O Comprometido Espectador
domingo, agosto 31, 2003
 
Street Fighting Man
Parece que se vão reunir este fim-de-semana em Almada vários dirigentes de partidos comunistas europeus. Consta que a venue é um carinhoso estabelecimento que dá pelo nome de O Solar do Idoso. O evento será rematado com um espectáculo propiciado por um grupo do tempo dos circunstantes. Andam para aí a dizer que os Rolling Stones vão tocar a Coimbra. Pois o Espectador está em condições de asseverar que é mentira. Essas jovens promessas do rock têm é encontro marcado com o seu público amanhã no Auditório 1 do Solar do Idoso.
 
Movimento dos sem-ideias
As mais notáveis ideias brotam do Largo do Rato a uma velocidade estonteante. Uma das mais recentes vem hoje na imprensa e é aquela que pede uma "reforma agrária" no Alentejo. Para quem não saiba "reforma agrária" no Alentejo é algo que alguém periodicamente pede em Portugal desde sensivelmente o século XVIII. Não sei se é uma ideia com futuro, mas de uma coisa podemos estar seguros: é certamente uma ideia com passado. Talvez por isso, Ferro "Inácio Lula" Rodrigues (que tanto ultimamente se tem inspirado em ideias do passado) a ela regressa com a maior das pertinências. Muito bem: seta para cima, está em grande (re)forma.
 
Acção Socialista
Venho por este meio propor à direcção do jornal Público que a sua famosa coluna "Sobe e Desce" (não tem link) passe a ter nova designação. A minha proposta é que se passe a chamar "Acção Socialista", de tal maneira parece um recorte do célebre órgão de imprensa socialista. Por um lado, (surprise, surprise) Paulo Portas aparece com a seta para baixo. A seta de Paulo Portas nesta secção do jornal já esteve tantas vezes para baixo que nesta altura ele já deve estar na Austrália a tentar salvar diabos da Tasmânia. Depois, Manuela Ferreira Leite também é brindada com a sua seta descendente. A sua presença nesta circunstância é menos assídua, mas é bom ver os seus esforços reconhecidos. Finalmente, Ferro "bang the fascist" Rodrigues é o único com a setinha para cima. Depois de uma das mais deprimentes rentrées (como é de bom tom chamá-la) de que há memória (já sabem: a "direita radical", o "neofascismo" e outras pérolas políticas), o líder do Rato tem direito à sua flechita erecta. Aposto que havemos de o ver a perder as próximas eleições e a seta, orgulhosa e firme, permanecendo na mesma posição.
 
Bad trip
Viram tão bem como eu este sábado mais uma notável peça de jornalismo de investigação com que o jornal Expresso nos decidiu brindar. Segundo essa nota antológica, depois da mais científica das avaliações, o nosso jornal de referência conclui que 45% das notas em circulação contém vestígios de cocaína. Há aqui desde já um louvor a fazer ao serviço público que dealers e consumidores prestam ao país: afinal todos temos uma probabilidade razoavelmente elevada de consumir um bem tão agradável mas ao mesmo tempo tão caro. Depois, continuando a seguir a notícia, verificamos que ela abre pistas muito relevantes para a compreensão do problema da produtividade em Portugal. É que, segundo a mesma aprofundada investigação, esta percentagem de vestígios de cocaína é baixa à escala europeia, sendo incomensuravelmente maior em Espanha e na Alemanha. Ora aí está: de cada vez que vão ao multibanco espanhóis e alemães saem de lá que parecem outros, prontos a dispender mais umas frenéticas horas de trabalho. Vamos lá, malta do ramo, toca a convergir para os níveis europeus.
Mas O Comprometido Espectador não se contenta com comentar notícias e faz, ele próprio, a notícia. Numa criteriosa investigação, culminada com uma análise num laboratório químico afegão, o Espectador está em condições de revelar que 90% das páginas do Expresso contém LSD. Ora isso explica muito do delírio que por ali se lê. O Expresso está claramente a entrar numa viagem. E pelo que se pode ver é uma má viagem.
sábado, agosto 30, 2003
 
Bibliofilia
Já nem me lembrava do livro citado pelo Homem a Dias e pelo Terras do Nunca. Mas afinal também está cá em casa e é meu. A minha também é a versão de 1974 com o Elvis na capa. Nunca li, portanto, o tal "ensaio" do MEC.
Pedido de desculpas bibliófilo ao Homem a Dias.
 
A ponta Michael J. Fox
Tenho três séries televisivas que estão na mesma categoria do "meu MEC". Esqueçam Seinfeld, os X-Files, Six Feet Under ou os Sopranos. Eu falo-vos de Fawlty Towers, All in the Family (Archie Bunker, o Meat Head, etc.) e Family Ties. Pois por um daqueles incompreensíveis milagres de vez em quando há uma qualquer televisão nacional que se lembra de passar o Family Ties. Neste momento dá todos os dias na SIC Gold algures entre a meia-noite e a uma e meia da manhã. Quando posso lá estou em frente à televisão. O básico da situação em poucas palavras, para quem não se lembra: pais que em tempos foram hippies, são agora profissionais de sucesso mas caring. Vivem num típico subúrbio americano e têm três (depois quatro) filhos, dois dos quais dos mais notáveis cromos que a televisão alguma vez criou: Alex (precisamente Michael J. Fox) e Mallory. Alex um yuppie em potência, admirador de Nixon e Reagan, Mallory uma rapariga muito gira mas muito lenta, completamente viciada no mall (o shopping lá do sítio) e com um inenarrável namorado (Nick) incapaz de alinhar duas palavras seguidas. Aos autores da série bastou-lhes pensarem bem as personagens. O resto da série fez-se por si mesma, dos naturais conflitos que esta colecção de criaturas gera.
Pois eu nunca vi Michael J. Fox tão bem como no papel de Alex (devo estar enganado, por ignorância, mas não me lembro de nada tão engraçado feito por ele). E o Alex também é uma espécie de o "meu MEC": há décadas que espero uma personagem de televisão assim.
 
A ponta MEC
Como quase toda a gente da minha geração, também eu (lá terá que ser) tenho "o meu MEC". Pois o meu MEC é o early-MEC, o MEC das críticas de música no Se7e (assim mesmo com o 7 no meio). Eu esperava todas as semanas ansiosamente que o Se7e saísse para ir logo a correr ler a coluna do MEC. O MEC do Expresso já não é o meu MEC. Nem o MEC do Independente, nem o dos romances, nem o da Noite da Má-Língua. Estes últimos MECs são nuns casos bons ou importantes, noutros maus, mas eu tenho desde 1982 saudades do meu MEC. Ora, o livro a que o Homem se refere está cá em casa (por acaso é da consorte) e chama-se Escrítica Pop e é de 1982 (não de 1981) e não tem o Mick Jagger na capa mas o Ian Curtis. Esse livrinho deveria ser de leitura obrigatória no ensino básico, secundário e universitário. Quem não o conhece, se o ler agora talvez consiga aproximar-se do que eu sentia à época. Mas não vai conseguir se não estava lá. Ninguém já se lembra muito bem do que é que era o Portugal do princípio dos anos 80: a música que se ouvia, a roupa que se vestia, o mais rasteiro conformismo intelectual. O MEC do Se7e é o Herman da segunda metade dos anos 80 e o Vasco Pulido Valente dos anos 70 e 80. O MEC do Expresso é já um bocado o Herman do Parabéns e do Herman SIC. Para mim, nunca mais houve um MEC, nem sequer simplesmente outro mec (francês para gajo) qualquer, como esse MEC.
Já agora transcrevo partes do que esse MEC à época disse sobre Frank Sinatra e ligam-se assim duas pontas:

Se, ao contrário do que dizia Salazar, Deus, a Pátria e a Autoridade podem discutir-se, a verdade é que Frank Sinatra não. […] E a crítica? Crítica?! Há certas coisas, o mais parecidas possível com o delírio amoroso, que estão acima da crítica. Sinatra é aquilo que temos que mais se aproxima de uma verdade absoluta e, escasseando estas, quem é o crítico que tem a lata e frieza bastantes para não deixar de sê-lo logo à primeira nota? Dizer que Sinatra se limita a cantar canções alheias é um pouco como dizer que o mal das pinturas de Rembrandt é estarem sempre tão mal iluminadas, ou que é pena Camões nunca ter escrito um soneto à beira do rio Vouga.
Este Sinatra não se discute. E diz quem sabe que Salazar, quando escrevu aquela absurda frase, estava evidentemente a ouvir um disco de Sinatra…

 
Temos Homem
A mais recente contribuição do Homem a Dias para a polémica/discussão Joni Mitchell tem tanta ponta por onde se lhe pegue que não sei por qual delas começar. Vou pegar nalgumas dessas pontas esquecendo outras, para não tornar este um post interminável.
A ponta Canadá: Não é por esta ponta que vou passar a "detestar" o Homem. Eu gosto muito de colónias simpáticas, e o Canadá é uma eterna colónia simpática (primeiro britânica, agora americana, primeiro colónia política, agora colónia cultural). Mas o Canadá também é um símbolo. A minha gracinha sobre o Canadá nasceu de duas coisas. A primeira é que o Canadá é um daqueles países (a Noruega é outro exemplo) que aparecem sempre no topo de certos índices da ONU, como o Índice de Desenvolvimento Humano ou qualquer outro índice de bem estar, e a mim irritam-me países dos quais nunca se fala a não ser nessas celebrações estatísticas. Diz-se que tem um óptimo serviço hospitalar público e isso (como se viu nas últimas semanas) irrita-me. Diz-se que é um país caring e isso também me irrita. Que é um país todo welfare state, etc. O Michael Moore no Bowling for Columbine (e muita gente como ele) para dizer mal dos EUA a única coisa que encontrou foi dizer bem do Canadá. Estou um bocadinho farto do Canadá e das suas proezas sociais.
A segunda coisa de que nasceu a gracinha é que aprendi com uns amigos meus americanos a gozar com o Canadá, um pouco como os franceses gozam com os belgas, os alemães com os polacos, os brasilerios com os portugueses e nós com os alentejanos. O famoso hino de que o Homem tanto gosta tem até uma letra nos EUA, que não se me alembra exactamente como é agora, mas cujo sentido é do tipo: "ah, quem me dera ser americano e largar esta espelunca".
Dito isto, nunca fui ao Canadá mas muito gostaria de ir. Deve ser um país lindíssimo e compro inteirinha a propaganda que o Homem faz. Eu também só quis fazer uma piada mais ou menos anódina.
A ponta folk: há aqui várias coisas. Há coisas que estão para além do folk e do não-folk. Bob Dylan é uma delas. Eu nem sequer preciso do Blonde on Blonde para justificar a devoção: para mim vai tudo, do Freewheelin' ao Blood on the Tracks (daqui para a frente é que é pior, embora ainda haja coisas…). Quanto ao Tim Buckley já foi coisa a que achei mais graça e quando chegamos ao Tim Hardin começamos a resvalar para um terreno um pouco menos sustentável. Eu ouço e gosto, mas depois começa a fartar. Mas, pronto, peço desculpa por desmenti-lo, caro Homem: gostos não se discutem. De qualquer maneira estou mais do que disposto a perdoar pecadilhos folk a quem tem outros pergaminhos.
A ponta Sinatra: esqueço as pontas "Cohen" e "letras da Joni" porque não largávamos o teclado por uma semana e poderíamos até chegar à violência física. Mas há outra ponta que aparece sorrateira no post do Homem, que é a ponta Sinatra, que também me levaria à violência física. Seria aqui que eu poderia passar a "detestar" o Homem. A ver se nos entendemos: não há Sinatra de elevador e (para citar o inventor da blogosfera) ponto. Mesmo quando parece, Sinatra nunca é de elevador. Eu só posso tolerar que o Homem diga que Sinatra é de elevador (mesmo se ocasionalmente e mesmo se antecedido do qualificativo "genial") se ele me demonstrar o seu irreprimível enlevo por elevadores. Eu digo-vos uma coisa: se me perguntassem qual era A Personalidade do século XX eu respondia sem hesitar Frank Sinatra. Quais Churchill quais Einstein, o Ol' Blue Eyes chega para eles todos. Estou há muito tempo para fazer um post sobre Sinatra a título de efeméride (faz este ano cinco anos que ele morreu), mas tem-me faltado a coragem: não posso ser curto e não posso ser banal, mesmo se amanhã ninguém aqui na blogosfera se lembre já do que escrevi (ele lá em cima está a ler). É aqui que exijo explicações sob pena de conflito diplomático.
A ponta João Gilberto: aparece muito brevemente; remeto para este post que escrevi já no paleolítico superior.
Sobram duas pontas que trato em posts separados: a "ponta MEC" e a "ponta Michael J. Fox".
sexta-feira, agosto 29, 2003
 
