O Comprometido Espectador
segunda-feira, julho 21, 2003
 
Resposta ao Daniel (será que é desta que posso ir de férias?)
No meio dos afazeres de véspera de partida, lá tive que arranjar aqui um buraquinho para reponder ao Daniel, porque acho que merece. De caminho acho que também respondo ao JAK (não quero soar como o Ivan, mas penso que era também a Mim que ele se referia aqui)
Tenho que começar por pedir desculpa. Fui reler o que o Daniel disse há uns dias atrás e, de facto, em nenhuma circunstância ele fala da sua convicção na inocência de Paulo Pedroso, e também não alimenta a "teoria da cabala".
O ponto do Daniel é genérico e refere-se à qualidade da justiça em Portugal em termos abstractos. Isto é, ele usa o caso do Paulo Pedroso como ilustração daquilo que ele acredita são defeitos fundamentais do nosso sistema de justiça. Fair enough.
Eu, no post que escrevi há dias, não me quis referir à justiça em geral, mas á reacção de muitas pessoas sobre o caso de Pedroso. A justiça portuguesa tem enormes (enormíssimos) defeitos (já agora, toda a história em volta da reconfirmação da prisão de Pedroso também não me soa excepcionalmente bem). A justiça portuguesa, como é óbvio, deveria ser objecto das mais drásticas reformas. Mas os proponentes da "teoria da cabala" e da "convicção da inocência" de Pedroso não é isso que fazem. Eles não criticam os instrumentos usados neste caso (como em não-sei-quantos outros) pela justiça para lidar com determinados arguidos (ou melhor, criticam os instrumentos apenas de maneira oportunista, porque noutras circunstâncias não os criticaram e muitas vezes até legislaram sobre eles). Eles dizem que a justiça está a ser instrumentalizada por forças obscuras (ainda hoje lá vem Ferro Rodrigues outra vez com a mesma conversa), eles dizem que isto representa uma espécie de regresso do fascismo a Portugal, eles dizem que ou o juiz ou as testemunhas estão de má-fé. Isto é muito diferente do que criticar a justiça em termos gerais. Aliás, para uma justiça já com tantos problemas é um péssimo serviço que se faz a ela e à democracia que tanto se diz defender.
E sobre a justiça em geral, não tenho tempo para grandes delongas (já todos sabem as razões), mas sempre gostava de deixar ao Daniel uma ou outra ideia sobre o assunto.
Não é aceitável, apesar de todos os defeitos da justiça portuguesa, dizer, como tu dizes, que Paulo Pedroso é uma "vítima" como todas as outras pessoas presas preventivamente em Portugal. Isto é uma inversão de categorias que não se pode fazer levianamente. A justiça poderá ter muitos problemas mas lá vai (mal ou bem, em geral mal, estamos todos de acordo) cumprindo um papel essencial num regime como o nosso. Se se quer discutir a justiça não creio que seja muito útil pegar sempre na maldade dos seus agentes contra uma população indefesa. Este ponto de partida de "vitimização" é um dos pontos em que se pode pegar, mas há muitos outros. Nomeadamente, o ponto contrário: quantos criminosos não continuam à solta porque a justiça portuguesa não tem meios para lidar com eles? E de que maneira não estaremos nós indefesos perante esses criminosos?
Se se quer discutir a justiça em Portugal não se deve pegar só nesse ponto, o qual faz dela uma espécie de agente do obscurantismo contra a população inerme, mas olhar para todos os lados do problema.
Usa-se e abusa-se da prisão preventiva em Portugal? É uma verdade óbvia. Mas então é preciso saber que meios têm os magistrados públicos à disposição para fazer as suas inquirições. Se não se lhes dá meios de investigar, eles vão tender a usar os meios, que embora mais brutais, acabam por facilitar o seu trabalho.
São maus os nossos magistrados? Se calhar. Mas nesse caso cumpre perguntar se são bem pagos, se têm todas as condições para desenvolver a sua actividade (v. parágrafo anterior), se têm todas as condições para serem independentes.
Ao contrário do que muitas vezes pensa a "esquerda" (peço desculpa pela generalização), certas "arbitrariedades" (outra palavra um pouco mal utilizada aqui) das autoridades muitas vezes vêm da falta efectiva de poder do que de um seu excesso. Se lhes dessem meios para se comportarem de outra forma provavelmente os nossos magistrados comportar-se-iam de maneira mais humana e mais próxima daquilo que acontece em outros países.
Mas repito: os homens da "convicção" na inocência de Pedroso e da "teoria da cabala" estão a fazer um serviçoo muito mau não só a toda a gente como também, e muito precisamente, a uma possível discussão sobre a justiça em Portugal. Peço imensa desculpa, mas não é dizendo que a "extrema-direita" está por trás deste caso que se discute seriamente o que quer que seja sobre o assunto.
Não sei se esta questão vai ter desenvolvimentos aqui na blogosfera. Se tiver, receio que seja sem a minha participação.
 
Férias
Este vosso criado parte para fora de Portugal 3ª feira. Entre fazer malas e não fazer, irão certamente escassear oportunidades para blogar. Este será provavelmente o último post da saison. Por razões profissionais vou a Espanha e, aproveitando o balanço, por lá fico a veranear (não, não vou para Torremolinos nem para Málaga, embora hoje tenha visto um cartaz na rua de um espectáculo com Monica Naranjo em Torremolinos que me deixou francamente indeciso). Procurarei manter-me informado sobre os temas candentes na pátria de Cervantes, entre os quais a crise do PSOLE (que também por lá parece ser apreciador de teorias da cabala). Pelas últimas informações que tive, tal como cá, o PSOLE ainda vai ter muito que penar para poder dispensar o aparelho.

 
Os actos do pulha
Li hoje no Sunday Telegraph que foi publicada a tradução para inglês da biografia de Sartre por Bernard Henri Lévy. A crítica ao livro, por George Walden, acaba muito bem: Lévy acknowledges that Sartre was himself frquently guilty of "bad faith", but the truth is worse: by championing some of the bloodiest dictators of his age, and failing to take responsibility for his choices, by his own definition, Sartre was a bastard. Nem mais. Não vale a pena mencionar o profundo aborrecimento que é ler livros de Sartre como O Ser e o Nada ou a Crítica da Razão Dialética. Não vale a pena sequer recorrer à sua terminologia arrevezada (a praxis, a alienação, o para-si, o prático-inerte, a série e o grupo) para edulcorar as suas ideias. O que é mais criminoso em Sartre é a construção de uma teoria filosófica baseada na liberdade de escolha e acção dos indivíduos mas que acaba no apoio e na justificação de alguns dos maiores horrores políticos do século XX. Sartre veio de Moscovo a dizer que a liberdade de expressão era uma realidade indesmentível na URSS. Criticou Krutschev por este ter denunciado os crimes do estalinismo. Justificou esses crimes, dizendo que eram necessários, mesmo admitindo que tinham existido. Quando a URSS deixou de matar tanta gente passou a apoiar a China comunista e o maoísmo. E (num acto de decadência última) ainda veio cá a Portugal dar uma perninha a ver se o comunismo pegava. Mas, quando se lê bem, percebe-se porque é que a liberdade do indíviduo de Sartre tinha que resultar no que resultou. Sartre dizia que a liberdade do indivíduo não se faz no entendimento espontâneo e quotidiano com outros indíviduos na sociedade (isso é, para usar a sua terminologia, do campo da alienação e do prático-inerte). A liberdade do indivíduo só existe quando ele está sozinho, ou então quando se junta a outros indivíduos num grupo que ultrapasse a alienação através da acção revolucionária. Daí o desprezo de Sartre pelas convenções: a escolha individual dispensa tais coisas, mesmo que o resultado seja a agressão a outros indivíduos. Daí o desprezo de Sartre por todos os outros que não fizessem parte do grupo: bem podiam morrer aos milhões, que isso era justificado pela necessidade da acção revolucionária. Eis aqui um pulha que levou muita gente atrás. Estejam descansados que há-de sempre haver pulhas e gente assim.

 
Rule Britannia
Se não tivesse outras, Tony Blair teve pelo menos a vantagem de lançar um espectro sobre a Grã-Bretanha: a esquizofrenia. Pus-me hoje a ler os jornais ingleses e, claro, dedicam metade das edições ao caso da morte de David Kelly. Como o governo é de esquerda, mas o primeiro-ministro fez a guerra do Iraque com o apoio da direita (e muitas vezes contra o seu partido); como a direita, apesar de ter apoiado a guerra, vê nesta crise a oportunidade de destruir a credibilidade de Blair, levando a uma crise fatal do governo que a conduza ao poder; é muito curioso ver os jornais de direita, que apoiaram a guerra, serem implacáveis com o governo, e os jornais de esquerda, que foram contra a guerra, escolherem como alvo principal a BBC.
Quais são os factos em causa? Kelly não era detentor de informações cruciais que contradissessem a ideia de que o Iraque possuía armas de destruição maciça. Pelo contrário, ele acreditava que existiam, depois de andar pelo menos uma década por lá a inspeccionar o país. O problema que se colocava com Kelly era o de saber se ele tinha sido a fonte da BBC que tinha permitido a esta estação dizer que Alastair Campbell tinha inserido num relatório dos serviços secretos a frase segundo a qual o Iraque podia dispor dessas armas em 45 minutos. Nem sequer a muito biased BBC ousaria dizer aquilo que ainda ontem Mário Soares (no incontornável Expresso) afirmava que ela tinha dito: que o governo britânico tinha mentido sobre a existência das ditas armas no Iraque. Basta pensar dois segundos: como é que a BBC poderia dizer semelhante coisa, não tendo acesso a serviços secretos próprios?
O que está aqui em causa não é nada disso. O que está em causa é simplesmente saber-se que padrões jornalísticos segue uma estação que diz que um dos membros do governo mentiu num pormenor de um relatório com base numa simples fonte (o dito Kelly). E o que está em causa é também a probidade de um governo que lança às feras um mero funcionário de bastidores para se limpar de acusações lançadas pela BBC.
E o que choca no caso não é a grandeza do assunto. É exactamente o contrário: a sua pequenez. Como pode um homem ter decidido pôr termo à vida por causa de um pormenor que não destruía nem o case for war, nem o resto da informação sobre o armamento iraquiano. Mas isto tudo mostra também uma outra coisa: a absoluta inanidade das patetas teorias da conspiração que começaram logo a despontar em crisálida quando Kelly apareceu morto. Não deixa de espantar a disponibilidade de tanta gente para acreditar nos mais incríveis disparates.

