana Mujahedin e-Kalq pela polícia francesa (v. Quarta-feira, Junho 18, 2003). Pois agora parece que o governo francês decidiu proibir também simples manifestações dos apoiantes desse grupo e, não contente com isso, mandar prendê-los. Pelos vistos a Polícia Política Ultramarina Iraniana (também conhecida por Gendarmerie ou CRS) continua muito eficiente. Eu, se fosse Teerão, considerava estas medidas "um passo muitíssimo positivo". Liberté (?), Fraternité (?), Égalité (?), Merde (!!).
 
Já só faltam três dias
Here it comes, the nineteenth nervous breakdown: estão quase a chegar os exames.
 
Incolor e inodoro
Mário Soares, esse Guevara de Bruxelas, fala-nos hoje, no Expresso, da água. Aparentemente, o eurodeputado anti-americano, tem uma "doutrina", que tem "vindo a elaborar e a defender", ao que parece com "sucesso crescente", segundo a qual a água é "como o ar que se respira", já que "sem água dificilmente se sobrevive" (é verdade, não estou a inventar). Por tudo isto, a água deveria ser considerada um "direito humano fundamental".
Deve ser para ajudar aos desprovidos do dito líquido que ele tanto se tem esfoçado por meter água ultimamente. Se continuar assim, o seu receio de que a água é um "bem cada vez mais escasso" deixa de ser fundado. Os seus esforços talvez ajudem a humanidade a libertar-se de mais um eventual drama social e ecológico. Força, força, companheiro Mário.
 
Flor de Obsessão
O Pedro Lomba está de volta a esta obsessão. Bom regresso.
 
Era Hoje
Era hoje que João Gilberto devia ter dado o seu concerto em Lisboa. Ele esteve cá há vinte anos. Eu era adolescente e não imaginava o que a vida me reservava no futuro. Nunca imaginei que esse momento se pudesse repetir com tanta dificuldade. Não fui ao concerto. Nem sei bem porquê. O tempo passou e, finalmente, hoje, tinha a oportunidade de corrigir esse erro de adolescência. Comprei o bilhete em Março, para não correr o risco de, caso esgotasse, eu não ter lugar. Há mais ou menos duas semanas, porém, o concerto foi cancelado (adiado, dizem). Não sei quem me pode consolar.
Tenho um amigo (que valha a verdade não sabe nada de música) que um dia me perguntou: "Esse tipo, o João Gilberto, tanta coisa, mas ele não tem assim grande voz, pois não?" (arghhh!!!). Bem... Se se entender por grande voz uma que dá para muitas oitavas e permite malabarismos estéreis, não tem. Mas quando o sujeito nos começa a cantar ao ouvido, baixinho, numa conversa entre mim e ele, quem é que é capaz de dizer que ele "não tem assim grande voz"? E há mais: uma coisa é ter voz no sentido técnico do termo, outra saber cantar. Pelos critérios técnicos o Marco Paulo tem "mais voz" do que o João Gilberto. Mas ninguém nesta terra canta como o João Gilberto. E depois, aquela coisa de cantar sempre uma semi-colcheia à frente do tempo... (v. o disco com Stan Getz e Astrud Gilberto, em que os músicos que o acompanham tentam corrigir e sai dali a mais extraordinária confusão).
O João Gilberto é assim uma espécie de Mies van der Rohe da música. Para ele menos é mais. Toda a carreira dele é feita a depurar este princípio. Começou a cantar ainda com umas orquestras dispensáveis por trás. O tempo (no sentido músical, que a língua inglesa permite designar por pace) era ainda muito rápido. Progressivamente tudo se foi tornando mais lento, as orquestras foram desaparecendo, surgiram acompanhamentos jazzísticos, até chegarmos à depuração final: o João e o violão. Tudo isto é levado ao extremo no seu último disco, precisamente chamado João, Voz e Violão, uma obra-prima essencial da música pop. O que faz deste disco algo único é a produção. A produção é feita para dar a ilusão de que João não está a tocar num disco, mas ali ao lado, em nossa casa. Até nisso João Gilberto aplica o princípio de Rohe, less is more: não há disco, não há leitor de CDs, não há amplificador, não há colunas. Somos nós e ele. Mas é mentira.
Aliás, o que mais fascina nisto tudo é a grande mentira de todo o projecto. A mentira da timidez: ele parece tímido mas é o maior exibicionista que se possa imaginar. Tão exibicionista que obriga os outros todos a calarem-se para o poderem ouvir e, quando se calam, não conseguem deixar de o ouvir. A mentira da voz: parece que não tem voz mas canta tão bem. A mentira de que está lá em casa a cantar só para nós.
E agora disse que vinha e não veio: outra mentira.
sexta-feira, junho 20, 2003
 
Smoke is good
Afinal o Fumaças também é apreciador deste vosso amigo. E eu que o não conhecia, sem saber o que estava a perder (desculpem lá, sou novo cá no bairro).
 