Bug, bug, buggers
Um bug informático, o bug do trabalho e os posts que hoje práqui verti ou quis verter desapareceram, engolidos pelo éter e pelo stress. A ver se mais logo à noite consigo abastecer o bichano.
Entretanto consegui concretizar parte de uma das promessas feitas no meu primeiro retorno de férias: construir uma primeira e tosca versão da minha página internet académica. O link não será feito hoje graças aos tradicionais impedimentos burocráticos que caracterizam a função pública pátria. Terão que esperar pelo meu segundo retorno de férias, lá para meados de Setembro. Bye now.
quinta-feira, agosto 28, 2003
 
Adenda ao Homem a Dias
Tenho a acrescentar a todos os defeitos de Joni Mitchell apresentados pelo Homem a Dias mais um: o de ser canadiana. Quanto ao resto não podia estar mais de acordo. Mas escolhia outros discos. Blue é bom mas é da fase folk, assim como outro bom, Clouds (que se bem me lembro tem o lindíssimo The Circle Game). Mas eu sou mais da fase jazzie: The Hissing of Summer Lawns, Don Juan's Reckless Daughter, Hejira (onde creio esteja uma das canções que mais vezes ouvi na vida: Refuge of the Roads), Mingus e a particpação dela no The Last Waltz, com Coyote. Tudo coisas com as quais não se brinca (a música; as letras são lamentáveis). A partir daqui nunca mais fez um disco de jeito e o ano passado (paz à sua alma) retirou-se. Fez bem. O Paul McCartney devia ter feito o mesmo em 1970.
Estão vocês a pensar: "mas este tipo é um maluquinho da Joni Mitchell!". Talvez vocês não saibam, mas eu e ela vivemos grandes dias juntos. Tocámos guitarra junto ao rio, fumámos uns charros, manifestámo-nos pelos direitos civis, contra a guerra do Vietname e o Presidente Nixon. Eu lembro-me como se fosse hoje. Ela creio que não se chegou aperceber disso.
 
What makes the blogosphere tilt
Desculpem a minha ingenuidade, mas ainda não consegui perceber bem what makes the blogosphere tilt. O meu post sobre a tragédia do verão francês foi obviamente feito para chocar e provocar. Mas já escrevi coisas mais elaboradas, mais pensadas, se calhar mais chocantes e com ideias que considero melhores, as quais enfrentaram o mais fundo silêncio dos meus colegas bloggers. Esse post, no entanto, foi furiosamente citado por muitos blogs que aprecio (o Homem a Dias, o Veto Político, o Valete Fratres! e o Aviz, que me lembre). São insondáveis os desígnios da blogosfera.
Mas já que mereceu tanto comentário gostava só de acrescentar mais qualquer coisa sobre ele. Em quase todas as coisas que escrevo aqui no blog há um subtexto, o qual espero que os leitores apanhem. Muitas vezes não apanham, seja por culpa deles, seja por culpa minha. Raramente os posts que escrevo são só e apenas aquilo que se lê. Pretendem dizer algo mais. Como disse, isto nem sempre é muito conseguido.
No caso daquele post, passo a explicitar o subtexto:
1) Era um pequeno exercício à maneira da Guerra Fria: "Ah! A Europa é assim tão boa e os EUA assim tão maus, pois tomem lá esta". Esta parte tinha interesse na medida em que, como também aqui já disse, ultimamente tem-se regressado a um certo tipo de idiotia característico da Guerra Fria, opondo as façanhas superficiais dos dois lados em contenda. O exemplo mais recente disso foi o famoso apagão americano. Esta ideia todos os bloggers que reajiram apanharam.
2) Era uma nota sobre uma certa crueldade característica não só da França, mas de todo o lado. Claro que por trás disto também estava a reacção implícita a outra idiotia recente que tende a opor o "humanismo europeu" à "selvajaria americana". Esta foi apanhada pelo Francisco José Viegas, de uma maneira peculiar, que o levou a escrever um post que eu seria incapaz de escrever (não porque não goste do estilo, mas simplesmente porque não sou capaz de o fazer).
3) Era uma tentativa para fazer pensar sobre o tema da desresponsabilização dos indivíduos nas sociedades europeias. E isto é que já não foi (pelo menos aparentemente) apanhado por ninguém. A desresponsabilização dos indivíduos nas sociedades europeias tem como origem o welfare state. O Estado na Europa é enorme (metade da economia é comida em impostos e redistribuída em despesa pública) e é um substituto para o mercado e as famílias. O caso dos velhos não-reclamados é apenas uma instância clara disto mesmo: as famílias não têm que se preocupar, não vale a pena interromper as férias, alguém vai tratar do assunto. Nisto, como no emprego, na segurança social e muitas outras coisas, o welfare state gera criancinhas irresponsáveis, que não gostam de ter chatices e fazem birra quando lhes tiram os brinquedos. E como quaisquer criancinhas mal-educadas, estas criaturas do estado de bem-estar são os mais cruéis dos monstros.
 
Thesiger
Morreu Wilfred Thesiger, um dos mais notáveis aventureiros e escritores de viagens do século XX. Thesiger foi provavelmente um dos últimos pioneiros da terra: passou por alguns dos últimos sítios não cartografados do planeta (no chamado Empty Quarter, na Península Arábica). Não vale a pena estar a pôr aqui grandes detalhes biográficos, que se podem obter muito melhor, por exemplo, aqui neste obituário do Telegraph (mas também no Público). Dele li os dois clássicos Arabian Sands (com episódios na Abissínia, mas sobretudo relatando a travessia da Eirtreia e do Empty Quarter) e The Marsh Arabs (quase integralmente passado entre os árabes xiitas dos pântanos do sul do Iraque), e li ainda uma biografia por Michael Asher, Thesiger: A Biography. Como sempre, a morte é um bom pretexto para os que os não leram irem comprar. E se ainda vão de férias (como eu para a semana) aí têm boa (e compulsiva) leitura.
Thesiger faz parte de uma certa categoria de pessoas muito característica de povos imperiais: aqueles que, como nós dizemos, se "cafrealizam" em África. Tanto se deixam fascinar pelos povos sobre que exercem autoridade política que acabam mimetizando-os.
Mas ele é igualmente, ao mesmo tempo, uma personagem tipicamente inglesa (que T.E.Lawrence também exemplifica): aquilo a que se costuma chamar o "excêntrico inglês". Uma espécie de maníaco que desafia as convenções, mas sempre dentro de um código de boa educação e gentlemanhood vitoriana que o tornam ao mesmo tempo aceitável na sociedade respeitável, mas também visto com o fascínio (semi-horrorizado) do exotismo. Nasceu de uma família aristocrática e foi educado em Eton. São extraordinárias as passagens do livro de Asher onde se descreve a típica educação aristocrática de Eton: uma mistura de ascetismo e culto da virilidade, apenas complementados por algumas letras e uns poucos números.
Estamos habituados a livros de viagens com "mensagem": Chatwin (menos do que outros, mas também um bocadinho) ou Sepulveda. Thesiger não tem mensagem nenhuma. Os livros são relatos de feitos heróicos em terras inabitáveis. Thesiger queria conhecer essas terras e tornar-se amigo dos que nelas viviam. Viajou sempre como eles o faziam, praticamente sem ajuda do "mundo civilizado". Quis experimentar o que eles experimentavam e fazer amizades under hardship.
Para o fim da vida começou a fazer uma filosofices reaccionárias sobre o declínio da civilização e-coisa-e-tal muito do agrado dos new agers. Não liguem muito a esses sinais de senilidade e idiotice aristocrática. Leiam os livros e vão ver que não se arrependem.

 
Eloquência
Eis aqui o mais eloquente dos blogs.
quarta-feira, agosto 27, 2003
 
Time warp
Vi ontem, num dos inúmeros canais de música que abundam na TV Cabo, um video clip muito recente opondo Nena (Ninety Nine Red Balloons) a Kim Wilde (Kids in America), intitulado, salvo erro, Anytime, Anyplace, Anywhere, ou então Anyway, Anyhow, Anymore... não consigo precisar agora. Era something, anything, anyway. As moças aparecem mais jovens do que nos seus gloriosos dias dos anos 80, apesar da música soar ainda mais velha do que nessa década. Mas o que mais me chocou não foi isso. O que mais me chocou foi a vergonha com que vi o videoclip. Como foi possível? OK, eu nunca gostei das duas moças em causa, mas o nobre propósito de obter reciprocidade sentimental e sensorial com jovens do sexo oposto obirgava-me a tragar coisas do género. Não é só a música. São elas, mesmo... Como foi possível? Repito. Os da actual geração não terão estes problemas. A música há-de, provavelmente, os envergonhar ainda mais. Mas já no aspecto das meninas, não tenho dúvidas em classificar a minha como uma geração perdida. Nós tinhamos Kim Wilde, Nena, Sandra, Sabrina, Samantha Fox e Kylie Minogue com 12 anos de idade. Eles é verdade que também têm Cristina Aguilera, Mariah Carey e Alanis Morissette, mas têm Britney Spears, Beyoncé, Lil' Kim, Sheryl Crow as meninas das All Saints, as meninas Corrs, Faith Hill e Kylie Minogue com 35 anos de idade. É verdade que não faz o melhor panteão do mundo, mas comparem lá com o nosso...
 
Foram mais ou menos os mesmos
Ontem no Telejornal da SIC o jornalista que relatava não sei que mais outro episódio ocorrido no Iraque estabelecia o "balanço oficial" (assim mesmo) de vítimas da guerra (da guerra propriamente dita, não do que se tem passado agora) em 2.000 militares e 8.000 civis iraquianos.
Eu desconheço qualquer "balanço oficial" de quem quer que seja (excepto o do Comical Ali no dia em que afirmava a pés juntos que os americanos não estavam em Bagdad ao mesmo tempo que atrás se via um tanque americano nas ruas da cidade: nessa altura os números eram da ordem das centenas, salvo erro). Duvido que exista, mas até pode existir. Não sei bem sequer o que é que pode ser considerado "oficial" neste contexto. São contas do governo americano? Do Britânico? Do Centcom? De qualquer outro país? O que conheço são contagens feitas por organizações movidas por motivos políticos e não pelo desejo de rigor estatístico. E mesmo essas contas variam muito.
Enfim. Já se sabe o que é a casa gasta. Mas mesmo assim, em rigor vos digo, que, a acreditar nos "números oficiais", o exército americano mata mais ou menos o mesmo que os hospitais franceses.
 
