O Comprometido Espectador
sexta-feira, outubro 31, 2003
 
Ui, ui, a Constituição lá fora
O João escreve igualmente hoje n’O Independente um excelente artigo sobre a “constituição” europeia (já agora, o texto de hoje do Pedro Mexia, não tendo directamente que ver com isto, está muito bem). Em tempos idos também esgotei a minha sabedoria sobre o tema em dois posts aqui neste folheto. Faço link aqui e aqui e convido a lê-los juntamente com o artigo do João e mais as breves considerações que se seguem:

O corrente debate sobre o assunto está baseado numa espécie de malandrice interpretativa sobre o que significam aquelas centenas de páginas a que se deu o nome de Constituição Europeia. Se alguém colocar as questões que eu procuro colocar nos posts acima, os amantes dessa inefável peça jurídica dirão: delimitação de esferas entre Estado e indivíduos? Mas isso não é para estar aqui. Isto é um tratado internacional de transferência de parcelas de soberania.
Esta ambiguidade sobre a natureza do documento (um tratado internacional ou uma constituição; um tratado internacional e uma constituição) impede a discussão séria do seu conteúdo. De uma vez por todas, há algo que tem de ficar claro sobre o assunto: o essencial de uma constituição é a criação de mecanismos que explicitem quem pode exercer o poder político e, ainda mais importante, de que forma esse poder político pode ser exercido. E o objectivo de uma constituição liberal é criar limites permanentes ao exercício desse poder, que vinculem todos os seus detentores temporários. Sobre isto, o projecto de constituição não tem nada a dizer. E tudo se torna mais grave porque, quando transfere parcelas de soberania, a constituição as vai retirando das ordens jurídicas nacionais. Ora, nas ordens jurídicas nacionais ainda sobrevive algum respeito por esses princípios liberais (mesmo em Portugal). Essas parcelas de soberania são transmitidas a instâncias que não só não foram eleitas (o que seria o menos grave) como também não se vêem limitadas por qualquer princípio constitucional claro. Como digo num dos posts antigos, continuo sem perceber porque os nossos constitucionalistas ainda não dedicaram um bocadinho que seja do seu tempo a esta questão.
 
Uuuh, os jornais lá fora
Entretanto, no mundo real, a imprensosfera repara em nós. O João Marques de Almeida (OK, OK, eu meti uma cunhazita indirecta) dedica hoje uma das suas crónicas a um certo tipo de blogs, nos quais inclui este vosso amigo. Como O Independente não tem link para os artigos de opinião, pedi licença ao João para o reproduzir aqui. Já lhe escrevi a elogiar a peça, embora criticando duas coisas: a ausência de certos blogs do mesmo tipo que andam aqui há muito e com muita qualidade (por exemplo, entre clássicos e mais recentes, o Abrupto – é verdade que não precisa de publicidade, mas é uma referência -, O Intermitente, o Valete Fratres!, o Liberdade de Expressão, o De Direita, O Complot, o Picuinhices, o Jaquinzinhos, o Catalaxia ou o Nova Frente, sorry if I missed someone); depois (uma coisa mais pessoal), o facto de me colocar a mim na “direita”. Eu não tenho nenhum problema que me classifiquem na direita, desde que se explique o que é que isso quer dizer. Há uma direita que não faz, não quer fazer e eu não quero que faça parte do meu clube. E há uma esquerda liberal e moderada (infelizmente uma raridade no nosso país) com quem me entendo muito bem. Dito isto, o artigo vale a pena e é muito judicioso em tudo o que diz. E aqui vai ele:


As vitórias dos blogues
Antes de mais, devo dar os parabéns ao João Pereira Coutinho, ao Pedro Mexia e ao Pedro Lomba, criadores da Coluna Infame. O objectivo central foi, nas palavras dos autores, “travar o combate cultural contra a hegemonia intelectual da esquerda”. Hoje, mais de um ano após o aparecimento da Coluna Infame, o combate está ganho. Quem viajar através da blogosfera, descobre uma jovem direita inteligente, intelectual e cheia de confiança. Além dos blogues do Lomba e do Mexia, vale a pena ler o “comprometido espectador”, o “homem a dias”, o “mar salgado”, o “desesperada esperança”, o “fatinho”, o “mata-mouros” (que delícia de nome), entre muitos outros. Percebemos, no entanto, uma outra realidade sobre o nosso país, bem mais negativa. Sem os blogues, dezenas de pessoas com talento e com coisas importantes e interessantes para dizer não o poderiam fazer. Ou seja, embora existindo, eles não contariam para o debate público, e agora contam. Ora, é na imprensa que este debate ocorre normalmente, e ainda bem. Apesar de reconhecer as virtudes da blogosfera, não gostaria que esta substituísse os jornais. Não há nada mais civilizado do que ler um bom jornal ou uma boa revista. Ora, se a maioria das boas cabeças dos blogues não chegaram aos jornais, é porque existe um de dois problemas. Ou os jornais estão a deixar de cumprir uma das suas funções principais, descobrir novos valores com ideias originais para entrarem no debate público. Ou então existe uma espécie de censura do “establishment” intelectual e cultural português que não permite que as vozes mais irreverentes e críticas tenham o mesmo acesso à imprensa. Provavelmente, os principais jornais nacionais estão prisioneiros de uma mistura fatal entre um conformismo institucional e a censura dos comissários intelectuais. Mas uma coisa garanto: passar da coluna do Eduardo Prado Coelho para um post do “homem a dias” é um acto de libertação.

quinta-feira, outubro 30, 2003
 
Para o meu amigo Pedro Oliveira
Faz parte dos meus sonhos ter um dia alguém como Ann Widdecombe dizer que eu tenho "something of the night".
 
Take me to your leader
Querem ainda mais provas do que acabo de dizer? Basta ler a crónica de hoje do inebriante Professor Eduardo Prado Coelho (sem link). Não é que ele nos assevera que Jorge Sampaio é hoje a referência essencial dos portugueses (entre várias coisas por, pasme-se e aprecie-se a prosa, dum ponto de vista da estilística da comunicação se destacar no panorama político português).
Já ter Sampaio como referência principal releva da patologia política (também Rui Frade convenceu meio mundo de que era psiquiatra), a menos que o PS (invertendo a fórmula tradicional) tenha amor ao vazio. Mas tudo pode ser ainda mais grave se a crónica do Professor prenunciar outra coisa pior: a tentação do PS em transformar Sampaio no seu líder por procuração. Nesse caso, o Dr. Durão Barroso até poderia plantar-se em pelota no alto da ponte sobre o Tejo a ler trechos de Bocage. Não perderia uma única eleição nos próximos 37 anos.

 
Bilu Tetheias
Dia a dia se comprova o fantástico disparate da estratégia recente do Partido Socialista. Neste momento o governo está a braços com mais uma crise, cujos contornos são quase tão risíveis quanto os da "crise da cunha". O espectáculo de dois ministros a disputarem-se tutelas, com um deles a aproveitar-se da ausência do chefe para fazer ameaças é lamentável. Sócrates bem fala, mas quem é que lhe liga? Não estar isto a ser já furiosamente aproveitado pelo PS para, com os dentes bem cravadinhos no pescoço do governo, o ir sangrando, mostra apenas uma coisa: que o estado a que o PS chegou é ainda mais ridículo do que qualquer ridículo espectáculo que o governo nos possa oferecer.
quarta-feira, outubro 29, 2003
 
Let's talk business, chum
Agora, disto sim é que estou mesmo à espera.
 