Já só faltam quatro dias
Já só faltam quatro dias para me calhar a mim a sorte do ANIMAL: corrigir exames da futura elite portuguesa. Esperam-se gemas de quilate semelhante àquele com que o Marreta nos tem pontualmente brindado. Quando isso acontecer a minha actividade bloguística terá que ser mais intermitente (courtesy of Miguel).
 
A vez de Aviz
Peço desculpa ao Aviz, mas só agora reparo que colocou o Espectador nos seus links. Mais um agradecimento com pedido de desculpas anexo.
 
Grato
O Jaquinzinhos e o Valete Fratres! afinal também lêem o Espectador e dão notícia disso. Estendo o meu agradecimento a eles também.
 
Tudo se explica
Durante muito tempo achei que ele não pensava. Mas agora um título do jornal Público diz-nos que Al Gore pensa em canal de televisão por cabo. Poderia pensar em forma complexa, em forma lírica, mas não: pensa em canal. E logo de televisão por cabo. Apesar de algum detalhe na notícia, gostava de ver mais especificado o tipo exacto de canal que Al Gore usa para pensar. É que isso poderia ajudar a explicar muita coisa.
 
Solução final
Mais um atentado em Israel. Precisamente quando as coisas pareciam ter acalmado depois da crise da semana passada (que ameaçou a viabilidade do famoso Roadmap). Porquê? A razão é bastante simples: muitos palestinianos e a maior parte dos Estados árabes e muçulmanos não aceitam a existência do Estado de Israel. É de hoje? Não, é de sempre (pelo menos no século XX). Um pouco de história faz sempre bem:
- Em 1917, ainda durante a I Guerra Mundial, a declaração Balfour prometeu um "Lar Judaico" na Palestina.
- Em 1919, já com a Palestina sob mandato britânico, os Hachemitas (os amigos do romântico Lawrence da Arábia - leitura obrigatória: Seven Pillars of Wisdom), os descendentes do Profeta, recusam a criação desse lar judaico. Sonhavam com a Grande Nação árabe, da pení­nsula arábica ao Lí­bano, passando pelo Iraque.
- Em 1948, depois de esforços de administração conjunta fracassados e de divisão da Palestina, termina o mandato britânico e adopta-se o plano de partilha da Palestina proposto pela ONU: um Estado judaico e um árabe. Os árabes da Palestina e os estados árabes (Egipto, Síria, Líbano, Transjordânia) não aceitam e invadem a nova unidade política. São expulsos pelos israelitas e é criado o Estado de Israel, com fronteiras iguais às de hoje, excepto os territórios ocupados.
- Em 1967, perante a ameaça de mais uma tentativa de invasão árabe, Israel lança uma campanha militar que ficou conhecida como a Guerra dos Seis Dias, de que resulta a ocupação dos actuais territórios ocupados. Nesta altura é criada a OLP de Arafat, com o objectivo de, por acções de guerrilha, pôr fim à  presença judaica na Palestina.
- DaÃí até hoje houve a Guerra do Yom Kippur e duas Intifadas. O motivo é sempre o mesmo.
Que estados, hoje, no Médio Oriente, reconhecem o direito à existência do Estado de Israel? O Egipto e a Jordânia. A Síria, o Líbano, o Irão, a Arábia Saudita (e o Iraque até ao fim de Saddam) não o fazem. E a OLP, reconhece? Sim, não, talvez, pois, amanhã, quando convém... Nem sequer Mamhoud Abbas foi ainda muito explícito a este respeito.
Sejamos claros: o problema não está na "ocupação ilegítima" da Cisjordânia. O problema está em saber-se se Israel pode acabar essa ocupação sem pôr em perigo a sua existência. Para não ferir susceptibilidades árabes, o Roadmap nem sequer obriga os estados árabes a fazer este reconhecimento. Talvez as intenções de Abbas sejam boas, mas aos israelitas está-se-lhes a pedir muita fé e eles, até agora, parecem tê-la demonstrado, mesmo quando o Hamas e a Jihad Islâmica e as Brigadas al-Aqsa parecem apostados em destruí­-la. Se querem saber mais, vão aqui que ajuda.
quinta-feira, junho 19, 2003
 