Rentrez chez vous (francês para go home)
O ataque terrorista contra as tropas francesas na Costa do Marfim mostra a raiva do povo marfinense (?) contra a brutal ocupação do seu território. Era previsível: a França imaginou que as suas tropas seriam recebidas ali como "libertadoras", mas está agora a sentir o verdadeiro espírito de resistência do povo daquele país. É evidente a todos que a Costa do Marfim entrou no caos desde que as tropas francesas ali estacionaram. O acto de ontem mostra claramente a responsabilidade francesa no descontrolo do país. Talvez seja tempo de Paris reconhecer a sua incapacidade para "fazer a paz" na Costa do Marfim. O regresso a casa é certamente a mais correcta das medidas.

 
Marketing político: a "teoria do bruxedo"
Com toda a solenidade dirijo esta sugestão à direcção do PS. Já viram na imprensa (e na blogosfera, incluindo o Espectador, que também fez uma graçinha com isso) que essa história do fascista Paulo Portas não pega. Creio muito honestamente que a "teoria da cabala" também já foi chão que deu uvas. Mas tenho aqui uma alternativa à mão que penso vos pode ajudar. Foi uma iluminação (chamemos-lhe divina) que tive ao ler que Kumba Ialá se considera "vítima de bruxedo" (warning: isto não é uma piada), neste caso a ele dirigida entre outros por Mário Soares. Pronto: a coisa fica em casa. Soares já domina a técnica e, portanto, podem falar numa posição de autoridade: afinal, a direcção do PS está a ser vítima não de uma cabala mas de "feitiçaria". Eu apresto-me a servir como testemunha e jurar a pés juntos que vi hoje ali para a zona do Portinho da Arrábida (onde passei o dia) um boneco muito parecido com Ferro Rodrigues todos espetadinho com alfinetes vudu.
 
República Centro-Europeia
Desculpem o regresso mórbido, mas os 10.000 mortos em França num só mês correspondem áquilo que com toda a propriedade se poderia chamar (no belo ajudês dos nossos dias) uma "catástrofe humanitária". Creio que nem sequer a República Centro-Africana terá batido semelhante record. Invocando o meu amigo Mark Steyn: AMI, Médecins Sans Frontiéres, OXFAM, Cruz Vermelha, onde estão vocês quando são precisos? Larguem o Iraque, isso já deu. Quero ver os vossos carros com as vossas bandeirinhas a calcorrearem a Provence, a Ile-de-France e a Borgonha. Quero ver-vos abrir contas de solidariedade. Quero ver-vos a falarem, compreensivos, com os indígenas, entregando-lhes saquinhos azuis com um kit médico (compressas, álcool e supositórios Benurom), uma baguete, uma lata de feijões e uma garrafinha de água. Estamos na era da flexibilidade. Têm que ser mais rápidos. Deixem as zonas que vivem problemas menores de mortalidade e acorram onde a tragédia é real.
 
O Comprometido Espectador errou
Dois atentos, simpáticos e concordantes (comigo) leitores avisam-me que me enganei. Os soldados americanos mortos no Vietname foram 50.000. Isto prova várias coisas: uma, que é preciso muito cuidadinho - anda por aí muita gente culta e informada que não engole qualquer patranha; outra, que os meus leitores são mais cultos que eu. Um dos leitores até me sugere que eu faça a ressalva de que se os números forem considerados em termos de média anual passo a estar certo. Muítissimo obrigado, mas não faço a ressalva: confiei na memória, enganei-me mesmo e acabou-se.
Seja como for, apesar deste erro de natureza enciclopédica, o resto está certo: é como diz outro dos leitores, "sentir-me-ia mais seguro em Bagdad este Verão [com muito mais calor] do que em Paris".
Eu acrescento que talvez o meu problema fosse ver longe demais: dêem-lhes mais quatro verões e as contas batem todas certas.
terça-feira, agosto 26, 2003
 
France Aid
Eu sei que o 14 de Julho já passou, mas na altura nada de extraordinário me ocorreu para dizer sobre o país que está na vanguarda da humanidade, i.e. a França. Mas hoje aproveito o balanço e reincido.
Não creio que se tenha dado o devido relevo ao caso dos 10.000 mortos em consequência do calor que por lá se fez sentir. Eu repito: são 10.000 mortos. São mais mortos do que os soldados americanos que conheceram o mesmo destino nas campanhas do Vietname, Kosovo, Afeganistão e Iraque todas juntas.
Lembro-me, há uns dias, quão pressurosos foram diversos comentadores em explicar-nos que um apagão como o do nordeste dos EUA "não era possível na Europa". Nós sabemos: a qualidade dos serviços públicos europeus impediria semelhante desgraça. Pois. A qualidade desses serviços públicos deve estar toda concentrada na electricidade, já que se desvaneceu completamente dos hospitais. Os propaladamente notáveis hospitais franceses foram incapazes de assistir estas vítimas.
Tudo isto já de si seria trágico. Mas vem ainda rematado por um dos mais notáveis exemplos de "humanismo europeu": neste momento há centenas de pessoas mortas amontoadas nos hospitais franceses cujas famílias não vieram reclamar os corpos e o Estado francês se prepara para enterrar numa "vala comum" (está aqui no Público de hoje). Está-se mesmo a ver um dinâmico francês de meia-idade beberricando um cocktail numa esplanada: "Merde! Pápá est mort. Mais on est si bien à la plage...". Eu pergunto-me o que não se diria se tudo isto se passasse nos EUA.

segunda-feira, agosto 25, 2003
 
For the record
O roadmap da Palestina parece ter chegado ao fim. Anteriomente escrevi sobre o assunto e, para não me repetir, remeto para o que sobre ele por aqui foi aparecendo ao longo destes longos dois meses de existência d'O Comprometido Espectador:
Aqui neste post procuro condensar aquilo que me parece ser a informação histórica essencial para se perceber o que está em causa;
Aqui neste comento (mais) uma magnífica performance televisiva desse nosso farol político que se chama Francisco Louçã;
Neste discuto um artigo do jornal Público, procurando mostrar o enviesamento de opinião da jornalista que o escreveu;
Neste, neste, neste e neste reconstituo a minha primeira polémica na blogosfera, neste caso com o Whisky2000, onde procuro rebater alguns dos argumentos mais frequentemente apresentados sobre o caso.
Os que ainda não tinham lido, se tiverem paciência, divirtam-se.
 
Sexual healing
Muitos pensarão que a França é um país definitivamente perdido. Eu não. Pelo menos a avaliar pelo dinamismo da sua vida intelectual.
Uma das mais interessantes e recentes obsessões intelectuais do hexágono é o sexo.
Tudo foi inaugurado há uns anos por Christine Deviers-Joncour, num livro auto-biograficamente intitulado La Putain de la République, onde a antiga amante de Roland Dumas (ex-ministro) falava de um explosivo cocktail contendo petróleo, política e (claro) sexo. Este ano a coqueluche tem sido o livro de Catherine Millet, La Vie Sexuelle de Catherine M.. Catherine Millet foi galerista em Paris e dirige hoje uma importante revista de arte Art Press e decidiu escrever um livro no qual conta as suas façanhas sexuais. Admite ter dormido com centenas ou milhares (não percebi bem) de homens diferentes (separadamente ou em conjunto - só numa determinada vez terão sido cerca de 30, segundo conta). Parece-me pouco criterioso (não há assim à mão de semear milhares de homens bonitos e não vão todos ter sexo com a mesma mulher e muito menos vão 30 fazê-lo de uma só vez), mas também não é isso ao que venho. A tudo isto deve somar-se um meio-excelente escritor, Michel Houellebecq. Meio-excelente porque os livros dele são bons na metade em que não descreve com um pormenor característico do malogrado cinema Olympia a actividade sexual de várias personagens em resorts de países especializados no turismo sexual (Tailândia, Cuba) ou em clubes de swingers (échangistes, como os franceses gostam de chamar). Deve ainda somar-se o livro de Lola Lafon (Une Fiévre Impossible à négocier), uma jovem alter-mundialista, que entre partir montras da GAP e do Kentucky Fried Chicken ainda encontrou tempo para ser violada por um jovem também alter-mundialista. E filmes como Une Liaison Pornographique, Comment je me suis Disputé (ma Vie Sexuelle...), etc., etc. Tudo apontando para uma certa monomania.
Talvez pensassem que a moral a extrair daqui fosse negativa. Na parte que me toca, muito pelo contrário: acho muito menos obscena esta vaga do que as discussões pornográficas entre Jean-Paul Sartre e Maurice Mérleau-Ponty, que marcaram a paisagem intelectual francesa nos anos 50 a 70, sobre a filosofia, a humanidade e o estalinismo.
Na pornografia intelectual como na Coca Cola: o melhor mesmo é the real thing.
 
Lifting
O Comprometido Espectador tem um novo rosto (obrigado Lili pelos conselhos em matéria de cirurgiões plásticos, sobretudo os convencionados com a ADSE, que são mais baratos). Como costumam dizer os jornais de cada vez que mudam o seu aspecto: "o leitor, longos anos habituado ao grafismo histórico da nossa publicação, compreenderá que procuramos acompanhar os tempos. Uma mudança de rosto significa uma tentativa de manter fidelizado um público que dia-a-dia se torna mais exigente. O Comprometido Espectador não podia deixar de compreender que são novos os desafios, nesta alvorada do século XXI. E para as múltiplas faces desses novos desafios, nada como uma nova face para os enfrentar."
O aspecto pode melhorar-se e, acaso isso se tenha verificado aqui, devo-o à ajuda do Miguel Henriques, o qual se prestou sem contrapartidas (se um almoço num restaurante caro não puder ser considerado uma contrapartida) a dar-me um fulminante curso intensivo em html.
Já quanto aos textos, não há nada a fazer: sou eu que os continuarei a escrever e, para isso, não há Miguel Henriques que me valha.
domingo, agosto 24, 2003
 
Perpétua novidade
Um fim-de-semana inesperado entre a praia do Malhão e a da Ilha do Pessegueiro (devidamente guarnecido com local staples, e.g. feijoada de búzios) e bye bye blogging.
Pena, porque entretanto o mundo prosseguiu o seu curso de perpétua trepidação: Ferro Rodrigues chamou "fascista" a Paulo Portas, Francisco Louçã chamou "camarada" a Ferro Rodrigues e gostava ele próprio de ter chamado "fascista" a Paulo Portas (e na realidade a quem quer que lhe aparecesse à frente), Mário Soares e Freitas do Amaral chamaram "fascista" a George Bush (bem, se não chamaram pensaram em chamar) e Pedro Miguel Ramos chamou "meu amor" a Fernanda Serrano (depois de se ter atirado à água para lhe dar um beijo). Bolas! Logo quando as coisas interessantes acontecem é que um tipo vai de fim-de-semana...
sexta-feira, agosto 22, 2003
 
Síntese
De entre os colunistas do Diário de Notícias conta-se Paulo de Almeida Sande. Estes colunistas fazem-se em geral identificar por certas categorias de actividade: "jurista", "historiador", "escritor", "publictário", etc. Paulo de Almeida Sande faz-se identificar como "contemporâneo" (só visível na edição impressa). Exacto. A pergunta "mas contemporâneo de quê?" é, no contexto, puramente ociosa. Deverá ser evidente para todos que Sande é simplesmente contemporâneo da humanidade (pretérita, presente e futura). Como a mónada de Leibniz nele se contêm todos os seres, os que já existiram, os que existem e os que existirão. E Sande sintetiza. Em Sande nada me separa de Jesus Cristo e Marcelo Rebelo de Sousa. Em Sande nos contemos. Em suma. Em Sande semos.
 
Compreende-se...
Quem pode duvidar hoje em dia que por trás dos atentados de 11 de Setembro, Bali, Casablanca, Bagdad e os múltiplos atentados em Israel está a mesma entidade? Se o conflito israelo-árabe acabasse hoje, com o entendimento das duas partes, que pretexto teria essa entidade para continuar a existir? Atentados como o último de Jerusalém tornam o conflito irresolúvel (basta pouco: já antes era praticamente irresolúvel). Há quem os compreenda (aos atentados). Eu também compreendo quem compreende os atentados: se eles acabassem perdiam uma das causas que lhes restam para continuarem os seus lamentáveis exercícios de indignação.
 