The Mantovani of Mayhem
Lá fui ver o Kill Bill, Vol. I. Obrigações de intelectualóide lisboeta. Como resumir em poucas palavras a minha opinião sobre o filme. Resumo em uma: é uma merda. Uma merda feita por um incontinente visual. Uma merda feita por um hiperactivo cujo attention span se resume a uns segundos e, portanto, não consegue fazer mais do que a colagem de pequenos espasmos visuais. Como não consegue fazer mais do que isso acaba a fazer o mais enfadonho dos filmes (o que é irónico, justamente para quem tem um attention span tão pequeno) – que eu desse conta foram, pelo menos, três as pessoas a adormecerem durante a projecção. Devo começar por dizer que Tarantino nunca foi my cup of tea. Nem no tempo do culto (Reservoir Dogs), nem no tempo da consagração (Pulp Fiction), nem agora. Curiosamente o único filme de que realmente gosto é o seu mais atípico (Jackie Brown). Não posso dizer que não gosto dos filmes. Gosto, mas moderadamente, e o título de génio que lhe apuseram desde Reservoir Dogs e depois universalmente propalado na altura de Pulp Fiction nunca me convenceu.
Kill Bill (como todos os outros) tem coisas brilhantes, mais de virtuoso do que de bom intérprete, porém. Assim como o bilhar nunca foi tão bem filmado como em The Color of Money, nunca (provavelmente) o Kung Fu foi tão bem filmado como neste filme. Há coisas extraordinárias em todo o episódio japonês, desde a manga ao combate final. Mas no meio desses lampejos de brilhantismo não há nada. Nada, aliás, é a palavra que melhor descreve o filme. Este é um filme sobre nada. Não há história, não há argumento, não há nada, a não ser uma sucessão (a partir de certo ponto interminável e insuportável) de combates de kung fu entre Uma Thurman e o resto do mundo. Mark Steyn chamou a Tarantino o Mantovani of mayhem, o que ilustra bem o aspecto de foleirice gratuita e espampanante dos seus filmes.
Tudo isto vem depois embrulhado num cabotinismo sem limites e numa espécie de name dropping feérico. O cabotinismo é visível desde o início (The 4th Film by Quentin Tarantino) e prossegue na sucessão de tiques, de que o mais estafado é o da “desconstrução” (bela palavra) do tempo cronológico, através de flash backs e flash forwards. O filme é uma acumulação de citações, algumas das quais eu nem sequer conheço (todas as que se referem ao kung fu de Hong Kong, por exemplo, ou às mangas, ou ao punk japonês). Uma mais do que óbvia citação é Sérgio Leone (Once Upon a Time in the West). Como em todos os outros filmes, estas citações e a soma de tudo são uma homenagem ao trash, o que também já começa a cheirar mal. Jackie Brown é bom numa coisa que nenhum dos outros filmes de Tarantino é, incluindo este: a existência de personagens e de uma história relevante. Excepto aí nunca há histórias (ou melhor, há, mas são proto-histórias) e, sobretudo, não há personagens. As pessoas que aparecem nos seus filmes são meros átomos destinados a enfeitar o delírio que vai na sua cabeça e que ele passa à forma de imagens cinematográficas. Todos os seus filmes (mais uma vez se exceptuarmos Jackie Brown) são uma mera sucessão de sketches ou gags. Os filmes de Tarantino são comics primitivos: uma sucessão de imagens espectaculares desprovidas de personagens ou então com pessoas cuja densidade psicológica está abaixo da do Dare Devil.
Já falei muito sobre isto. E só me resta assinalar mais uma coisa, a qual vale a deslocação e se chama Uma Thurman. Ela fala muito pouco (lá está o lado Leone do filme), mas a expressão facial é notável. Para além de que há uma componente erótica muito bem explorada (por ela e por ele) na sucessão de combates, degolações, perfurações e voos vertiginosos que ocupam o ecrã. E ela está linda. São os tais 33 anos, com aquele ar profundo que só a idade dá.
terça-feira, outubro 28, 2003
 
A Resistência e a Quinta Coluna
Lá traz hoje o Público uma (pelo menos uma) notícia com o formato de panfleto (não tem link, mas está na p. 17). Nessa notícia mostra-se a crescente insatisfação das famílias americanas com as baixas no Iraque, o que terá levado algumas delas a juntarem-se em determinadas organizações exigindo o regresso dos soldados. Não são especificados quais os membros dessas organizações, mas diz-se que “marcharam à cabeça” da manifestação anti-guerra de Washington no último sábado (que teve, aliás, organização paralela aqui em Lisboa no Largo de Camões, por onde eu passei e pude testemunhar a presença de uma turbamulta desenfreada de cerca de 39 pessoas). Ora, essa manifestação (soube eu através do blog de Michael J. Totten), como aliás a notícia mostra, foi organizada por um movimento chamado Answer, que é a frente anti-guerra do Workers World Party, um partido comunista americano, sobre o qual se pode aprender mais aqui. Estes moços parecem ter um óbvio problema de ligação à realidade, como o demonstra este panegírico do regime da Coreia do Norte. E são eles que organizam estas manifestações, e são ainda eles que escrevem frases como a seguinte: The anti-war movement here and abroad must give its unconditional support to the Iraqi anti-colonial resistance.
Não há, obviamente, razões para presumir que este apoio não se estenda também à morte de 40 pessoas ontem em Bagdad, a maior parte civis e membros da Cruz Vermelha (para além, claro, de filhos de famílias americanas, cujas organizações “marcharam à cabeça” da manifestação de Washington).
 
O Espectador errou
Aconselhei aqui ontem Eduardo Prado Coelho a deixar de insinuar nos seus artigos a teoria da “estratégia deliberada”, dizendo-lhe que faria a “si mesmo, a nós e ao Partido Socialista um favor” se acatasse a sugestão. Hoje leio na sua coluna o seguinte: o que interessa é encontrar os critérios que permitem dizer que uma sociedade governada pela esquerda não teria os mesmos valores que uma sociedade governada pela direita. Não seria outra sociedade de alto a baixo, mas, sim, uma sociedade que estaria a deixar de ser a mesma. Eu, tal como o outro, quando os factos o exigem, também mudo a minha opinião. E declaro solenemente aqui e agora que me enganei. Caro Professor Doutor Eduardo Prado Coelho, afinal sempre é preferível que se dedique à teoria da “orquestração planeada”.
segunda-feira, outubro 27, 2003
 
Era mesmo o Fumaças...
Que aliás escreveu um post sobre o assunto.
Sorry, Fumaças.
 
Ao Complot o que é do Complot
Já aqui disse que, na festa do Pipi, conheci e gostei de conhecer (sobretudo porque ela na altura foi muito elogiosa para o Espectador - o blog, não a pessoa -, quando eu estava à espera de ser sovado com epítetos como "reaças" ou "facho" sem mais qualificações, seguidos de um bom estaladão na cara) da Clara Macedo Cabral. Mas vou ter que ser aqui pós-feminista (ou machista, como diria a Clara). Vocês mulheres são mesmo esteriotipadas. Vêem um homem assim mais velho e um conjunto de rapazitos e logo pensam o pior. Não, não é isso... Pensam que eles são discípulos. Eles são meus alunos, mas eu nunca lhes ensinei nada de particularmente relevante. E, muito antes de eu entrar para a blogosfera, já há muito que por cá eles andavam.
 
A verdade a que tivemos direito
De João Carvalho Fernandes (que penso ser o Fumaças)recebo a seguinte mensagem E-mail, em comentário a um post abaixo:

Relativamente ao que disse a Helena Roseta, só posso lamentar a falta de memória: já se esqueceu da campanha de O Diário e do PC contra o Sá Carneiro!

Muito bem lembrado. Desde há algum tempo, aliás, que vou tentando dizer aos meus amigos que, ao contrário da sabedoria convencional, o jornalismo escandaleiro de denúncia foi inaugurado em Portugal pelo PCP e pelo Diário e não pelo Paulo Portas e O Independente da primeira metade dos anos 90. Haveria algumas lições a retirar disso, aliás. As quais podiam começar com a actual discussão (melhor seria dizer gritaria) sobre as escutas telefónicas e o estado da justiça. Nomeadamente lições sobre como a esquerda aprecia certos meios da autoridade e do jornalismo enquanto eles não se voltam contra si.
 
