O Comprometido Espectador
terça-feira, setembro 30, 2003
 
Said aí
Peço desculpa por mais um post longo, mas é que estes gajos do Barnabé não dão descanso (e, prontos, são meus amigos, não os posso tratar mal).
O Rui e eu trocámos uns posts (este e este) sobre Edward Said, a pretexto da sua morte. Aconselho a leitura dos dois antes de prosseguirem a leitura do que se segue.
1) Sobre os links do Valete Fratres! tenho pouco a dizer. Ele faz link para quem quer, e a mais não é obrigado. É ele que escolhe para quem linka e quando o faz. E muito francamente, eu não tenho nada a ver com isso. Se me perguntas se eu faria isso, respondo-te que não. Mas não sou eu que faço aquele blog. E sobre isto não tenho mais nada a dizer.
2) Já sobre a matéria que o Valete avança a questão é diferente. Quem diz que a investigação do Justus Weiner foi desmentida e desacreditada és tu (na sequência de outras pessoas, é certo). Eu não conheço nenhum desmentido cabal do que Weiner apresentou (mas eu também não conheço muita coisa). A impressão que me fica a mim dessa história é a de que quem, largamente, romanticizou e mitificou a sua infância e adolescência (para fins obviamente políticos) foi o próprio Said (que, aliás, teve que reconhecer, a determinada altura, algumas imprecisões anteriores suas).
Também sobre o anti-sionismo e o anti-americanismo de Said, santa paciência, Rui, faz parte da biografia intelectual, não vale a pena dizer que não. Pode não ser o anti-sionismo e o anti-americanismo da Al-Qaeda, mas é uma forma de ambas as coisas.
3) Mas também não foi sobre isso que escrevi, nem é sobre isso que quero escrever. O meu problema maior tem a ver com a influência intelectual do Said, a qual tem óbvias ressonâncias políticas. Começo por anunciar que não sou letrado em Said, e que dele só li Orientalism e, depois, diversos artigos em jornais e revistas (para além de leituras indirectas). Não posso, nem quero, discutir a validade e interesse dos outros livros que tu (alguém tinha de o fazer) leste. Já percebi a ideia e não gosto dela.
O Orientalism (to cut a long story short) diz-nos que os estudos orientalistas europeus serviam (entre outras coisas menores) o propósito de criar uma imagem negativa, estereotipada e caricatural do Oriente (no caso deste livro, curiosamente, um oriente restringido apenas ao Médio Oriente e ao Norte de África, esquecendo o imenso resto do “Oriente”, e restringido também aos últimos dois séculos). Essa imagem estereotipada servia um propósito de poder e um propósito de identificação. Os europeus identificariam o “outro” (neste caso, o “Oriente”) de maneira negativa, para se identificarem melhor a si, de maneira positiva (naturalmente) e por oposição. Esta atitude seria uma característica essencial do comportamento do “Ocidente”. Ao definir-se assim, a cultura europeia justificaria o seu imperialismo e o seu racismo (que seriam, desta forma, constitutivos da própria identidade europeia).
Os europeus teriam, assim, utilizado uma forma de essencialismo aplicado ao Oriente, para se definirem a si mesmos. O problema desta ideia, parece-me a mim ser o seu profundo a-historicismo e o seu (guess what...) essencialismo. O esquecimento geográfico em Said (ele diz que as suas ideias se aplicam a todo o lado, mas o material empírico que traz é só sobre a região de que falei) de regiões como a Índia, a China, o Japão, a Coreia, a Indonésia, a Mongólia, a Rússia e sei-lá-que-mais mostra já a natureza simplificadora do exercício. Depois, o uso de caricaturas das visões do Oriente por ocidentais para fazer uma tese geral parece-me igualmente de lamentar. Ninguém nega a existência de alarvidades racistas e imperialistas (ou até de visões estereotipadas, sem serem muito alarves) na Europa e no Ocidente. Mas isso não esgota essas visões. Por um lado, essas visões foram evoluindo ao longo do tempo, não foram sempre iguais. Por outro lado, nem toda a gente em todo o momento manteve essas visões. Ora, ambas as coisas desmentem a ideia de que os europeus procederam por definição do “outro”, identificando-o com o que é negativo.
E chegamos, finalmente, ao ponto mais importante. Said critica o essencialismo dos orientalistas para criar ele próprio um essencialismo, o do Ocidente.
Ora, nada disto ajuda a perceber nem o Ocidente nem o Oriente (estes termos teriam muito que se lhe dissesse, mas uso-os aqui por conveniência). Por um lado, o exercício praticamente proíbe a análise e a crítica (para fins políticos) do Oriente. Quem a faz está, claro, a ser essencialista, com tendências (neo-)imperiais. Por outro lado, autoriza a crítica praticamente imoderada do Ocidente. Como se (usando as suas teses) não fosse possível encontrar inúmeros essencialismos no Oriente (em relação a partes do próprio Oriente e em relação ao Ocidente).
E é isto que vai muito bem com a atitude de uma grande parte de pessoas de esquerda. O Said não criou essa atitude. Mas ajudou, sem dúvida, a alimentá-la. E essa atitude é a de que só as sociedades ocidentais é que são criticáveis. Na boca das pessoas de esquerda vivemos no pior dos sistemas e dos mundos, onde tudo o que acontece é culpa do capitalismo, ou da globalização ou dos EUA (um excelente exemplo disso foi o próprio 11 de Setembro, cujos responsáveis não eram as pessoas que tinham atirado os aviões contras as torres, mas os próprios EUA, por causa da globalização e da sua política externa – e Said bem alimentou em parte esta atitude com os artigos que escreveu na altura). Este género de espírito promove a ignorância tanto sobre o Ocidente como sobre o Oriente. O Ocidente é sempre reduzido a esse essencialismo (a receita está escrita) e o Oriente (para efeitos práticos) não é analisável ou estudável (porque se está proceder a uma redução essencialista do que é o Oriente).
E pronto. Agora vou comer e largar este computador imaginado no Ocidente, com contribuição de mentes orientais e (muito provavelmente) manufacturado no Oriente
 
A liberdade vai passar por aqui
Hoje em dia a revolução faz-se por encomenda. Dentro (talvez) de cinco dias (“úteis, meu amigo, que nós temos muita coisa na linha de montagem; embora, por ser para si, talvez se possa fazer a coisa mais cedo”) chega um novo computador a minha casa. Nesse dia (ao primeiro sinal de E Depois do Adeus e Grândola, Vila Morena) abrir-se-ão as portas da liberdade, uma gaivota voará, voará, o povo unido nunca mais será vencido, o trabalho será oposto ao capital, força, força, companheiro Vasco, avante, camarada, avante, CGTP unidade sindical e escreverei até que a vista vos doa.
segunda-feira, setembro 29, 2003
 
Xaropada institucionalizada????
Eu juro que não queria entrar em polémica com o homem que elegeu o Espectador como o seu favorito dentro de uma certa categoria de blogs. Mas há coisas que não se podem dizer: os Beatles, uma xaropada institucionalizada? Pedro Mexia!! Escolha a sua testemunha. E vamos a marcar o lugar do duelo.
Já agora, para evitarmos equívocos. Está a referir-se ao Beatles de Liverpool e não aos Raving Beatles que tocam num certo bar de Sydney, não é? Os Beatles que fizeram álbuns como Rubber Soul, Revolver, The Beatles (também conhecido por álbum branco, olá Dulce Rocha!) ou Abbey Road (e estou a deixar de fora Sgt. Peppers Lonely Hearts’ Club Band e Let it Be). São estes a que se refere, não é? Os que escreveram, por exemplo, Here, There and Everywhere (alguém que me diga se há uma canção pop mais bonita do que esta)? Os que escreveram Tomorrow Never Knows, I am the Walrus, Julia, Happiness is a Warm Gun, Honey Pie, She Said, Ticket to Ride, You’ve Got to Hide Your Love Away, Come Together, Helter Skelter, Across the Universe, Strawberry Fields, A Day in the Life, The Long and Winding Road, Dear Prudence, Martha My Dear, Blackbird, I Will, Sexy Sadie? E páro aqui com as canções que é para não esgotar o espaço do blog. São esses, não é? Os que, algures entre 1963 e 1965 inventaram a moderna canção pop que toda a gente passou a tocar nos 40 anos subsequentes? Os que, antes dos Velvet Underground, começaram a destruir essa mesma canção pop? É que se não são, desconvoco o duelo.
Pedro Mexia, Pedro Mexia… Eu sou um tipo calmo. Mas não me provoque, hã?
 
O Comprometido Espectador anuncia: O Mundo pode Acabar
Na última edição do Expresso anunciava-se, com o devido relevo, a possibilidade do fim da União Europeia. Onde está a concorrência nos media? Vá lá, Público, para quando o anúncio do fim dos EUA? DN, não podemos ficar atrás: o fim do Cazaquistão?
Ahhhh… não era uma notícia… era uma entrevista… Já estava a estranhar: quando foi a última vez que li uma notícia no Expresso?
 
Um de cada vez
Vocês são muitos e eu não posso atender todos ao mesmo tempo. Rui, tentarei dizer mais alguma coisa amanhã sobre o Said.
 