Perdendo a paz
Vêem-se os noticiários e sucedem-se as manifestações anti-americanas em Bagdad e em Bassorá. No dia seguinte a mesma notícia vem no jornal. O tom é o mesmo: a coligação está a perder a paz, tudo se complica a cada hora que passa. Mas lá pelo meio vêm os números dos manifestantes: 50 aqui, 100 ali, 300 acolá. 50? 100? 300? Vão mais pessoas dentro do autocarro que passa em frente a minha casa do que são os participantes em muitas destas manifestações.
Ninguém disse que ia ser fácil. As complicações existem. Mas a escala dessas complicações é largamente exagerada. Eu cá aposto que, por esta altura no próximo ano, a coligação, na boca de muitos jornalistas, vai continuar a estar a perder a guerra. As razões apresentadas serão de dramáticas condições de vida. Eis uma manchete-tipo: A PAZ CONTINUA PERDIDA, CONDIÇÕES DE VIDA NO IRAQUE DETERIORAM-SE: QUEBRA DE ELECTRICIDADE DURANTE TRÊS HORAS EM BAGDAD. Informem-se e leiam o meu herói.

 
Unaccountable and Irresponsible
O jornalista do Público Pedro Caldeira Rodrigues, responsável pela difusão em Portugal das famosas mentiras sobre as entrevistas de Paul Wolfowitz, continua impavidamente a dar notícias sobre o Iraque (todas elas cheias de innuendos, para quem estiver atento). Depois de tudo o que aconteceu nesta matéria, que credibilidade tem este jornalista para continuar a falar do Iraque? Ou, visto de outro lado, que credibilidade têm as notícias do Público sobre o assunto?
 
A Blogosfera diverte-se muito com a Fórunsfera
Aqueles (muitos poucos, presumo, v. post anterior) que leram o meu primeiro post de sempre, lembrar-se-ão que eu aconselhava o Abrupto, o José Manuel Fernandes e a Maria Filomena Mónica a não darem muita importânica ao Fórum Social Português, pela razão simples de que... ...ninguém lhes liga.
Hoje Boaventura Sousa Santos vem dar-me ainda mais razão. Este artigo remete para outro do Abrupto na sua versão não-virtual, no qual se fala da pequenez de muitos dos debates da blogosfera. Mas em matéria de pequenez o artigo do mencionado Professor Boaventura não tem rival. O Fórum foi apenas ontem e as cisões (por motivos da mais momentosa relevância como o artigo mostra) já começaram. No mesmo artigo, o Professor Boaventura anuncia uma segunda edição do Fórum. Eu cá, pelo andar da carruagem, prevejo pelo menos quatro edições simultâneas: o VFSP (Verdadeiro Fórum Social Português), o FSPR (Fórum Social Português Renovado), o FSPml (Fórum Social Português mais livre) e o FNN (o Fórum Noves Nada). A todos estes dignos sucessores da fundadora assembleia desejo boa ventura.
 
O Patinho Feio
Um homem esforça-se. Três dias a blogar e nada. Fiquei à espera uns dias para fazer um agradecimento colectivo aos blogs que leio mais regularmente mencionarem a chegada d' O Espectador à blogosfera. São eles (por ordem alfabética, sem qualquer menção de preferência): o Abrupto, o Blog de Esquerda, o Gato Fedorento, O Intermitente, o Jaquinzinhos, O País Relativo e o Valete Fratres! , que me lembre...
Destes só o Abrupto e O Intermitente o fizeram. Agradeço-lhes, do fundo do coração. Quanto aos outros: damn you!
quarta-feira, junho 18, 2003
 
É assim mesmo Valete!
O Valete Fratres! continua a sua missão de serviço público. Depois das falsificações da imprensa apresenta-nos agora verdadeiras pérolas do III Reich. Aconselho o Valete a procurar também os programas do NSDAP e do Partito Nazionale Fascista. Seriam muito divertidos não fosse terem dado origem a tragédias.
 