O molusco ou o futuro da esquerda
O jornal Público, essa fonte inesgotável de inspiração, traz hoje um editorial, da autoria de Manuel Carvalho, que, sob o título escorregadio de “Lula, Ano Um”, manifesta uma louvável apreciação positiva do primeiro ano de governação de Lula. O que espanta é o entusiasmo que manifesta pelas políticas do homem-molusco: equilíbrio financeiro (olá Salazar, olá Manuela Ferreira Leite, olá FMI) e internacionalização da economia. E cito: Original é sim o modo como Lula coloca a questão, excluindo qualquer via revolucionária […] e fazendo fé num desafio que "não é apenas político, mas um desafio ético, humanista, cristão". Ora, isso não se faz com gritos contra a OMC, mas com, por exemplo, a extinção do proteccionismo agrícola tão caro aos europeus.
Parabéns, Lula, isso sim é originalidade. O farol da esquerda mostra à esquerda o futuro da esquerda: 50 anos depois fazer o que o sinistro neoliberalismo passou a vida a dizer-lhe que devia fazer.
 
Serenidade is the word
Não penso que se tenha valorizado devidamente a mais recente intervenção do Presidente da República, a propósito do caso da pedofilia. Independentemente de outros efeitos menores (como, por exemplo, a de introduzir "serenidade" no debate), a intervenção teve o efeito de evitar que José Miguel Júdice ameaçasse candidatar-se a secretário geral do Partido Socialista. Desde que o Presidente se despediu do Procurador à porta de Belém (há cerca de 48 horas, portanto) que o bastonário nos tem poupado a mais das suas histéricas alocuções contra o Ministério Público, as escutas telefónicas, o Procurador, e a favor da teoria da "orquestração" (parece que é assim que se chama agora).
 
O Complot
Duas luminárias próximas do Partido Socialista produzem hoje dois artigos em páginas contíguas do Público. Num, Eduardo Prado Coelho começa por se manifestar incapaz “de saber se houve ou não uma estratégia premeditada para derrubar a actual direcção do Partido Socialista”. Noutro, Helena Roseta diz-nos, em tom de dúvida: “Haja ou não haja maquinação, não pode negar-se que, a pretexto deste caso, Ferro Rodrigues tem sido alvo da mais terrível campanha mediática jamais travada contra qualquer político desde o 25 de Abril”. É verdade que Roseta não especifica o ano do 25 de Abril em causa: pode ter sido o de 2003, o de 1991 ou outro qualquer. Mas mesmo que fosse o de 1987 já seria uma enorme campanha negativa. O resto dos artigos são da mais meridiana irrelevância para a resolução dos problemas do partido (muito mais válida é a carta aberta do Sr. Guimarães). Estas frases, “não sei se…”, “haja ou não haja…” querem dizer exactamente o contrário do que parecem querer dizer. Elas querem dizer que “sabem que houve uma estratégia” e que “há uma maquinação”. O problema destes dois plumitivos não é com a existência da “estratégia” ou da “maquinação”. É com o facto de ter corrido mal a táctica da direcção do partido, que consistiu em dizer que a “estratégia” ou a “maquinação” existia.
Eu, por mim, “não sei se há” lucidez nos refegos cerebrais das pessoas em causa. Mas “haja ou não haja”, um favor que faziam a eles próprios, a nós e ao Partido Socialista era acabarem de vez com esta conversa.
 
A cabala
Tem razão, Miguel, essa indefinição no modo de tratamento é desagradável. E francamente, para o pôr à vontade, digo-lhe já: também não gostei do você que você usou durante a nossa conversa. Para mim, tudo o que esteja abaixo de Sua Excelência, Meretíssimo ou, mais modestamente, Alteza Real me parece da mais despudorada má educação.
 
Porta 20, se faz favor
Lara continua na casa do Big Brother, os Rolling Stones são capa de jornal durante três dias, abre um novo asilo psiquiátrico no Largo do Rato (mesmo em frente à Papelaria Fernandes), Bárbara Guimarães está casada com um homem que escreve cartas abertas, Carlos Monjardino escreve um artigo de opinião num jornal, Horta e Costa é feito barão, mais uma peça do dramaturgo Freitas do Amaral é levada à cena no Teatro da Trindade, o primeiro-ministro assevera que Portugal é o Benelux do Sul, a oposição ao governo é feita (consoante a hora e o dia) pelo Bloco de Esquerda ou pelo estádio da Luz, os telejornais da SIC abrem com a notícia do aparecimento de uma abóbora de 100 quilos em Macedo de Cavaleiros e Luís Represas edita novo disco. "Desculpe. Onde é que posso fazer o check-in?"
 
Papoilas saltitantes
Corre por aí um frémito de entusiasmo com a vaia ao primeiro-ministro no novo estádio da Luz. Presumo que a maior parte dos que lá estavam eram benfiquistas. Se assim é, aquelas pessoas votam e quando o fizeram foi para eleger luminárias como Manuel Vilarinho, João Vale e Azevedo, Manuel Damásio, João Santos ou, para recuarmos a tempos mais gloriosos, Fernando Martins. E preparam-se agora para eleger Luís Filipe Vieira. Meu caro Durão Barroso, se o vaiaram a si é porque está a fazer o melhor dos trabalhos.
domingo, outubro 26, 2003
 
Até uma segóvia era melhor
Dear Paulo
Desafia-me para um combate de wrestling. Não vou nisso. Em primeiro lugar porque wrestling é coisa de rotos. Depois, porque é por demais evidente que uma pessoa com um nome como o seu (será preciso qualificá-lo?) não pode ser o Pipi.
sexta-feira, outubro 24, 2003
 
A jovem democracia portuguesa
Diz-se por aí que a "jovem democracia portuguesa" atravessa uma das mais graves crises da sua existência. Eu discordo. Como explicar, então, que ela tenha sobrevivido (nos seus três ramos: legislativo, executivo e judicial) à passagem por Lisboa de Yusuf Islam (the artist formerly known as Cat Stevens)?
 
Noite, o que foste?, 3257
Charlotte, vergonha é a palavra justa. A Charlotte não sabe, mas eu sou um tímido, em particular com mulheres bonitas (razão pela qual, aliás, na Festa do Pipi apenas falei com a Clara Cabral porque a ela fui apresentado pelo Pedro Lomba). E tive vergonha. E não me apresentei. As festas, a mim, aliás, correm-me sempre mal. Cheguei atrasado, mas eles não sabem (nem sonham, como diria o poeta) que testemunhei o melhor momento da festa, justamente à minha chegada, no lobby do Royale Maxime. Cheguei no instante em que a Charlotte (vim a saber depois que era a Charlotte) posava para uma fotografia abraçada a Alexandra Lencastre, ambas sobraçando o Meu Pipi. A partir daí foi sempre a descer (nem Rui Unas, nem filme, nem nada chegaram aos calcanhares desse momento). A queda na dura realidade deu-se logo no instante seguinte, quando encontrei o Daniel, que imediatamente mostrou ao que vinha ao embrenhar-se na fenomenal e inglória tarefa de me explicar a superioridade moral do Bloco de Esquerda (o “Bloco”, como ele lhe chama afectuosamente). Mas sempre teve a sua compensação ser amigo do Daniel, pois ele apresentou-me ao Pedro Lomba (já nos conhecíamos de falar ao telefone) e ao Pedro Mexia. Não penso ter causado a melhor das impressões nestes recomendáveis jovens. A única coisa que me ocorreu foi ensaiar assim umas piadas que os deixaram na mais impávida das indiferenças. Ainda me sentei a uma mesa com eles mais o RAP, mas depois perdi o rasto do Pedro Mexia e não voltámos a encontrar-nos durante a noite. Passada a parte curricular (com o Nuno Miguel Guedes e o Rui Unas tão engraçados quanto o próprio Pipi) dirijo-me ao bar para reposição do devido nível etílico. Veja agora a Charlotte a desgraça. Circulavam pelo Maxime as mais aparatosas mulheres e logo me pus eu a conversar com o Pedro Lomba sobre Tragédia, ou, para ser mais explícito, sobre vida académica (a minha, a dele e a dos outros). Esta nossa actividade de meta-academismo foi milagrosamente interrompida pela chegada da Clara e do Crítico. Ambos muito recomendáveis. O Crítico, então, topou-me logo parte da pinta: aristocrata falido. A parte que ele topou é, claro, apenas a do falido (mensalmente salvo in extremis pelo milagre da conta-ordenado do Banco Santander). Nova deslocação ao bar. E agora veja bem a Charlotte. Começa o strip. Chego-me à frente. Mas quem aparece nessa altura? O Ivan. Como é bom rapaz, o Ivan condoeu-se e deu-me troco. À medida que a moça em palco se desembrulhava, mostrando as (imagino) generosas formas, estamos o Ivan e eu (será possível?) a falar da tese da “urdidura” (verdade seja dita, depois de umas menções mais agradáveis a Sinatra e João Gilberto). É nesta altura que se aproxima o Pedro. Simpatizei com ele, mas o Ivan, depois de o pôr a discutir comigo a “urdidura” (isto tudo enquanto no palco a moça continuava a requebrar-se e eu não via nada), muito sorrateiramente vai-se embora (“bem, está na altura de ir para casa”). Felizmente que o Pedro teve um momento de lucidez e disse: “larga lá essa história e ouve é o disco do Roddy Frame”. Boa ideia, embora me pareça que o Pedro continua fixado na ideia da tramóia (urdidura, frame = tramóia, estão a ver, não é?). Entretanto acaba o strip e regressa então o Daniel (o que é que tu tinhas andado a fazer, meu maroto?), que logo se dispõe a, generosamente, me explicar as razões da superioridade moral do “Bloco”. Estava eu já quase convencido quando saio da alucinação graças ao aparecimento do Pedro e do Miguel. Como são meu alunos mostraram-se muito respeitosos. Riram-se das minhas piadas na altura certa (mesmo se estivessem a pensar: “meu Deus, salva-me daqui”) e fiquei muito contente por ver que o sentido das hierarquias ainda sobrevive nos dias de hoje. Começam eles então a discutir com o Daniel. Altura para usar a técnica do Ivan: “bem, pessoal…”. E fui-me. Regressava eu a pé para o carro, tropeço no Daniel mais uma vez. Dou-lhe boleia. E repare agora a Charlotte no último elo trágico de todo o episódio. Ficamos dentro do meu carro até ás duas da manhã, com o Daniel a ilustrar-me de maneira absolutamente cristalina a superioridade moral do “Bloco”. Quando ele finalmente saiu do carro, não me restava senão chorar. E aqui tem Charlotte. Mas se quiser marcamos um almoço (e traga a sua amiga Alexandra, sim?).
quinta-feira, outubro 23, 2003
 