sábado, julho 19, 2003
 
Os amigos de Paulo Pedroso
Eu não sou amigo e não conheço Paulo Pedroso. No entanto, o facto de ele ter sido indiciado por crimes de pedofilia deixou-me bastante perturbado. Mas o que fazer quando um juiz acha que há indícios suficientes de que isso possa ser verdade e, para além disso, de que ele pudesse tomar passos no sentido de perturbar a investigação? O meu default , como o de qualquer cidad‹o, deve ser o de que o benefício da dúvida deve ser dado ao sistema judicial.
Mas os amigos de Paulo Pedroso, começando pelo secretário geral do PS, passando pelo chefe do grupo parlamentar do mesmo partido, continuando pelo dirigente socialista João Soares e acabando no colunista Augusto Santos Silva, desde o início criaram uma tese, a famosa "tese da cabala", segundo a qual Paulo Pedroso estaria ser vítima de uma conspiração de extrema-direita (cá está o malandro do fascismo outra vez), tendo como agentes "homens de mão" de Paulo Portas, Celeste Cardona e Santana Lopes capazes "mexer cordelinhos" na justiça.
Agora, a propósito da reconfirmação da pris‹o preventiva do deputado indiciado e da consequente inutilidade do recurso da defesa, sem virem com a tese do regresso à longa noite fascista, voltam a lançar as mais diversas acusações sobre o sistema judicial. Augusto Santos Silva, no estilo elegante que o caracteriza, hoje no Público lá chama a isto "uma golpaça", e o Daniel e o Ivan, aqui na blogosfera, de forma realmente mais comedida também fazem eco destas ideias (para além de outras, diversas, figuras públicas).
Eu não tenho a convicção de que Paulo Pedroso está inocente. Mas presumo que esteja, até prova em contrário, porque é assim que deve ser num sistema em que a justiça (mal ou bem) lá vai funcionando. Para além disso, não tenho acesso a documentos que estão em segredo de justiça nem a mentideros de redacção de jornal. E como é evidente também estou disposto a acreditar que possa existir um erro judicial (é um risco que está presente em qualquer sistema judicial). Mas faz-me confusão este assalto à bondade da justiça que a propósito deste caso se continua a fazer. Quando tanto se critica Berlusconi por tentar interferir com a justiça, quando tanto se criticou Pimenta Machado pela vitimização que fez de si próprio na altura em que foi inquirido, quando tanto se criticam as populaças de Guimarães e Felgueiras por virem na defesa irracional dos seus heróis locais, eu gostava de saber o que é que distingue isto tudo da arregimentação igualmente irracional em defesa de Paulo Pedroso? Custar-me-ia bastante que Paulo Pedroso (mas também Carlos Cruz ou Herman José) fosse efectivamente condenado. Mas jogam-se aqui coisas mais importantes. Não só os crimes em si, como também o próprio sistema judicial e, por essa via, a credibilidade de todo o edifício instituicional do nosso país. Calma, apaziguamento e paciência seriam melhores conselheiros do que as reacções indignadas, só porque se "tem a convicção" de que alguém é inocente.
 
Miss Gay já não sou uma criança
Por falar em karaté, lamento ser o portador das más notícias, mas parece que a melhor coisa em termos culturais que a Rússia produziu desde Soljenitsine, o duo LGBT t.A.t.u está em crise (vem também no Público, logo acima da rubrica Hoje fazem anos , tão apreciada na blogosfera). Sim, custa-vos tanto a vocês como a mim, mas é a mais crua das verdades. O grande problema aparenta ser o facto de um dos elementos do duo ter saído do armário para assumir a sua heterossexualidade (onde irá parar o mundo, com esta falta de referências em matéria de costumes?) para ter um affaire com um karateca.
Eu sei que os adeptos do Futebol Clube do Porto muitas vezes pensam que Pinto da Costa é Deus. Eu, como bom sportinguista, claro que nunca acreditei nisso. Mas estou a mudar a minha opinião. Pelo menos pelo critério do dom da ubiquidade, Pinto da Costa parece estar a caminhar para lá. Já foi Presidente de S.Tomé e Princípe ao mesmo tempo que era (e é) presidente do F. C. Porto, está casado com Filomena e, para rematar (salvo seja, outra vez), namora uma das t.A.t.u.. Alive and kicking.
 
Modalidades amadoras
Os nosso jornais de referência dedicam merecidamente espaço substancial ao episódio da agressão de Pinto da Costa à sua mulher. O Expresso, aliás muito justamente, dá a notícia na primeira página, o Público remete-a incompreensivelmente lá mais para dentro. As versões, contudo, diferem em cada uma das publicações. Enquanto no Expresso Pinto da Costa terá simples e inexplicavelmente "forçado a entrada" na casa da esposa, no Público (também não tem link) ele terá entrado para dar uma prenda à filha. Esta discrepância, para além de mostrar como uma pequena mudança de ênfase se pode dar um tom completamente diferente à notícia, não toca (salvo seja) no essencial. E o que é o essencial? O essencial é que, numa altura em que tanta gente fala do abandono das modalidades amadoras por parte dos grandes clubes, o Futebol Clube do Porto dá um exemplo muito positivo. É que pelos vistos o karaté continua a ser muito acarinhado por lá.
 
Uma coisa alarve
O cartoon na primeira página do Expresso de hoje (já sabem, não tem link). Não é preciso gostar-se de Berlusconi para se perceber (para citar um célebre herói meu) a "tranquibérnia canalha" que consiste em pôr a cara de Berlusconi sobre uma cruz gamada, calçando uma bota preta e chamar ao quadro Duce Vida. O Pedro Mexia (e eu próprio, embora apenas brevemente) a propósito do Phone Booth já disse o que havia a dizer sobre esta tendência cretina para chamar fascista a tudo aquilo de que não se gosta.
 
David Kelly
Anda todo o mundo muito agitadinho com a morte de David Kelly. É mesmo como diz o Valete: porque é que não afirmam logo que foi o governo britânico que o matou em vez da conversinha mole de que a morte dele "é suspeita"? Francamente, o que é que se pode dizer sobre o episódio? Nada, a não ser esperar e ver. Mas o ambiente de teoria da conspiração já por aí anda. Ainda por cima, face aos últimos desenvolvimentos, quem parece estar com dificuldade em livrar-se das acusações de ter mentido sobre Alastair Campbell e o relatório sexed up (segundo o qual Saddam poderia usar armas de destruição maciça em 45 minutos) é a BBC e não o governo. David Kelly estava, precisamente, a ser muito útil para encostar a BBC à parede e ajudar a corroborar a versão do governo. Leiam este artigo (do Guardian) e mais este (do Times, assim não podem dizer que sou biased), obtidos via Andrew Sullivan.
 
Obrigado Ivan
O Ivan respondeu ao meu apelo de info-iletrado e ensinou-me a fazer links para posts. Muito agradecido.
sexta-feira, julho 18, 2003
 
A Carla é fraca
Ainda a Carla Bruni: o Luís Miguel diz que se o Serge Gainsbourg fosse vivo já a teria convidado para gravar um disco com ele. É muito provável. Mais provável ainda é que ela se tivesse transformado em sua namorada. Mas cumpre notar o papel das meninas (Briggite Bardot e Jane Birkin) nos discos de Gainsbourg: cantar (??), dar gritinhos, arfar (!!). Nunca compôr canções. A Carla seria uma digna descendente desta linhagem. Mas há um passo qualitativo muito grande entre o crucial (crucialíssimo!!) papel decorativo das meninas de Gainsbourg e começar a escrever canções.
 
Fixem este nome
Fixem este nome: Mark Steyn. Quem acompanha este blog há tempo suficiente sabe que o rapaz é muito lá de casa. Mas isso não se dá por acaso: é só o melhor colunista político vivo.
 
Music in a foreign language
O Guerra e Pas (que não sei quem é pessoalmente) tem um post muito bonito de 16 de Julho (não sei fazer links para posts individuais - aliás, se alguém estiver na disposição de ajudar tem aí no cantinho direito o endereço de email). Eu não tenho jeito para escrever coisas confessionais. Todos os dias praticamente reinterpreto a minha vida à luz do que aconteceu no dia anterior e isso paraliza-me para teorizar sobre mim mesmo, que é o que são os escritos confessionais. Por exemplo, escrever este blog leva-me a reinterpretar-me outra vez. De repente passei a ter uma persona pública, eu cujas experiências com a celebridade se limitam a uma tentativa penosa de ser artista pop há vinte anos atrás e hoje em dia dar aulas a uns quantos alunos. É por isso também que não consigo teorizar sobre blogs. É por isso que o Friederich von Hayek é um dos meus filósofos favoritos: ele gastou páginas e páginas a elaborar a ideia simples de que a grande beleza do liberalismo é a sua imprevisibilidade. No liberalismo a inovação é constante e amanhã acontece qualquer coisa que nos muda a vida de tal maneira que ela ganha novo sentido. Seja como for, é capaz de ser a imaturidade que me obriga a não ser confessional. Mas admiro muito quem o consegue fazer bem. É o caso desse post do Guerra e Pas, que se chama "Eu não queria ir para o céu".
O post é sobre uma coisa um bocado unglamorous para a blogosfera: filhos. Na blogosfera prepondera uma certa adolescência (propriamente dita ou tardia). Muitos dos posts confessionais são sobre amores conseguidos, amores falhados, tristeza à mesa de um bar, depressão ou quase, tudo coisas muito de quem não deu (não dará?) aquele passo que é parar essa busca de si mesmo através de outras pessoas. Os filhos não entram neste quadro. Seriam, de resto, empecilhos a esse exercício idiossincrático. Peço que não levem isto a mal, não estou a criticar ninguém, estou apenas a constatar: eu também já fui assim.
Eu tenho dois filhos, um com três anos e outra com um. O dos três anos começa a fazer agora perguntas difíceis como aquela a que o Guerra e Pas teve de responder. Ainda não chegaram as perguntas sobre a morte, mas começam a chegar outras quase tão difíceis. Tal como o pai do Guerra e Pas, também a minha mãe morreu precocemente, há cerca de 20 anos. Esse evento todos os dias é reinterpretado na minha cabeça e é mais um daqueles sobre o qual não consigo (não quero) teorizar. É capaz de ser o meu filho que me vai obrigar a perder esse medo e, tal como o do Guerra e Pas, dar um sentido belo a esse evento.
 
A carne é fraca
Eu acho o disco da Carla Bruni absolutamente insosso. Mas da Carla Bruni herself acho exactamente o contrário. O meu amigo Luís Miguel Oliveira e o PAS do País Relativo não separam e acham as duas coisas boas (muito boas mesmo). Podem chamar-me frio, demasiado racional, o que quiserem, mas ao menos, meus rapazes, não cedo ao apelo da carne assim tão facilmente.
quinta-feira, julho 17, 2003
 
Post do dia
A imagem da Reporters sans Frontières sobre Cuba publicada pel'O Intermitente. Já tinha ouvido falar dela, mas não a tinha visto, até porque a sua utilização foi proibida por um tribunal francês. Mas a sobreposição de Che Guevara à imagem do CRS francês dos cartazes de Maio de 68 é um achado. Enfim, pelo menos é um achado para apelar às consciências de esquerda. No fundo, a ideia que transmite é errada, já que estabelece a equivalência entre uma força policial de um regime democrático (a França dos anos 60) e as prisões arbitrárias de jornalistas em Cuba. Mas prontos, para quem é bacalhau basta.
 
Eu bem disse para fixarem o nome
Margarida Santos Lopes dá notícia hoje de uma interessante iniciativa, meramente individual, que junta um antigo governante israelita (Ami Ayalon) a um intelectual palestiniano (Sari Nusseibeh) no propósito de se chegar a uma plataforma possível para uma paz futura entre os dois povos. Mas há importantes dados na notícia que são omitidos. Quem é Sari Nusseibeh? Para além de ser, como diz o artigo, um filósofo, Nusseibeh foi também representante da Autoridade Palestiniana em Jerusalém Oriental durante alguns anos. Ocorre, porém, que no ano passado foi arbitrariamente demitido por Arafat, por defender o fim do direito de retorno dos refugiados a Israel (como já expliquei neste blog, isto é a destruição de Israel por outros meios). Eis aqui, então, um palestiniano que parece estar de boa-fé. O que é que lhe aconteceu?
A propósito, deixo-vos aqui transcrito um comunicado da Fatah, a organização de Yasser Arafat (e de Abu Mazen), a propósito da iniciativa tão simpaticamente descrita no artigo do Público:

Statement Issued by the Palestinian National Liberation Movement FATAH, West Bank:
Our Heroic People,
The People of the Struggle and the Martyrs,
Those holding the torch in the time of apostasy and defeatism,

The beginning of the third year of our blessed Intifada is accompanied by a wave of plots that aim to harm the national Palestinian project and the symbol of our leadership, President Yasser Arafat (Abu 'Ammar). While the tanks and bulldozers of the Zionist occupation were besieging Yasser Arafat in his presidential compound in Ramallah, others were busy whispering behind the scenes, thinking that this was their historic opportunity to get rid of the leadership of the Palestinian national struggle under the guise of vague pretexts and excuses. Several figures, among them Sari Nusseibeh, rushed to take the initiative and disseminated a so-called "Public Poll" and a "Preliminary Political Document" throughout the districts of our homeland. These papers carry the signature of Sari Nusseibeh and reflect his earlier agreement with the torturer Ami Ayalon, the former head of Israel's intelligence (Shabak). The ideas presented in the context of this initiative cross the red lines of our national consensus and violate our national principles.