Quem manda?
A pretexto do caso Maggiolo escrevi umas coisas que geraram reacção do PM do País Relativo. Manda a gentileza dizer que o No Quinto dos Impérios também foi visado pelo PM e já respondeu (bastante bem, de resto). São inúmeros os pontos a apreciar no post do PM. Desde logo agradeço sentidamente a classificação de “manhoso”, sem dúvida uma qualidade pouco enaltecida nos dias que correm, mas que de forma alguma enjeito. Depois não posso deixar de constatar a argúcia de quem acha que eu faço coisas “pela calada”. Pensava eu que ninguém ainda tinha reparado, mas vejo agora que me enganava redondamente: afinal o olho clínico de PM esteve lá sempre e apanhou-me em flagrante. Finalmente, depois destas constatações, cabe-me a mim fazer um elogio ao PM pela sua notável capacidade em arranjar frases interessantes onde a palavra comprometido aparece composta, decomposta, desconstruída. São coisas que a gente gosta de ler e que (com)prometem muito...

Dito isto, o post do PM utiliza uma técnica de discussão (não sei se vonluntária, se involutariamente) que é a de dizer que nunca me adjectivou de “fascista” ou “colonialista”, para depois não fazer outra coisa senão apresentar argumentos conducentes a essa conclusão. Apenas isto se pode depreender de quem, aparentemente como eu, “de forma manhosa, pela calada, pretende [...] acusar quem fez a revolução (e, de enfiada, atacá-la)”. Segundo PM, “adaptaram-se, mas nunca aceitaram” (isto é, eu e outros, ignoro exactamente quem). Não sei bem a que é que me “adaptei, mas nunca aceitei”, mas pelo contexto parece-me ser a democracia.
Os meus posts sobre o tema, e isto para extinguir desde já a fogueira de equívocos que se possa ter acendido (citando um dos meus títulos de jornal favoritos), não pretendiam sequer discutir a descolonização, mas justamente mostrar aquilo que os posts do PM evidenciam à saciedade: como é impossível discutir o assunto no contexto político corrente. Caso tenha escapado às pessoas que o leram, em nenhuma circunstância adianta o PM qualquer argumento sobre o tema em causa. A única coisa que ele faz é um exercício divinatório, pelo qual presumivelmente desmascara perante o mundo as verdadeiras intenções dos interlocutores. Ao tecer uns breves comentários sobre a descolonização o que eu estaria realmente a fazer era a “atacar a Revolução de Abril”. Acusar o interlocutor de “fascista” (explícita ou implicitamente) é obviamente matar a discussão à partida.

Talvez devamos todos esclarecer o PM que a Revolução de Abril não é património seu. A Revolução de Abril foi feita por muita gente: gente de direita radical, gente de direita moderada, gente de esquerda moderada e gente de esquerda radical. Se me diz que eu quero atacar a Revolução de Abril do PCP ou do MRPP, então eu respondo-lhe que quero. Se me diz que eu quero atacar a Revolução de Abril do PS de Mário Soares, então eu respondo-lhe que não quero. Mesmo se Mário Soares foi um dos fautores da descolonização que fizemos. Já somos crescidinhos e já devíamos ter, enquanto democracia, o estofo cívico suficiente para olharmos para a descolonização e ver a irresponsabilidade que ela foi, sem nisso se descobrir mais uma sinistra ameaça contra a democracia (um parêntesis: o único argumento político do PS ultimamente parece ser esse; tudo, desde os processos judiciais à homenagem a Maggiolo Gouveia, passando pela guerra do Iraque, redunda no mesmo, i.e. a ameaça fascista, seja ela nacional ou planetária). Isso não se faz apenas por uma grande razão: foi essencialmente a esquerda da época quem fez a descolonização e, como já disse via e-mail ao Daniel Fortuna d’O Caso, a esquerda tem uma dificuldade estrutural em lidar com certos aspectos do seu passado. O tal optimismo de que ele (o Daniel) fala, a tal vontade de “sonho” geram uma enorme irresponsabilidade perante certas coisas. Para se continuar a dizer que se “sonha” não se podem aceitar certas consequências concretas de “sonhos” passados.

E é exactamente por já sermos crescidinhos que pessoas como o PM, a Ana Gomes e os dirigentes do Bloco de Esquerda têm que aceitar que façam parte das nossas referências cívicas e nacionais coisas diferentes dos seus mitos fundadores. É por isso que vivemos em democracia, i.e., para acomodar visões diferentes, para que do nosso código genético político constem valores de toda a gente. Por muito que custe a certas pessoas, apesar da “imbecilidade pura dos tipos do PP” (escuso de dizer quem fez estas afirmações) e de eles seguirem uma “política de direita” (idem), têm todo o direito a segui-la. É como perguntava no outro dia o Pedro Lomba: e não temos direito a ter uma política ideológica? E para afastar mais uma nuvem de fumo de possíveis equívocos, esclareço que nunca votei nem tenciono votar PP (mas já votei muitas vezes PS) e já escrevi aqui sobre Paulo Portas coisas que, se eu fosse alguém importante, ele não gostaria de ler.

Eu sei que isto é uma conversa de surdos. Provavelmente o PM vai-me responder com mais uma colecção de lugares-comuns sobre a questão e não saímos daqui. Mas ao menos não podem dizer que não tentei.
quinta-feira, agosto 21, 2003
 
Intermitências (parece nome de bar mas não é)
Cá estou eu para mais uma intermitência. Só hoje reparo que o Daniel Fortuna do Couto d'O Caso manda uma resposta às minhas notas sobre o caso Maggiolo. Parece-me que tal como ela é apresentada está descontextualizada e os leitores do seu blog arriscam-se a não perceber como é que ele chegou ali. Antes de ele me responder no blog tivemos uma troca de emails cortês. Nem sempre é fácil, num contexto em que com rapidez se misturam simpatias ideológicas com simpatias pessoais, e se mistura a retórica de discussão usada nos textos com má-criação e raiva, manter o tom delicado que ele manteve na mensagem que me mandou e no texto do seu blog. Tentei na minha resposta por email manter esse mesmo tom, mas desconfio que sou um pouco mais mal-formado do que ele. Seja como for ele leva a discussão para níveis a que não estou capacitado para responder neste momento (por razõs técnicas) e que também me levariam alguns dias a pensar em qualquer coisa (sendo que, no meio disto tudo, dentro de uma semana regresso a férias). Não sei o que resultará daqui. Entretanto, vejam o que ele escreveu. Algumas coisas que ele diz serão verdadeiras outras nem tanto (opinião minha). Mas visitem-no. Não o conheço, mas acho que estamos entre boa gente.
 
O post relativo
Já toda a gente que lê este blog sabe que estou com acesso limitado à blogosfera. O meu tempo para blogar longamente hoje acabou. O PM do País relativo discute comigo num post mandado hoje. Não vou poder responder agora. Espero poder fazê-lo amanhã, se inúmeras obrigações, entre as quais arranjar o meu computador, me permitirem.
 
A Brigada da Retirada
Sobre a Brigada da Retirada já disse brevemente o que tinha a dizer ontem. Mas uma pessoa não pode deixar de se emocionar ao prever (quase palavra por palavra) o que sai da pena (e da boca) de certas pessoas. Comentários a isto no post que aqui escrevi ontem.
 
O homem do dia
O Homem a Dias pôs-me nos links, penitenciando-se pelo desleixo de o não ter feito até agora. Ó Homem, deixe-se disso! Caso não saiba eu trabalho na universidade, estou perfeitamente habituado a que ninguém me leia. Mas sempre fiquei contente por saber que lê regularmente esta folha de couve.
 
Don't get me wrong
Eu aprecio muito José Pacheco Pereira. É um político inteligente, um óptimo colunista e tem obra científica com relevo (embora deva dizer que é este o aspecto da sua actividade com menor solidez). Mas irrita-me (como certamente o irritaria a ele, se se referisse a outra pessoa) a parolice admirativa que sobre ele vem aparecendo nos media: ele é o "inventor da blogosfera" (como no outro dia no DN) e, hoje, aparece na Gazeta dos Blogues do Público na qualidade de "escritor". Que mais não haverá para admirar em José Pacheco Pereira? A formulação da teoria da relatividade restrita? Aditamentos ao teorema de Coase? Don't get me wrong: isto não é nada contra Pacheco Pereira, mas uma reacção contra o vil provincianismo que é a infeliz marca da nossa vida (política, mediática, cultural), onde qualquer pessoa com um nível intelectual acima da média é rapidamente convertido numa espécie de buda para ser adorado em cada esquina.
 
Contra o progresso
Afinal já houve, em tempos, uma Idade de Ouro. Mas acabou há cerca de 20 mil anos atrás. Dizem-nos que tudo melhora com o progresso e que temos de confiar nele. Mas nos últimos 20 mil anos a única coisa que a humanidade tem feito é regredir. Ficámos a saber isso hoje pelo Público, que nos diz que a poligamia era regra até há cerca de de 20 mil anos atrás. Detesto ter que contradizer Abraham Lincoln, que afirmava: "you can fool some people most of the time, you can fool most of the people some of the time, but you can't fool most of the people most of the time". Eu e todos os homens deste mundo andamos a ser enganados há pelo menos 20 mil anos.
 
Petição em favor de uma voz livre ameaçada (é a civilização que está em causa)
A organização Blogsansfrontières lança mais um apelo em nome da liberdade de expressão. Um blogger livre, justo , independente, indómito lutador pela verdade e incansável na sua batalha contra toda a espécie de injustiça vê a sua actividade ameaçada por forças obscuras. Num mundo onde campeia a arbitrariedade e a violência sobre os justos, O Comprometido Espectador resplandece (ainda) como estandarte de intrépida coragem. Os hipócritas deste mundo primeiro disseram que o responsável pelo amordaçamento desse campeão da lisura e da rectidão era o blaster, alguém sugeriu depois que fosse a al-qaeda, mas hoje Blogsansfrontières pode afirmar sem hesitações que as manobras por detrás da tentativa de supressão desta voz imprescindível à verdade no mundo têm por origem a justiça portuguesa. Opinativos de todos os quadrantes virão rapidamente desvalorizar esta simples verdade, apodando-a de "teoria da conspiração" ou "da cabala". Mas a verdade não se apaga, por muito que custe a Andrew Gilligan. Por favor assine esta petição em favor do desmantelamento da acção insidiosa contra o corajoso Espectador:
(signatários até ao momento)
Alain Madelin
Brian Johnson
Paul Wolfowitz
George W. Bush
Jonah Goldberg
Mario Vargas Llosa
Nicolau Breyner
Maria Jurado
Rocio Jurado
Luciano Amaral
quarta-feira, agosto 20, 2003
 
O Prof. Doutor Rui Ramos
Manifesta o Contra a Corrente admiração pelo pouco que leu do Prof. Doutor Rui Ramos e pede mais. Tenho o seguinte a dizer: sou amigo do Prof. Doutor Rui Ramos e acho que ele é, apenas, o melhor historiador português em história contemporânea (séculos XIX e XX) vivo. Já lhe pedi para ele escrever aqui, mas ele (sem se recusar) vai dizendo umas coisas do tipo, "pois, está bem, logo se vê, depois eu digo-te qualquer coisa...". Ele não apresenta razões para esta recusa implícita, mas eu sei quais são: seria o mesmo que o Moreirense contratar o David Beckam para jogar a temporada... O Prof. Doutor Rui Ramos tem vários artigos publicados em revistas, sobretudo a Análise Social, e dois livros (que me lembre), A Segunda Fundação (sobre o final da Monarquia Constitucional e a I República) e João Franco e o Fracasso do Reformismo Liberal (sobre justamente o que o título indica). Como se vê, ele estuda sobretudo a história política portuguesa dos séculos XIX e XX, mas também já escreveu sobre pensadores e filósofos como Leo Strauss e John Rawls. O Prof. Doutor Rui Ramos tem um problema: nas suas obras não segue nem o cânone progressista nem o cânone pós-marxista que marca a maior parte da historiografia portuguesa e isto faz com que ele passe largamente ignorado por uma grande parte da nossa intelligentsia. Mas para mim, se há um cânone que eu sigo para a nossa história recente é o que ele tem vindo a estabelecer ao longo dos últimos anos nos seus livros e nos seus artigos, mesmo os de jornal. Façam o favor de me seguir.
 