Revelação
Pronto, estou farto disto. O Pipi sou eu. Tenho aqui comigo um pin que comprova exactamente isso e até autografei ontem um exemplar do livro. Faço a revelação agora porque me dei conta finalmente de que isto de um gajo andar escondido no armário é coisa de rotos.
 
Supervisão de tese
Sérgio! Sobre a sua tese (já falámos sobre isso aqui e aqui), a da falta de ideias do socialismo actual, saíu hoje no DN um documento fundamental: a carta aberta de Carrilho. Repare bem como reforça o seu argumento: até hoje ainda lhes sobrava uma ideia, um bocadinho forçada, mas uma ideia, apesar de tudo (a da famosissima "urdidura"), mas o filósofo quer destruí-la (ou pelo menos desconstruí-la). O seu argumento está mais robusto que nunca. Parabéns! (e não se esqueça de pôr no apêndice documental a transcrição das últimas declarações do bastonário da Ordem dos Advogados)
 
Acadian Driftwood
À procura de outra coisa na estante dos CDs e tropeço no The Last Waltz. Por uma razão que permanece inexplicável decido trazê-lo de casa para ouvir no leitor do carro. No seu devido tempo, há vinte e tal anos, eu ouvi o(s) disco(s) ad nauseam e devo ter visto o filme para aí umas dez vezes (sabia as lines quase todas de cor, e ainda hoje me lembro de algumas, como por exemplo a de Neil Young, com um elevadíssimo teor de álcool no sangue, para Robbie Robertson antes de atacar Helpless e depois de experimentar a harmónica: "they got it now Ronnie, they got it...").
Ouço agora e recordo a razão da obsessão da época: apesar de ter por lá muita tralha (Clapton, Neil Diamond e outras coisas) também tem as versões definitivas de uma boa mão-cheia de canções: Helpless (uma espécie de dream team canadiano, com Joni Mitchell nos back vocals), de Neil Young, Coyote, de Joni Mitchell, Mannish Boy, de Muddy Waters, Forever Young e I Shall be Released, de Dylan, e Up on Cripple Creek e It Makes no Difference (mostrem-me uma canção mais bonita do que esta), dos próprios The Band.
E tudo isto me fez perguntar porque é que os The Band não são universalmente celebrados como uma das melhores coisas que a música popular norte-americana (incluindo Canadá) nos deu. Ainda por cima são responsáveis por terem impedido que a carreira relevante de Dylan acabasse uns três ou quatro anos antes do que acabou. E como testemunho disso convido a ouvir Before the Flood, um disco ao vivo, metade Dylan metade Band. Quem não conhece, ouça e depois diga qualquer coisinha...
 
Please, spank me
Nope, Maaan... Não vi Honky Tonk Man. Há baldas imperdoáveis (olá Clint), e eu tenho muitas. Por exemplo, nem sequer vi Space Cowboys. Explica-se: foi o ano em que o meu primeiro filho nasceu e foi o ano em que passei um ano sem ir ao cinema. Mas vou ver se trato disso rapidamente (do Honky Tonk, pelo menos) e depois dou notícias.
quarta-feira, outubro 22, 2003
 
Hook
Existe em Londres, um pouco ao norte da estação de King’s Cross, uma mesquita num bairro chamado Finsbury Park. O xeque da mesquita é um indivíduo de nome Abu Hamza, cujo principal traço físico é o de ter um gancho em vez da mão na extremidade de um dos braços. Todas as semanas o homem faz prelecções aos crentes contra o ocidente, Israel, o sionismo e a homossexualidade dos políticos ocidentais. A sua mesquita é utilizada para, por um lado, recrutar pessoas dispostas a praticar actos terroristas em países ocidentais e árabes e, por outro, colectar fundos para o mesmo fim (suspeita-se de apoios que Hamza foi dando ao longo dos últimos anos a grupos terroristas no Iémen, no Egipto ou na Argélia). Hamza confessa utilizar a tolerância da Grã-Bretanha (como símbolo dos países ocidentais) e os fundos que consegue colectar como compensação pela espoliação do mundo árabe causada pela acção colonial e actual dos países ocidentais. O seu objectivo é a Jihad universal contra o ocidente. Em Janeiro deste ano foi apreendida na sua mesquita uma grande quantidade de material suspeito e a mesquita fechada. Mas Hamza continua as suas prelecções ao ar livre. Para o poder fazer exige à polícia britânica que bloqueie a rua onde está instalada a mesquita. Temos a notável situação de um indivíduo que quer destruir o ocidente e chama homossexual a Tony Blair protegido pela polícia ocidental de um país governado pelo dito homossexual.
Pois ninguém toca neste senhor. Denunciar a alarvidade, o racismo, a violência, o fascismo das suas actividades passa, na Grã-Bretanha, por xenofobia ocidental. O sentimento de culpa e a expiação do colonialismo ocidentais chegaram ao ponto da mais absoluta falta de auto-respeito pela própria civilização ocidental. Este senhor imigrou, casou-se com uma inglesa (o que o faz ter agora nacionalidade britânica) e de lá prossegue a sua actividade. Perceber os benefícios e a legitimidade da imigração significa também perceber os limites daquilo que é tolerável no ataque à nossa civilização. Não atacar e denunciar este e muitos outros sujeitos que existem na Europa do mesmo tipo; não separar estes indivíduos daqueles que imigram e prosseguem a sua vida dentro das regras que nós prezamos; é escancarar o caminho aos partidos xenófobos do continente. Porque indivíduos como este são, efectivamente, uma ameaça ao mundo em que vivemos. E está na altura de não ter medo de o dizer. Em nosso nome e em nome daqueles que querem imigrar para usufruírem das instituições livres e do mercado livre que temos para oferecer.
 