We hereby re-affirm that no one has the right to volunteer compromises on issues of national interest and concern, such as the right of the refugees to return in accordance with UN General Assembly Resolution 194 and the right of our people to establish its Palestinian state with Jerusalem as its capital on the Palestinian lands occupied in 1967.

Therefore, we call upon our people, its national leadership and its institutions to stand up strongly against such political heresy. We strongly warn anyone who accords himself the right to cross the national consensus and re-affirm that only the legitimate leadership is entitled to draw the strategies of the Palestinian struggle for independence.

Power and Glory for the Loyal Martyrs
All the freedom for our prisoners in the occupation jails
Long live a Free Arab Palestine

FATAH Movement, West Bank Region
2 October 2002

 
TPI para ti também
Em tempos já remotos, literalmente no século passado, fui favorável ao famoso Tribunal Penal Internacional (para os amigos, o TPI) de maneira condicional. Compreende-se. Era um moço jovem e acreditava que, depois da guerra fria, as boas almas (de um lado e do outro da cortina) se iriam entender. Mas depois de ver, nos últimos anos, uma coisa parecida em acção na Bélgica, onde quase metade da administração americana esteve para ser acusada de genocídio e crimes contra humanidade, enquanto verdadeiros genocidas continuam alegremente a sua recriação sem que os preclaros juízes belgas se lembrem de os chamar, sou contra.
Ainda mais quando vejo uma notícia no Público (não está on-line, mas está a páginas 15 da edição impressa de hoje), na aparência, de resto, positiva. O TPI irá analisar brevemente coisas horripilantes ocorridas na guerra civil da República Democrática do Congo. Estas são as primeiras de 500 denúncias recebidas pelo TPI. O que espanta é que 100 destas 500 denúncias são contra o exército americano e inglês na guerra do Iraque. Cem em quinhentas? Vamos lá a ver se nos entendemos: a guerra no Congo é (só e apenas) o conflito militar que no mundo inteiro mais gente matou desde a II Guerra Mundial. Morreram nela cerca de três milhões de pessoas. Terá recebido para aí uma meia dúzia de denúncias. A guerra do Iraque, onde terão morrido umas centenas de pessoas é brindada com um quinto das denúncias.
Olha: TPI para ti também.
 
A Bend in the River
A propósito do golpe em S. Tomé, não percebo como é que se pode tomar partido por qualquer lado que seja em África. Nenhum destes golpes de estado, nenhuma das guerras civis que por lá grassam têm qualquer fundamento ideológico ou político substancial. Não vai na cabeça de nenhum destes agentes políticos qualquer coisa que valha a pena analisar, a fim de se saber se é de apoiar ou não. Os tutsis matam os hutus e vice-versa, os tutus matam os hutsis, Taylor mata os tutitsis e os hututiplisis depôem Abacha, Abacha destrói os papel, que esmagam os hutipuliturisis, cujo único pecado foi o de plantarem caju no arquipélago das Bijagós, and on and on and on...
África está transformada numa espécie de Chicago dos anos 30 à escala do continente inteiro: gangs de facínoras enfrentam outros gangs de facínoras com o único, e simples, intento de roubar.
Produzem-se toneladas de livros académicos e jornalísticos sobre isto, mas o livro que melhor transmite a irracionalidade e insanidade da coisa é uma obra de ficção, chama-se A Bend in the River e é de V.S. Naipaul.
 
Blog de culto
Fui ter, via Bomba Inteligente, ao Procuro Marido, um blog mantido por uma certa Amélia. Faltam-me palavras para vos convencer a consultarem esta pequena gema bloguística. Vão ver com os próprios olhos e prestem bem atenção à polémica epistemológica barba vs. bigode.
quarta-feira, julho 16, 2003
 
ESTIMADA CLIENTELA
ESTE ESTABELECIMENTO ESTARÁ ENCERRADO PARA FÉRIAS DE 22/7 (3ª FEIRA) A 6/8 (4ª FEIRA) (ATÉ LÁ CONTINUA EM VIGOR O HORÁRIO NORMAL)
GRATOS PELA PREFERÊNCIA
A GERÊNCIA

 
Raul Lino
Gosto muito de arquitectura embora saiba pouco sobre ela. Aquilo que se segue são umas meras notas de quem aprecia edifícios sem saber muito bem porquê. Dos arquitectos portugueses do século XX um dos que gosto mais é Raul Lino. Raul Lino é muito desprezado por muita gente por ter colaborado com Salazar e, para além disso, por não ter adoptado o modernismo na forma standard em que aparece em muitos prédios portugueses dos anos 30 a 60. Pois não, mas isso foi em benefício de uma linguagem própria que em certos momentos é das mais bonitas na arquitectura portuguesa (noutros nem por isso, como no caso do cinema Tivoli na Av. da Liberdade). Isto a propósito de uma exposição sobre Raul Lino em Coimbra. Talvez valha a pena lá ir, mas mais fácil é dar uma olhadela às coisas que estão à nossa mão, literalmente no meio da rua. Cito só alguns dos meus preferidos que me ocorrem de memória: a Casa das Azenhas do Mar, a Casa de Sta. Marta em Cascais, a Casa do Cipreste e a Casa dos Pinheiros, as duas em Sintra.
 
Sufragismo
Se a nova legislação comunitária sobre exploração da imagem feminina já estivesse em vigor as páginas 7 e 9 do Público de hoje, por sinal as mais interesantes, não existiriam.
 
Cabala
Já reparei que há algumas pessoas interessadas na destruição da família Mello Breyner Andresen.
 
O mundo está inquietante
Parece que a época dos saldos este ano começa em pleno Verão. Pelo menos no Corte Inglés. Segundo anúncio que aparece a páginas 21 do jornal Público Mário Soares está por lá a partir das 19 h. Consta que vai fazer espantosas revelações, algumas apoiadas até em documentos fotográficos. A mais importante será a de que, afinal, Sophia está viva. O Espectador soube que Mário Soares trará uma fotografia em que Sophia aparece ao lado de Elvis em Graceland.
 
Altneuland (4)
(continuação)
5º Presuposto: Quem não tem exército luta com varapaus

Se Israel entra nos territórios palestinianos e os ocupa tranquilamente,
Se executa palestinianos se julgamento,
Se usa o poder de ser um estado-a-sério para oprimir um povo que tem o direito legítimo de estar onde está,
E se esse povo não é apoiado por nenhuma frente internacional que se veja,
E se pelo contrário os EUA, com a sua política-Wolfowitz, pôem por agora de lado qualquer apoio desse tipo,
É natural que se oponham da maneira que podem.

Não têm exercito, não têm diplomacia nem lobbys que se vejam, que lhes resta? É certo, nada justifica o terrorismo. Mas não como em Espanha ou na Irlanda do Norte. É que Israel não joga pelas regras...


O terrorismo é sempre um terreno ambíguo. Podemos, por vezes, simpatizar com uma causa e achar que aqueles que o usam têm direito a fazê-lo. Mas o sistemático terrorismo contra civis praticado pelos grupos palestinianos revela algo mais do que se fosse terrorismo praticado apenas contra autoridades israelitas. Os palestinianos praticamente não atingem autoridades. São os civis o seu maior alvo. As comparações com Espanha e a Irlanda não me parecem aplicáveis. Na Palestina estamos, historicamente, numa guerra convencional (entre Israel e a maior parte dos países árabes) onde os terroristas palestinianos são usados como arma.

Último Presuposto: Um estado religioso não é democrático

Diz LA no comprometido espectador (post acima referido), que Israel é o único oásis de prosperidade e democracia na região.
Discordo firmemente.
Um estado religioso, por definição é anti-democrático.
Todo o estado deve ser laico (pode parecer contradição, mas não deixo de defender a inclusão da herança cristã na contituição europeia).
Dentro de um estado "Judaico" o que são não-judeus?? Marginais? E se um árabe se quiser candidatar a um cargo importante, que acontece?
Viu-se à pouco, quando foi afastado da candidatura, por ser anticonstitucional. Viva a Sharia-Judia!


Israel é rico e é democrático. Quer discutir estes factos? Não sei o que entende por "estado religioso". Mas aquilo que podemos dizer sobre Israel a respeito da religião é que existe uma certa tensão entre tendências seculares e mais ortodoxas, mas que na história de Israel tem prevalecido o secularismo com algumas concessões ao confessionalismo (nomeadamente através do Ministério para os Assuntos religiosos). É verdade que Israel não tem uma constituição escrita (mas a Grã-Bretanha também não). Mas existem em Israel fortes movimentos secularistas e um dia destes bem se pode vir a promulgar uma constituição completamente secular, sem que isso contradiga a existência do estado. Os judeus são 80% da população israelita. A maior parte dos outros 20% é constituída por muçulmanos, que têm partidos, que são eleitos para o knesset (o parlamento), que são nomeados para cargos na estrutura do estado. É evidente que a origem judaica do estado de Israel cria situações nem sempre claras a este respeito (por exemplo, no que se refere ao exército). Mas é talvez das maiores ironias da história da região que o país do Médio Oriente onde os árabes gozam de mais direitos políticos seja em Israel. Porque em Israel há divisão de poderes, há liberdade de expressão, de associação, há uma imprensa livre. Tudo coisas que brilham pela ausência nos outros estados da zona.

Por fim, o Estado Palestiniano é uma promessa da ONU, tal como o de Israel. Tem fronteiras definidas por uma resolução de 1947/48.

É verdade. Ninguém discute.

E pronto, com isto dou por terminada a minha contribuição para o avanço da causa israelita. Não esperem daqui mais conversa sobre isto. Para outras reclamações, façam o favor de se dirigirem ao guichet aqui ao lado.

PS - Miguel, obrigadinho pela ajuda.

 
Altneuland (3)
(continuação)
3º Presuposto: Os Judeus não são um povo, por isso não têm direito a um estado

Mas que coisa éesta de se oferecer um estado a uma comunidade religiosa? Desde a criação do Utah para os mórmones (sim, os de fato, os "Elder") que não se via uma coisa assim.
Os judeus viviam dispersos pelo mundo fora (Rússia, Europa Central/Ocidental, EUA, e mesmo à beira do colégo alemão no Porto há uma sinagoga). Quando Hertzl criou o movimento sionista conseguiu criar o mito de que pretencia por direito um estado aos judeus, estado esse prometido por Deus no "Êxodo". É preciso ter lata!
Sendo assim, qualquer dia entravam aqui os irlandeses (descendentes dos celtas) a reclamar Portugal. Aos húngaros e finlandeses pretenceria Moscovo, e os Argentinos viam as Malvinas/Falkland restituídas. (Já para não falar dos atlantes que vinham reclamar os Açores, que trinta-e-um...)
Os estados nascem e morrem com a migração dos povos ou com guerras e demais derrames de sangue. Agora por deliberação do CS da ONU... francamente, se ainda os árabe tivessem expulso os pobre judeus... Foram os romanos há mais de 2000 anos! Caramba, Israel para a Itália já!!!