Desertor? (III)
Fiz aqui ontem umas notas sobre o caso Maggiolo Gouveia. Tanto o Mar Salgado como o Serra Mãe se referem a ele. Eu acho que vale a pena ler o que eles dizem. Também vale a pena, pela negativa, ler o que diz o País Relativo. Não quero parecer imodesto, mas eu avisei-vos: quem mexe no assunto é fascista. Pronto, sejamos justos, no País Relativo não chamam "fascista", chamam "colonialista". Claro que os únicos colonialistas que eles mencionam são os do Estado Novo. A equivalência está estabelecida e para bom entendedor...
 
Retirada
Por razões já de todos sobejamente conhecidas (v. post anterior) estou longe da blogosfera largas horas do dia. Não tive, pois, oportunidade de comentar nem o assassinato de Sérgio Vieira de Mello, nem o novo massacre de Jerusalém, nem o fuss mediático que se lhes seguiu. Passadas estas horas todas tenho pouco a acrescentar ao que foi dito no Aviz, no Mar Salgado, no Desesperada Esperança, no Contra a Corrente, no Homem a Dias, no Jaquinzinhos, no Mata-Mouros, no Alfacinha e no Flor de Obsessão.
O Abrupto também fez umas notas um pouco mais distantes, sem serem de reacção imediata, que valem a pena.
Tenho apenas uma pequena reflexão melancólica a fazer, que se refere à Brigada da Retirada. Ela voltou. E digo-vos uma coisa, de retiradas cobardes percebe ela. Como diria o outro: make no mistake, quem pede a retirada do Iraque na sequência de atentados como o de ontem é cúmplice neles. Está a funcionar como o braço civil das organizações que os cometem. Porque essa é a sua única reivindicação. Bem podem chorar lágrimas de crocodilo por Sérgio Vieira de Mello (a propósito, sobre as vítimas do autocarro de Jerusalém ainda não vi sequer uma lágrima, nem mesmo de crocodilo; já agora, excelente post do Homem a Dias sobre isto - em minha casa passam-se coisas parecidas), porque no fundo estão contentes. Assim como estão contentes com cada pipeline ou central eléctrica destruídas, ou qualquer soldado americano que morra no Iraque. Mas, no fundo, isto vem nos manuais. Chama-se politique du pire, ou seja a política do pior, segundo a qual "quanto pior melhor". Pois é pessoal. Preparem-se para o pior.
 
Still broke after all these days
O meu computador caseiro continua inacessível. Basicamente estou unwired do fim da tarde à manhã do dia seguinte. Neste momento as suspeitas começam a desviar-se do blaster. Despontam outras hipóteses muito piores. Eu próprio alimento a minha teoria: acho que é a al-qaeda. Não se esqueçam que este blog já andava a incomodar muita gente.
terça-feira, agosto 19, 2003
 
O país sem passado
Esta coisa da relação com a história, iluminando uns momentos e apagando completamente os outros dá origem a um fenómeno curioso no nosso país. Nós não temos passado, pelo menos até 1958, ano da campanha eleitoral de Humberto Delgado. O período do Estado Novo reduz-se a uma fórmula: a longa noite. Já está. E para trás disso não há nada. Como o Estado Novo existiu em Portugal durante meio século e dava um lugar muito importante à história, apagou-se tudo, ficando vagamente umas coisas ligadas aos descobrimentos. Não estou a dizer que nas escolas não se ensine história anterior ao 25 de Abril. Também seria demais. Falo da opinião pública mais ou menos informada. Se alguém se der ao trabalho há-de verificar que os os únicos monumentos que se fazem em Portugal são ou à liberdade, ou ao 25 de Abril, ou ao 1º de Maio, ou ao General Humberto Delgado.
Nós gozamos muito com os EUA porque (dizemos nós) "são um país sem história". Pois é, mas o americano médio tem na sua memória vários nomes da sua história que associa a factos, fenómenos, processos ou ideias (positivos ou negativos): Washington, Hamilton, Jefferson, John Adams, Lincoln, Theodore Roosevelt, Woodrow Wilson, Franklyn Roosevelt, a constituição, os Federalist Papers,etc. etc. etc. E nós, temos algum nome para dar? E se sim, sabemos associá-lo a alguma coisa relevante do nosso passado, de tal maneira que nos possamos rever na pessoa ou no episódio histórico? Talvez a malograda Santa da Ladeira...
 
Desertor? (II)
Claro que Maggiolo Gouveia merecia o tratamento que o Estado português lhe deu agora. O que irrita Ana Gomes e o Bloco de Esquerda é que, se fossem eles a tratar do assunto, o fariam praticamente na clandestinidade. Porque o episódio traz consigo mais uma daquelas manchas na sua história que a esquerda passa a vida a querer enterrar. Por um lado, traz a mancha da saída de Timor. Isto é, o abandono do território em plena guerra civil e o favorecimento da tomada do poder por um dos grupos armados da época (inevitavelmente o marxista), a FRETILIN. Por outro, traz toda a questão da descolonização. A esquerda passa a vida a invocar a história. Do sufragismo à luta contra o colonialismo não se cansa de invocar o passado heróico. Mas quando se lhe põem certas coisas à frente, sacode logo a questão com uma facilidade cínica. Sobre a descolonização o bordão é conhecido: “não havia alternativa”. 1, 2, 3, está arrematado! E que tal discutir o assunto? Não, não se pode, que isso é o malandrão do fascismo a mostrar a aguçada favola outra vez. Quem sugira qualquer alternativa à tese oficial tem lugar garantido ao lado de Salazar e Amércio Thomaz no oprópbrio público. Não havia alternativa a abandonar as colónias em meia dúzia de meses. Não havia alternativa a entregar o governo das colónias ao partido armado marxista do dia. E quem disser o contrário está a defender o Estado Novo. Maggiolo Gouveia desertor? E que tal o Estado português da altura? Gostasse-se ou não as colónias eram, à época, parte de Portugal. Podiam-no ser transitoriamente, mas eram-no. E eram uma parte que foi sumariamente abandonada, sem preocupações de transição para a independência, sem preocupações de viabilidade política ou administrativa dos territórios. Maggiolo Gouveia continuou lá. Fora do exército, mas continuou. Nós enquanto país é que não ficámos nem que fosse pelo tempo necessário para garantir uma passagem para a independência fundada em solo mais firme.
É esta tampa que o caso Maggiolo Gouveia levanta e é daqui que resulta todo o som e fúria que se estão a ouvir. Se alguém pegasse neste fio e o fosse puxando para perceber a guerra civil timorense de 1975 e se daqui puxasse um bocadinho mais para chegar a todo o processo de descolonização iria chegar a conclusões muito desagradáveis. Mas já se sabe, quem mexe nisto é fascista. Como eu neste momento, por exemplo.
 
Desertor? (I)
Tal como ao Pedro, também a mim não me estava a apetecer comentar o caso Maggiolo Gouveia. Tal como o Contra a Corrente, parece-me evidente que foi Ana Gomes com as suas declarações ordinárias (noto que estou a medir bem as palavras, não estou aqui a pôr o primeiro adjectivo que me veio à cabeça) a iniciar uma polémica onde ela não existia. Mas se ela não existia agora existe e passou a apetecer-me opinar sobre o assunto.
A primeira coisa a dizer sobre ele é o carácter extraordinário, em termos estritamente pessoais, da história de Maggiolo Gouveia. Eu desconhecia-a até à semana passada, mas ela não deixa de ser impressionante. O facto de ele ser desertor é um aspecto menor da história, o cujo só é atirado para a discussão para desvalorizar os seus actos. Os factos maiores são, sem dúvida, a convicção em defender uma ideia e a determinação de fazê-lo mesmo abandonando o seu próprio exército. Como se costuma dizer nestas ocasiões, em Hollywood já teriam feito não-sei-quantos filmes com base na história. O episódio, porém, é relevante não apenas por isto. (continua)

segunda-feira, agosto 18, 2003
 
Guerra Fria
O apagão americano fez-nos regressar, ao menos por uns dias, à guerra fria. O pessoal de esquerda fez festa, fazendo-a acompanhar (como sempre o faz sobre qualquer assunto) daquelas reflexões económicas e sociológicas de vão-de-escada do tipo: já viste como é que um país tão "desenvolvido" tem um sistema eléctrico assim... Jornalistas do mesmo lado apressaram-se a explicar que aquilo nunca aconteceria na Europa (antigamente a URSS), um continente não só "culto" (ao contrário do analfabeto continente americano), de onde brotaram Kant e Rousseau, mas que também tem uma electricidade espantosamente melhor do que a americana. O pessoal de direita apressou-se a retirar inúmeras lições, derivadas de uma certa psicologia também de vão-de-escada, todas elas ligadas ao carácter, persistência e coragem dos americanos perante a adversidade. As implicações deste último raciocínio já se sabem quais são: o Sistema (com S grande), personificado nos EUA, engendra grandeza moral em todos nós.
Uma década depois, porque é que voltámos a aterrar aqui nesta vil tristeza intelectual, substituindo a URSS pela Europa e o Ocidente pelos EUA? Não sei, mas definitivamente confirmo quão errado é o slogan do Fórum Social Português. De facto, outro mundo é impossível.
 
Welcome back
O Pedro d'O Complot (vá, respeitinho, rapaz) e o Pedro do Flor voltaram de férias. Sejam bem regressados.
 
Total Recall
A eleição para governador da Califórnia explicada às criancinhas, por Richard Lowry. Já agora, um artigo que mostra a relutância de muitos republicanos em apoiar Schwarzenegger. Não está lá dito, mas noto que estas coisas que aparecem como defeitos aos olhos de alguns republicanos, são precisamente aquelas capazes de lhe dar a vitória.

 
O Intermitente
Graças ao citado verme, e até ter o problema resolvido (neste momento o desgraçado nem sequer me permite abrir o computador o tempo suficiente para instalar o patch que o liquida), o verdadeiro Intermitente vou ser eu.
 