Poder absoluto
Os despropositados elogios do Alberto Gonçalves foram desencadeados por uma breve apreciação que aqui fiz de um dos melhores filmes dos últimos 25 anos, A Perfect World, de Clint Eastwood. Também o Alberto o mete nos píncaros. Eu já suspeitava que dali só podia vi a mais sólida clarividência. Ora, o João Marques de Almeida denuncia-se igualmente, terminando o e-mail em que me enviou o texto sobre Raymond Aron com a seguinte frase: além da devoção a Aron, partilhamos a devoção a Clint Eastwood.
Já que chegámos a este ponto, faço aqui um teste de eastwoodiana: quem gosta mais de Absolute Power (presumivelmente uma coisita menor) do que de Unforgiven (presumivelmente o Opus Magnum da carreira de realizador do homem)? Meus amigos: só há um lado bom para esta resposta.
 
Alberto, por amor de Deus...
Alberto, por amor de Deus, não me envergonhe e não se envergonhe: este não é certamente um dos melhores blogs disponíveis. Não é, em primeiro lugar, porque não é um blog, mas apenas assim uma coisa... E não está disponível porque (sorry, Bicho Mau) fiz há tempos voto (ah!, a ingenuidade...) monogâmico, do qual já resultaram dois rebentitos que (incompreensivelmente) têm o papá em grande conta.
Mas reconheço a boa intenção e, obviamente, agradeço ao estimabilíssimo Homem a Dias as suas injustas palavras (e juro que não publicito as escutas, OK?).
 
Ainda O Espectador Comprometido (the real one, I mean)
João Marques de Almeida, meu amigo e colunista (dos melhores) que O Independente tem, enviou-me por e-mail um texto que em tempos escreveu sobre Raymond Aron para o jornal. Na altura eu mencionei o artigo (olha o template), mas não pude fazer link, por causa da relação perturbada que por lá parecem querer manter com a cibernética. Reproduzo-o aqui:

Raymond Aron

Na brincadeira, costumo dizer que a França produz um grande pensador por século. Montaigne, no século XVI, Pascal, no século XVII, Montesquieu, no século XVIII, Tocqueville, no século XIX, e Aron, no século XX. Aron morreu há vinte anos. O ano de 2003 dá-nos uma boa oportunidade para celebrar o seu pensamento.

Aron foi, acima de tudo, um verdadeiro intelectual. Os seus biógrafos chamaram-lhe “o espectador comprometido”. Ou seja, um homem que manteve sempre a sua independência sem nunca deixar de se envolver nos grandes debates políticos do seu tempo. Era de direita, mas apoiou a descolonização. Era um intelectual, mas nunca sucumbiu ao “ópio marxista” da maioria dos outros intelectuais. Por isso mesmo, foi odiado pela esquerda parisiense. No entanto, nunca deixou de criticar, e por vezes com uma grande dureza, os excessos Gaullistas, quer na Argélia quer em relação aos Estados Unidos, o que aliás irritou bastante o General. Aron era um daqueles raros personagens que, embora fosse conservador, manteve sempre “a liberdade do protesto”.

Mas onde Aron foi notável foi no seu combate aos vícios intelectuais dos totalitarismos europeus. “Nunca pretendi alcançar a pureza do anjo porque sem isso teria renunciado a pensar a política”. Quando a esquerda o acusava de fundar as análises sobre a realidade, ele respondia: “não sei sobre que outra coisa se pode fundar uma política”. Mas reconhecia, com alguma condescendência, as fraquezas dos utópicos; e dizia que, por vezes, “a verdade é insuportável”. Durante toda a sua vida, Aron nunca esqueceu que, em política, o perigo da tragédia é permanente. Por isso, “a luta nunca é entre o bem e o mal, é o preferível contra o detestável”. Numa época em que se assiste ao regresso das “teologias políticas”, não nos podemos dar ao luxo de esquecer os conselhos de Aron.

terça-feira, outubro 21, 2003
 
E pronto...
É por demais visível que no célebre e edificante Caso PS o limiar da discussão racional está ultrapassado. O Dr. Ferro e os seus amigos (próximos e afastados) fazem notáveis investidas contra o óbvio. E o óbvio é aquilo que já toda a gente percebeu excepto eles: o fantástico disparate de tudo o que têm feito desde Maio. Nada do que qualquer pessoa sensata lhes possa dizer penetrará naquelas cabecitas. No estado em que estão nem sequer se convenceriam de que não, não viram ontem um hipopótamo a tomar café na Brasileira do Chiado. Por mim, deixo a conversa sobre o assunto para quem quiser aventurar-se nas infinitas convoluções da mente alucinada.
 
Civilização
É de sabedoria ecuménica que vivemos, aqui na Europa, no cume da civilização. Somos prósperos, somos solidários, somos pacíficos. Testemunho disso é, precisamente, a recente vitória eleitoral da direita xenófoba suiça. Esta vitória segue-se a outros episódios idênticos (nem sempre redundando em vitórias, é certo) e cujo crescendo nos deve encher de orgulho, em vários países do “continente civilizado”: na Áustria, na Bélgica, na Dinamarca, na Noruega, na Itália, em França…
Do outro lado do Atlântico existe um país de bárbaros selváticos, estúpidos e ignorantes, com pretensões a governar o mundo. Não ocorreria, como é evidente, a ninguém aqui deste lado (o lado bom, o lado civilizado) tomar como exemplo um país democrático e liberal há duzentos anos (quando nós não sabíamos muito bem o que é que isso era, porque os nossos regimes eram superiores, claro), apesar de uma composição étnica que a nossa magnífica civilização europeia não suportaria muito provavelmente sem uma guerra civil ou um regime autoritário: (digo de memória) 15% de negros, 15% de latino-americanos, 5% de asiáticos, outros 5% de proveniência diversa, 60% de brancos (uns católicos, outros protestantes de várias seitas, uns italianos, outros russos, outros irlandeses, outros alemães, outros portugueses, etc.). Não ocorreria, como é evidente, a ninguém na nossa estratosfera civilizacional, agora que estamos em processo constituinte, olhar para meia dúzia de rabiscos num papel a que se dá o pomposo nome de constituição americana. Nããão… A nossa civilização dispensa conselhos da barbárie. Até porque quando nós tivermos a nossa barbárie, vai ser uma coisa a sério, muito mais civilizada, muito mais sofisticada. E se calhar já não falta muito para darmos mais essa lição ao mundo.
segunda-feira, outubro 20, 2003
 
A perfect world
Se alguém que lê este lastimável pasquim cometeu o pecado de ainda não ter visto um filme de Clint Eastwood cujo nome é A Perfect World, pode redimir-se hoje via Canal Hollywood da TV Cabo às 21.00. Eu aviso já: é um dos melhores filmes que vi nos últimos 10 anos. É tão bom que até sobrevive a Kevin Costner no papel principal. Se não quiserem não vejam, mas depois não digam que não avisei.
 
Obrigado ao Senhor (II)
Continuo com as boas notícias. Meg Ryan, a rainha dos papéis cute, engraçadinhos, um bocadinho disparatados, aquela que desperta sempre o comentário: "é tão querida, não é?", filmou agora, com Jane Campion, um filme de nome In the Cut.
O filme é um thriller erótico (I repeat, erótico), em que Meg se deixa de merdas (olá dr. Ferro) e passa à acção.
O quê, acham que a moça não tem jeito para isso? Que é só os papéis vagamente apalhaçados. Eu ainda não vi o filme, mas permito-me lembrar-vos a famosa cena da simulação do orgasmo, à mesa de um restaurante, em When Harry Met Sally. Recordam-se? Que tal duas horas (em vez de 30 segundos) à volta dessa possibilidade?
 
Obrigado ao Senhor (I)
Nem tudo no mundo são más notícias, porém: apesar dos atentados, a reconstrução do Iraque prossegue a bom ritmo e Uma Thurman declara ao Telegraph de sábado passado, a pretexto do lançamento de Kill Bill, de Quentin Tarantino:

I don't mind being objectified anymore. Look at me, I'm 33. I've got 10 minutes left. Please: objectify me.

Uma, darling, eu nunca deixei nem deixarei de te objectivar. Eu sempre aqui estive. Em nome desta canina fidelidade aos teus desejos e sistemático incumprimento dos meus, será pedir demais dares-me mais qualquer coisinha, filha?
 