A criação do estado de Israel é, obviamente, resultado de um grande voluntarismo. A causa ganhou muita força com o holocausto, mas procurou resolver o problema do desenraizamento dos judeus nos vários países em que viviam. São muitos os estados do mundo que têm um passado de anti-judaismo mais ou menos sistemático (inclusivé o nosso). Porquê um estado para um grupo religioso? Porque não, sobretudo se esse grupo é historicamente perseguido noutros estados por razões de ordem religiosa. Será preciso lembrar as expulsões de judeus de inúmeros países. Os ghettos (aproveite para visitar, por exemplo, o de Veneza, onde se vê bem a exclusão física a que os judeus estavam sujeitos)? Os pogroms? Aceitar a existência de Israel é, de facto, simpatizar com o anti-anti-judaismo. E as coisas nem sequer foram feitas muito à bruta, já que, como digo no ponto anterior, a ONU procurou criar uma situação de compromisso. Que, volto a dizer, não foi aceite por uma das partes.

4º Presuposto (a caminho do post mais longo da minha história): Injustiças do passado não jusitificam injustiças no presente

Não seria, de facto, solução expulsar o povo de Israel do sítio onde vivem (infelizmente) há tempo que chegue para que uma expulsão fosse injusta.
Trata-se pois (quem diria, eu sei) de encontrar um consenso. Limito-me a achar que a razão moral está do lado dos palestinianos.


A razão moral está dos lado dos palestinianos? Porquê? Como já disse em posts anteriores, o mundo continua à espera de uma afirmação inequívoca da parte dos dirigentes palestinianos que aceitam a existência do estado de Israel. Abu Mazen (repito: Abu Mazen; não os outros dirigentes palestinianos) parece (repito: parece) querer finalmente aceitar a bi-partição. Os israelitas (a maior parte, não todos como é óbvio) há muito que aceitaram. Se assim for, até que enfim! Os palestinianos têm todo o direito ao seu estado. O que têm de reconhecer é o direito aos outros de existirem também. Razão moral por não quererem a existência de Israel? Tem que arranjar outro argumento. (continua, mas está quase a acabar, juro...)
 
Altneuland (2)
Respondo inserindo em itálico o texto do Whisky:

1ºPresuposto: Israel tem de agir perante as leis internacionais

O que a mim me parece desde já importante salientar, é que, queiramos ou não, Israel é um estado soberano. Se quer (e acho que deve) ser entendido como tal, deve actuar como tal. Por isso não pode fazer incursões pelos territórios palestinianos adentro, e matar quem quiser, sem julgamento, só por determinadas suspeitas (ou não, como se vem a saber, quando matam judeus "por acaso". Trágico.)

Pelo contrário os palestinianos não têm um estado soberano. Querem ter, e por isso devem agir como tal, simplesmente estão inertes pelo terrorismo. O que certas forças terroristas fazem (algumas nem sequer actuam a partir da Palestina, mas da Síria ou do Líbano), não deve ser tido como um reflexo da posição de uma autoridade palestiniana.


A brutalidade do exército israelita é muitas vezes condenável. Mas convém pô-la no contexto. É um século inteiro de hostilidade intolerante contra a existência do estado de Israel, antes e depois da independência. Foram pelo menos quatro guerras declaradas contra Israel desde 1948 até hoje. Os dirigentes paletinianos na Cisjordânia não são anti-israelitas por reacção anti-colonialista. Eles são anti-israelitas por princípio. Para além disso, ainda se está para encontrar uma solução humanamente aceitável para se combater uma guerra de guerrilha. Quando, do lado palestiniano, se usam sistematicamente civis (alguns dos quais crianças) como armas de combate, o m do Whisky tem que me explicar como seleccionar cuidadosamente alvos militares e civis. Quando a mistura entre estas duas dimensões é feita, como combater eficazmente a ameaça?

2ºPresuposto: Os Judeus foram "plantados" numa zona habitada previamente por um povo

Mais uma vez a pressão a certos lobbys levou a uma descolonização apressada e mal-feita (já parece Angola). Depois da 2ª guerra mundial, a ONU compadeceu-se dos judeus, e plantou-os na terra prometida. Ora, aqui começa a salsada. É que já lá viviam pessoas. Ouve-se dizer que viviam em condições de selvagens, e que nem tinham o país estruturado etc. Ora aqui reside um grande problema da colonização. É que o facto de os árabes viverem de forma diferente, tida como abaixo de qualquer civilização, não quer dizer que estavam a viver pior. Se queriam e estavam felizes, caramba, deixassem-nos estar!
Mas bem, era preciso arranjar um sítio para onde mandar os judeus (longe dos nossos olhares piedosos), e escolheu-se o lugar bíblico.
Seja. Mas devia se ter tido o cuidado de não passar por cima de quem lá vivia, e procurar um consenso.


Não sei bem por onde começar. Mas este 2º pressuposto está cheio de erros factuais. A ONU não "plantou" os judeus na terra prometida. A ONU criou na Palestina um estado judaico paralelamente a um estado árabe. Os judeus não foram plantados na Palestina, mas foram imigrando, em diversas vagas, através da Aliyah (o movimento de imigração judaico para a Palestina), desde finais do século XIX e por lá se foram instalando. Quando a ONU criou os dois estados havia já uma significativa implantação judaica na Palestina. Procurar consensos? Mas foi isso, justamente, que a ONU procurou fazer, ao criar dois estados. Mas (quantas vezes será necessário repetir isto?) os árabes da Palestina (e os vários países árabes da região) não aceitaram a bi-partição da Palestina. Isto é, não aceitaram o tal compromisso.
Há um problema adicional aqui. Não havia, antes da criação dos vários estados do Médio Oriente (o que foi acontecendo desde o fim da primeira guerra mundial até aos anos 50) nada que ali se assemelhasse a estados-nações. Existiam comunidades (entre as quais judaicas) sob domínio otomano e, depois da I Guerra Mundial, sob mandato inglês e francês. A configuração política da região foi, portanto, criação destes países. Não se tratou, portanto de tirar um estado a quem o já tinha. Tratou-se criar estados ex nihilo. E, nesta perspectiva, instalar-se um estado judaico juntamente com vários estados árabes.

 
Altneuland (1)
Como sempre acontece fica-se célebre pelas mais improváveis razões. É o meu caso na blogosfera. De todos os posts que já escrevi logo havia de ser o mais longo (e consequentemente o mais chato) a receber tantas reacções. Esclareço desde já várias coisas: que não sou judeu (embora a minha mulher, e logo os meus filhos, tenham remotas ligações à judiaria); que não sou sionista (ou melhor, sou sionista de circunstância, no sentido em que reconheço o direito à existência do estado de Israel e tenho alguma admiração pelo projecto); que não estou no payroll do governo israelita para a difusão da causa no mundo; e, finalmente, que não sou especialista na matéria, distinguindo-me apenas de muita gente que emite opiniões furiosas sobre o assunto por ter lido um bocado mais sobre esse mesmo assunto do que elas. Feito este esclarecimento aviso também que não vou futuramente voltar ao tópico com a extensão com que o faço agora porque, muito simplesmente, a minha vida não é isto. Blogar é muito engraçado, mas é preciso também ganhar para o bife (meu e dos meus dependentes). Aviso também que esta série de posts nunca mais acaba. Pago uma cerveja a quem chegar ao fim dela.
O meu post de há uns dias sobre um artigo da Margarida Santos Lopes recebeu várias reacções, a maior parte delas negativas. Não respondo directamente a duas dessas reacções porque acho que não valem a pena. Uma é a do Cruzes Canhoto. A esta não respondo porque os autores do blog reagiram a um post imaginário. Criticam-me por coisas que eu não disse, embora gostassem que as tivesse dito. A eles, portanto, não tenho nada a replicar, mesmo se, pá, tu, pá, me tenhas chumbado, pá, para editor de política internacional do Público. Outra foi a do Linhas de Esquerda. Também não respondo directamente porque tenho dificuldade em discutir com pessoas que somam aos erros históricos erros de ortografia. Eu falo com pessoas que passam a vida a dizer "prontos", mas dou o desconto. A eles não respondo directamente, mas podem encontrar neste post matéria para se entreterem. Já o m do Whisky2000 escreveu um post a que vale a pena responder. O post é sério e honesto. Não estou de acordo com ele, mas é para isso que cá estamos. (continua)

terça-feira, julho 15, 2003
 
O Perfeito Anormal
Não vi o episódio de exploração de um atrasado mental citado pelos Marretas e pelo Abrupto (andava a passear pelo Alentejo) passado no programa do Herman. Não posso pois testemunhar sobre a verdadeira qualidade da situação. Mas conhecendo o Herman dos últimos tempos, para grande pena minha estou disposto a assinar em branco pela petição de se fazer barulho. O Herman precisa de perceber que ele é que se tornou ultimamente num Perfeito Anormal.
 
Jeniffer Conelly
O Animal dos Marretas diz que a Jeniffer Conelly é "bonitinha". Calma lá. Há coisas com que não se brinca. Eu faço aqui já uma aposta: é como diz o Pedro, ela está a precisar de um filme a sério. E quando o tiver, e quando meio-mundo andar babadinho, quero ver quem é que diz: "ah pois, é bonitinha".
 
Porquê complicar?
É mesmo como diz o anúncio dos preservativos Control: porquê complicar?
A terceira via - não gosto do nome: a última vez que o ouvi antes de Blair, Schroeder, Clinton ou Guterres foi na boca de Mussolini, Franco e Salazar, que também passaram a vida a propor uma "terceira via" (sic) entre o "capitalismo" e o "socialismo" - continua com a sua interminável conversa sobre "empowerment" dos indivíduos, reabilitação da noção de serviço público ou "capitalismo responsável". Eu cá acho (não sei o que é que vocês acham) que estes rapazes ainda têm safa. São um bocadinho como o Ricardo Quaresma: a única coisa que têm de deixar de fazer é complicar. Enfiem de vez o barrete do capitalismo e do liberalismo sem adjectivos a qualificar ("responsável", "justo", "sustentável", "empowered") e vão ver que passam a ser muito mais safe para vocês e nós todos.
 
A verdade
A palavra que mais vezes aparece no texto anteriormente citado do "notável publicista" Vital Moreira é mentira (entretenham-se a contar na bicha para o autocarro, sempre distrai um bocadinho). Mas apesar de um certo uso monocórdico da palavra, não podemos negar versatilidade ao cronista. Veja-se: Os responsáveis políticos e os meiso de comunicação devem responder pelas mentiras que exploraram ou espalharam sobre a invocada ameaça iarquiana (ainda que por preconceito alguns tivessem acreditado nelas) . Nelas. Reparem: Nelas. É notável de agilidade intelectual. Num momento está Vital Moreira a falar da "gigantesca burla" que foram as "mentiras" para a invasão do Iraque. No momento seguinte, apenas com uma palavra, já está a criticar a política do governo para a criação dos novos concelhos. Canas de Senhorim, acautelem-se, para semana são vocês que são apelidados de mentirosos e gigantescos burlões.
 