Vítima do sistema
Também eu fui vítima do sistema (o que apenas vem corroborar aquilo que o Bloco de Esquerda há muito anda a dizer: que o sistema nem os seus mais dilectos filhos poupa). Neste caso fui vítima do sistema operativo. Tal como meio-mundo wired o sistema operativo do meu computador doméstico foi atacado pelo verme blaster. Isso explica parte da minha ausência da blogosfera este fim-de-semana (neste momento escrevo do meu local de trabalho).
domingo, agosto 17, 2003
 
Blog (de) culto: o estado d'O Comprometido Espectador (III)
Como já expliquei há uns tempos atrás, as minhas personae públicas tinham-se limitado a uma tentativa patética de ser cantor pop há cerca de vinte anos (de que sobram resquícios: faço parte de uma big band de jazz hoje em dia), a dar umas aulas e a apresentar uns papers em conferências científicas. Como vêem, tudo coisas muito excitantes. Colocaram-se então outros problemas. Nomeadamente, quem vai ler isto? Quem é que eu quero que leia isto? Na falta de um ideia melhor, comecei a conceber os meus posts como se fossem conversas com os meus amigos (de esquerda ou não). E ainda não abandonei esse formato. Isso permite-me adoptar um estilo informal (alguns diriam chocarreiro) e falar de uma multiplicidade de coisas, umas menores, outras de maior relevância. Pensar nos meus amigos ao escrever os posts tem a vantagem de não se dirigir apenas a eles, mas a um grupo maior de pessoas, de que assumo eles sejam representativos. Terei chegado a algumas dessas pessoas, mas pelo que as estatísticas mostram, não muitas. Desde que abri este estabelecimento o número de visitas foi aumentando lentamente, mas (apesar de alguns picos à volta das 250 visitas diárias, que agradeço ao Abrupto, ao Flor de Obsessão e ao Daniel) nunca ultrapassou de forma consistente as cento e tal (mantendo uma média entre as 50 e as 70 agora em época baixa). Daqui resultou uma polémica (sobre Israel), alguns links noutros blogs, em geral de menor circulação, e uma brevíssima citação no Público. As celebridades da forosfera que mantêm blogs (não faço links, vocês sabem quem são) não citam esta coisa (excepção para o Abrupto e o Aviz há uns tempos atrás). Algumas semi-celebridades da forosfera que mantêm blogs fizeram-no, fosse por boas razões (o RAP e o Daniel), fosse por más (o Ivan, que por motivos para mim misteriosos, me elegeu para pet hate). Algumas celebridades da blogosfera fizeram uma ou outra menção (o Flor de Obsessão, O Intermitente, o Valete Fratres! , o Jaquinzinhos, sem os quais, entre outros, aliás já não passo todos os dias). E outras menções dispersas (boas e más) foram aparecendo (sorry folks, não faço links, senão nunca mais daqui saía). Recebo alguns e-mails, uns manifestando um desagrado mais do que compreensível, outros manifestando agrado (o que já estranho um pouco mais). Alguns desses e-mails são de amigos, que mostram em geral um benevolente paternalismo na sua avaliação dos meus esforços. Outros são de pessoas que não conheço de lado nenhum. São estes que me surpreendem mais. Afinal há por aí pessoas que, sem a obrigação da amizade, conseguem ler com atenção o que para aqui escrevo. No final disto tudo não sei bem que é a minha clientela. Sei apenas que é poucochinha.
Entretanto, foram sendo citados por aqui muitos nomes. Segue uma lista não exaustiva: Ferro Rodrigues, Freitas do Amaral, The Beatles, Mies van der Rohe, Luís Miguel Oliveira, Raymond Aron, Friederich von Hayek, Carla Bruni, Nelson Mandela, Pedro Oliveira, Serge Gainsbourg, Moses Blah, The Beach Boys, André Belo, Ayn Rand, Herman José, o Emplastro, Friederich Nietzche, Frank Lloyd Wright, George W. Bush, Pedro Miguel Ramos, Lloyd Cole, Boaventura Sousa Santos, Jean-Paul Sartre, Mário Soares, Adolf Hitler, Leo Strauss, Fernanda Serrano, entre outros.
E isso só me pode permitir uma conclusão: não sei se é um bom blog, se é um mau blog. Os números tanto de visitas como de nomes referidos apenas permitem dizer uma coisa: é um blog de culto e um blog culto.
 
Blog (de) culto: o estado d'O Comprometido Espectador (II)
O Comprometido Espectador iniciou a sua actividade fazendo aquilo que continua a fazer: a passar para escrito as opiniões, ideias, piadas que a leitura dos jornais todos os dias me suscitava e suscita. Como vêem o propósito é modesto e não passará disto. Isto mesmo expliquei ao Francisco José Viegas num e-mail simpático que me enviou há uns tempos atrás, em que se confessava leitor da coisa (estatuto que provavelmente já não mantém). A minha profissão é investigar e escrever coisas sérias, em geral em prosa funcionária. E, portanto, para coisas sérias isso basta-me.
Matutei muito sobre que nome dar a isto e fiz uma lista de várias hipóteses (que não vou revelar porque tenho vergonha), tendo-me decidido por aquele que já sabem, em homenagem ao meu primeiro herói intelectual, Raymond Aron (o cujo se deve estar a revolver na campa horrorizado com o péssimo serviço à sua memória que diariamente lhe presto).
Começaram então os problemas. "Mas eu não escrevo todos os dias, nem sequer todas as semanas. Como é que vou fazer isto?" Não sei bem como é que fiz, mas fiz. São mais ou menos 50 dias (descontando as férias) a alimentar estas páginas. Tal como para o Pedro Lomba, para mim o blog funciona como uma disciplina. Comecei a sentir-me obrigado a fixar por escrito as coisas vagas que anteriormente apenas me passavam pela cabeça. É um bom exercício, particularmente para um cérebro um pouco dada ao caos como é o meu. A orientação ideológica do objecto em análise deve, neste momento, ser transparente aos que gastam o seu precioso tempo com ele: sou um liberalóide (já agora, não sou conservador, bibliografia fundamental: "Why I am not a Conservative", artigo no final do livro de Friederich von Hayek, The Constitution of Liberty). O estilo, embora mal conseguido, inspira-se na opinião da imprensa anglo-saxónica (Spectator, The Daily Telegraph, The Economist, National Review, Reason, The New Criterion), no seu misto de reflexão, seriedade, humor e disparate (no meu caso, só o disparate parece ter vingado de forma inequívoca), embora adaptado ao formato de blog. O objectivo do "projecto" (se lhe posso apor este nome pomposo) é "curto-circuitar" a banda sonora dos nossos tempos no nosso país. Esta banda sonora é essencialmente feita pela geração de 60, que hoje em dia (por razões biológicas) está na sua maturidade e domina (por vezes apenas insidiosamente, até) a opinião pública. E quando não domina directamente, fá-lo indirectamente pelos seus descendentes conformados. (continua)
sábado, agosto 16, 2003
 
Blog (de) culto: o estado d'O Comprometido Espectador (I)
Aproveitando o facto deste pasquim virtual ter atingido o limiar psicológico das 6.118 visitas (um número bem redondinho) e os 62 dias de existência (outro número redondinho), faço um pequeno primeiro balanço da sua (até agora) breve vida (em vários posts). Trata-se de um exercício de onanismo no seu estado mais puro (actividade conhecida na blogosfera, salvo erro por concepção do inventor da blogosfera himself José Pacheco Pereira, de umbigusimo). Faço o aviso porque há tanta coisa boa a ler por aí que podem passar ao blog seguinte.
Para começar pelo princípio, de onde é que veio a vontade de iniciar a empresa? Muitos de vocês não sabem, mas pessoalmente eu sou um chato (o que, pelo menos, tem a vantagem de coincidir com o que sou por escrito). Passo a vida a ter discussões sobre actualidade com os meus muitos amigos de esquerda. Que fazer? Tenho esta benção divina de ler e interpretar as notícias e as colunas de opinião de maneira diferente das deles. Todos os dias gasto uma porção incompreensível (isto não é uma piada: não compreendo mesmo) do meu tempo a ler jornais e revistas. O meu débil corpinho de um metro e oitenta explode quotidianamente com opiniões sobre o que acabei de ler que, inevitavelmente, geram discussão. Esses meus amigos, por razões absolutamente legítimas, estão fartos disso, nomeadamente porque redunda, sem apelo nem agravo, em gritaria. Nos últimos tempos, eu próprio (certamente mais um dos inúmeros benefícios da paternidade) comecei a cansar-me do exercício (quem é que quer ser O Chato o tempo todo?). Ora isto começava a deixar-me sem ocasiões para tão saudáveis expressões catárticas.
Por rigorosa coincidência verificou-se o início da explosão dos blogs. E ainda antes do tempo do seu inventor José Pacheco Pereira ter um, o meu amigo Miguel Maduro (que não é de esquerda) começou a desafiar-me para fazermos o nosso. Ao tempo brilhavam sobretudo na blogosfera a Coluna Infame, o Blog de Esquerda, o País Relativo e mais alguns que não vou citar senão passo a noite toda a fazer links. Inicialmente fiquei um pouco chocado com as razões apontadas pelo Miguel para me convidar: "tu deves ser bom para aquilo, com a tua arrogância intelectual". Arrogância intelectual, moi? Eu sou a modéstia em pessoa. Mas achei graça à ideia. A coisa arrastou-se e arrastou-se e não abríamos a baíuca. Entretanto, numa questão de dias, ele tornou-se uma pessoa muito importante. O que aconselha a uma certa moderação verbal. Felizmente, a mim essa tragédia não aconteceu. E decidi iniciar-me. (no meio disto tudo a Coluna Infame acabou, falei ao telefone com o Pedro Lomba, morreram alguns soldados americanos no Iraque, Freitas do Amaral rasgou mais uma peça de teatro, José Pacheco Pereira abriu o Abrupto e Fernanda Serrano começou a andar com Pedro Miguel Ramos) (continua)
quinta-feira, agosto 14, 2003
 
Faúlhas (eis a minha contribuição para os títulos alusivos a incêndios)
O Portas que está na oposição claro que também mandou os seus bitatites sobre este assunto dos incêndios. É o costumeiro lança-chamas (não sei se perceberam o trocadilho...) sobre os governos, os políticos, os industriais da madeira e das celuloses, enfim, a rotina. Tem pouco interesse.
Verdadeiramente fascinante é o enquadramento histórico que Miguel Portas nos dá sobre o assunto. Veja-se este excerto:
Quem queira pode encontrar o início deste novelo [a tragédia dos incêndios] no século XVIII, no início do lento êxodo rural e no avanço dessa praga incendiária chamada capitalismo, que acelerou o despovoamento dos campos e lhe alterou hábitos sem que outros tenham impedido as suas consequências.
O mato, há 20 anos, ainda tinha importância económica: os camponeses colhiam-no para se aquecerem e fazerem o pão e as camas onde os animais largavam o esterco. Nessa altura, ainda havia cabras e ovelhas em vez da monocultura da vaca e, assim, estas criaturinhas também davam preciosa ajuda no seu desbaste.
Ok, isto mudou.


Tudo isto é iluminante sob vários pontos de vista. Desde logo ficamos a saber que a culpa dos incêndios é do capitalismo. O que deveria ser evidente a todos. Os incêndios eram inteiramente desconhecidos antes do século XVIII e antes do capitalismo. Foi o capitalismo que trouxe, para além de George Bush, da Coca-cola, dos telemóveis e da Apolo XI, os incêndios. De resto, é de todos conhecida a ausência de incêndios em sociedades socialistas. Mostrem-me lá um incêndio que seja na ex-URSS.
Depois do século XVIII, saltamos, na prosa do cronista para "há vinte anos atrás". Caramba, são trezentos anos no tinteiro. Mas compreende-se. Perderam-se no fogo (!) da sua imaginação.
Tudo isto para concluir que é urgente reiventar o homem rural. Will they ever give up? Passam a vida a querer inventar e reiventar homens. Provavelmente outro homem é possível. Mas uma coisa é certa: outro Bloco de Esquerda é impossível.
 