Coisas do cagaças
À luz das últimas informações saídas a público, prossigo no caminho inaugurado pelo Dr. Mário Soares ("pela boca morre o peixe") nos comentários a este belíssimo caso da nossa vida actual e uso também um ditado popular:
quem bem a cama faz nela se deita.

sexta-feira, outubro 17, 2003
 
Semana inglesa
Em rigoroso cumprimento das determinações do mais recente contrato colectivo de trabalho da blogosfera, permanecerei calado durante o fim-de-semana. Divirtam-se.
 
O espectador comprometido
Àqueles que não andam completamente distraídos não lhes escapou (e eu também já expliquei brevemente isso uma ou duas vezes aqui no pasquim) que o nome deste blog se inspira em Raymond Aron. Pois ocorre que Raymond Aron morreu há exactamente vinte anos. Quase no final da sua vida, Raymond Aron concedeu uma extensa entrevista que deu origem a um programa de televisão e inclusivamente a um livro, cujo título é O Espectador Comprometido, definição que ele dava de si mesmo.
Seria praticamente minha obrigação fazer no dia de hoje uma recordação apropriada. Mas as dificuldades para a boa concretização da tarefa são muitas. A primeira é que isto não é a minha profissão. A outra tem a ver com a importância pessoal que Raymond Aron tem para mim. Mais uma vez se comprova que falo e escrevo com tanta mais facilidade quanto o objecto sobre que discorro menor relevância directa tem no que me diz respeito. Falar sobre Raymond Aron obrigar-me-ia a ser extenso e cuidado, coisas que não estou em condições de cumprir neste momento. Não poderia despachar o assunto em duas linhas e não poderia fazê-lo sem o apropriado trabalho de casa.
Assim, em vez de produzir eu algo alusivo à efeméride, indico quem o tenha feito, nomeadamente esta entrevista concedida ao Le Figaro (jornal onde Aron manteve durante décadas uma coluna diária) por dois (digamos assim) discípulos seus. Aviso já que não gosto do título da entrevista, “Le Dernier Philosophe des Lumières”. Aron faz parte de um pequeno grupo de intelectuais franceses fascinados com o liberalismo anglo-saxónico (cujos representantes maiores são Montesquieu e Tocqueville). Ora o liberalismo anglo-saxónico opõe-se quase ponto por ponto ao Iluminismo invocado na entrevista, nomeadamente ao racionalismo empedrenido tão característico dos philosophes franceses do século XVIII e XIX. Seja como for, a entrevista é um bom sumário da biografia intelectual de Aron e deixo-a aqui in memoriam, na ausência de cumprimento do meu dever.
(Agradeço ao meu amigo Joâo Marques de Almeida a indicação desta entrevista)
 
Este rapaz faz-se
Manuel Monteiro, homem possuídor de mestrado obtido em universidade francesa, regozija-se com o facto de a Nova Democracia (Nova?) (Democracia?) não ter "suspeitos de pedofilia". E a propósito do problema aconselha: "Que se juntem todos no Parque Eduardo VII ou nos Jerónimos e resolvam tudo" (o resto está aqui no Público). O conselho parece ser bem intencionado e, sobretudo, é elegante. Compreende-se este género de atitude. Trata-se, afinal, de um partido sem o cinismo da idade adulta. É um partido ainda na sua infância. Precisamente por estar na infância, eu por mim aconselhá-los-ia a não passarem pelos Jerónimos ou pelo Parque Eduardo VII. Nunca se sabe se não andarão por lá ministros ou deputados, ou até uma reunião deles todos. E aí é que se ia a inocência.
 
Vítimas da liberdade
A Europa é um mundo de perpétua novidade, sempre pronto a revelar-nos inúmeras facetas surpreendentes. Ontem deixei aqui informação sobre a cidadania honorária concedida pelo maire de Paris a um assassino americano. Vem hoje no Público um artigo que pode ser lido em complemento a esse episódio. O artigo é escrito por uma senhora que muito aprecio, Anne Applebaum, jornalista de profissão e historiadora amadora, que lançou há pouco tempo aquela que será, muito provavelmente, a obra de referência para as próximas décadas sobre a engenharia do holocausto soviético (Gulag: A History). O delírio anti-americano, de facto, permite tudo (será que ainda ninguém se apercebeu que os EUA são um país europeu – situado noutro continente, mas culturalmente europeu, profundamente europeu, mesmo?). Agora é uma parte da opinião pública alemã que reclama para si o estatuto de vítima da II Guerra Mundial, às mãos (de quem havia de ser?) dos tenebrosos aliados anglo-americanos. Ninguém poderá alguma vez pôr em causa a brutalidade de acções militares aliadas como o bombardeamento de Dresden. Mas convém lembrar porque foram essas acções realizadas. O objectivo era apressar o fim da guerra, porque os mesmos aviões que bombardeavam cidades alemãs também faziam chegar a terra fotografias dos cortejos de judeus em direcção aos campos de concentração. Que me lembre, estes judeus também eram alemães. E que me lembre o nazismo era um regime totalitário. Será que as novas vítimas não apreciaram o fim do massacre de judeus e a mudança de regime (regime change, recordam-se?) trazida pelos horripilantes aliados? Quando se abrem as portas da percepção e se entra em delírio político o destino da viagem é mesmo uma incógnita. E há viagens muito más.
quinta-feira, outubro 16, 2003
 
Vive la Fête
Do lado cómico-trágico temos, entretanto, a notícia, que apanhei tanto via Merde in France como National Review, de que a Câmara Municipal de Paris decidiu dar a cidadania honorária francesa a Múmia Abu-Jamal, um americano condenado a prisão perpétua (inicialmente fora condenado à morte, mas por razões técnicas a pena foi comutada) por ter assassinado um polícia em Filadélfia. O homem foi sujeito a um processo jurídico como qualquer outro e daí resultou a conclusão da sua culpabilidade. No entanto, também por lá se desenvolveu, a propósito do caso, uma tese da “urdidura” que tem origem no facto de ele ser, por um lado, negro, e, por outro, activista dos Black Panther e também small-time journalist. Que movimentos políticos paranóicos americanos e europeus dêem credibilidade à tese da “urdidura”, que indivíduos paranóicos americanos e europeus façam o mesmo, é como o outro. Cada um é livre de fazer e dizer os disparates que quer. Agora que a Câmara Municipal da capital de um dos três mais importantes países europeus faça o mesmo; que o presidente dessa câmara grite nesse dia, “Múmia é parisense!”, perante uma audiência reminiscente do tempo dos sit-ins dos idos de 60, é que já releva do delírio político. Ainda hoje há pessoas que à minha frente ridicularizam o facto de em muitos sítios nos EUA as french fries terem passado a chamar-se freedom fries e que litros de vinho francês tenham sido entornados pelas sarjetas de Washington. Mas que um cretino francês de bigode destrua um restaurante americano em França e a justiça o liberte, e que um assassino comprovado receba cidadania francesa não constitui problema. É uma coisa normal. Pois é verdade, é mesmo normal. Mas depois não venham fazer queixinhas.
 