Vitalidade
Sempre apreciei palavras como "sequazes", "embuste", "apostilas" "gigantesca burla", "cidadãos maciçamente intoxicados" ou "tranquibérnia canalha". Quem usa palavras como estas mostra uma de três coisas (possivelmente as três ao mesmo tempo): 1) é uma pessoa culta; 2) tem um prontuário ortográfico em casa; 3) chama-se Vital Moreira.
De uma coisa podemos estar certos, Vital Moreira perpetrou (como é seu hábito às terças-feiras) mais uma notável peça de análise política e aquelas palavras estão lá.
Vital Moreira, aliás, inspira-me. E por isso até ao fim deste post passo a escrever ao seu estilo:

Vital Moreira, na sua nefanda campanha contra a honesta e impoluta intervenção anglo-americana em terras da Babilónia, destila insensata animadversão por quem luta (sonha) por (com) um mundo diferente. Notável é a capacidade deste obnóxio saddamita para descortinar pureza no nefário líder caído às armas benquistas de Bush e Blair. Não deixa de nos espantar a conduplicação sistemática de bordões e novidades persistentemente refutadas na imprensa escrita e na imaculada blogosfera. O capcioso cronista, para não se deixar enlear na coleccção inenarrável de mentiras que se disseram sobre esta notável acção político-militar, deveria consultar mais a citada esfera e actualizar-se (conselhos: Valete Fratres!, Biased BBC, Samizdata ou Andrew Sullivan).
Mais notável ainda é a incapacidade do plumitivo em discutir uma qualquer, por singela que seja, implicação política da campanha bélica em país do Tigre e Eufrates. Espanta-me como o célebre gazetista não descortine uma só relação entre o estacionamento anglo-saxónico em território assírio e o processo de paz na Terra Santa; que não vislumbre o potencial de paz para a região que está implícito no desaparecimento do sanguinário regime baathista; não persistirei numa enumeração de semelhantes temas, dado já os ter até aflorado em textos prévios. Limito-me apenas a remeter para este blogue, nos dias 27 e 28 do mês transacto (pedindo desde já desculpa pelo despenhamento drástico da qualidade da prosa) e também para o Mar Salgado.
segunda-feira, julho 14, 2003
 
Soares, eu, a água e a constituição europeia
Aqui há uns dias atrás citei preclaras palavras de Mário Soares sobre a água. Volto a fazê-lo hoje. Isto porque o nosso antigo Presidente tem definitivamente uma irreprimível compulsão pelo tema. Diz-nos ele, entre outros notáveis arranques sobre o regresso da escravatura no mundo de hoje e mais temas, que ainda vai passar muita água sob [a constituição europeia] (leiam que vale a pena). É capaz, não sei. Ao menos seria uma variação: já passou tanta lá pelo meio.
 
Coma
Já sabíamos que a liderança de Ferro Rodrigues no Partido Socialista estava em estado pré-comatoso. Hoje tivemos as más notícias: entrou definitivamente em coma. Se não, o que entender do seguinte título do Público? Aparelho segura Ferro Rodrigues na liderança. Vá lá, não desliguem o aparelho ao homem. Ainda há umas hipóteses de ele sobreviver.
 
Fixem este nome
Fixem este nome: Margarida Santos Lopes. Digo isto sem qualquer ironia ou intento persecutório. Há muito tempo que sou defensor da ideia anglo-saxónica de que os jornais devem ter uma linha editorial clara. Desse modo, quando se lêem já se sabe o que é que a folha gasta. Em Portugal não é assim que as coisas se passam. Jornais de "referência", como o tão nosso amado Espesso ou o Público escondem-se sob uma camada de objectividade e presumível verdade jornalística que é um enorme logro. É por isso bom que uma jornalista que escreve notícias sobre o Médio Oriente mostre claramente qual é o seu enviezamento quando as escreve. Para a próxima a gente já sabe. Pois a Margarida Santos Lopes escreveu hoje um artigo de opinião (?) no Público que não só mostra esse enviezamento como é (para sermos moderados) uma extraordinária colecção de meias-verdades e omissões. O ponto de partida dela é meritório: mostrar que há bons e maus israelitas e bons e maus árabes palestinianos. O problema está na sua incapacidade em ilustrar a tese.
Começa por admitir (vá lá, já não é mau) que os árabes da Palestina do mandato britânico renegaram o que chamaram de "entidade sionista". Mas a partir daqui parte para uma diatribe contra uma presumível recusa equivalente de Israel em aceitar um Estado árabe na Palestina, citando, por exemplo, Ben-Gurion, o primeiro primeiro-ministro da história de Israel. Eis aqui mais uma ilustração daquela postura de que já aqui falei noutro post sobre outro assunto, a do "já passou". Neste caso seria: inicialmente os árabes não queriam a existência da "entidade sionista", mas "já passou", agora querem. Pois "não passou". Entre a criação do estado de Israel e hoje (para não falar de antes da criação desse estado), os árabes da Palestina tiveram oportunidade de mostrar inúmeras vezes como não "tinha passado". Ainda hoje gostaria de saber onde é que a Margarida Santos Lopes me arranja um árabe da Palestina que esteja disposto a admitir que atribui direito à existência do estado de Israel. O mais próximo disso será Abu Mazen. Pois a Margarida Santos Lopes que nos mostre uma frase que seja do homem em que esse direito seja inequivocamente reconhecido. É curioso que num artigo cujas pretensões são mostrar como há "tipos bons de um lado e do outro", ela só arranje bons de um lado: o israelita. Porque se em Israel há quem não queira um estado árabe na Palestina, também há (e sempre houve) uma larguíssima corrente de opinião favorável à ideia. E do outro lado? Eu gostava que ela mostrasse os mapas das escolas da Autoridade Palestiniana, nos quais se vê, para as criancinhas não terem dúvidas, uma palestina una e inteiramente árabe. Eu gostava que ela nos mostrasse o jornal oficial da Autoridade Palestiniana com frase como: "volta Hitler, não acabaste o teu trabalho".
Para explicar a situação a que se chegou a Margarida Santos Lopes diz-nos: No início, portanto, o objectivo de judeus e árabes era o controlo exclusivo da "Terra Santa". Na luta pela sobrevivência, uns e outros recorreram ao terror. Prevaleceram os desígnios dos mais fortes. Pois. Mas seria bom que ela nos explicasse que o estado de Israel existe porque foi criado pela ONU em 1947 e não por qualquer acção terrorista. E que nos explicasse que os israelitas em 1947 e 1948 aceitaram a solução dos dois estados. E que nos explicasse que Israel só existe hoje porque em 1948 foi capaz de resistir à tentativa de invasão de cinco países árabes ao mesmo tempo. Pois é, prevaleceram os mais fortes. E por falar destes, falemos dos mais fracos: quais os países árabes (ou do Médio Oriente) que reconhecem hoje o direito à existência do estado de Israel? Dois: o Egipto e a Jordânia. E fazem-no em boa parte porque não querem perder ajuda financeira americana. Bem pode a Margarida Santos Lopes vir com citações de Ben-Gurion para tentar estabelecer uma presumível equivalência entre a recusa da bi-partição da Palestina por árabes e judeus. Essa equivalência simplesmente não existe. E o seu artigo é a melhor ilustração disso mesmo. Ela passa o tempo a citar israelitas "bons" para ilustrar o seu ponto. Mas não há uma única linha sobre palestinianos "bons". E não há, porque não pode haver.
Pretende ainda ela fazer uma versão revisionista do fracasso das negociações de Camp David. Claro que há dilações, mentiras e má-fé dos dois lados nas negociações, mesmo hoje em dia. Mas ela esquece-se de dizer o principal motivo do fracasso de Camp David: a intransigência de Arafat no direito de retorno dos "refugiados" (para usar a sua terminologia) palestinianos. Ora, este presumível "direito de retorno" é a destruição do estado de Israel por outros meios. Pretender negociar o que quer que seja com isso sobre a mesa é querer matar à partida qualquer possibilidade de negociação.
É coisa que nunca percebi: numa região assolada por ditadores e miséria, porque é que se ataca sempre o único oásis de prosperidade e democracia na região?
Havia muito mais para dizer sobre este artigo, mas eu não ganho dinheiro a escrever posts e tenho uma família para alimentar. Mas não se esqueçam. Quando virem este nome dêem o devido desconto.
domingo, julho 13, 2003
 
Momento SNI
O local: Comporta
O restaurante: A Escola
O edifício: uma escola dos anos 40, das mandadas construír no tempo de Salazar
O menu:
- Entrada: queijo de Azeitão com pão alentejano
- Prato de peixe: ensopado de cherne (espero que isto não tenha uma segunda leitura política e eu seja obrigado a rasgar este post)
- Prato de carne: empada de coelho com arroz de pinhões
- Sobremesa: morgado de figo e doce da casa (pinhões, nozes e doce de ovos)
- Vinho: Cabernet Sauvignon da Herdade do Esporão, 1998.
Façam-me um favor: depois disto não me venham falar em cozinha toscana e cozinha francesa.
 
Com amigos destes...
Na sua habitual prosa iluminada Augusto Santos Silva (no seu artigo de ontem no Público), para além de tratar Lula por Você (assim mesmo, com maiúscula) diz-lhe (passo a citar porque o estilo é muito bom): Ena, Lula, torço por que dê certo. [...] cresimento com redistribuição, alternativa sem isolamento, progressismo social e educação democrática, Você terá feito uma verdadeira revolução. A mais necessária e autêntica das revoluções com que alguma vez sonhou. Sonhámos.
Vá lá, francamente. Como diria o outro: deixem-no trabalhar. Com muita sorte o homem vai deixar o Brasil num estado comparável (digamos) ao da Bielorússia, e mesmo assim vai ser difícil. Cai-lhe nas mãos um país que é pouco menos que uma catástrofe e Vocês ainda lhe atiram para cima das costas a responsabilidade de compensar as Vossas frustrações de adolescência. A sério: ele já tem muito em que pensar.
 
Reclamação
Estava tudo muito bem na primeira página do Espesso de ontem: as acusações de Filomena a Jorge Nuno Pinto da Costa, o acto desesperado de destruição de uma preciosa obra de arte do auteur torturado Professor Freitas, e outras coisas da maior relevância. Mas e a separação da Alexandra Lencastre e do Piet-Hein? Não merece um título? Depois queixem-se que a Nova gente vende mais...
 
A gravidez do Professor Freitas
A gravidez, para as actrizes portuguesas de telenovelas, é um momento ambíguo. Por um lado é bom para a carreira: é tão giro ter um filho. Por outro é uma tragédia: significa mais ou menos um ano fora dos écrans. É por isso que elas se multiplicam a oferecer reportagens às revistas cor-de-rosa aos três meses de gravidez, aos seis meses de gravidez, aos sete meses e três dias, à segunda hora de existência da criança...
O Professor Freitas está nesta fase: foi arredado dos écrans (afinal a guerra nazi no Iraque só durou três semanas) mas tem que passar a vida a aparecer. O Professor Freitas comeu um bolo de arroz? Primeira página do Espesso. O Professor Freitas não dá as boas-noites ao cão? Primeira página do Espesso. O Professor Freitas rasgou uma (que pena ser só uma...) peça de teatro? Primeira página do Espesso. Vão ler o Código de Conduta do pasquim e vejam os artigos sobre Marketing & Publicidade. Está lá tudo.
 