Público goes bitaites
Para além de assinalar mais uma entrada para a lista do top mais de artigos com nomes alusivos a incêndios (desta vez é Inês Serra Lopes com "Arder de Raiva", que, confesso, rivaliza seriamente com o meu preferido até ao momento, "Uma fogueira de Equívocos"), constato que o Público entrou definitivamente na era dos bitaites. Pomposamente anuncia hoje 20 medidas para evitar a tragédia florestal. O assunto é sério e compreende-se as boas intenções. Mas, muito sinceramente, quem é o Público para propor 20 medidas credíveis para evitar tragédias florestais? Porque é que os jornalistas da redacção do Público nos merecem algum crédito neste domínio? Consultou o Público longamente com silvicultores, agrónomos, economistas, historiadores, geólogos, agricultores, empresários agrícolas, empresários industriais, trabalhadores agrícolas, trabalhadores industriais das várias regiões para chegar a estas 20 propostas? Eu próprio escrevi um post sobre o assunto, mas baseado num estudo histórico e económico que fiz durante quase 10 anos sobre a evolução da agricultura portuguesa no último século e meio. Mas arrisco pouco mais do que aquilo. Já o Público não. Tem 20 propostas para nos anunciar. Está no seu direito. Mas o assunto é muito sério e as soluções são difíceis e muito debatíveis. Quando o Público sugere o que sugere pode influenciar decisivamente a opinião pública. E amanhã pode vir uma verdadeira autoridade sobre o assunto emitir uma opinião contrária a alguma das que é expressa no Público e muita gente não acredita: "não viste? Vinha no Público, pá!". Tudo o que menos precisamos neste momento são precipitações e bitatites como os de hoje no Público.
 
Eram dois comprimidos contra o conservadorismo, se faz favor
[diálogo inspirado nesta notícia do Público, segundo a qual um conjunto de psicólogos determinou através de um estudo científico (???!!!) que o conservadorismo político é uma doença, partilhada por Hitler, Mussolini e George W. Bush]:
- Pai. Tenho uma notícia dramática para te dar.
- Sim, filho?
- Sofro de uma doença gravíssima.
- Filho, farei tudo ao meu alcance para te curar. Que doença é essa?
- Con... con... cons... conservadorismo, pai.
- (prostrado na cadeira, visivelmente abatido) Conservadorismo, filho... Mas isso é uma tragédia. Ainda se fosse cancro ou SIDA... E sabes a estirpe da bactéria? Liberal ou neo?
- Não sei papá, continuo à espera dos testes bacteriológicos.
- E dói-te muito?
- Um bocado, papá. Sobretudo tenho este tique no braço direito. Estou sempre a levantá-lo de cada vez que vejo uma pessoa na rua.
- E esse bigodinho pequenino que te está a nascer, o que é isso?
- É outro dos sintomas, papá. Li numa revista.
- Se calhar é melhor ires tomar um duche.
- Não é duche, papá. É duce.
- Meu filho, estás mesmo mal. O que vale é que a medicação é comparticipada pelo Estado, senão o tratamento ia saír caríssimo.
- Pai, tenho medo. Será que vou ficar assim para sempre?
- São pouco os casos de cura total. Consta que quem apanha a doença vê uma luz especial e fica cego para muita coisa.
- Tenho medo, papá, tenho medo...
- Calma, filho, calma, vou fazer tudo para te salvar. Entretanto, toma aqui O Mundo Inquietante de Mário Soares, dizem que é um bom analgésico.
 
Rui Ramos
O meu amigo Rui Ramos escreveu um artigo sobre Mário Soares n' O Independente, esse moderníssimo jornal que tem o site em construção desde sensivelmente 1947. Façam um favor a vocês mesmos: leiam-no.
 
The Golden State
O Zé Mário do Blog de Esquerda escreveu um post listando e comentando alguns dos candidatos à (assim chamada) recall election para governador do estado da Califórnia. A eleição é recall porque é extemporânea (olá André), feita antes do termo do mandato do actual governador Gray Davis. O post serve o propósito rotineiro e um bocadinho batido de ridicularizar os EUA. Tudo bem. Cada um dedica-se ao desporto que lhe apetece, mesmo quando ele não tem muito interesse (olá amantes de curling).
Eu sei que isto é blogs e tal, é umas bocas e umas provocações. Mas também pode ser dizer qualquer coisita um pouco mais séria.
E aquilo que se pode dizer é que a legislação eletoral californiana é um belo disparate, mas também é o sonho dos partidários da chamada democracia directa. O pessoal do Fórum Social Português que tanto insiste em que democracia não é só o voto de quatro em quatro anos mas é (entre outras coisas) a permanente interpelação dos governantes deveria adorar esta eleição californiana. Muito simplesmente, o governador no cargo pode ser obrigado a uma recall election desde que 12% dos anteriores votantes o queiram, seja sob que pretexto for. O governador palitou os dentes em público? Vamos arregimentar um pessoal e convocar uma recall election. Gosta de peixe frito? Recall election
De onde é que vêm estes candidatos todos? Há várias centenas deles e precisaram apenas de 65 assinaturas para se candidatarem. A colecção de candidatos é um disparate, não porque a sociedade americana seja um disparate, mas porque a lei californiana o é, ao permitir que virtualmente qualquer criatura se candidate. Para além disso, o governador no cargo, para se manter nele, precisa de 50% dos votos expressos, enquanto que para os outros candidatos ganha simplesmente o que tiver mais votos. É isto a democracia directa em acção. Resulta neste festival. Mas imaginem as mesmas regras eleitorais cá. Se com o limite das 5000 assinaturas já tivemos como candidatos a presidente o homem do queijo da serra e o Manuel João Vieira (e até tivemos o Jorge Sampaio), imaginem com 65 a colecção de cromos que não apareceria.
Gozar os EUA é um desporto com muitos partidários. Mas esse gozo vem muitas vezes da ignorância (não sei se nesta categoria cabe o Zé Mário). Nós comprazemo-nos a gozar com a ignorância dos americanos sobre a Europa. Mas a nossa ignorância sobre os EUA é ainda maior. Quem elege os EUA como objecto de gozo in toto não percebe uma coisa essencial: os diferentes estados dos EUA são tão diversos entre si (ou até mais) do que os diferentes países europeus. Uns têm sistemas de segurança social tão sofisticados como os da Suécia, outros têm quase tanta gente a falar espanhol como a Espanha. A Califórnia, por exemplo, sobre a qual a ignorância da maior parte dos europeus é completa é, em termos absolutos, uma economia maior do que a da França, para uma população que é sensivelmente metade, o que dá um rendimento per capita de cerca do dobro. Se fosse independente contaria muito mais à escala internacional do que a maior parte dos países europeus. Mas se se começasse a compreender isto lá se ia mais um papão. Mais vale continuar com o velho exercício. Tal como o programa do João Baião aposta na ignorância para vender mais.
quarta-feira, agosto 13, 2003
 
Acontece
João Rui de Sousa, poeta e ensaísta, dá hoje uma entrevista no DN a Maria Augusta Silva. É im-pres-cin-dível. A mim foi todo um outro mundo que se abriu. Aguço-vos o apetite com alguns excertos [que comento entre parêntesis rectos], mas também faço o link para o texto original:

A entrevista abre com a seguinte pergunta:
A caminho de sua casa pensei numa teoria de Aristóteles: "O poema é um animal". Que lhe parece?
Resposta: Estou de acordo.
[É espantoso o que se aprende. Por um lado, que Aristóteles tem uma teoria e que ela diz que o poema é um animal. Seria pior se dissesse que o poeta é um animal... Mas também não é inimaginável ouvir Gabriel Alves perguntar a Cristiano Ronaldo: "Maradona tem uma teoria: o golo é um animal"]
E continua:
Trabalhar a poesia passa muito pelas expressões plástica e musical?
R: E pelo esculpir. O poema, além de ser o tal animal, também é uma escultura.
[É sim senhor, que eu já vi. Tenho livros lá em casa que estão cheios de esculturas. Por isso é que há muitos deles que nunca li, tendo-me limitado apenas a olhar para eles]
Mais:
Também o erótico marca a sua obra. Celebra o mais sagrado do corpo?
É o prémio a que o corpo tem direito. O prémio e o espectáculo. [...]
É na pele que o erótico se projecta com mais intensidade?
R: A nossa pele é altamente erótica.
[Sobre isto já tenho as minhas dúvidas. Parece-me talvez demasiado rebuscado. O erótico na pele? Não. Talvez na parede, no cimento, na Fanta Laranja, num bilhete de lotaria, mas agora na pele... Sinceramente, duvido]
Mantém diálogos com o corpo?
R: Tenho um pendor reflexivo. Sou meditativo, muito dado à busca do ser, da palavra, da estética, da ética.
[Já a história da pele me tinha deixado um pouco dubitativo. Mas esta coisa dos diálogos com o corpo então é que recuso completamente. Ontem experimentei falar com uma bola sebácea que uma amiga minha tem no braço e não aconselho a ninguém. A conversa que tentei manter era de tipo reflexivo, meditativo, mas mesmo assim...]
E, a piece de résistance deste elevado momento cultural:
Alguma coisa por inventar?
R: O infinito.
[Ora isto sim, é infinitamente verdade. Embora a vacuidade infinita eu tenha a certeza que já foi inventada]

Já tínhamos no DN a coluna de Vera Roquette. Pois estão aqui dois autores que rivalizam com ela. Vera, acautele-se, a concorrência anda feroz.

 
Violência verbal
Com o fim da presidência de Charles Taylor e a chegada do novo presidente Moses Blah ainda há esperança para a Libéria. Pode ser que agora a violência passe de física a verbal: Blah, Blah, Blah, Blah, Blah...
terça-feira, agosto 12, 2003
 
O muro (the sequel)
Esqueci-me de dizer no post anterior que o Aviz escreveu há uns dias um óptimo post sobre este assunto. E também escreveu outro óptimo post sobre o enviesamento da opinião pública que acabei de mencionar.

 
O muro
Sobre o célebre muro da Cisjordânia já pululam os habituais disparates facciosos sobre Israel. Quem lê o que por aqui se escreve sabe que eu sou pró-israelita. Devo corrigir esta frase: eu não sou pró-israelita, já que isto pressupõe no debate político que seja anti-palestiniano. Ora eu não sou anti-palestiniano. O que sou é contra o prevalecente anti-sionismo da opinião pública. E sou contra a genérica atitude árabe no Médio Oriente desde sempre, que foi (e continua a ser) a de recusar a existência de Israel. Dito isto, esclareço que acho o dito muro uma má ideia. Ou pelo menos uma ideia muito pessimista: a de que Israel nunca poderá viver em paz sem aquela protecção física, mesmo depois de criado um estado palestiniano. Até pode ser que isso seja verdade, mas há tempo para testar antes de se adoptar uma medida tão definitiva.
Seja como for a questão é complexa e o noticiário bem como o geral da opinião que por aí se encontra não ajudam a entender o problema. Nomeadamente, não ajudam a mostrar as divisões que a questão está a criar na sociedade e na política israelitas, divisões essas que vão para além de esquerda e direita: há esquerda israelita a favor e contra o muro, e há direita israelita idem. Um bom artigo de alguém que claramente simpatiza com a causa palestiniana, mas nem por isso deixa de fazer uma avaliação inteligente e moderada da situação, pode ser encontrado aqui na Porspect deste mês ."Oh, pá, outra vez a Prospect??", gritam vocês. Desculpem lá, mas o número deste mês é bastante bom. A revista é de esquerda, mas apesar disso é inteligente. Vá lá, esta última frase era uma piada, está bem? Não comecem já a ficar enxofrados.
 
There he goes again
Cristiano Ronaldo é, na modesta opinião deste escriba, a maior esperança do futebol português. Isto quer dizer muito num contexto recheadinho de excelentes novos jogadores: Tiago, Helder Postiga e Ricardo Quaresma, para só falar dos melhores. Pois Ronaldo acaba de ser contratado pelo Manchester United. Mas não é disso que quero falar. Eu sou ignorante em praticamente tudo sobre aquilo de que falo, mas então em matéria de futebol essa ignorância vai para lá do aceitável. Aquilo de que vos quero falar é sobre o nome dele. Quem pensasse que esse nome vinha de alguma alcunha futebolística, desengane-se. Ronaldo chama-se Ronaldo porque o pai era fã de Ronaldo Reagan, vem hoje nos jornais. Sim senhor, uma óptima referência. Com este baptismo prevejo um grande futuro ao Reagan português. E já estou a ver o público de Old Trafford, de cada vez que o Cristiano pegar na bola, gritar a célebre frase do candidato Reagan ao então Presidente Carter num dos debates que levou o primeiro à presidência: "there he goes again".
 