Ui, hmm, ah! Algumas palavras finais sobre homofobia
Vocês não sabem, mas o André e eu, na sequência das nossas discussões sobre homofobia, temos andado a trocar e-mails, cujo tom é bastante mais cordato e calmo do que o que transparece da discussão pública. Não vou, naturalmente, reproduzir o conteúdo dessas mensagens, mas gostava de dizer alguma coisa sobre a forma como a nossa conversa privada terminou. O André acabou por conceder que acha que eu não sou homofóbico. Mas continua a achar que o fui num determinado post, que várias pessoas mencionaram. Se o André acha, mesmo depois da conversa, é porque se calhar outras pessoas acham e a culpa foi minha. Vou tentar explicar aqui porque é que não sou homofóbico, nem o fui naquele post. Para tanto vou ter que ser mais explícito (ui) sobre o que queira dizer com esse post.
Há muito tempo que optei, aqui no blog, por escrever deixando muitas coisas implícitas. Se fosse para escrever tudo tim tim por tim tim perdia mais tempo do que posso nesta actividade. Assim, muitos dos meus posts são para ser lidos tendo em consideração o subtexto. E o subtexto desse post não era homofóbico.
Toda a gente percebeu a (tentativa de) piada ensaiada nesse post. Tratava-se de fazer trocadilhos com conotação sexual, inserindo umas interjeições que permitiam que a piada (espero eu) funcionasse. Ora a piada não se referia à homossexualidade enquanto tal, mas à sexualidade em geral. Isto é, eu não visei os homossexuais por serem homossexuais, mas sim todos os grupos políticos que fazem da sexualidade um tema político. Se, no caso vigente, essa sexualidade é do tipo homo, paciência, não é por esse motivo que tenho que me conter (embora talvez o devesse fazer por outros motivos).
Já este Verão o André (quando ele ainda não tinha entrado para esta escola da vida) e eu mantivemos uma pequena discussão sobre um tema diferente, mas que no fundo resulta no mesmo. Tratou-se, então, de discutir, o caso do homicídio de Marie Trintignant por Bertrand Cantat (a polémica está algures aí pelos arquivos). Nessa altura eu justifiquei o meu post, que era bastante agressivo, com o facto de a violência doméstica se estar a tornar um tema político para certas pessoas. Agora, faço o mesmo: se se transforma a sexualidade em tema político, os planos confundem-se e eu permito-me (e continuarei a permitir-me) fazer o tipo de humor que fiz.
Na altura eu também mencionei que tudo isto tinha origem num certo percurso intelectual da esquerda, que foi abandonando a defesa dos trabalhadores e da classe operária em favor de causas de pequenos grupos que considera “oprimidos”. Curiosamente, muitas dessas causas estão essencialmente ligadas aos costumes. A mim parece-me um péssimo caminho. Na realidade, um caminho ao estilo do jornalismo tablóide, i.e. o da publicização (existe?) de coisas privadas: a violência doméstica, a homossexualidade, e (em campos um pouco mais complicados) a droga e o aborto.
Estas considerações começam a explicar porque razão o post não pode ser considerado homofóbico. Mas percebem-se melhor se eu explicar porque razão não sou homofóbico em geral. E eu não sou homofóbico porque não tenho nada contra essa prática sexual. Limito-me a não praticá-la e basta. Uma vez chegados aqui, tenho a dizer que não percebo o que é a luta pelos direitos dos homossexuais O direito que a homossexualidade merece já está consagrado na lei: o de não ser proibida, desde que feita sem ofensa da moral pública, i.e. no meio da rua ou noutra circunstância igualmente ostensiva. Quanto ao mais não percebo. Uma prática sexual não dá origem a nenhuns direitos especiais. Quem quiser praticar a homossexualidade é livre de o fazer, quem quiser construir uma relação homossexual também é livre de o fazer. Tudo isso são assuntos privados. Eu não quero saber e não tenho o mínimo interesse em saber se alguém é homossexual. É a sua vida. Eu sigo a minha. Tenho alguns amigos homossexuais e alguns deles até activistas. Já lhes exprimi estas minhas opiniões. Eles não estão de acordo, mas continuamos a dar-nos.
Repito: uma prática sexual não dá origem a direitos para além do direito a não ser reprimida. Eu sei que vivemos numa época em que toda a gente acha que tem direito a tudo. Mas não basta achar-se que se tem direito a qualquer coisa para efectivamente se ter esse direito.
Para que não me voltem a chatear (e vou usar a palavra homofóbico muitas vezes neste parágrafo), acentuo apenas que nada do que aqui disse pode ser confundido com homofobia. Não querer reconhecer certos direitos aos homossexuais (ao casamento ou à adopção, por exemplo) não é (por favor, entendam isto) homofobia. É simplesmente achar que as pessoas que seguem uma determinada preferência sexual não têm por esse motivo razões para exigir determinados direitos. A discussão só tem a ganhar quando não se mimoseia o adversário com a primeira arma de arremesso verbal que se tem à mão. Pode-se não estar de acordo com a minha posição. Mas ela não pode, sob circunstância nehuma, ser considerada homofóbica.
E pronto. Estamos entendidos? Quanto ao mais: follow life with joy (Hmmm, ahhh, uhhhh).
 
Não há mal que sempre dure…
Olá Pedro.
 
Nunca mais
Peço desculpa por um certo atraso na retoma dos temas que para aqui vão sendo lançados, mas em minha casa continua a viver-se a longa noite fascista. Uma solução para o problema (já contactei Mário Tomé e Vasco Lourenço para o efeito) está à vista e para breve.
Mais uma vez o Mata-Mouros (a propósito, o número da vossa conta é mesmo aquele?) faz uma menção a esta publicação semi-clandestina. Penso que esse facto só se justifica (mesmo tendo em consideração o estipêndio que vou largando) por eu ter nascido na cidade inbicta (carago…).

sexta-feira, setembro 26, 2003
 
Reminder
É verdade, esqueci-me: toca tudo a ler o artigo de Rui Ramos sobre Salazar, no Independente de hoje. Se nós não o fazemos, alguém tem que pensar na nossa vez. Felizmente, temos o Rui.
 
Chegou a hora do adeus
E desta forma deprimente termino mais uma semana. Continuo sem computador em casa, de forma que, muito provavelmente, estarei de folga até 2ª. No entanto, pode ser que compre o novo computador este fim-de-semana. Se sim, talvez reentre ao serviço antes, para persistir na minha minha missão de degradar de maniera sistemática a qualidade da escrita e das ideias na blogosfera. Tchauzito...
 
Paris-Séte
Tem-se falado muito (e com genérico louvor), a pretexto do centenário do seu nascimento, da filosofia de Adorno. Devo dizer que me parece que (mas é apenas uma opinião) Adorno foi essencialmente um filósofo decorativo.
 
Want, Chain Gang of Love (ou porque é que gosto de música pop)
Fazer música pop é fácil. O que é difícil é fazer boa música pop. Ao contrário do que parece, não faz boa música pop quem quer (umas guitarrinhas, uns gajos esganiçados a falar sobre drogas e amor e já está). Não senhor. Precisamente o problema é que há muita gente que pensa de outro modo e despeja as mais lamentáveis descargas de esgoto sonoro sobre o planeta. Eu penso mesmo que a música pop é dos géneros musicais mais difíceis, porque permanentemente ameaçada por dois espectros: o espectro da “foleirice” e o espectro da “desconstrução”. A boa música pop é a que se mantém numa ténue linha divisória, pronta a resvalar a qualquer altura para o “foleiro” ou para o (demasiado) “intelectual”. Eu tenho pouquíssimos heróis pop absolutos (embora tenha muitos heróis pop relativos): Frank Sinatra e The Beatles (e, se me permitem uma certa elasticidade no conceito de pop, Amália e João Gilberto). Eles são, para mim, os maiores praticantes dessa arte tão semelhante à de trabalhar no arame que é a de se ser artista pop. Ficar em cima do arame é muito difícil, e qualquer um deles a certa altura caiu para um lado ou para o outro, embora a maior parte das vezes estivessem bem equilibrados. Ou então (nos seus melhores momentos), tivessem estado quase a cair sem, na realidade, isso acontecer.
Vem este arrazoado a propósito de dois discos recentes de que gosto bastante: Want, de Rufus Waiwright e Chain Gang of Love dos The Raveonettes. O Tradução Simultânea já elegeu Want para disco do ano. Não sei. Não me lembro de todos os discos que saíram este ano. Mas Want é bastante bom. Menos, muito menos do que Poses, o anterior. Poses é um disco em estado de graça. Nada, nele, parece estar a mais. Precisamente o problema de Want é que tem muitas coisas a mais e por vezes cai no lado “foleiro” (ou camp, como dizia outro dia o Luís Miguel Oliveira). É de propósito? Pois é isso que nunca se sabe na música pop. Se sim, revela uma capacidade de controlo notável. Se não, é porque já caiu na armadilha.
Chain Gang of Love também é muito bom, mas tem o problema oposto. Por vezes, ao ouvirmos o disco, gostávamos que tivesse menos gracinhas para estragar a singeleza das melodias. Há ali uma vontade de desconstruir que é engraçada, mas que às vezes vai para lá do que (a mim me) apetecia. Dito isto, acho que, dentro do género revival (que anda muito em voga) é muito mais interessante do que um grupo demasiado louvado pela crítica recentemente, The Thrills.
Dito isto, ambos se recomendam e devem ser ouvidos repetidamente.
 