Sentido de Estado
Meu Deus, que sentido de Estado: não é que o ilustre Professor e espantoso Dramaturgo Professor Freitas rasgou uma peça de teatro da sua autoria porque nele se contava a traição do Ministro da Defesa ao Primeiro-Ministro de um governo francês dos anos 50 (está no Espesso de ontem: não faço link porque é pago, e para além disso iria contra os meus princípios deontológicos citar aquele monte de papel). O nosso estimado Professor-Dramaturgo teve medo de ser mal interpretado. Teve medo que se pensasse que a peça pudesse ter segundas leituras referentes ao actual governo português. Interessante é o facto de já não ter medo que essas segundas leituras transpareçam de um comentário por si feito ao jornal a este respeito, no qual diz que "nas relações de poder a traição é uma questão de tempo". Sim senhor, Senhor Professor. Sim senhor, Senhor Dramaturgo. Que elevação, que dignidade. Para me repetir: que sentido de Estado.
É justamente a este sentido de Estado do Professor a que agora faço apelo e lhe peço: vá lá ver as outras peças, de certezinha que encontrará mais passagens delicadas para o actual governo. Quando fizer isso vai ver que não lhe faltarão motivos para as rasgar todas. Olhe que é tudo a bem da Nação.
sábado, julho 12, 2003
 
Your life is on the line
Fui ver o Phone Booth. Para citar outra vez o meu mestre: vi e gostei. O filme não é propriamente imperdível, é simplesmente divertido. Independentemente de ser "fascista" ou não (coisa que já deu origem a uma troca de piropos entre o meu amigo Luís Miguel Oliveira e o Jaquinzinhos), e eu penso que não é, o que achei mais graça no filme foi o ambiente. O ambiente é todo tiradinho dos filmes americanos dos anos 70. Parece-me uma homenagem simpática a esses filmes, entre os quais se contam os vários Dirty Harries , o Mean Streets (mais do que o Taxi Driver) do Martin Scorsese, mesmo o Shaft ou outras coisas menos memoráveis. A homenagem começa logo na própria cabine telefónica. Aquele tipo de cabine telefónica também é um objecto em extinção, já que está a ser substituida por outras em Manhattan. Depois passa-se todo praticamente na única zona (próxima) de Times Square em que ainda há sex shops, cinemas pornográficos e prostitutas. Para quem não saiba, Manhattan é agora (desde Giuliani) muito limpa. E Times Square foi das zonas onde essa limpeza mais se fez, tendo sido as sex shops substituídas por lojas Disney e outras coisas family-friendly. Qualquer dia não se consegue fazer um filme deste tipo em Manhattan. Para além disso usa (e abusa) daquelas frames pequenas sobrepostas à imagem principal, muito características desses filmes. E tem um tom geral um bocado rasca, o que também é típico.
Só para acabar, sem elaborar muito: quanto a ser fascista, desculpa lá Luís Miguel, mas parece-me exagerado. Para além de achar que se usa a palavra fascismo um pouco a propósito de tudo e de nada, parece-me simplesmente que o filme apresenta um justiceiro talvez um pouco arrevezado, mas também nada que leve ao uso daquele adjectivo.
 
Objectos que (felizmente) não se extinguiram
Continuando a tentar fazer levar o Abrupto a alargar os seus horizontes, eis-me de novo a sugerir uma rubrica complemetar às que já mantém. Neste caso a rubrica chamar-se-ia Objectos que (felizmente) não se extinguiram.
Isto a propósito da minha passagem há cerca de uma hora por uma loja de conveniência. Apetecia-me qualquer coisa (sei lá, Ambrósio) e deparei com uns chocolates Jubileu. Mas eram daqueles com passas e amêndoas inteiras. "Nã. Não é isto que eu quero, eu quero mesmo é o Jubileu com nougat crocante lá dentro, tal como nos bons velhos anos 80". Das últimas vezes que vi Jubileus eram sempre dos de passas e dos de amêndoas, nunca o de nougat crocante. Comecei a pensar que já não existia. Hoje olhei com mais atenção e lá estava o dito cujo. Pois como diria o Professor Marcelo: comi e gostei.
Eu lembro-me quando foi criado o Jubileu, nos já remotos anos 80. Os melhores chocolates portugueses de então (antes do Jubileu) chamavam-se Regina. A sua característica principal era o de saberem a sabonete, o que me fazia sempre pensar que me tinha enganado e estava a comer Rexina. O Jubileu foi apresentado como o chocolate português que, finalmente, não ficava atrás dos chocolates belgas, suiços franceses ou ingleses. E não ficava (bem, para sermos francos, ficava). Durante muito tempo só havia um Jubileu, justamente o de nougat crocante (e não estas coisas das passas e das amêndoas, já um pouco a puxar para o belga). Hoje tive a boa notícia de que ainda existe. Rejubilei.
 
Olá Daniel
O Daniel Oliveira, notório itálico do Blog de Esquerda, dá-me as boas-vindas à blogosfera. Obrigadinho rapaz. Para quem não saiba o Daniel e eu damo-nos bem. De cada vez que nos encontramos cumprimentamo-nos de "facho" (sou eu) e de "comuna" (é ele). Estes epítetos obviamente ofensivos são entendidos como elogios mútuos vindos de quem vêm.
Já agora, nunca mais trouxeste a tua filha para brincar com o meu filho. O facto de o miúdo ter ar de cigano não te devia a ti, gajo de esquerda, procurar impedi-la de se dar com quem quiser. Ainda te podes vir a arrepender: olha o Ricardo Quaresma. Também é cigano e vê onde é que ele está.
sexta-feira, julho 11, 2003
 
Movimento dos Sem-Prédio
Aparentemente o PCP é proprietário de um prédio na Rua Sousa Martins em Lisboa que deixou degradar ao ponto de agora ser necessária a sua demolição. Em lugar das actividades políticas do partido, o prédio será destinado a habitação. Clara Viana, a jornalista do Público que faz a notícia diz-nos que este caso imita o habitual "modus operandi" dos proprietários de velhos edifícios.
Cara Clara, peço imensa desculpa mas está completamente enganada. É uma questão de coerência, e o PCP está a ser muitíssimo coerente. Os proprietários tradicionais são movidos pelo lucro, baseado na propriedade privada. Não se pode acusar o PCP de ser movido pelo lucro. O que move o PCP é o muito mais elevado princípio do desprezo pela propriedade privada. Vai ver que o próximo também se arruina num instantinho.
 
ZDQ Rules
O representante da civilização no Gato Fedorento, ZDQ, brinda-nos com um post que classifico desde já como O Post do Dia e sério candidato ao lugar de O Post do Ano.
 
Uma verdade simples (1)
O Aviz mencionou outro dia uma entrevista com Fareed Zakaria na revista brasileira Veja (a que infelizmente não consegui ter acesso porque esse acesso é pago). Logo por coincidência estava eu então a ler um livro de Zakaria recentemente publicado, The Future of Freedom. Acabei de o ler hoje e achei que merecia umas considerações.
O livro podia ser melhor do que é, mas mesmo assim vale a leitura. Tem como ponto de partida uma verdade simples: a democracia não é a mesma coisa que o liberalismo. Esta é uma oposição clássica da literatura sobre política. O grande problema de Tocqueville em meados do século XIX partia justamente desta oposição, a qual era inspirada na experiência de dois países. O problema de Tocqueville pode ser resumido mais ou menos assim: o que é que fazia com que os EUA fossem uma democracia liberal e a França da época (desde a revolução francesa) uma democracia não-liberal? Usando a mesma oposição e aplicando-a ao mundo de hoje Fareed Zakaria consegue extrair conclusões interessantes. Ele começa por uma constatação que só pode chocar quem não pense muito sobre o assunto: os regimes que servem de modelo ao mundo, as ditas democracias ocidentais, são tão democráticos como regimes que não são exemplo para ninguém (Venezuela, Rússia, Egipto, Zimbabwe, Peru, Autoridade Palestiniana, só para dar alguns exempos). O que os distingue é o facto de serem temperados por princípios liberais, os quais justamente escapam aos mecanismos democráticos. O segredo dos regimes em que vivemos é a junção dos dois princípios, o democrático e o liberal. Daí o nome.
Uma maneira de percebermos melhor isto é fazermos um thought experiment, que por passos graduais vai tornando clara a questão em causa:
1. Um regime como Cuba, o Iraque de Saddam, a Síria ou vários regimes africanos são tão democráticos como qualquer país ocidental. O que lhes falta não são mecanismos democráticos, o que lhes falta são mecanismos (propriamente liberais) de reconhecimento do direito à existência de partidos. Eis aqui uma primeira qualificação à democracia: para além do voto é necessária a protecção legal dos partidos políticos. Talvez este exemplo seja um bocadinho far fetched, mas eu disse que íamos lá gradualmente.
2. Imaginemos agora um regime que dá direito a voto e, para além disso, reconhece a existência de partidos diferentes. Mesmo assim, esse regime pode ser relativamente iliberal se não possuir mecanismos de protecção de funcionamento do mercado. Uma economia pode ser inteiramente pública e, apesar disso, estar associada a um regime democrático, não-liberal, mas democrático. Eis então outra qualificação que deve ser introduzida. Uma democracia liberal precisa de mecanismos legais que garantam a propriedade privada, o respeito por ela, o respeito pelos contratos, de maneira a ter um mercado funcional. O mercado está, e está muito bem, fora do âmbito da democracia. As decisões tomadas no seu âmbito não devem ser perturbadas pelas decisões que uma maioria transitória lhes possa querer impor. O mercado e as empresas são uma barreira à vontade de maiorias que transitoriamente dominem o poder político.
3. Imaginemos agora um regime que tem todas as coisas anteriores e não tem uma justiça independente. Pode, nesse caso, gerar-se um conluio entre os detentores do poder político e os detentores do poder económico, perfeitamente legitimado nas urnas. É contra isto que tem que existir uma justiça independente quer do poder político como do poder económico para que a liberdade esteja assegurada.
4. As democracias ocidentais têm isto e muito mais: protecção de certas minorias, independência do banco central, etc., etc.
Tem-se falado muito ultimamente da constituição europeia. Ora uma constituição é precisamente um conjunto de regras que, em nenhuma circunstância (excepto revisão constitucional), mesmo uma democracia (por mais que a maioria transitória o queira) não pode ultrapassar. Tudo isto sujeito à ideia de que democracias não qualificadas, democracias não corrigidas por princípios liberais, podem degenerar numa tirania da maioria. Os princípios liberais são essenciais para proteger as minorias da vontade das maiorias.
Quando olhamos para tudo isto percebemos porque é que os EUA continuam a ser a experiência mais feliz de uma democracia liberal. Porquê deixo para outra ocasião, porque já é tarde. Nessa ocasião tentarei ver porque é que os princípios liberais têm tão pouco enraizamento em Portugal. (continua) (não sei bem quando, mas continua…)

quinta-feira, julho 10, 2003
 
O Livro Verde
Há alguns anos atrás qualquer lar de esquerda que se prezasse tinha nas suas estantes o Livro Verde com os pensamentos do Presidente Mohamar Khadafi da Líbia. Tudo coisas muito revolucionárias e inspiradoras. O homem ainda por cima ajudava a tornar outro mundo possível financiando diversos grupos terroristas, entre os quais as nossas FP - 25 de Abril.
Deixo-vos agora, sem mais comentários, com a descrição da sua chegada ontem a Maputo para uma cimeira da União Africana (tenham em consideração que tudo isto se passa em África, o continente hoje em dia mais obscenamente afectado pela miséria):
Mohamar Khadafi chegou a Maputo num luxuoso Mercedes de seis portas, escoltado por viaturas blindadas que foram transportados em dois aviões cargueiros. O líder líbio gastou 13 milhões de dólares para reconstruir o Hotel Avenida, simplesmente porque tinha de ser de 5 estrelas. Podem ler mais aqui.
 