O mundo está louco perigoso
Está em formação um partido monárquico de esquerda, cujo fundador não só admira o Bloco de Esquerda como não tenciona exigir a restauração da monarquia em Portugal(???!!!!????). Verdade, verdadinha. Vocês também devem ter visto, vem hoje no Público.
Eu pessoalmente aderiria ao dito partido desde que ele passasse a querer restaurar a monarquia. Tremo de emoção ao imaginar-me governado pela dinastia dos Louçãs (teríamos um rei Francisco pela primeira vez) ou dos Rosas. Mas insuperável seria a dinastia dos Portas. Desde logo poderíamos reeditar os episódios da guerra civil do século XIX, opondo miguelistas a paulistas (pena que Paulo não se chame Pedro, mas, enfim, não se pode ter tudo...). O único problema está em que D. Paulo I não poderia levar seu irmão D. Miguel a casar com sua (de D. Paulo) filha Maria. O facto de D. Paulo não ter actualmente filhos não é grave, é coisa que se resolve. Pior é que Maria teria de casar-se com D. Miguel com a tenra idade de 12 anos. Ora, está-se mesmo a ver que D. Miguel não aceitaria. Diria logo que seu irmão estava (juntamente com o Marquês de Santana) a orquestrar uma cabala contra a direcção do Bloco de Esquerda.
 
Cartas ao director
Segue a resposta do André aos meus mais recentes posts sobre o caso Cantat. Podíamos ficar para aqui a discutir isto ad eternum. Não vale a pena. Deixo a última palavra ao André:

Apercebi-me de que parte do eu escrevi pode ser lido como desculpabilizadora
de um crime. Acrescento pois que não se trata de desculpabilizar o crime de
Cantat. Um homicídio é um homicídio. O que quer dizer que ele não é de
esquerda nem de direita. As atenuantes ou agravantes para um homicídio
procuram-se na intenção (voluntário, involuntário) e em proporções adequadas à
escala do crime. A ideologia só deve entrar na medida em que ela tenha também
sido criminosa. Não me parece que seja o caso. Se o senhor Cantat andou em
comícios a fazer discursos anti-violência conjugal e batia na mulher ao mesmo
tempo, era razão para o condenar na altura. Agora, a condenação já ele a tem.
Erigi-lo como símbolo de outra coisa maior, na altura em que visivelmente ele
sofre com o crime que cometeu e pelo qual vai ser condenado, parece-me
moralmente repreensível. Isto vale para Cantat como para o Zé da Esquina. O
que chamo de totalitário na tua denúncia talvez seja isto: a passagem de um
plano individual para o ideológico. O Le Monde aproveitou a história deste
crime para fazer um bom dossier informativo sobre a violência doméstica em
França, abstraindo do caso particular Cantat-Trintignant. Penso que é isto que
se deve fazer, sem extrapolar mais.
Isto leva-me a um segundo ponto. Há várias passagens no teu raciocínio que não
têm lógica. Tu admites que não sabes se Cantat fez discursos contra a
violência doméstica. O Bloco de Esquerda, para além das tuas suposições
imaginárias, também não fez dele um símbolo do combate à violência doméstica.
Não tenho presente com rigor o teor das propostas do Bloco de Esquerda (em
quem, por acaso, nunca votei) sobre a violência doméstica. Mas, se elas podem
certamente ser discutidas, parece-me que as move a defesa das mulheres que
dela são vítimas. E com isto estou de acordo, não posso deixar de estar de
acordo. Não vejo onde é que está a contradição ou a hipocrisia do Bloco em
relação com esta história. Tu é que ligaste ambos, fazendo de Cantat um
símbolo, amalgamando-os para chegar aonde querias: a arrogância moral da
esquerda. Ora, eu gosto de combater a arrogância, carregadinha de moralismo,
de quem denuncia a arrogância moral da esquerda. A única coisa com que
concordo no teu post original é com o título: negro desejo, o nome do grupo
que Cantat liderava, que me parece um nome de ironia trágica depois do que
aconteceu. E percebi, depois desta discussão, que o desejo negro é contagioso.
De Cantat para ti e de ti para mim. Peço desculpa pelos excessos de linguagem
em que possa ter incorrido. Um abraço


 
Le salaud
O André aproveita na mesma mensagem para me dar uma tacada a propósito de um post que também escrevi sobre Sartre. Devo esclarecer que esse post começava por ser um trocadilho com um blog que por aí há chamado O Quarto do Pulha. Depois, acrescento que ele tinha a mesma natureza, em termos de técnica retórica que o post sobre o drama Cantat-Trintignant. Mas aqui tenho menos para fazer mea culpa. No post eu tornava explícito que Sartre deveria ser considerado um pulha pelos seus prórpios padrões. Sei mais da vida privada de Sartre do que sei da de Bertrand Cantat. E uma das coisas que sei é como equivalentes franceses da palavra pulha (salaud, cochon) lhe saltavam da boca para fora tanto em público como em privado quando ele tinha que falar de pessoas de direita. Fulano votava RPR, era um bom salaud. Beltrano não defendia o estalinismo era um cochon. E já agora, independentemente da sua vida privada, o que dizer em plena consciência de alguém que afirmava que os milhões de mortos do estalinismo não eram um invenção de propaganda imperialista mas eram indispensáveis à continuação da causa comunista? A mim ocorrem-me várias palavras e pulha é certamente uma delas.
 
La vie en noir (a minha resposta, II)
Era a esta arrogância moral da esquerda (agora usando o termo deliberadamente de forma mais genérica) que eu me referia no dito post. Uma das coisas que mais me irrita quando falo com muita gente de esquerda é (perdoem-me o neologismo) o "denuncionismo": o capitalismo, o sistema, isto e mais aquilo são o pior da terra, são o fascismo a combater sem quartel. Mas a este denuncionismo não corresponde nenhuma tentativa de (para citar outro dos meus heróis, Iznogoud) serem "califas no lugar do califa". Pois foi sempre aí que as páginas negras da história da esquerda se escreveram. Quando se tornaram califas estragaram sempre tudo. Repito mais ou menos algo que disse no outro post. A esquerda exige um comportamento impecável de toda a gente, mas está sempre disposta a relativizar, contextualizar e suavizar as suas enormidades.
Com toda a franqueza devo dizer: se comecei no Cantat e acabei com insinuações sobre o estalinismo e a revolução cubana a culpa não é inteiramente minha. É, em larga medida, culpa da esquerda que transitou das mais diversas experiências políticas socialistas e comunistas para um activismo de costumes, associado à denúncia genérica da globalização e dos EUA (que, com toda a franqueza outra vez, não são senão os novos nomes do velho papão capitalista).
Também o caso Cantat deveria servir para moderarem a sua arrogância moral em favor das nóveis causas políticas. Mas, se bem os conheço, provavelmente ainda a vai agravar mais.
 
La vie en noir (a minha resposta, I)
O que dizer deste texto do André (e também do texto fantasma do L.)? Desde logo que ele(s) tem (têm) razão em muitas coisas. No post mencionado instrumentalizei (apesar das cautelas que apresento) um drama privado para uma causa política e, ao fazê-lo, dei o flanco às críticas que o André (e o L.) me faz (fazem).
Mas deixem-me contar uma história a propósito do post da discórdia. Como o Daniel fez o favor de tornar público, eu durmo com o inimigo. A M., a minha mulher, simpatiza (talvez um pouco menos hoje em dia) e vota (quase sempre) no Bloco de Esquerda. Ora, quando o drama Cantat-Trintignant aconteceu ela veio com uma conversa muito parecida à do meu post. Na altura reagi mais ou menos como o André e o L.: "olha que não, é uma coisa privada, dramática, mas não deves trazer o perfil do homem para a questão, ainda por cima foi certamente um momento de loucura". A resposta dela também não tardou: "loucura? Pois, bem podias ir para advogado de defesa do Cantat e defenderes a sua inimputabilidade. Se ele é contra a violência doméstica, isto faz dele pior que os outros". Resmungámos mais algumas coisas, mas a coisa ficou por aqui. Eis senão quando vejo a notícia do funeral de Marie Trintignant, na qual se dizia que, na cerimónia, tinha havido uma manifestação de activistas contra a violência doméstica. Isto fez saltar em mim qualquer coisa. "Claro, pensei para mim mesmo. Para a nova esquerda isto é uma causa política. Logo, a M. tem razão. Ele tem que ser confrontado com a sua incoerência política".
Daqui generalizei para a esquerda, embora me quisesse referir sobretudo à nova esquerda cuja especialidade é politizar aspectos da vida privada: a droga (embora esta questão esteja verdadeiramente no limite do público e do privado), a homossexualidade (não apenas os direitos, mas o modo de vida, o direito à afirmação de se ser homossexual), o divórcio, o aborto, a violência doméstica (como eu disse, nomeadamente ao querer tornar público esse crime). De facto, eu aproximei-me de (ultrapassei?) um limite perigoso. Mas fi-lo (em parte conscientemente, em parte inconscientemente) usando um instrumento retórico, que é o de voltar contra alguém que se quer criticar os seus prórpios argumentos, mesmo quando não se está efectivamente de acordo com eles. O Cantat é activista contra a violência doméstica? Não sei, não estou inteiramente a par do seu activismo político. Mas a Marie Trintignant sei que era. E o Cantat também lá deve ter dado a sua perninha (embora, repito, não saiba se isto é efectivamente verdade).
Eu aproximei-me de (ultrapassei?) um limite perigoso, mas o André e o L. têm que estar conscientes de que esse limite há muito foi ultrapassado por certos movimentos de esquerda que, como disse, incapazes de apresentar uma grande ideia política substancial, a única coisa significativa que sabem fazer é trazer a política cada vez mais próximo da nossa vida privada. O André não hesita em dizer, a propósito deste caso o seguinte: "O que sabes de Cantat como pessoa? O que sabes do que aconteceu, como aconteceu? Acreditas que ele possa sofrer com o crime que cometeu? […] E do resto das pessoas, na sua agressividade, nas suas contradições, mas também no seu arrependimento? As pessoas, como dizia o outro, são um abismo." Substituam Bertrand Cantat por Zé da Esquina e atirem isso à cara do Francisco Louçã: "o que é que você sabe?… O Zé da Esquina é um abismo, nas suas contradições e no seu arrependimento". Pois é isso mesmo. E não se deve aplicar só ao Cantat. Deve aplicar-se a todos os autores de crimes de violência doméstica. Onde está a tolerância do Bloco de Esquerda pelo "abismo", "tolerância" e "arrependimento" do Zé da Esquina? Porque, sejamos claros, na denúncia da violência doméstica corre um subtexto de denúncia do sistema, presumivelmente responsável pela família tradicional, patriarcal, onde o homem exerce toda a sorte de violência (inclusivé psicológica) sobre a mulher inerme. Há muitas espécies de violência que por aí existem e que não merecem uma palavra dos movimentos de esquerda. Como se diz em inglês: the devil is in the details. Isto é, é quando se chega ao concreto que as coisas se tornam difíceis. O Zé da Esquina merece ser perseguido judicialmente pelo Estado, o Bertrand Cantat tem "abismo" e "arrependimento", mesmo quando disso resulta a morte da mulher. Posso culpar-me a mim próprio pelo instrumento retórico que usei. Mas o André (e talvez o L.) têm que reconhecer que o que eu disse doeu mais porque toca no essencial do mais recente activismo político da esquerda. (continua)

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