Said baixo
O Rui Tavares tem razão quando diz que o Edward Said era um palestiniano relativamente moderado. Mas parece-me que exagera, para edulcorar a memória do homem. O Christopher Hitchens, no tal artigo, que eu já li há algum tempo, acusa-o, digamos assim (e com razão, pensou eu), precisamente de não ser suficientemente moderado. Se bem me lembro, a ideia de Christopher Hitchens é que Said (pela sua educação cosmopolita, origem social e religiosa) poderia ter tido um papel crucial para estreitar o gap entre palestinianos e judeus e entre (para usar as suas palavras) o Ocidente e o Oriente. Mas ele não fez nada disso. Said em grande parte criou aquilo que dizia denunciar: o Oriente visto como caricatura pelo Ocidente. Ora essa caricatura é verdade para uma parte de quem vive no que ele chamava Ocidente, mas não é para outras.
O pior é que isto deu origem a uma horrível perversão intelectual: a criação da caricatura do Ocidente. Ora essa caricatura é partilhada hoje em dia por muita gente no Médio Oriente e por uma parte importante da esquerda “ocidental”. É essa caricatura que está por trás de muitas coisas que se ouvem das piores fontes no Médio Oriente. E é essa caricatura que a esquerda usa permanentemente no seu discurso, para a den?ncia da sociedade “Ocidental”. Said é uma grande fonte para a crítica das sociedades “ocidentais”, e a esquerda (cuja principal actividade é criticar as sociedades “ocidentais”) pega nisto alegremente. Mas Said não nos dá nada para criticarmos as sociedades “orientais”. Como se o racismo e a incompreensão do “outro” fossem males exclusivamente “ocidentais” e, sobretudo, como se fossem constitutivos do “Ocidente”.
E sobretudo não nos dá nada (de forma substancial) nem para percebermos o Ocidente nem para percebermos o Oriente.
Posso lamentar a morte dele, como qualquer pessoa civilizada o deve fazer. Já o luto intelectual deixo-o para outras pessoas.
 
'Brigados (outra vez)
Vocês comovem-me. O Manel tem apenas (aparentemente) uma coisa pequenita que até passa sem medicação. Tem que ficar em casa só para não a pegar ao resto da humanidade.
Mas mais uma vez: 'brigadinhos...
quinta-feira, setembro 25, 2003
 
Goodness Gracious Me!
Só uma pequena corrigenda ao Desesperada Esperança: a tal série chama-se Goodness Gracious Me! e não apenas Goodness Gracious, e é realmente bastante divertida, embora tendendo para o enjoativo a partir de certa altura (é capaz de ser do caril).
Quanto a histórias dos EUA, que o Bruno também pediu há uns tempos, talvez possa sugerir aqui qualquer coisa um dia destes (não sou assim grande especialista, embora já tenha lido umas coisitas fragmentárias). Mas hoje não.
Agora é que vou.
 
A longa noite
Sorry folks, mas fora o agradecimento devido ao Celso pela sua dissensão editorial em meu apoio (qualificado, é certo) no Barnabé, hoje vou estar calado. Passei uma longa noite nas urgências pediátricas com o meu filho mais velho (ele está bem, se isso vos preocupa) e cheguei a casa à 5.30 da manhã e devia estar a trabalhar desde as 9.30, coisa que não fiz (como é óbvio). Continuo sem computador em casa (prevê-se, aliás, uma compra próxima, com uma bomba que escreve sem teclado, pensa por nós e ainda tira bicas e aconselha o Dr. Mário Soares a ficar caladinho), pelo que de lá também pouco posso fazer. Portanto, bloguices, hoje não. Até amanhã, camaradas.
 
'Brigadito
Celso, obrigadito pelo teu apoio cum discordância na questão da minha homofobia. Mas sabes, acho que afinal o André e o Daniel é que têm razão. Com aquele meu post, no fundo, saí do armário. Não fazes ideia como me sinto livre depois disso. Estou já a pensar fundar uma associação (a Homo lava mais Branco) e já contactei um pessoal para a parada e arraial homofóbico de Natal. Entretanto, estou a pensar pedir um subsídio à câmara para um festival de cinema homofóbico (que não pode passar na cinemateca, porque a cinemateca está nas mãos dos gajos), com filmes porno e tudo (que é para não ficarmos atrás deles, tázaver?). Olha, eu mantenho-te informado. Vais já para a minha mailing list.
PS - Largando agora o humor pimba que me caracteriza, já antes estive para linkar para um post teu sobre o filme do Larry Clark. Não o tinha feito porque não vi o filme e estava à espera de o fazer para secundar tudo o que disseste. Mesmo não tendo visto, não tenho dúvidas nenhumas (ex ante) de que tens razão. Vi o Kids, que considero um dos filmes mais idiotas que vi na vida e li o suplemento do Público dedicado ao filme, uma coisa lamentável, que só por mero acaso cabe na categoria de jornalismo "cultural". Seja como for, cá vai o link.
quarta-feira, setembro 24, 2003
 
Um esclarecimento
Daniel, eu não fiquei ofendido. Vai lá ler com mais calmita. Eu disse que o André me tinha insultado e tu voltas a fazer o mesmo. Já devias saber que eu não fico ofendido com o primeiro insultozito que me atiram à cara.
 
Os jorges
Torna-se hoje claro que não temos o direito de desesperar. Os dois mais importantes países do mundo têm presidentes chamados Jorge, ambos corajosos, determinados, com ideias claras sobre os seus projectos políticos e as respectivas políticas interna e internacional. Um (Bush) promete não dar tréguas ao terrorismo. O outro (Sampaio) promete não dar tréguas à SIDA. Assim sim, o mundo está no bom caminho. Há, claro, uma pequena diferença de inteligência entre os dois. Mas isso não há-de obstar ao bom curso dos acontecimentos.
 
Démocratie et totalitarisme
O sr. Chirac é actualmente o maior campeão da democracia no Iraque. Ele está sempre a pedir o Iraque para os iraquianos e de forma democrática. Ainda há uns meses atrás era o mesmo sr. Chirac que pedia para que se deixasse o Iraque sossegadinho nas mãos de um senhor, ai, como é que ele se chama?, Saddat ou Saddal, ou lá o que é que era. Já não me lembro bem. Eis aqui um bom e verdadeiro amigo do Iraque e da democracia e da democracia no Iraque.
 
The lone star and the stripes
Como sempre, esteve bem na Assembleia Geral da ONU o mui estimado George W. Explicou que a reconstrução do Iraque é conversa para senhores crescidinhos e que, portanto, seria melhor que o Presidente Chirac continuasse a sua expedição neocolonial clandestina na Costa do Marfim.
Pela intervenção de ontem ficámos a saber para que é que são precisos os outros países e a ONU na reconstrução do Iraque. São precisos para se calarem. Muita gente fala das tropas de que os EUA “desesperadamente” precisariam para “controlar o caos” vigente no Iraque. A maior parte das pessoas já percebeu: não há nenhum “caos” no Iraque. Há muita coisa boa que vai ocorrendo e há um problema de segurança, geográfica e politicamente localizado numa determinada zona do país e envolvendo um determinado grupo político minoritário (grupo esse que faz da violência terrorista a sua acção política). Quanto às tropas, não sei se alguém está ciente dos números envolvidos, mas os EUA têm por lá cerca de 130.000 tropas e estão a pedir aos outros países à volta de 10.000. É isto a “necessidade desesperada”? O que os EUA querem é que os outros países e a ONU adquiram (na palavra inglesa) um stake no processo. Para que, de cada vez que houver um atentado na ONU ou contra outros interesses, eles não venham logo insinuar a necessidade de regresso a casa das tropas americanas. Já que o regresso das tropas americanas significaria o regresso de todas as outras. O senhor Chirac já mostrou que não cai nesta. Resta ver o que vão fazer os outros. Mas seja lá o que fizerem, também não conta para muito.
 
Na Guiné há um bar chamado Bar Nabé (II)
Por falar nisso, nunca as coisas que eu escrevo têm (que eu saiba) um efeito tão grande como sobre o André. Eu preferiria que ele me ignorasse, porque ele responde sempre às coisas que escrevo de uma maneira que me deixa inevitavelmente um pouco descorçoado (provavelmente porque também ele fica descorçoado com o que lê vindo de mim). Mas ele não me consegue ignorar e eu não o consigo ignorar. Ele insultou-me, mas eu desculpo-o. Não há coisa que mais deteste do que perder amigos.
OK, estou disposto a admitir que o meu humor tivesse sido pimba (e sei também que o que faço não é literatura – eu nunca seria um bom escritor). Quando o faço, tento fazer (e penso fazer) um tipo de humor mais ou menos inteligente. Se calhar é mera presunção. Eu tento fazer isso, mas provavelmente estão sempre a sair coisas completamente desgostantes. Eu não achei (e continuo a não achar) que fosse pimba ao fazer aquele post. Mas o André achou. Contra isto nada posso fazer. São opiniães.
Já quanto a ser homofóbico é que não entendo. Eu limitei-me a utilizar o facto de os movimentos que refiro usarem o sexo como bandeira política para fazer humor (admitamos que pimba). Mas gostava que o André me explicasse onde é que há homofobia naquilo que escrevi. O meu ponto é simplesmente este: eles usam o sexo para a causa, também eu o vou usar no meu post de uma maneira diferente para gozar (hmmm) com as divisões entre eles (as quais acho ridículas).
Tenho mais que fazer do que estar aqui a explicar porque não sou homofóbico. Tenho até amigos que já foram dirigentes de organizações do mesmo tipo e que são bastante mais tolerantes do que o André quanto a estas formas de gozo (hmmm hmmm). E francamente, como dizia o outro, I don’t give a shit , face ao meu currículo pessoal, se alguém pensa que sou homofóbico. Não posso fazer nada relativamente a quem pense isso. Nunca dei uma razão que fosse a alguém para pensar isso. Se alguma coisa, dei para pensar o contrário disso. Não defender os movimentos gay não é equivalente a ser-se homofóbico. E sobre isto, end of conversation. Não estou aqui para me desfazer em desculpas relativamente a uma coisa de que não tenho culpa nenhuma.
Uma reflexão final: o pessoal de esquerda pode sempre fazer humor deste género (sobre o celibato dos padres, a sua homossexualidade latente, a sexualidade das freiras, a castidade, a virgindade, “somos liberais até nos genitais”, isto e mais aquilo). Mas, claro, quando a piada vem do outro lado, entramos logo no domínio da homofobia e do totalitarismo.
Um exemplo que me vem à memória de uma piada bem conseguida deste género é a célebre intervenção de Natália Correia no parlamento (nos idos de 70 ou 80) a propósito de não sei que deputado do CDS que era contra a legislação do aborto e contra a contracepção. Ela dizia qualquer coisa do género: como o deputado só tem três filhos, isto quer dizer que só o fez três vezes. É pimba? Eu acho graça. E qualquer pessoa de esquerda se lembrará deste episódio de forma muito agradada.
Eu sei que tu andas nervoso, e por boas razões. Mas de qualquer maneira pedia-te que não me atirasses insultos assim com tanta facilidade.
 