Fernando Henrique Cardoso
A propósito da sua visita a Portugal, não faltam na imprensa de hoje ditirambos, à direita e à esquerda, sobre Lula, o Presidente da República Federativa do Brasil. Eu também acho que ele tem tido um comportamento mais ou menos correcto desde que assumiu o cargo. Mas quando vemos bem, os ditirambos referem-se todos ao facto de Lula não ter rompido com a política financeira, monetária e económica do anterior presidente, Fernando Henrique Cardoso (por lá conhecido como FHC). Ora, se há herói político digno de menção no Brasil recente esse herói é FHC. O homem também veio da esquerda, tendo durante anos defendido os mais extraordinários dislates económicos da teoria da dependência. Assumiu a presidência e deitou para o caixote do lixo (donde, aliás, nunca deveria ter saído) a dita teoria. Os seus companheiros de antanho chamaram-lhe tudo. Cá em Portugal também se ouviam os mesmos mimos. Apesar disso desenvolveu um plano económico que em poucos anos fez com que a inflação baixasse de 3000% ao ano para coisas à volta dos 10%-15%. Este ataque à inflação tal como foi feito por FHC mostra uma outra grande qualidade do homem: a de não caír naquela esparrela que diz que controlar finanças é economicismo, sem qualquer valor social. No Brasil dos anos 80 um dos maiores problemas sociais era a inflação. A inflação (sobretudo inflação de 2000% e 3000% ao ano) é um extraordinário agente de redistribuição social, que por acaso prejudica quase sempre os mais pobres. A grande desigualdade social no Brasil de hoje é, não só (evidentemente) mas em boa parte, consequência de décadas de inflação àqueles níveis. FHC não resolveu os problemas todos do Brasil? Pois não, nem poderia, mas abriu caminho. Só a partir daquilo que ele fez se pode ir mais além. O mérito do Presidente Lula está em ter percebido isto. Não é nada mau, para quem vem de onde vem (bem podia ele vir cá dar uns cursos intensivos à nossa esquerda para ver se ela percebe algumas coisas básicas). Mas mais méritos estão por demonstrar. Esperemos que aplique noutros casos a mesma inteligência demonstrada neste (como, por exemplo, na questão dos sem-terra, sobre o qual aconselho um post d'O Intermitente). Entretanto, convém louvar quem o merece: FHC. A esquerda devia fazê-lo também, já que nunca, mas nunca, Lula seria eleito Presidente do Brasil sem a anterior política de FHC e sem a sua promessa de que a ia manter.
quarta-feira, julho 09, 2003
 
Mandela
Ao que parece Nelson Mandela recusa-se a receber a visita do presidente americano George Bush, segundo a notícia que li por estar em desacordo com a maneira como foi feita a intervenção militar americana no Iraque. Eu tenho (tinha?) muito respeito por Nelson Mandela, mas dia a dia os sinais que vai transmitindo deixam-me verdadeiramente triste. Nelson Mandela é, hoje em dia, um cidadão privado e concerteza que apenas recebe quem lhe apetece, não sendo obrigado a fazer coisas simplesmente determinadas pelo protocolo. Mas as suas atitudes são públicas e constitutem uma referência para muita gente. Seria bom para todo o continente africano que Nelson Mandela nunca mais recebesse nenhum dos muitos ditadores existentes por África. Pela lógica que o faz não receber George Bush, então se os recebe é porque deve estar de acordo com a maneira como fazem e desfazem guerras civis (para não falar na forma como pilham os seus povos). Para nos atermos apenas ao domínio das intervenções externas (onde é maior a crítica de Mandela a Bush), presume-se, por exemplo, que Nelson Mandela esteja de acordo com a maneira como Angola e o Zimbawe intervêm na guerra civil da República Democrática do Congo, na qual que se saiba até agora já morreram centenas de milhares de pessoas (sem uma única palavra de indignação das boas consciências ocidentais).
 
Tavira
Para quem não conhece a cidade mais bonita do Algarve e uma das mais bonitas de Portugal faça o favor de se regalar com uma fotografia de Tavira posta pelo Jaquinzinhos. Fiquei logo com imensas saudades... Mas em princípios de Agosto, primeiro, e princípios de Setembro, depois, lá estarei a ver aquela vista...
 
The Real Incredible Hulk
Tenho uma revelação a fazer. Não, não é sobre O Meu Pipi, mas sim sobre o verdadeiro Incrível Hulk. Tudo se baseia nas seguintes declarações de João Bosco Mota Amaral, Presidente da Assembleia da República: Estamos todos confrontados com os efeitos da globalização económica, que destruiu equilíbrios anteriores, precários e decerto recheados de injustiças, sem ter propiciado soluções melhores para muitas questões, nomeadamente a distribuição da riqueza em cada país e entre as nações, não sabendo ele se o problema reside na globalização em si mesma ou na fúria de um novo capitalismo selvagem, impulsionado à escala do planeta pela ideologia neoliberal, subtilmente imposta como pensamento único (podem ler o resto aqui).
Exacto, já perceberam: o Incrível Hulk afinal não é Bruce Banner, o cientista nuclear, mas Mota Amaral. Deixem-me recordar-vos brevemente a história do incrível Hulk tal como a conhecíamos até agora: Bruce Banner, cientista nuclear, ao tentar salvar um adolescente da emissão de radiações num teste atómico, é exposto a uma grande quantidade de radiações gama. A partir daí, de cada vez que perde o controle dos seus sentimentos, Banner deixa de ser o brilhante e delicado investigador nuclear para se transformar numa enorme criatura verde extraordinariamente forte e com uma inteligência reduzida praticamente aos instintos. As características da história mantêm-se inalteradas, mas as correcções são importantes: Bruce Banner afinal é Mota Amaral e o monstro não é verde mas vermelho.
 
Ler pela primeira vez: Nick Hornby
Haverá sempre quem vos diga que não é bem literatura, mas eu discordo. Acabei de ler há dias o seu último livro, que se chama How to be Good, e confirmei a impressão que me ficou da leitura de todos os outros seus livros anteriores: Nick Hornby é um excelente escritor, melhor do que muitos que ninguém duvida poder classifcar como Literatura.
Digo isto e ao mesmo tempo pergunto-me porquê. O que é que faz com que eu considere Nick Hornby um excelente escritor? (Bem, quem sou eu para decretar o que é um grande escritor? Ninguém. A não ser uma pessoa que já leu um bocado e consegue alinhar dois pensamentos seguidos) Obviamente, os seus livros são um good read (em português poderia ser: lêem-se bem). Mas de good reads está o mundo cheio, e daí não se infere que os seus autores sejam grandes escritores. Então o que é que faz com que este escritor na aparência light seja mais do que um mero good read? Pensei um bocadito e acho que encontrei qualquer coisa:
Em primeiro lugar é dos poucos escritores actuais que consegue dar uma dimensão romanesca e dramática aos gestos quotidianos do homem ocidental contemporâneo. Minto (eis aqui uma expressão que detesto, mas que achei ficava bem neste momento): há outro e chama-se Michel Houellbecq, mas a maneira como o faz é completamente diferente (talvez um dia poste sobre ele; para já, dele só tenho a aconselhar aquele que me parece ser o melhor romance do início do século XXI: Les Particules Élémentaires; foi escrito em 1998, mas é a primeira distopia do século XXI).
Seja como for, nos livros de Nick Hornby tudo se passa num mundo de classe média, dentro de casas banais e locais corriqueiros. Todas as acções são banais: as personagens conversam em casa, ouvem discos, vão ao cinema, ao restaurante, ao centro comercial e disto não saem. Tal qual como nós. E aqui está já um grande feito: hoje em dia temos a noção de que a nossa vida é tão banal que não é passível de adquirir uma dimensão dramática. No entanto, se pensarmos bem, o carácter dramático que as acções possam ter depende menos da sua qualidade intrínseca do que do sentido que se lhes pode atribuir. A guerra em si mesma é horrível enquanto acção humana, mas quando se lhe dá um sentido passa a ser empolgante: quem não podia ficar empolgado com as vitórias dos aliados na II Guerra Mundial? Estava-se a destruir Hitler. Mas as batalhas em si mesmas eram momentos certamente repugnantes.
E aqui está a segunda razão pela qual os livros de Nick Hornby são bons. Todas as suas histórias têm um carácter hagiográfico. Para quem n‹o se lembre, hagiografias são vidas de santos. As vidas de santos têm sempre uma estrutura simples: eis aqui uma criatura que peca abundantemente ou vive em permanente insatisfação consigo mesma, mas depois um dia tem uma revelação e regenera-se, redimindo-se ao tornar-se santo, equilibrado, feliz e capaz de milagres. As hagiografias de Nick Hornby não são bem assim. São um pouco mais amargas. Os heróis das suas histórias não se tornam santos neste sentido. Mas todos passam por um processo de redenção, depois de uma vida toda anterior carregada de infelicidade, agressividade, desinteresse, cinismo, vício. A redenção não faz com que eles se tornem santos. Faz simplesmente com que percebam que não há saída para a imperfeição da nossa vida. Todos eles perdem as anteriores características que os tornavam desagradáveis, mas não perdem a tensão que os fazia ter essas características. Todas as suas histórias são, portanto, histórias de coming of age. Os seus heróis são sempre tardo-adolescentes que querem coleccionar namoradas como coleccionam discos e não ficar com aquela namorada com que acabaram por ficar resignadamente ao fim de uns anos (High Fidelity); que são viciados em futebol, como substituto para alguma coisa incompleta nas suas vidas (Fever Pitch); que são cínicos incuráveis perante tudo na vida (About a Boy); ou que se acreditam tão virtuosos ao ponto de não serem capazes de maldade, sem perceberem o egoísmo existente nessa crença (How to be Good). Eles não se tornam santos, mas tal como os santos, no final dos livros de Nick Hornby, os seus heróis completam um círculo. As tensões resolvem-se e, em vez de pretenderem regressar a uma espécie de pureza inicial, resignam-se a aceitar as contradições e imperfeições do mundo tal como ele é.
OK, espero ter-vos convencido. Se não leram, vão lá dar mais uns tustos ao rapaz, que ele já tem muitos mas merece.
terça-feira, julho 08, 2003
 
Guardiães da democracia
Um dos sinais mais claros que alguém pode dar de que ainda não compreendeu bem o que é uma democracia, em particular uma democracia liberal, é passar o tempo a gritar que a democracia está ameaçada por isto ou por aquilo. Pois lá vem hoje Teresa de Sousa no Público com a conversa usual, desta vez a propósito de Berlusconi, supostamente incapaz de perceber as regras de funcionamento de um sistema democrático.
Eu gostava de perceber porquê. Por ter dito uma boutade de muito mau gosto? Boutades todos os políticos dizem quase todos os dias, umas são engraçadas, outras menos, outras não têm graça nenhuma. Cabe neste último caso a de Berlusconi. Mas daí a inferir-se incompreensão do que é a democracia vai um longo passo. Longo passo esse que me faz suspeitar ser Teresa de Sousa quem não sabe bem o que é uma democracia. Numa democracia o folclore retórico é aceitável e faz até parte das regras do jogo. Tem é que ser contido dentro de certos limites. Mas continua e continuará sempre a haver o risco de se ir além do que se deve, nomeadamente no domínio da ofensa pessoal. Ofender um adversário pode ser uma questão de educação ou cortesia, mas não é substancial em termos políticos, como o não foi a ofensa de Berlusconi.
Teresa de Sousa, pelo contrário, vem ao longo dos tempos dando vários sinais de incompreensão do que é uma democracia. Ela, por exemplo, acha a Constituição Europeia um passo positivo para a construção de uma Federação Europeia. Qualquer democrata e qualquer liberal deveria ficar muito preocupado com uma constituição que não menciona uma só vez que mecanismos vão estar na base da representação do povo europeu. Qualquer democrata e qualquer liberal deveria ficar muito preocupado com uma constituição que se dedica atarefadamente a descrever os poderes de cada órgão sobre que assentaria a federação europeia, sem apresentar uma única linha sobre a forma como esses poderes virão a ser limitados. O mesmo para a questão das representações dos estados e tradiçõees jurídicas e culturais nacionais. Se Teresa de Sousa é democrata e liberal devia estar era muito preocupada com isto.
A mesma incompreensão do que é a democracia se revela no facto de ela atribuir muito mais importância à boutade de Berlusconi do que ao ambiente de manifestação contra Berlusconi (note-se bem) feita pelos Eurodeputados dentro do próprio parlamento. Vamos lá a ver: um parlamento existe justamente para que as coisas não se resolvam por manifestções ou outras formas mais violentas de mobilização. A democracia é exactamente isso: contam-se as cabeças para um lado e para o outro, de maneira a que se saiba que lado tem mais apoiantes, evitando-se assim o recurso à violência de cada vez que se quer tratar de qualquer assunto. Quando se abandona os métodos tradicionais da retórica e da discussão viva mas limitada, aí sim é que se está a entrar em terreno anti-democrático. Vendo bem, a reacção de Berlusconi é muito mais aceitável do ponto de vista democrático do que o folclore de agit-prop protagonizado pelos deputados que a antecedeu.
 