O Eixo do Mal Revisto e Aumentado
Ao que parece, Teerão saudou como "um passo positivo" uma gigantesca operação da polícia francesa que visou, ontem, os mujahedin-e Khalq (...), principal grupo de oposição armada ao regime iraniano e cujo braço político está instalado em França desde há 22 anos.
Depois de, através do programa Oil for Food e da companhia TotalFinaElf ajudar a elite iraquiana enriquecer à custa da miséria popular, depois de se transformar em defensora universal de Saddam Hussein, depois de o seu presidente ter ido à Argélia para ser aclamado nas ruas pelos mais fanáticos islamistas, a França transforma-se em polícia política ultramarina do regime teocrático iraniano, o qual saúda as suas acções como um "passo positivo". Há cumprimentos que dizem tudo... Aqueles rapazes da Pérsia, tão elegantes nas suas túnicas e turbantes saúdam a França pelo "passo positivo" dado com a prisão de 159 membros daquela organização. Eles estiveram lá durante 22 anos, mas só agora, quando o Irão vive um momento crítico de revolta, quando a agência internacional atómica da ONU (convém notar) questiona a legitimidade do programa nuclear iraniano, são detidos. Sim senhor: um passo positivo!
Face a isto, proponho já o alargamento do número de países do Eixo do Mal. O próximo candidato tem as seguintes características: é uma potência nuclear, tem um regime político moderado mas o seu próximo governo e o seu próximo presidente vão ser de extracção fascista, actua como extensão policial de regimes teocráticos e tem uma colónia informal que um dia destes quer julgar o presidente dos Estados Unidos por genocídio ou outro disparate qualquer. Este país é a França, a sua colónia a Bélgica. É isso mesmo: continua a haver muita Merde in France.
 
Museus, esquerda, direita, volver
Diz-nos o PAS do País Relativo que esteve em Florença e viu salas fechadas nos Uffizi. E que essas salas foram fechadas pela direita que por lá está no poder (presumindo-se daqui que a esquerda nunca fecharia salas de museus). Estive em Florença há pouco tempo, mas não fui aos Uffizi. Não sei se as salas estão fechadas ou não e, se estão, porquê. Mas posso contar a minha experiência quando visitei os Uffizi, e faço-o com autoridade porque também vivi em Itália, em Florença precisamente. Na altura no governava Berlusconi, mas o Ulivo (uma coligação de esquerda, à época dirigida pelo actual presidente da comissão "dá cá mais um" europeia, Romano Prodi). Visitei a galeria numa tarde de Inverno, em que anoitece lá para as quatro ou cinco da tarde. Pois existem no museu dois grandes corredores que vão dar a uma varanda-galeria com vista sobre o Arno, onde estão expostas muitas esculturas. Nesses corredores não havia energia eléctrica, pelo que qualquer visitante que tinha pago o seu bilhete não podia usufruí-las. Posso no mesmo espírito de PAS dizer que a esquerda fechou a luz à arte renascentista, e que alguma coisa estava mal naquele tempo.
Por causa de salas presumivelmente fechadas vir com o argumento estafado de que a direita não liga à cultura e a esquerda o faz parece-me um pouco débil como argumento, ainda por cima no contexto da Itália, um país que trata tão mal o seu património.
Há muitas razões para estes tratos de polé que sofre o património artístico italiano:
1- Esse património é enorme (cerca de 50% daquele que é classificado como património da humanidade pela UNESCO encontra-se em Itália, uma boa percentagem do qual na Toscânia). Pagar a sua preservação desafia o mais rico dos Estados.
2- A burocracia italiana é a mais extraordinariamente ineficiente das burocracias com que tive que lidar.
Fazer observações sobre este assunto requer um bocadito mais de calma e profundidade temporal: como já se percebeu pelo acima dito, não é de hoje o desprezo que as obras artísticas sofrem em Itália.
E, sobre esquerda, direita e museus, convém sempre lembrar: já só faltam 32 (há dias eram 33, mas o Público noticiou ontem o aparecimento de mais uma) peças da inominável pilhagem do Museu de Bagdad, ao que parece a maior parte roubada por funcionários do próprio museu aproveitando a falta de catalogação dos objectos. Já sei: devem ser funcionários de direita...
terça-feira, junho 17, 2003
 
Crime of the century e Saving Private Lynch
Sobre o Crime do Século e O Resgate da Soldado Lynch aconselho ao Valete Fratres que se abasteça, a fim de continuar o seu serviço público, no Biased BBC. Vale a pena por desmontar essas e muitas outras notícias.
 
a e i o u
Diz aqui que um terço dos estabelecimentos de ensino superior particulares e cooperativos fixa como nota mínima para a prova de ingresso 1 valor (exacto, isso mesmo: um). Pode, portanto, ser-se analfabeto e entrar-se para a universidade. Deve ser mais um projecto igualitário, criado sob o slogan (que desde já ofereço ao Fórum Social Português II): FASCISMO UNIVERSITÁRIO NÃO, UNIVERSIDADE PARA TODOS SIM.
À luz destes dados, e para tornar mais selectivo o acesso ao ensino superior, constou-me que para o ano o único livro recomendado para os exames nacionais é a Cartilha Maternal de João de Deus.
 