Na Guiné há um bar chamado Bar Nabé (I)
Está combinado Rui. Um dia destes, quando voltar do emprego, tocas lá em casa e vamos ao bar do jardim da Estrela. Sobre este bar estava aliás a pensar fazer um blog, inspirado noutro, chamado Muito Mau. É terrível que um espaço público tão bonito ofereça como única instalação hoteleira aquele horripilante estabelecimento. Seja como for, encontramo-nos e sempre te posso dizer qualquer coisa sobre a fatiota que levas para a cerimónia, ajeitar-te o lacinho e sacudir o último grão de pó do casaco.
Eu bem sei que tu podes assinar um papel desses. Mas há outro aí na baiuca sobre o qual já não se pode dizer o mesmo.
terça-feira, setembro 23, 2003
 
É luxo só
À atenção do Senhor Homem a Dias:
não sei se, afastado da civilização, entre vacas e vulcões, à saída de Vila Franca do Campo, o Nosso Homem em Ponta Delgada já teve acesso à informação: começaram a aparecer cartazes anunciando os concertos de João Gilberto em Lisboa e no Porto, lá para vintes de Outubro.
Será que é mesmo desta? Vamos orar, irmão.
 
You damned liberal Pollack!!
O Cidadão Livre também já reparou: estão a repetir na SIC Gold o fantástico All in the Family, a mais maravilhosa das séries reaccionárias que me foi dado ver (penso corrigir o Cidadão se disser que não dá só às segundas à noite, mas também nos outros dias). A série merece ser vista a partir do genérico: Archie e Edith cantam ao piano "Those Were the Days", depois passamos a ver imagens de arranha-céus indistintos, isto é, o centro da cidade e, pouco depois, estamos em pleno suburb operário. O resto passa-se tudo essencialmente dentro de casa. A série é na superfície (e muito enganosamente) progressista. No meio de tanto progressismo pc (no sentido de politically correct) avant la lettre só há duas Pessoas (com H grande, como diria o Jardel) naquela série: o horripilantemente reaccionário Archie e a sua submissa mulher, Edith. Turn on, tune in!
 
PREC revisited and sexed up
Por falar em sexo público, tenho apreciado bastante as recentes querelas do movimento LGBT nacional a propósito da sua viagem a Paris para o Fórum Social Europeu. Vem no Público. E para provar a sua relevância política, aparece na secção de política nacional. São já múltiplas as cisões e os conflitos, algo reminiscente das divisões entre os setecentos e noventa e nove partidos maoístas (e quatrocentos e trinta e um trotsquistas) que devem ter existido em Portugal por alturas do PREC. Segundo o Público, a escolha dos representantes à magna assembleia deixou à vista a “fissura” (ui) entre as várias organizações LGBT nacionais. Parece que há acusações (da parte da “Opus Gay”) de “infiltrações” (hmmmm) de partidos políticos nessas organizações. O que já levou certas pessoas, como “Fabíola Cardoso” (dirigente do “Clube Safo”) a explicar que os “movimentos LGBT têm membros (hmm, hmm) de partidos” e que isso não tem nada que ver com “manipulações” (hmm, hmm, hmmm) partidárias.
Mas sempre há novidades: parece que foram feitas acusações de que há quem use “tácticas de golpes muito típicas de trotsquistas”. Não conheço estes golpes, mas imagino: um sujeito veste-se de Trotsky, com bigodinho e óculos e um exemplar do Capital debaixo do braço, volta-se para o outro e diz-lhe: “vá, chama-me Léon”.
 
How low can you go?
Não sei se alguém o lê. Não sei se alguém, lendo-o, lhe presta muita atenção. Não sei se alguém, lendo-o, lhe dá um crédito muito grande no estabelecimento das tendências da opinião pública nacional. Mas seja como for, eu li e, por ele ter escrito num dos mais importantes jornais nacionais (e ser seu director), considero o seu artigo um dos mais deprimentes textos recentes no jornalismo dito “sério” português.
O PC do Mar Salgado já fez uma impiedosa desmontagem do último texto de opinião de José António Saraiva no Expresso. O Mar Salgado reproduz o essencial do texto, escuso de o fazer aqui.
Uma vez que (tal como o diz o PC) JAS exclui da gravidade dos actos cometidos pelos políticos visados o facto de terem sido crime ou não, JAS entra num terrível pântano intelectual. Porque aquilo que se sabe dos políticos que usaram os serviços de prostitutos do Parque Eduardo VII sabe-se porque pode configurar um crime. Se não configura é porque não merece consideração jornalística. Ou será que é relevante saber-se se os mesmos políticos, no aconchego do lar, organizam orgias? Ou saber se, dentro de quatro paredes e com pleno consentimento do parceiro, são adeptos do sado-masoquismo ou do fisting homossexual? Ou saber se, na sua camita, se revelam partidários do sexo violento e da dupla penetração? Ou saber se, com qualquer parceiro consciente, gostam de se transvestir e que lhes chamem Amélia? Ou saber se são impotentes? Ou saber se gostam de o fazer alcoolizados?
Hitler, que se saiba, não tinha perversões sexuais e era vegetariano prosélito, anti-tabagista prosélito, um amante da natureza e do culto da saúde e da virilidade montanhística. Churchill era um beberrão intratável, muitas vezes à beira do coma alcoólico, que ao fim da noite já não se lembrava o que tinha dito ao princípio da mesma. A qual dos dois é que devemos a salvação da humanidade?
E já agora, estão os jornalistas livres de ter perversões sexuais? E, não estando, não será também relevante saber se vão ao Parque Eduardo VII também eles? E se as taras que revelam fazendo isso não os colocam também na categoria de pessoas em quem não se pode confiar? E saber se não haverá notícias inquinadas pelas suas perversões? Não vale a pena vir dizer que os jornalistas são cidadãos privados sem cargos públicos. Os jornalistas são cidadãos privados, mas uma parte substancial da sua actividade tem relevância pública. Pelos mesmos critérios por que JAS se permite fazer um texto daqueles, qualquer pessoa poderia fazer um sobre jornalistas, com idêntica relevância editorial.
O problema não está no facto de essas perversões serem repugnantes ou não. Quem as acha repugnantes acha e não tem nada que se coibir em transmitir essa repugnância, a partir de um ponto de vista moral. É no domínio da moral que essas práticas devem ser criticadas (por quem as quiser criticar), se elas não estão previstas enquanto crimes na nossa legislação. O problema está em inferir consequências políticas daí.
Com directores assim, não admira que o lugar do Expresso na paisagem mediática portuguesa se confirme cada vez mais como o mais correcto: no fundo de um saco de plástico.
segunda-feira, setembro 22, 2003
 
Reabilitação
Traz hoje o Público uma história maravilhosa, plena de ensinamentos para quem quiser ouvir. Faço o link para a notícia completa, mas reproduzo apenas a parte que considero mais significativa:

Um solitário abeirou-se de uma caixa e disse que estava ali para roubar. A funcionária, sem perder o sangue-frio mas também sem afrontar o criminoso, encetou uma conversação. E foi assim que ambos, durante quase 30 minutos, estiveram a trocar ideias.
De um lado do balcão, a bancária tentava mostrar que a vida do crime não compensava. Do outro lado, o ladrão, munido com uma garrafa cheia de petróleo, esforçava-se para demonstrar que não lhe restava outra hipótese de sobrevivência (o termo não é exactamente o adequado) que não roubar.
Ao fim de meia hora, quando o gatuno saiu do estabelecimento com uns míseros contos de réis no bornal, ambos os intervenientes no insólito episódio se encontravam lavados em lágrimas, depois de cada qual ter esgrimido os seus argumentos e valores morais.
A verdade é que, cerca de duas semanas depois do assalto, o ladrão - que mais tarde até veio a ser preso - acabou por entrar em contacto telefónico com a bancária. Não para se vangloriar do roubo ou para a ofender, mas apenas para lhe agradecer o cuidado que esta tivera em o convencer de que o rumo que a sua vida estava a tomar não era o mais correcto.


Luís Fazenda, Francisco Louçã, André Belo, Rui Tavares, Engenheira Maria de Lurdes Pintasilgo: por favor, telefonem a esta senhora. É a nossa última esperança para que vejam a luz e percebam que o rumo que as vossas vidas está a levar não é o mais correcto.
 
Os meninos à volta da fogueira
Enquanto estive de férias ardeu uma parte substancial da Tapada de Mafra. A Tapada de Mafra é propriedade pública. Alguém me explica neste caso onde estão os interesses imobiliários, os madeireiros, o capitalismo e o lucro desenfreado que tanta gente elege como culpados dos incêndios em floresta privada?

 
Onde estavas no 11 de Setembro? (puntata finale)
Volto a este tema só para recomendar um artigo saído na última Prospect de um escritor e jornalista inglês de esquerda lamentando (e até desprezando) as reacções da maior parte dos jornalistas e escritores de esquerda por alturas do 11 de Setembro tanto na Inglaterra como nos EUA. O meu testemunho foi escrito, como diria o Daniel, do lado direito. Interessante é verificar como ser de esquerda não seria impeditivo de sentir coisas parecidas e (como explica o autor do artigo) dar grandes vantagens políticas à esquerda em futuras situações (como a guerra do Iraque). Tal como a reacção do Mário de Carvalho me ficou na memória, houve uma reacção da esquerda inglesa que muito me surpreendeu à época, a de Christopher Hitchens. Até me lembro como é que acabava um artigo seu na Spectator, salvo erro chamado “The Fascist Sympathies of the Soft Left” (cito de memória): “a coalition with these people is no longer necessary. But this is not a problem. It no longer matters what they think”.
 