Exmo. Comprometido Espectador
Gostava apenas de dizer aos rapazes d'O Complot que, caso tenham dúvidas sobre como se referir a mim, o façam dirigindo-se ao Exmo. Comprometido espectador.
segunda-feira, julho 07, 2003
 
I have a dream
Agora que o Extemporâneo André e eu começámos a fazer festinhas na cabeça um do outro, gostava de explicar porque é que nós, apesar das abissais diferenças políticas, nos damos bem. Porque, pelo menos na parte que me toca, a política (embora não pareça pelo teor geral deste blog) é apenas uma parcela menor da minha vida. Pelo menos na parte que me toca, isso é porque (como dizia o outro) eu tenho um sonho. Nesse sonho as pessoas não falam de política, mas de tudo e de nada: música, comida, o último namorado da Fernanda Serrano (é o Pedro Miguel Ramos, sabiam? Eh pá, eu não acredito, aquele coirão...), praias, crianças, comida (é verdade, já disse), depilação, centros comerciais, futebol, mulheres, livros, eu sei lá... Eu pratico bastante esse sonho. Durante uma boa parte do dia dou-me com muita gente quase rigorosamente apolítica e é disso que falo. Se querem que vos diga são essas coisas que eu acho realmente importantes. A política só aparece porque as quero manter exactamente assim: aparentemente vácuas, inúteis, só que essenciais para que (como dizia a minha avó Luísa) esta vida não seja um calvário.
 
Estudos Sobre o Comunismo, Where Art Thou?
Por falar em livralhada, saíu na anglosfera um tomo que toda a gente devia ter na sua estante. Esperou-se, durante anos, que uma senhora jornalista chamada Anne Applebaum (agora colunista do Washington Post, antes do Telegraph) editasse um livro chamado Gulag: A History. É só e apenas o relato definitivo da história dos campos de concentração soviéticos. Eu ainda não li, mas já encomendei, e as recensões, de que vos deixo aqui uma, insinuam que a espera não foi em vão.
A questão de porque é que o horror soviético (que levou o recenseador acima mencionado literalmente às lágrimas enquanto lia uma obra académica, cuja prosa é certamente pouco colorida) não padece da mesma má imprensa que o horror nazi, há-de permanecer um dos maiores mistérios do século XX. É curioso que se tenha dito durante muito tempo que os livros clássicos de Robert Conquest, The Great Terror e The Harvest of Sorrow eram obras de propaganda anti-comunista. Foram estes livros que estabeleceram o número de vinte milhões de mortos na URSS. E é verdade que as condições de acesso à informação quando os livros foram escritos eram muito más. A acusação de propaganda ainda podia ter alguma verosimilhança. Pois quanto mais se abrem os arquivos, mais se percebe que Conquest, ao contrário de exagerar, subestimou, por escrúpulo académico, o que em matéria de violência por lá se passou.
Que ignóbil mecanismo faz com que tudo isto continue numa espécie de limbo intelectual que não desaparece? As discussões que tenho sobre este assunto com muita gente de esquerda oscilam entre dois tipos de resposta. Uma é a do "correu mal": "sim, pá, não se pode negar, houve ali qualquer coisa que correu mal". É do tipo: eu estou com um Black & Decker a fazer um furo na parede, engano-me um centímetro e digo: "eh pá, houve aqui qualquer coisa que correu mal". "Pois, pá, vinte milhões de mortos... aquilo correu mal". A outra é do tipo "já passou": "pois aqueles tipos eram horríveis, mas já passou, agora é seguir em frente". É do tipo: "ontem tive uma unha encravada, mas pronto, agora já passou". "Correu mal"? "Já passou"? E que tal pensar um bocado sobre o assunto?
No ano dos Blair, Jayson, Tony e Eric (também conhecido por George Orwell), mais do que os livros deste último que se diz ajudam a entender o horror comunista (1984 e Animal Farm), eu prefiro um outro mais difícil mas também mais ilustrativo, Darkness at Noon, de Arthur Koestler. Aí percebe-se porque é que nos processos de Moscovo (uma extraordinária fraude em termos judiciários) todos se confessavam facilmente como culpados de serem "espiões" ou "agentes da contra-revolução". Confessavam, porque se sentiam mesmo culpados. Já não sabiam se culpados daquilo que os acusavam, se culpados do comunismo em que tinham acreditado e agora os levava a uma morte sem glória. De qualquer maneira eram culpados, e preferiam morrer.
Ó Estudos Sobre o Comunismo, vamos lá a fazer o update e pôr lá o calhamço da senhora Applebaum.
 
Inveja
Os relatos do jantar da UBL deixaram-me cheio de inveja por não ter participado. Eu vetava o restaurante: já lá fui três vezes por razões profissionais e, peço desculpa, mas prontos, não gosto daquilo. Acho que é uma casa que trabalha mal. Mas o resto pareceu-me bem (para descrições começem aqui, por cavalheirismo, e depois sigam os links). Para além de que os rapazes vêm furiosos para blogar e cheios de piada. O que não faz um bom jantar para aliviar da livralhada que um tipo todos os dias enfia na cabeça...
domingo, julho 06, 2003
 
Tudo isto é kanimambo
Durante algum tempo alimentei a esperança de que a África do Sul seria diferente do resto de África. Hoje já não acredito nisso. Estou cada vez mais convencido de que aquilo que aconteceu e continua a acontecer no Zimbawe não é senão o prenúncio daquilo que virá a acontecer por lá.
Num continente entregue à cleptocracia dos seus dirigentes e ao racismo inter-tribal e contra os brancos, a África do Sul de Mandela parecia um óasis. Mas agora que vemos o próprio Mandela perguntar-se se os Estados Unidos (com dois negros em lugares de destaque na sua administração) não ligam à ONU porque a ONU é dirigida por um negro; que vemos o presidente Mbeki impedir o tratamento da SIDA (que mata em números atrozes na África do Sul) por medicina convencional, em nome das mezinhas locais e de não sei que outros disparates; que vemos o aparecimento de uma elite negra exclusivista face ao resto da população negra; que vemos um conluio cada vez maior entre dirigentes políticos e agentes económicos; que vemos o assassinato de brancos desculpado em nome de terem sido supostos beneficiários do Apartheid; tenho muitas dúvidas. Isto a propósito da notícia de um novo contrato do petróleo em São Tomé, que mostra a cleptocracia in action, e de dois excelentes artigos, um na Spectator desta semana, outro na Prospect do mês passado, sobre como se sentem hoje os brancos que lutaram contra o Apartheid (leiam-nos bem, a sério).
 
Pilharam-no, não foi?
Parece que reabriu ontem o Museu de Bagdad, a jóia da coroa do regime amante da cultura que era o Iraque Baathista, o qual apenas pretendia destruir os sítios arqueológicos do Vale de Assur porque a sua beleza era tão grande que os humanos não eram dignos de a ver. O Público fez manchetes sobre o famoso crime do século que foi a sua pilhagem. Remete agora a notícia da reabertura lá para os fundos da edição de ontem. Edição nos jornais? Hm, hm, estou a ver.
Apesar de tudo, apraz-me registar que o texto incorpora um dado oferecido em primeira mão em Portugal pelo Comprometido Espectador (ou terá sido o Valete?): que das 170.000 peças supostamente desaparecidas, só 32 estão agora por encontrar.

 
Andam para aí a tramar qualquer coisa
Os homens d'O Complot, para além de outras actividades undeground que conheço mas não vou revelar, perguntam por edições de uns quantos livros. Eu posso dizer que tenho aqui em casa um Road to Serfdom, de uma editora inglesa chamada Routledge, que é uma reimpressão de 2000 do paperback original da mesma Routledge de 1962. Tradução portuguesa, que eu saiba, não há. Compreende-se, trata-se de um livrito menor de um autor medíocre. Quem precisa de ler Hayek num país, como o nosso, carregadinho de notáveis filósofos e economistas?
 
Um amigo na blogosfera
Tenho mais um amigo na blogosfera. Chama-se André Belo e mantém, do Soviete de Paris, um blog chamado O Extemporâneo. Eu digo-vos uma coisa sobre o André: ele tem. Tem jeito e esperto-no-cabeça. Portanto, peço-vos desculpa, mas vão ter que acrescentar outro endereço que vos fará perder ainda mais tempo do que já perdem a ver blogs.
O André e eu temos (entre outras) uma coisa em comum: somos bloggers de longa data. Talvez fosse melhor dizer pré-bloggers. Fazemos parte há quatro anos de uma lista de discussão (hoje um pouco moribunda) que, nos seus melhores dias, se pareceu bastante com a blogosfera, nomeadamente no desvario de discussão, disparate e polémica que teve. Nessa lista fiz sempre um papel divertido, que era o do "direitolas" de serviço. Eles são todos (incluindo o André, e outro recém-chegado à blogosfera, o surfista soixantehuitard Ivan Nunes) "esquerdolas". De maneira que o ambiente da lista era mais ou menos a de um Blog de Esquerda cum João Pereira Coutinho. O João Pereira Coutinho (salvo seja) era eu (durante algum tempo um outro amigo chamado Pedro Oliveira ajudava-me na minha missão civilizacional, mas agora curou-se desta sarna horrível que continua agarrada à minha pele, o liberalismo). Atenção, eu tenho a agressividade de um caniche ao pé do João Pereira Coutinho. Sou um verdadeiro peacenick, mas naquele ambiente as minhas intervenções geravam sempre discussão. Bem, se querem saber mais visitem o André, que ele conta mais umas coisas.
Tenho ainda a acrescentar que o André menciona os membros dessa lista que mantêm hoje blogs, esquecendo-se de mencionar um: o da Marta Amaral, que, juntamente com a Lucy Pepper, mantém o único blog bilingue (inglês e português) que me lembre. Até parece que o André é sexista...
sexta-feira, julho 04, 2003
 
Will they ever learn?
A UNESCO classificou o Vale de Assur no Iraque como património da humanidade, e coloca-o na categoria do património ameaçado (link). O Vale de Assur está ameaçado pelo projecto de construção de uma barragem vindo do tempo de Saddam e suspenso pela actual administração anglo-americana. Entrevistado sobre o assunto o nosso distinto arqueólogo Cláudio Torres tem apenas para dizer o seguinte: Serve principalmente para alertar as tropas ocupantes que há milhares de sítios arqueológicos (...) perfeitamente a saque. Simbolicamente a ONU responsabiliza o país ocupante (...) por um património que é de todos. Tem uma leitura política evidente. Pois tem, Cláudio Torres: tem que uma barragem que ia ser feita por Saddam e destruir vários sítios arqueológicos pode vir a não ser feita, e tem que se não fosse a libertação do Iraque o Vale de Assur nunca seria classificado como património da humanidade, porque as autoridades iraquianas nunca pediriam essa classificação. Eu tento perceber, mas não consigo: porquê tanta má-fé?
 
Gay Pride
Segundo o Público o Pico Será Classificado em 2004. Eis um novo combate para a causa gay & lésbica: classificar o Pico desde já. O mote está dado para a Gay Parade da rentrée de férias.

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