Rubrica Declínio do Império Europeu
Inicio aqui a rubrica Declínio do Império Europeu dedicada a reflexões mais ou menos aprofundadas sobre o estado do continente-união em que vivemos. Podem ser pequenas notas ou análises mais complexas sobre diversos assuntos europeus.

Leio o artigo de hoje de Teresa de Sousa no Público e invade-me a costumeira melancolia quando tropeço em prosas daquele tipo. Como é possível achar-se que a União Europeia está "no bom caminho" depois da Convenção e da constituição(?) por ela produzida? Tudo isto é típico de um autismo específico de funcionários e especialistas da União Europeia, uma espécie de elite colonial, corrompida pelo conforto dos seus salários e outras facilidades, e incapaz de medir a distância entre o monte de papelada e directivas que produz e a vida real dos reais estados e reais cidadãos europeus. Mergulhados em europês, unccountable perante os cidadãos dos seus países e convencidos da sua enorme clarividência face aos ignorantes que os rodeiam, estas criaturas não percebem o fosso que elas próprias vão cavando entre elas e nós.
E tudo isto é típico de algo ainda mais fundo sobre A Europa.
Porque é que olhamos para os Estados Unidos e vemos uma civilização vibrante e poisamos os olhos na Europa e o espectáculo é desolador? Porque a Europa se está a construir cada vez mais com base em ideias finais e não em processos. As instituições americanas são processos aceites pelos cidadãos americanos para exprimir as suas ideias. Daqui resulta a chegada ao debate das ideias mais loucas, mais disparatadas, mas também das melhores, mais ricas e construtivas. As instituições europeias são cada vez mais instrumentos para se chegar a certos fins específicos: o laicismo, o Welfare State, a igualdade social, os casamentos homossexuais, you name it... Dada a sua natureza, as instituições americanas acabam por gerar uma certa agressividade social, de que resultam por vezes coisas horríveis, mas tantas (a maior parte delas) coisas excepcionais. A Europa está nominalmente cometida somente a coisas boas, e disso não resulta nada senão isso mesmo: nada. A Europa está cheia de temas tabu (temas tabu a sério, e não aqueles temas que o Bloc de Esquerda acha que são tabu, mas na realidade não são, como a homossexualidade), como a religião, o porte de armas, a pena de morte, as relações inter-raciais, os imigrantes. Nos Estados Unidos estes temas não são tabu e o sistema político mainstream incorpora-os com facilidade. Na Europa, como eles são tabu, reaparecem sob as formas mais perversas: Haider, Pim Fortuyn, Le Pen, British National Party. E é por isso que me dão vontade de rir (ou se calhar chorar, não sei bem) aquelas pessoas que afirmam que os Estados Unidos estão tomados pela extrema-direita ou que comparam Bush a Hitler. Porque a verdade é que eu não estou a ver os Estados Unidos a serem governados por um grupo de lunáticos autoritários e anti-imigrantes. Mas já a França ou a Áustria não sei. E no dia em que (esperemos que nunca) isso acontecer, eu gostaria de ver o que nos têm para dizer essas pessoas sobre a presumível superioridade e sofisticação da civilização europeia. Digo-vos desde já: não se surpreendam se um dia um verdadeiro fascista tomar o poder num país ocidental. E quando isso acontecer, podem ter a certeza: não vai ser nos Estados Unidos, vai ser muito mais perto de nós.
 
Querida, vou ali estacionar o avião
Noticiava o Expresso no sábado passado que um avião foi roubado do aeroporto de Luanda. Estou mesmo a ver o diálogo à mesa de uma família angolana:
- Querido, estás com um ar preocupado.
- Sim, não me lembro se tranquei o avião. Não quero que seja como da última vez, lembras-te? Partiram-me o vidro de trás e roubaram-me o leitor de CDs...
 