Como um passarinho
Classificações por classificações gosto mais de coisas como “descomprometido comentador” (peço imensa desculpa, mas já não me lembro que blog me classificou assim), “peixe livre” ou “electrão livre” (talvez o meu favorito: afinal já muita gente tinha dito quer eu era livre, mas nunca ninguém que fosse um electrão, embora preferisse que me tratassem por protão ou mesmo ameijoa). Eu sei que na forosfera quase ninguém sabe muito bem o que é o liberalismo, pelo menos por aquilo que a gente vai lendo. Na blogosfera, porém, essa categoria de pessoas abunda. Eis mais um inequívoco sinal de desenvolvimento do nosso país, digno de emparelhar, enquanto sinal de desenvolvimento, (como diria já não sei se o Pedro Lomba, o Pedro Mexia ou o João Miguel Tavares) com o espantoso facto de o Artur Jorge ter cortado o bigode.
 
What’s right
Ao longo das últimas semanas blogs de entre os mais meritórios arquivaram-me na direita. Umas vezes isso aparece precedido de elogios: “o bom combate” ou “direita inteligente”, outras é feito sem mais comentários, como no País Relativo (tenho muito a agradecer a este último: a última vez que eles falaram comigo disseram que estava “orgulhosamente só”; terá certamente sido por motivos caritativos que me puseram em tão boa companhia; agora mais a sério: obrigado por me porem nos links permanentes). Noutros blogs também apareço em geral classificado ou na “santa aliança”, ou no “lado direito” ou noutros sítios igualmente recomendáveis.
Eu juro que nunca me classifiquei a mim mesmo dessa forma. E se alguma vez o fiz foi só para chatear. Sem querer intrometer-me demasiado nos vossos princípios editoriais, bem gostava de perguntar: afinal que critérios presidiram à vossa classificação? Obrigados.
 
Eu já sabia...
Não sei que jornalista ou escritor brasileiro disse, depois de o Brasil ter ganho o seu primeiro campeonato do mundo de futebol, algo do género: "nós já sabíamos que éramos os melhores, faltava era que o resto das pessoas o soubesse também”. O mesmo se passa comigo: eu já sabia que era um génio, faltava apenas que o resto do mundo ficasse disso ciente.
Pois ficaram agora, graças às recentes menções do Dicionário do Diabo e do Mata-Mouros. O primeiro elege-me como o seu favorito de entre os recentes blogs da “margem direita, a combater o bom combate”. O segundo faz duas-menções-duas (da famosa ganadaria CAA) a este vosso mui humilde génio. Ora assim mesmo é que é. Eu até estava para agradecer, mas depois pensei melhor. Caramba, eles não fizeram mais do que a sua obrigação. Afinal um indivíduo não é genial para depois andar a esmolar uns linkzitos. Vosselências é que têm que me agradecer. E mainada…
sexta-feira, setembro 19, 2003
 
Tau tau
Olá. Os meus meninos já sabem que não tenho computador em casa. Por isso, a partir de agora e até 2ª feira vou estar muito caladinho. Vá, enquanto eu não estiver por cá podem ir à garrafeira do papá. Mas mais do que isso não, senão quando eu voltar dou-vos tau tau. Entretanto leiam qualquer coisinha, tá bem?, como isto, por exemplo.
 
Red Devil
Martin Amis, um decente escritor inglês do esquerdalho, escreveu recentemente um livro agora traduzido para português: Koba, The Dread. É a enésima denúncia reflexiva do estalinismo. A pretexto desta tradução estou farto de ler pesarosos artigos do pessoal de esquerda louvando a coragem de quem "critica o estalinismo" e tenta perceber o apoio dos intelectuais ao dito. Eu gostava mesmo que tentassem perceber porquê. De qualquer maneira, já lá vão qualquer coisa entre 70 e 50 anos sobre os eventos e ao longo desse meio a três-quartos de século incontáveis pessoas escreveram sobre eles, nos anos 30, 40, 50, 60, 70, 80 e 90 (Victor Serge, André Malraux, Maurice Merleau-Ponty, Albert Camus, Raymond Aron, Hanna Arendt, Friederich von Hayek, George Orwell, Arthur Koestler, Isaiah Berlin, Alexander Solzhenitsyn, Robert Conquest, François Furet, Richard Pipes, Martin Malia, Anne Applebaum e até Álvaro Cunhal e Carlos Carvalhas, e devo estar a esquecer muitos mais...). Não li nem tenciono ler o livro, mas pelos resumos que já tive oportunidade de consultar, ele não acrescenta uma linha que seja de interesse ao que já se sabe. Porquê a excitação?
Não sei. Mas continuam a impressionar-me os louvores à "coragem intelectual" de quem, passado quase um século sobre as primeiras purgas, "critica o estalinismo". Como se fulano fosse "intelectualmente corajoso" por "criticar o nazismo". Como é evidente, quem ainda hoje anda a "criticar" o estalinismo não percebeu nada de nada. O estalinismo não se "critica", nem se pensa nele em termos de o "o que é que correu mal?". O estalinismo está, tal como o nazismo, dentro das categorias do indizível.
O que preocupa mais é o seguinte facto: "criticar" o estalinismo e os intelectuais que o apoiaram transformou-se numa espécie de ritual, um pouco como a confissão. O pecado é o estalinismo, escreve-se um livro a título de Avé Maria, leva-se a absolvição e pode-se continuar a dizer e a fazer os disparates do costume sem preceber o fundo do que está em causa. As restantes intervenções públicas do mencionado Amis mostram exactamente isso. Convém que sejamos claros: criticar o estalinismo é fácil. Aliás, não custa nada. O que custa é criticar e perceber o resto.
 
Big Oil
Sendo eu apoiante da política externa de George W. Bush ando naturalmente a soldo dos vários lobbies que a fazem mover: o judaico, o fundamentalista cristão, o judaico-fundamentalista cristão, o do complexo militar-industrial, o dos neconservadores straussianos, o da Enron, o da Halliburton, o da extrema-direita americana e (claro, não podia faltar) o do petróleo. Sobretudo deste último, confesso. Mas é por uma boa causa: é para ajudar à rápida reconstrução do Iraque.
Exactamente por este motivo decidi atestar o depósito do meu carro (amanhã penso fazer o mesmo, e depois de amanhã, e depois: é um acto de consciência). Enlevado em pensamentos de crianças iraquianas felizes, a correrem com malgas ao pipeline para apanharem mais uma gota do precioso recurso enchi, enchi e enchi o depósito. Por razões que não entendo o manípulo da pistola não saltou quando o depósito encheu. O dito cujo transbordou e empapou-me as calças e os sapatos. Neste momento se ligassem um isqueiro ao pé de mim inflamava-me num ápice qual balão de S. João.
Adam Smith defendeu, já no século XVIII, que o essencial para a riqueza das nações é a divisão do trabalho. Eu estou de acordo: nada do que me aconteceu hoje aconteceria se continuasse a haver gasolineiros a cumprirem o seu serviço, enquanto eu ficava sentadinho no carro a edificar-me com as páginas de opinião do Público. E o pior de tudo, é que já não posso andar incógnito: se virem pela rua um tipo com ar de que não faz mal a uma mosca, simpático, cheio de falinhas mansas, mas a tresandar a gasolina, sou eu, não essa criatura adorável que o meu aspecto deixaria adivinhar, mas um sinistro neoconservador com os bolsos cheios do dinheiro sujo da cabala do petróleo.
quinta-feira, setembro 18, 2003
 
Ideias Rasas
O arqueólogo Cláudio Torres concede uma entrevista ao Público depois de participar num showmício do Bloco de Esquerda. Podem ver por vocês próprios as pérolas que daquela mente brotam. Eu quero só comentar uma, que reproduzo a seguir:

Sem querer colocar toda a América no mesmo prato, mas a dominante daquela civilização americana é o completo ahistoricismo, é fazer tábua rasa, é, aliás, a sua própria história. A civilização americana assenta no massacre de uma civilização anterior, não existindo qualquer tentativa de integração. Nasce da iniciativa privada, do indivíduo que se apodera de um território, e essa mentalidade do falcão que conquista e avança pelo Oeste.

Desconto as banalidades aprendidas na crítica a filmes de cowboys e vou ao essencial: os EUA são ahistóricos, procedem por tábua rasa; os EUA massacraram a civilização anterior e não integram.
Que os EUA sejam o único país do mundo que vive há duzentos anos sob o mesmo enquandramento institucional. Que esse enquadramento institucional (a declaração de independência e a constituição) tenha sido elaborado por alguns dos mais notáveis pensadores políticos de sempre da história da humanidade, mas que escreveram no século XVIII e no século XIX (olha o ahistoricismo): refiro-me, por exemplo, a Hamilton, Jefferson e até mesmo Washington. Que esse enquadramento institucional é baseado nalguns dos mais belos conceitos políticos e intelectuais de que me consigo lembrar. Que esses conceitos foram sendo elaborados por alguns dos mais importantes pensadores da história da humanidade, como John Locke, David Hume ou Thomas Hobbes. Que esse pensadores se filiam numa tradição intelectual que remonta até Sócrates, Platão, Aristóteles ou Cícero.
Que, para além disso, os EUA não sejam diferentes de quase todos os países em matéria de massacre de civilizações anteriores (o que inclui o nosso). Que os EUA constituem precisamente o mais notável exemplo de integração (com defeitos, ninguém nega) de uma extraordinária colecção de povos europeus, africanos e mais alguns asiáticos e americanos. Nada disto passa na cabeça do arqueólogo, certamente muito ocupado a limpar cacos para pensar noutra coisa.
 