Solomon on the river
O chamado problema israelo-palestiniano é uma daquelas questões que não é compatível com infundadas boas intenções. No espaço de poucos dias, José Manuel Fernandes fez dois editoriais do Público dedicados ao assunto. Debitei aqui alguns comentários ao primeiro há uns dias e reincido hoje a propósito do editorial de ontem (inexplicavelmente não tem link). Dá José Manuel Fernandes grande relevo a um plano, saído da diplomacia paralela tanto do lado israelita como do lado palestiniano, elaborado sob patrocínio suíço e envolvendo um conjunto de personalidades sem responsabilidades oficiais. Para José Manuel Fernandes, este plano passa a ser uma referência inevitável no debate sobre o problema, por enfrentar com soluções concretas certas questões de eterna divisão entre os dois lados. A conclusão do editorialista é de que o plano é bom, mas não tem protagonistas que o adoptem. Deixo de lado o facto de o plano (ao contrário do que diz José Manuel Fernandes) não ser explícito quanto à abdicação palestiniana ao direito de retorno dos “refugiados” (coisa que faz com que até o próprio Haaretz, o principal jornal da esquerda israelita e que melhor representa o lado “pró-paz” da opinião pública do país, tenha dúvidas quanto à sua validade). Mais vale a pena perceber uma coisa essencial: a região é não só um cemitério tout court como um cemitério de planos excelentes cuja aplicação nunca se verificou por falta de protagonistas que os adoptassem. Desde 1917 que há planos para a região. E desde pelo menos 1947 que o problema da região é essencialmente um. Eu já o repeti aqui vezes sem conta, mas volto a fazê-lo porque um bocadinho de pedagogia não faz mal a ninguém. O problema essencial é a incapacidade do lado palestiniano (e árabe, mais em geral) para aceitar a existência do estado de Israel. As declarações palestinianas sobre isto continuam a ser half-harted, as escolas palestinianas continuam a ensinar baseadas em mapas onde Israel não existe, a OLP de Arafat continua a ter como princípio fundamental a eliminação de Israel, os vários movimentos terroristas (obviamente acarinhados pela Autoridade Palestiniana – e também muito prontamente desculpados por uma grande parte da opinião pública ocidental) não fazem segredo nenhum disso, a imprensa oficial continua a destilar um desbragado ódio anti-semita onde Hitler é tantas vezes invocado. Acrescendo a isto que, mesmo se instrumentalmente certos representantes oficiais palestinianos dizem que sim, que afinal reconhecem Israel, nenhum deles até agora prescindiu do famigerado “direito de retorno”, uma patranha diplomática cujo objectivo indirecto é exactamente o mesmo: destruir o estado de Israel.
Convém que sejamos claros sobre isto: não há aqui nenhuma equivalência moral entre os dois lados. Israel há muito que teria deixado de existir se não tivesse demonstrado uma notável capacidade ao longo de meio século para resistir a inúmeras ofensivas árabes contra a sua sobrevivência. A solução do problema não está neste plano. A solução está na capacidade de o lado árabe da contenda, de uma vez por todas e sem ambiguidades, reconhecer o direito à existência de Israel (o que inclui o abandono da casca de banana diplomática que é a questão dos “refugiados”).
quarta-feira, outubro 15, 2003
 
Mas eu não disse a ninguém…
Prosseguindo na mesma senda. Todos os dias caem na minha caixa de e-mail anúncios como este:

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Caramba! Como é que eles adivinharam que eu precisava?

 
O que realmente interessa
Entretanto, de regresso ao mundo real, tive o privilégio ontem de ver na RTP1 fragmentos de um programa semanal protagonizado por dois psiquiatras ou sexólogos (não tive oportunidade de me inteirar completamente do seu estatuto). Parece que o programa se dedica a ilustrar-nos regularmente sobre o tema do sexo. Havia uma psiquiatra, cujo nome não me ocorre agora, mas que deu uma entrevista ao último Dna. Nessa entrevista ela explica com grande cópia de informação que todas as famílias são funcionais (as famílias lésbicas, as famílias gay, as famílias de pais divorciados, as monoparentais, you name it) menos uma: a família tradicional, na sua opinião a fonte de todos os desequilíbrios emocionais da nossa sociedade. Pois esta senhora, na parcela de programa que ontem vi, versava sobre (e passo a citar) a “noção de menstruação”. Tudo num regime de grande elevação e elaboração científica. O seu colega era outro psiquiatra, homem do norte, cujo nome é Machado Vaz. Também ele dava o seu contributo para a compreensão da “nossônhe de menstruassônhe”, tentando, nomeadamente, ver “o enquadramento ideológico de tudo isto”. Por “tudo isto” devendo entender-se, segundo me pareceu, a “menstruassônhe”. A conversa era toda proferida num grande sofá, tendo por fundo uma decoração psicadélica, em tom laranja, lembrando um pouco as boites de strip dos anos 70.
Pois estava tudo muito bem. Mas faltava um bocado de acção. O sofá parece confortável e a decoração adequada. Que tal passarmos das aulas teóricas às práticas? Ao menos ia-se o onanismo.
PS – Os meus conterrâneos tripeiros que me desculpem a tentativa de imitação, ainda por cima muito mal feita. Mas compreendam: foi por uma boa causa.
 
Who knows?
Alguém, por e-mail, pergunta-me se eu acredito mesmo na teoria defendida no post anterior: Ana Gomes como testa-de-ferro (de Ferro, de certeza que notaram...) da direcção do PS.
Pois a minha resposta é, muito francamente, que não sei. Eu não percebo nada do que se passa. E este caso deprime qualquer pessoa sensata. O espantoso caudal de absurdo e delírio que todos os dias é lançado para a rua permite que se pense tudo. E sobretudo permite que se pense qualquer coisa, mesmo uma tese absurda e delirante como a desse post.
terça-feira, outubro 14, 2003
 
Alta estratégia
Também eu ontem tive oportunidade de testemunhar mais uma performance da Dra. Ana Gomes. À medida que os gritos (numa frequência incompatível com o ouvido humano) entravam pela minha sala adentro, eu ia lentamente ficando mais deprimido: será possível? O chorrilho de irresponsabilidades, a total ausência de noção do que são os limites de uma conversa civilizada, a completa falta de noção dos limites da insinuação, a falta de sentido do ridículo, tudo concorria para qualquer pessoa no seu perfeito juízo decidir emigrar rapidamente para a Califórnia (mesmo com o seu governador estúpido e filo-nazi).
Foi então que se fez luz: isto só pode ser uma estratégia da direcção do PS. A tese alternadamente chamada da "cabala" ou da "urdidura" é um notável disparate. Só uma pessoa disparatada, portanto, pode continuar a responsabilizar-se por ela. A tese tem, porém, um certo poder afectivo para algumas pessoas. Um pouco como os adeptos de futebol, sempre dispostos a aceitar a primeira teoria da conspiração que a direcção do dia lhes oferecer. Para além disso a dita tese faz muito ruído mediático, o que desvia as atenções do que é essencial. A aposta não é má: se Paulo Pedroso vier a ser considerado inocente (ou nem sequer vier a ser acusado), a tese pode ser vendida como válida. Se vier a ser considerado culpado, afinal só Ana Gomes é que se encontra directamente associada com ela.
Diz-se para aí que Ana Gomes está a destruir esta direcção do PS. É muito provavelmente ao contrário: se calhar vai ser ela a salvá-la.
 
Proposta de alteração de estatutos do Barnabé
Olá, rapaziada. Vejo que está tudo bem: o vosso blog continua torrencial, tanto em quantidade quanto em qualidade (embora esta tenha oscilações: por vezes é alta, por vezes é baixa).
Mas há algo que me preocupa. Sempre tão prontos a criticar os políticos e afinal são vocês quem não cumpre as promessas. Se bem me lembro, os vossos estatutos obrigam-vos a dizer mal de José Pacheco Pereira. Mas a vossa especialidade ultimamente parece ser (olha a rima) dizer mal de Luciano Amaral. Eu aprecio a distinção, mas, por favor, mudem os estatutos, andam a enganar a clientela. Em menos de 24 horas foram 3 posts 3, todos eles muito agradáveis. De destacar, claro, este aqui do Daniel, cujo argúcia e sentido de humor me fazem perguntar se ele também não andará a ser pago por uma cimenteira.
 