Walter Duranty: alguma memória daquela que interessa mesmo
Nos tempos que correm deve questionar-se cada vez mais a credibilidade de que são merecedores jornais e televisões. Durante a guerra do Iraque muitos quiseram fazer-nos acreditar que estávamos a viver um novo Vietname (faltava um bocadinho de humidade e campos de arroz, mas enfim, era simplesmente uma questão de template). Viu-se: o Iraque foi mesmo um novo Iraque. Depois quiseram fazer-nos acreditar que o Museu de Bagdad tinha sido selvaticamente pilhado, tendo dele sido roubadas 170.000 peças (exacto, isso mesmo: cento e setenta mil). Contam-se hoje em 32 (exacto, isso mesmo: trinta e duas) as peças perdidas, mas quem publica essa informação? (v. a propósito este magní­fico texto do meu herói jornalí­stico de hoje em dia). Querem, por vezes, fazer-nos acreditar que os mortos civis em consequência da guerra foram vários milhares. Querem fazer-nos acreditar que a coligação, depois de ganhar a guerra, está a perder a paz. Não vale a pena continuar a lista...
Nestes tempos convém lembrar uma história edificante: a de Walter Duranty, correspondente do New York Times na União Soviética dos anos 30, um dos mais perigosos mentirosos do século XX. Muito antes de Jayson Blair e Rick Bragg (certamente menos perigosos), já o New York Times, o jornal de referência do mundo, tinha os seus mitómanos de estimação. Durante a colectivização da agricultura soviética nos iní­cios dos anos 30, entre várias outras vítimas, morreram cerca de 7.000.000 (exacto, isso mesmo: sete milhões) de camponeses ucranianos numa fome colectiva deliberadamente criada por Estaline. Walter Duranty, um fellow traveller confesso do comunismo conhecia os factos, porque os fez chegar ao encarregado de negócios inglês na URSS de então. No entanto, continuou a fazer relatos que apresentavam a Ucrânia como uma horta-modelo nas páginas do newspaper of record. Como se não bastasse, ganhou o Pulitzer Prize graças, de acordo com o juri, ao seu "dispassionate reporting from Russia". Já na altura o NYT era uma referência e, por sê-lo, muita gente continuou a acreditar que a URSS de Estaline era o farol da humanidade. Olhamos à  nossa volta e vemos muitos pequenos Walters Duranties. São menos perigosos porque os factos que relatam são menos importantes. Mas, dessem-lhes factos daqueles e eles mostrariam o seu verdadeiro valor (mais encantadoras peripécias de Duranty aqui e aqui).
segunda-feira, junho 16, 2003
 
(repito aqui o meu primeiro post que, dada a minha inexperiência, ia cheio das mais manhosas sinalefas):
New Kid on the Blog
Eis-me chegado à  participação na blogosfera depois de a ter acompanhado passivamente durante um certo tempo.
Inicio esta participação fazendo algumas consideraçõees sobre um evento que tem ocupado um pouco de espaço (talvez demasiado?) neste medium, e feitas essas considerações creio que se tornará claro o tom que este blog assumirá: o Fórum Social Português (FSP).
Partilho as considerações genéricas que sobre o evento foram feitas pel' O Intermitente e pelo Abrupto. Mas prefiro o tom do primeiro ao do segundo. O FSP deve ser tratado comicamente, e O Intermitente teve boas piadas sobre ele. O Abrupto tratou o evento de forma demasiado séria (com pertinência, mas demasiado séria). Aprecio bastante o Abrupto e a sua encarnação não-virtual, o José Pacheco Pereira. Tanto mais que ele(s) revela(m) uma invejável capacidade de acompanhar os tempos. Mas não é à  toa que se tem cinquenta e tal anos. A idade tem vantagens e inconvenientes, ambos com origem na mesma coisa: a memória. O José Pacheco Abrupto tem muita memória vivida e isso fá-lo "estar a ver o filme outra vez". Mas nós, na casa dos trintas (e menos, o que não é o meu caso) temos menos memória vivida. Não "estamos a ver o filme outra vez", mas a verdade é que também não o queremos ver pela primeira vez. Porque a realidade é esta: tirando os BDE's (que, em pose divina, acham que vão fazer "outro mundo") quem é que liga ao FSP? Resposta: (claro que já adivinharam) ninguém... Não deixa de ser curioso que as pessoas que trataram o FSP a sério fossem todas da geração do Abrupto: Maria Filomena Mónica e José Manuel Fernandes.
A eles (com quem estou de acordo e sinceramente aprecio) digo-lhes apenas isto: estamos no século XXI, e o FSP é um evento do século passado. Não vale a pena gastar muito tempo com ele. Umas piadas bastam: é mais eficaz do que estar a perder preciosas horas a dialogar longamente com pessoas do outro mundo.

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