Diferente dos outros
Sobre os meus posts referentes ao 11 de Setembro, o meu amigo Daniel deu-me uma resposta, naturalmente inteligente, vinda de quem vem. Estou com poucas condições para a prática da modalidade (v. post anterior), mas mesmo assim vou tentar alinhar uma ou duas ideias.
Embora talvez não parecesse (por incompleto domínio da técnica da escrita da minha parte), os meus posts não tinham uma intenção polémica, mas sobretudo testemunhal. O Daniel diz que o que lhe causa mais impressão sobre o 11/9 é o de pessoas como eu não deixarmos discutir o assunto. Tem razão: passados dois anos eu ainda não sei o que é que há a discutir sobre o assunto. Para mim, não há nada a discutir. O Mário de Carvalho, peço desculpa, mas percebeu isso: o 11/9 não foi só prédios a arder e pessoas a cair, foi um desesperante momento de regresso à barbárie. Eu estou disposto a discutir tudo: a globalização, a política externa americana, os neoconservadores, a pobreza no mundo, o Pinochet, mas não a pretexto do 11 de Setembro.
Entre outras coisas isto tem a ver com o facto (não me custa nada assumi-lo) de os EUA serem um símbolo de muitas coisas que me são caras (diria sagradas, se fosse religioso) (v. post seguinte). Os EUA têm muitas coisas criticáveis, como toda a gente e todos os países. Não é isso que está em causa. Mas os EUA são o país do mundo que mais explicitamente se constrói sobre as referências intelectuais e políticas que mais me são caras. E, quanto a isto, de facto, não há nada a fazer. É um lugar-comum, mas é verdade: quem não sentiu o que eu senti nesse dia não é do meu clube e pronto. Não consigo elaborar muito mais do que isto.
Não dá para mais, por agora. Ainda tenho mais um post para escrever, que procura completar este. Pode ser que a conversa vá continuando.
 
O Comprometido Espectador, fase Dicionário do Diabo
Entrei definitivamente na minha fase mexiana: o PC doméstico, depois de há umas semanas se ter recusado a ligar, repete a brincadeira desde ontem. Já lhe prometi smarties e um livro do Manuel Alegre, mas ele nada, nem um suspiro.
Isto tem um lado bom: o lugar dos PCs é no Hotel Vitória, na Soeiro Pereira Gomes e na Festa do Avante, não no escritório de minha casa. Mas tem também um lado mau: volto a estar sem internet desde o fim da tarde à manhã do dia seguinte.
Pelos sintomas da traquitana não sei se vai lá nem com festinhas nem com marteladas, o que provavelmente implicará a compra de um novo. Este meu estatuto prolongar-se-á, portanto, até esclarecimento da situação. Para vosso bem-estar, sou obrigado a ser mais esparso.
quarta-feira, setembro 17, 2003
 
Onde estavas no 11 de Setembro? (II)
E pronto. Assim se relata o meu 11 de Setembro de 2001. A partir daqui começa a lenta aprendizagem do meu novo, mais negro, ethos. Tal como já foi relatado na blogosfera pelo Pedro Mexia também eu comecei por ficar repugnado pelos comentários que se iam fazendo ao evento. Não só da esquerda, mas também de alguma direita. A malta da esquerda vem agora, cheia de pressa, explicar “que sim, que se fartou de condenar o atentado na altura”. Convém que sejamos honestos: houve de tudo. Houve quem condenasse e houve quem (não vale a pena dizer que não) se regozijasse. E houve quem explicasse ou insinuasse (lembro-me como se fosse hoje de um inacreditável artigo de Diana Andringa nessa altura no Público) que era tudo uma invenção, um atentado auto-perpetrado. Teoria que continua a ter os seus seguidores e que até já deu origem a um best-seller em França que prova por “A mais B” que não caiu nenhum avião no Pentágono. O Intermitente, de resto, mostra num post recente o raciocínio, citando o artigo de alguém que considera o 11 de Setembro o incêndio do Reichstag de Bush e seus neoconservadores.
Mas houve sobretudo quem condenasse para dizer que a culpa era dos americanos, o que (sejamos honestos, outra vez, e não vale a pena vir com conversetas…), não é muito diferente do regozijo. Porque quando se diz que a culpa do atentado não é de quem o cometeu, mas do capitalismo, do neoliberalismo, da globalização e da política externa americana, aquilo que se está a fazer é a justificar o acto. Uma das coisas que mais me impressionou à época foi o facto de o acto não ter sido reivindicado, e portanto não ter nenhum sentido político claro. Mas logo vieram incontáveis pessoas dar o seu sentido pessoal ao acontecimento: a culpa era da pobreza no mundo e dos EUA e de mais e de mais aquilo… Não vale outra vez a pena vir com conversetas: o acto tinha uma assinatura, mas o texto estava em branco. Quem veio com esse discurso escreveu o texto do acto e acabou-se.
Perante isto o meu optimismo progressista esfumou-se. Até podem achar que sou estúpido ou intolerante. Mas a partir desse dia percebi que o teor do meu discurso era incompatível com o teor do discurso dessas pessoas. A partir desse instante deixei de acreditar que era possível a conversa racional (no sentido da discussão com o intuito de fazer mudar a opinião) com essas pessoas sobre muita coisa. Sobretudo por culpa minha, por causa da minha escolha. É como diz algures Isaiah Berlin: não se pode ter uma conversa racional sobre bondade com uma pessoa que acabámos de ver a pontapear uma criança. Os níveis do discurso não são compatíveis. (já que falei sobretudo de reacções negativas, lembro-me agora de uma reacção que muito me surpreendeu pela positiva: a de Mário de Carvalho, um escritor comunista, que não hesitou em se afastar destes comentários que estou a relatar).
Dois anos depois, confirmando plenamente o meu recente mergulho no pessimismo, voltamos ao mesmo. Desta vez, o pretexto é o golpe de Estado de Pinochet. Dou de barato que o Público não tenha feito de propósito: as datas coincidiam e pronto. Mas os que comentaram a coisa no sentido de comparar os dois eventos voltaram ao discurso de há dois anos. O Abrupto disse muito bem. Quem faz esse exercício não está a comentar o 11 de Setembro de 2001 e o 11 de Setembro de 1973. Está só a comentar o de 2001, no sentido de desvalorizar a importância do evento. Como é evidente, os dois eventos não são comparáveis. O que é que querem as pessoas que fazem esse exercício? Que a gente pegue agora numa agenda de efemérides e todos os dias lhes atire à cara com as centenas de ditaduras de esquerda que existiram no mundo desde (pelo menos) 1917 até aos dias de hoje? Foram tantas que deve chegar para todos os dias do ano. Querem a contagem das vítimas da esquerda? Se isso fosse feito, provavelmente vinham com o costumeiro: “ah, não estávamos lá”, “ah, a URSS não era de esquerda”, “ah, a China era maoísta e eu era trotsquista”, “ah, Angola era marxista-leninista e eu era maoísta”. Não vale a pena insistir muito nisto. Tal como aconteceu há dois anos, tudo isto me deprime profundamente (não estou a exagerar: é que a minha aprendizagem pessimista ainda vai a meio caminho). E à medida que isso se passa a minha pele fica mais grossa. Francamente, eu não estou a criticar ninguém. Não posso criticar pessoas com quem não partilho certas coisas. O 11 de Setembro de 2001 chocou quem tinha que chocar. Quem não se chocou com ele, sinceramente, não pertence ao meu clube e acabou-se. Não lhes peço que chorem ou se choquem com o evento. Nunca o farão. Para isso o Bob Dylan deu uma resposta há muito tempo: you’ll go yours and I’ll go mine.
 
Onde estavas no 11 de Setembro? (I)
Devo começar por pedir compreensão a quem me lê pelo atraso tanto cronológico como temático (para além, claro, do mental) dos meus posts. Continuo a tentar actualizar-me sobre o que foi sendo dito na blogosfera nos últimos 15 dias. Este post é sobre o 11 de Setembro de 2001. Enquanto estive de férias passaram dois anos sobre o evento. Não pude por isso comentar no tempo próprio a efeméride. Faço-o agora, repetindo o pedido de desculpas pelo atraso.
São dois posts a puxar para o longo, de natureza político-confessional (inauguro assim um género novo na blogosfera). Mas o evento foi não só importante para o mundo como para mim. E tinha que passar isto a escrito.
Onde é que eu estava, então, no 11 de Setembro? O dia foi banal até mais ou menos meio da manhã. A partir dessa altura não vale a pena contar. Foi igual ao de toda a gente: em frente ao televisor, mesmerizado pela repetição demencial das imagens. Antes de contar os eventos, que são desinteressante em si mesmos, contextualizo-os. A partir de então começam a ter outro sentido.

Não me peçam para vos dizer porquê, mas eu cheguei mesmo a acreditar (vocês vão dizer: “bem, este tipo é mesmo um choninhas...”) naquela xaropada do fim da história. Acreditei (digamos assim) implictamente. Não é que tivesse teorizado muito sobre o assunto, mas instintivamente comecei a desinteressar-me pela filosofia política que fora lendo na vida e por prosa engajada (esta palavra é horrível, até há pouco tempo pensava que se referisse a “coisas sobre gajas”). Eu trabalho sobre temas semi-técnicos e dizia para mim mesmo: se calhar é sobre isto que nos vamos entusiasmar de agora em diante. Sobre taxas de crescimento, poupança, consumo ou tecnologia. Que interesse tem hoje em dia a teoria do salário ou da mais-valia em Marx? Qual é o interesse do materialismo dialético, do Lire le Capital de Althusser e do Idiota da Família? E, por consequência, qual o interesse dos autores que tinham tentado desfazer essas vacuidades teóricas e intelectuais, autores esses que eu tinha convenientemente lido: Aron, Berlin, Popper, Nozick, Hayek, Schumpeter. Eu tinha aprendido a lição superficial destes autores: tentar desfazer os disparates intelectuais do século XX. Mas não a lição profunda: que esses disparates têm encarnações diferentes conforme a época. Pode não ser transparente, mas eu sou essencialmente um tipo bonzinho. Eu achava que, pronto..., já não há URSS, o marxismo é uma coisa em que ninguém de mente sã acredita. Isto agora vai tudo correr bem, com o crescimento da economia e a continuação da globalização. Os mesmos padrões de bem-estar que por aqui existem chegarão a todo o lado. É só preciso que toda a gente se vá comportando mais ou menos sensatamente (não exagerar nas despesas públicas, abrir-se ao comércio internacional, fomentar um pouco de poupança). E foi munido desta bem-intencionada idiotice que acordei nesse dia.

Tinha regressado na véspera de dez dias de praia em Porto Santo. Para lá tinha ido devidamente acompanhado da minha mulher e do meu maravilhoso filho de 3 anos (na altura de 16 meses). Com o apropriado sinistro toque dos Algarves (ou das Madeiras, neste caso) regressei ao trabalho. Depois de algumas tarefas rotineiras para quem regressa de férias recebo, a meio da manhã, um telefonema de casa. Era a minha mulher: “Sabes o que é que aconteceu?...” Nesta altura apenas um avião tinha embatido nas torres.
Um cunhado meu estava então a estudar em Nova Iorque. Ficámos preocupados por ele. Só ao fim de um dia e quase meio viemos a saber que estava bem, mas que (aproveitando a presença da namorada por lá) tinha pensado ir nessa manhã ao deck do World Trade Center. Só não estava lá à hora em que os aviões embateram porque tinha acordado tarde. Um pouco depois, segundo telefonema de casa contando-me da segunda torre. Começámos a ficar seriamente preocupados pelo meu cunhado. Decido voltar a casa, tendo-me a minha mulher encarregado de ir às compras antes de regressar. Saio do gabinete e quando passo na portaria do meu local de trabalho os seguranças olhavam para uma pequena televisão, usualmente utilizada para ver uns jogos de futebol. Dizem-me: “agora foi o Pentágono...”. Não sei bem que sensação me invadiu nessa altura. Meto-me no carro em direcção a casa. Ligo a TSF no rádio do carro, coisa que não fazia há anos (eu não ouço a TSF, excepto de vez em quando para o flashback). Por uma vez o tom arfante (inaugurado por Sena Santos, salvo erro) dos jornalistas dessa estação (“um avião... a torre... embate... torre em chamas... chamas do pesadelo... é a cidade de Nova Iorque a viver o pesadelo... das chamas... da torre em chamas... do pesadelo e das chamas... da torre de pesadelo... e fica bonita telefonia...”) me pareceu adequado. Quase a chegar a casa alguém grita na rádio: “umas das torres está a cair!”. Penso: “eu tenho que ir ver isto. Quais compras quais quê... vou já para casa”. Paro imediatamente o carro, estaciono no mais incrível sítio em cima do passeio e vou para casa. Sento-me em frente à televisão agarrado ao meu filho (felizmente incapaz de perceber o que se passava) e penso: “não pode ter sido para isto que aqui te trouxe...”. Lembrem-se, as minhas perspectivas para o meu filho eram então do mais imbecil progressismo: vamos todos ficar mais ricos, as guerras vão desaparecer lentamente, não terás nunca medo na tua vida...
terça-feira, setembro 16, 2003
 
A ver vamos
Ainda não me actualizei nem um décimo sobre a actividade da blogosfera nos últimos quinze dias. Tenho várias ideias sobre coisas para escrever, mas começarei a fazê-lo lentamente, à medida que for lendo e for verificando se não há redundâncias dispensáveis.
Mas obriga-me a amizade a fazer desde já um post do mais incondicional elogio ex ante (ainda sem ler quase nada) ao Barnabé. É que os gajos são todos meus amigos. Bem, exceptuo a Rosa, que não é gajo e que conta entre muitos outros méritos o de não ser minha amiga nem sequer me conhecer. Esta rapaziada tem jeito que se farta, o que surpreende vindo de quem escreve só com a mão esquerda.
O nome do blog é que já me parece algo presunçoso. Não sei se eles já divulgaram na íntegra a letra da canção que os inspirou para esse título, mas diz assim: "o que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?" Vão ser diferentes dos outros? A ver vamos, meus grandes convencidos.

 
Uma época (com)prometedora
Regressado de uma intensiva cura de desintoxicação (o computador mais próximo foi meticulosamente colocado fora do meu alcance na Ilha do Farol e terei acendido a televisão provavelmente uma vez em quinze dias - só pra ver a bola) eis-me preparadinho para iniciar uma nova época. Ainda não me inteirei inteiramente (giro, hã?) sobre os temas a que se dedicou a blogosfera nas últimas semanas, mas prometo fazê-lo à medida que as obrigações profissionais e familiares mo permitirem. Até lá deixo-vos com a reprodução de uma entrevista que concedi ao Le Monde Blogosphérique (a bíblia dos que acham que outra blogosfera é possível). As perguntas são um pouco ao estilo do jornalismo desportivo, mas mesmo assim a peça ajuda a marcar o tom para a próxima época. Aqui está:

Uma época (com)prometedora
Encontramos O Comprometido Espectador no seu apartamento à Estrela, em Lisboa. Não obstante a sua reputação de fera intelectual, o único sinal visível de actividade inteligente na residência deste blogger é uma inacabada construção Lego: "é do meu filho", diz-nos, "deixou-a a meio porque entrou hoje para a escola". Invertendo papéis (um must da sua actividade) o Espectador dirige-nos um (eis a primeira citação desta entrevista) abrupto:
O Comprometido Espectador: Então, era isto de que estavam à espera?
Le Monde Blogoshérique: Bem, para falarmos com franqueza, pensávamos que fosse mais bonito.
CE: (risos) Eu sei. Toda a gente tem essa tentação "cyraniana", chamemos-lhe assim. Mas reparem na profunda injustiça que seria se eu fosse bonito. Seria uma insuportável acumulação de beleza física com a minha (re)conhecida beleza intelectual.
MB: Haveria muito a dizer sobre esse (re)conhecimento. Mas podemos passar às perguntas?
CE: Já passaram.
MB: Comprometido Espectador! A blogosfera! Expectativas?
CE: A blogosfera é uma caixinha de surpresas. Os teclados são rectangulares, os monitores cubos. Cada um bloga como pode. No fundo, tudo pode acontecer.
MB: Comprometido Espectador! Você é jovem! Este blog?
CE: Penso lutar pela permanência. Em momentos de imodéstia, imagino-me no meio da tabela.
MB: Apenas no meio da tabela? Quais os concorrentes que mais teme?
CE: Inúmeros. Cito apenas alguns (e estou a esquecer muitos mais): Abrupto, Aviz, Blogue de Esquerda, Contra a Corrente, Desesperada Esperança, Gato Fedorento, Homem a Dias, Jaquinzinhos, Liberdade de Expressão, Mata-Mouros, Mar Salgado, O Intermitente, O País Relativo, Valete Fratres!, Voz do Deserto. E isto sem esquecer recentes promessas, como o Barnabé, e uns jovens muito talentosos cujo único problema é lesionarem-se com frequência, O Dicionário do Diabo e o Flor de Obsessão (que a qualquer altura pode regressar).
MB: Mas não se vê capaz de lutar taco a taco com eles?
CE: Em condições normais veria. Mas tenho que conciliar a carreira bloguística com o estudo, o que, toda a gente sabe, não é fácil. Não quero ficar só com o 12º ano. Mas é como diz um dos meus heróis, Milton Friedman: "não há almoços grátis".
MB: Cá está o seu conhecido gosto pelas citações. Mas se não há almoços grátis, de onde vem esse seu "sinistro toque dos algarves"?
CE: Agora é você a lançar citações. Mas já agora deixe-me que lhe diga que não percebo de onde vem o horror dos intelectuais pela praia. Eu, por exemplo, este verão, enquanto por lá estive li inteirinho o De la Démocratie en Amérique de Alexis de Tocqueville. Anos e anos de bibliotecas e só tinha lido partes da obra. Foram precisos quinze dias no Algarve para o ler todo.
MB: Uma obra difícil...
CE: Não creio. Os meus colegas banhistas estavam quase todos a ler autores muito mais difíceis, como Margarida Rebelo Pinto ou José Saramago.
MB: Está a querer estabelecer um paralelo entre Margarida Rebelo Pinto e José Saramago?
CE: Eu não estou a estabelecer qualquer paralelo. Estou a dizer que são uma e a mesma pessoa.
MB: Uma tese (como muitas outras que tem proposto) certamente polémica.
CE: Nem por isso. Repare bem: ambos procuram vender o mais possível, ambos elegem como motivos das suas obras grupos sociais oprimidos (as mulheres, no caso de Margarida), todos os outros (no caso de José), ambos se filiam no realismo fantástico ( já reparou como os diálogos de Margarida são fantásticos?) com uma pitadinha de nouveau roman. Quer mais?
MB: Visto por esse prisma...
CE: Para o ano, de resto, pretendo continuar com outro autor que merece leitura completa: Tomás de Aquino.
MB: Considera-se então um tomista?
CE: Nem por isso. Só li os três primeiros tomos da Recherche. Ainda por cima, há muitos anos, na velha edição da Livros do Brasil e não na recente tradução de Pedro Tamen.
MB: Então também não se considera um tamista?
CE: (risos) Pois...
MB: É caso para dizer: ora tamen.
CE: (risos) Tamen me parece...
MB: Estamos em início de época. Proponho-lhe que dissertemos um pouco sobre os temas que muito provavelmente a irão marcar.
CE: Vamos a isso.
MB: Pedofilia?
CE: Ouça. Isso são questões políticas e eu sou perfeitamente tolerante quanto às opções de cada um nesse domínio. Para além disso, estou numa fase mexiana: não quero falar de política aqui no blog.
MB: GNR no Iraque?
CE: Depende.
MB: É capaz de especificar?
CE: Depende do disco. Eu gosto dos GNR até ao Psicopátria. A partir daí, dispenso. Eles lá no Iraque já têm demasiado com que se preocupar.
MB: A teoria da cavala.
CE: Ouça. Isso são questões sexuais. E eu, nessa matéria, "sou liberal, mesmo no genital". Quem gosta de cavalas gosta e acabou-se (eu até compreendo os que gostam de cavalonas). Às vezes é tão difícil encontrar o parceiro certo, que uma cavala...
MB: Está a querer dizer que a necessidade aguça o engenho...
CE: Não me obrigue a comentar isso, sabe perfeitamente que desde o princípio de Setembro não há pornografia em sinal aberto. Mas sempre posso dizer que o meu engenho já se aguçou com coisas muito estranhas.
MB: Um raciocínio talvez um pouco obtuso...
CE: Obtuso? Lá está você com a pornografia...
MB: Para terminar. Que promessas pode fazer para a próxima época?
CE: Poucas. Mas uma coisa é certa. Tenho que tentar seguir um certo princípio de intermitência na minha actividade bloguística. O problema está no controlo. Quando a mão começa a tremer para ir ao frescos ver o último post, quando em vez de pensar em crescimento económico no século XX a mente (como diria Paulo Coelho) começa a deslizar intranquila pelo céu infinito pensando no próximo post, então está tudo perdido. Tentarei ser mais esparso de hoje em diante. Mas o problema é o controlo... Ah, maldito controlo... A mão... O suor... Este nevoeiro no olhar... Mamã, salva-me!!!
segunda-feira, setembro 01, 2003
 
Estimada clientela
Este estabelecimento encontra-se encerrado para férias.
Regressamos a 16/9
Gratos pela preferência
A Gerência


 
To put the record straight
Então vamos por partes:
Sobre os pontos 1) e 2): nada a dizer, a não ser aconselhar o Homem a Dias a fazer o outing e deixar de ter o Family Ties entre as suas perversões secretas para o passar a colocar entre as suas legítimas paixões declaradas. Ainda hoje não percebo como foi possível inventarem-se diálogos tão bons durante tantos anos como nessa série.
Sobre o ponto 3) é que saímos da terra de ninguém. Os comentários que se seguem são uma espécie de curto índice comentado do tal post sobre Sinatra que (como dito anteriormente) quero mas não tenho coragem para fazer.
Meu caro Homem a Dias: "ninguém canta como o gajo" e (para citar quem muito bem sabe) ponto. Vai-me desculpar, mas dizer que ele é um crooner é um pouco como dizer que Amália é uma fadista. Ambos são ambas as coisas, mas ultrapassam por muito essas categorias. Mas há mais. Apresento a seguir umas quantas razões para (citando o Terras do Nunca) se ficar "comprometido com Sinatra":
1) A longevidade: é talvez o mais banal dos critérios que apresento, mas já aponta para qualquer coisa. Sinatra andou sempre lá em cima, no top ou muito próximo, durante seis décadas (dos anos 30 aos anos 90). Como diz o meu amigo Mark Steyn, que sobre Sinatra escreveu há cinco anos um excelente "ensaio" (olha a pompa), o segredo desta longevidade é que Sinatra nunca esteve propriamente na moda. Pelo contrário. Quando a moda eram cantores chocarreiros ele era intenso, mas elegante e suave. Quando passou a ser cantores neutros, que não transmitiam emoção, ele continuava a ser intenso, mas elegante e suave. E por aí fora.
2) As mulheres: critério ligeiramente mais significativo, mas que ainda não vai directamente ao assunto. Se tirarmos Barbara (a última mulher) e Mia Farrow (um devaneio pedófilo) limito-me a fazer a lista dos seus sucessivos casos sentimentais (?): Ava Gardner (!!!!), Laureen Bacall (!), Kim Novak (!!) e Marylin Monroe (!!!). É preciso dizer mais alguma coisa?
3) A Voz: vamos lá então ao fulcro da questão. O que é que tem a voz de Sinatra? Em primeiro lugar, uma coisa que (para citar a sua colega de panteão Amália) "Deus lhe deu": o timbre. Não há nada a fazer: ou se nasce com ele (o timbre) ou não, e ele (Sinatra) nasceu. A única metáfora que me ocorre é a de um tonel de carvalho para envelhecer álcool. A voz dele foi muito bem tratadinha por este último e isso enriqueceu o timbre (que já era bonito por natureza) à medida que foi envelhecendo. Depois há (num horrível termo que os músicos de jazz muito apreciam) o "fraseado", i.e. a duração dos sons e das palavras e a maneira como se encadeiam umas nas outras. Sinatra aprendeu a cantar imitando o líder da sua primeira grande orquestra, o trombonista Tommy Dorsey. Toda a técnica de Sinatra (por exemplo, aquilo que muitos consideravam a sua prodigiosa respiração, isto é o tempo que ele conseguia cantar sem interromper para respirar) é baseada na ideia de fazer a sua voz soar como um instrumento. Daqui resultam outras coisas, que são o beat e o swing (infelizmente intraduzíveis para português). Não há canção que nalquela vozinha não adquira o mais infectious dos swings. O meu exemplo preferido disso (podem fazer a experiência) é a diferença entre Could Have Danced All Night tal como no My Fair Lady e a versão de Sinatra. É extraorinário como a mais pateta das canções de amor, na voz de Sinatra se transforma num hino à meanness e ao cinismo. Um amigo meu que estudou piano (jazz) em Boston foi um dia visitar um famoso pianista de jazz (talvez Brad Meldhau) e perguntou-lhe quem tinha sido o pianista que mais o tinha influenciado e ele respondeu: Frank Sinatra (que, obviamente, não era pianista). Ele começou a imitar músicos de jazz (swing, mais precisamente) e eles acabaram a imitá-lo a si.
4) Eu podia continuar aqui o resto do tempo. Vou-me calar, que me faz bem. Vou dormir, que é para amanhã cedinho me fazer à estrada. Discos? Pedem-se discos do Sinatra, é? Isso há muito por onde escolher, mas se pedissem O Disco de Sinatra eu daria dois para começar: In the Wee Small Hours e Songs for Swinging Lovers, um em versão lenta (baladas), o outro em versão rápida (swing).
Para acabar, sobre o ponto 5), as orquestras no João Gilberto realmente não incomodam. O que quis dizer nesse remotíssimo post (até o template é diferente) é que há uma depuração progressiva naquilo que ele vai fazendo que o leva a chegar ao ponto em que não é preciso mais nada: o violão e aquele sussurro magnífico. Aliás, nunca foi preciso mais do que isso.
E prontos. Vou-me, com votos de boa rentrée para os que ficam.
 
Our Man in Blogosphere
O muito apreciável Homem a Dias, em conjunto com o post em que corrigia um erro de minha autoria, mandou-me uma simpática mensagem que prolongava conversas anteriores. Como se percebeu o meu erro nasceu de um indesculpável menosporezo pela extensão do seu conhecimento bibliográfico. Mil perdões outra vez. Seja como for, transcrevo na íntegra a sua mensagem. No post seguinte comento-a, bem como outras coisas ditas pelo Terras do Nunca. Aqui vai:

Acabei de escrever um post para corrigir certa troca de títulos e de livros. Culpa sua... Mas a quem faz um blogue assim, não se regateia o perdão. Os seus três últimos posts possuem ainda muito mais pontas do que os meus. Pego em algumas.
1) Family Ties é uma das minhas perversões secretas, e concordo em absoluto: não há, nunca houve, personagem como a de Alex P. Keaton.
2) Quando escrevi um postzito sobre Seinfeld (série), definindo-a como o apogeu da televisão, veio-me logo à cabeça o Fawlty Towers, que me motivou dezenas de telefonemas e deslocações para a Fnac até o DVD sair. Na verdade, não consigo decidir entre as duas.
3) Embora aprecie elevadores, o comentário sobre o Sinatra nada tinha de depreciativo. Não sei se lhe diga que prefiro outros crooners (pronto, pronto), e há ocasiões em que prefiro. Mas também há alturas que reconheço: ninguém canta como o gajo.
4) Li o seu post anterior acerca do João Gilberto. Partilho a sua experiência quanto ao primeiro concerto e as opiniões quanto à voz. A Voz (oops, lá me esqueci do outro). Mas as orquestras dos três primeiros discos (os que estão no «The Legendary», ou «O Mito») não me incomodam nadinha. Já no «Amoroso», os arranjos do Claus Ogerman são a dar para o balofo. Ainda assim...

 
De abalada
De partida para a terra mais amada pelo Jaquinzinhos não tenho tempo para mais do que um post final, só para tidy up umas coisitas que ficaram desarrumadas nas conversas anteriores com o Homem a Dias e o Terras do Nunca. Volto em meados de Setembro. O post é longo, mas, por um lado, provocaram-me. Por outro (estejam descandados), não vão ler nada daqui nos próximos 15 dias.


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