BOS
Meet the BOS. Eu já desconfiava que o patrão tinha esperto no cabeça, mas desde que há uns dias decidiu pôr nos links permanentes aquele que é provavelmente o melhor blog mantido do primeiro quarteirão do lado esquerdo da Calçada da Estrela, as dúvidas dissiparam-se: o patrão não é inteligente, é um génio!
segunda-feira, outubro 13, 2003
 
Untrue lies
A eleição de Schwarzenegger para governador da Califórnia fez regressar o melhor da esquerda, num padrão tão batido e tão antigo que, vendo bem, já não devia surpreender. O que mais espanta é sempre aquela extraordinária capacidade para passar ao lado do que é importante. Primeiro ridicularizam, na base de meros preconceitos e caricaturas sociais. E depois, quando percebem que a questão é séria, convocam o carácter sinistro do adversário. Aconteceu com George W. Bush. Primeiro limitava-se a ser um palhaço. Agora é um agente de uma sinistra "urdidura" neoconservadora, presumivelmente inspirada na filosofia de um dos mais complexos filósofos do século XX, Leo Strauss.
Com Schwarzenegger voltamos ao mesmo. O homem é um mero "monte de músculos", sem um pingo de inteligência por baixo do couro cabeludo. A carreira cinematográfica do homem devia fazê-los pensar um pouco. Scharzenegger tem excelentes filmes no curriculum. São filmes de acção, mas são divertidos (como True Lies ou Total recall) e alguns até profundamente intelectualizados (como The Last Action Hero). Quando antes das eleições ele disse qualquer coisa como "prefiro Adam Smith a Keynes", a maior parte dos que o criticam não perceberam o que ele quis dizer (sabem lá eles o que é que Adam Smith e Keynes disseram...). E no entanto, também esta é uma frase culta, com um significado político muito claro.
Deixo aqui três artigos que vão ao mais importante, este de Andrew Sullivan, que mostra a importância da novidade política de Schwarzenegger, este de Mark Steyn, que faz uma comparação entre a política californiana e europeia, e mais um de Mark Steyn que mostra como não só Schwarzenegger é inteligente como também é casado com uma mulher inteligente.
 
Murdiduras
Pronto, pronto, pronto... Não chorem... Imagino-vos ansiosos, todo o fim de semana à espera da próxima pepita a brotar deste teclado e, no final, nada. Mesmo depois dos ameaços. Pois tenho más notícias. E depois digam lá se isto não é tudo uma formidável urdidura!
Já tenho computador, mas fiquei sem carro. No regresso a casa, quando transportava o bicharoco, o meu carro do povo deciciu imobilizar-se inapelavelmente no meio da estrada (com o bicharoco e uma das crianças como recheio). Como os funcionários do representante do carro do povo são sindicalizados, não há cá reparações ao fim de semana. Felizmente, o rent-a-car é uma actividade completamente libertada.
Já tenho computador, mas fiquei sem linha telefónica. Como estávamos em fim de semana e os sindicatos não brincam em serviço, a PT não consegue oferecer um servicinho mínimo que seja de reparação de avarias fora dos dias úteis.
Entretanto, os dias de hoje e amanhã aqui na chafarica anunciam-se terríveis.
Pois não, não há "cabalas", nem "urdiduras"... Tá bem... Dra. Ana Gomes, eles que gozem. Eu (e o Mel Gibson) é que a percebemos. A ver se a PGR se põe a investigar isto tudo! É o pões!! Miúfa, pois é... Há coisas que incomodam muito, não é? E o atentado de Bagdad, não tem nada a ver com isto, pois não? E o concerto do Carlos do Carmos, foi por acaso, é?
E ainda dizem que não há presos políticos em Portugal... Mas não se preocupem, voltarei...
sexta-feira, outubro 10, 2003
 
Catering
Exacto, meu amigos: chega amanhã a casa, ao fim da manhã, o novo computador. Provavelmente à noite já estará activo e assim deixarei de estar desligado da blogosfera aos fins de semana.
Está marcada uma festa e, para o serviço de catering e demais acessórios (serpentinas, balões, línguas-da-sogra e reco-recos), já contactei a empresa Ferro, Lacão e Alegre, Lda., especializada neste tipo de eventos (casamentos, baptizados, comemorações de libertação e demais acontecimentos marcantes do ciclo da vida). Para citar o governador da Califórnia (no hands, see?): "hasta la vista, babies!"
 
O juiz
Tal como o Homem a Dias, também eu chamo a atenção para um novo blog, mantido por Rui Teixeira. Não directamente do tribunal da comarca de Torres Vedras, mas algures lá dos lados do país de Rio e Menezes, penso eu. Menciono o blog, entre outras coisas porque devo explicações ao Bicho Mau.
Há tempos recebi um mail absolutamente ditirâmbico sobre esta minha actividade part-time, assinado por um tal Rui Teixiera. Tão ditirâmbico que fiquei assustado. Será que estou a fazer assim tanto mal à cabeça das pessoas? E não respondi ao mail (como não respondo a muitos outros). Percebi, via Homem a Dias, que o Bicho Mau e o Rui Teixeira são uma e a mesma pessoa. Coisa que foi ainda confirmada com o facto de o Rui me ter colocado na categoria dos seus gurus.
Estava em dívida para com ele (e não só). Escrevo isto como penitência e só posso desejar felicidades ao meu "afilhado" bloguístico. Boa sorte! E não morde o dono, está bem?
 
Adenda ao post anterior
5- Caro L. A pessoa de direita sou eu?
 
Andam para aí a tramar qualquer coisa
Recebo o seguinte e-mail de um amigo meu, que é de esquerda, que eu não vou nomear e que tenho na conta de ser uma pessoa inteligente:

Com que então agora deste em téorico da conspiração?... Olha que associar os problemas do governo à libertação do Paulo Pedroso me parece uma grande malandrice. Não estava era à espera que fosse uma pessoa de direita a lembrar-se de tal coisa...

Se este meu amigo não percebeu o que eu disse (ou então eu não percebi o que ele quis dizer), mais gente não terá talvez percebido. E assim reformulo o que disse neste e neste posts:
1 – Acho a questão da cunha dos ministros, tal como foi discutida a partir de certa altura, uma irrelevância, mediaticamente alimentada para pressionar o governo.
2- A questão não é irrelevante em si. E eu não procurei desculpabilizar o comportamento dos ex-ministros. Eles tentaram algo (que na pior das hipóteses se chama nepotismo) e por isso pagaram o devido preço político. Eu não os desculpei e ninguém os desculpou. Foram-se embora muito bem. Mas a partir deste momento a questão política esgota-se. A menos que a oposição nos garanta que nenhum membro de nenhum futuro governo seu vai tentar fazer algo classificável como nepotismo.
3- A prova da irrelevância do caso das cunhas, provar-se-ia, na minha opinião, com o facto de rapidamente ele ter sido esquecido quando reapareceu o psicodrama Pedroso.
4- Não percebo onde é que está a teoria da conspiração.
 
Peters Pans
Não sei muito bem de onde é que vem a animosidade do Terras do Nunca relativamente aqui a este vosso criado. Mas ele escreveu um post que acabo de ler e cito acima, onde, no meio de uma prosa assim a dar para o agressivo, mostra ter ficado comovido tanto com o facto de eu não acreditar no que diz o Público, como com a minha ignorância jurídica, como, ainda, com (passo a citar) “a fé cega com que se dislata com tanta facilidade”. Não sei muito bem o que é que esta última frase significa, mas sobre a minha ignorância jurídica e sobre o Público tenho a dizer o seguinte:
1) Sou ignorante jurídico, sim senhor. Tenho um curso universitário (e até um doutoramento) mas não é em direito. E, portanto, tudo o que eu possa dizer relativamente a temas jurídicos só pode brotar da minha colossal ignorância sobre o assunto.
2) Dito isto, não sei em que é que é necessário extraordinários conhecimentos jurídicos para se perceber que um sujeito pode ser constituído arguido com base em informações relativas a outros arguidos, mesmo se essas informações não são explicitamente relevantes para isso. Isto é, os juízes decidem com base em informação directamente relevante para um determinado caso, mas também com base em impressões subjectivas que lhes ficam de outras circunstâncias laterais ou acessórias. E estas podem ser informações obtidas a propósito de outros arguidos ou suspeitos. É este quadro todo que os ajuda a tomar decisões. Que as decisões são falíveis e que na cabeça dos juízes podem entrar as mais inusitadas fantasias, não discuto. Mas é assim que as coisas funcionam e não é preciso grande domínio da chicana jurídica para perceber isto. E eu não tenho nem uma fracção de milionésimo de informação sobre o caso que esses juízes têm e, portanto, não tenho nada à minha disposição que me permita dizer se o caso é uma “cabala” ou uma “palhaçada”. Aquilo que sei é que há juízes que vão tomando as suas decisões com base em informação que desconheço e que temos que dar a essas decisões o valor que elas têm: a de decisões de juízes, provavelmente certas, provavelmente erradas, relativas a um determinado caso. O que me impressiona é haver tanta gente que, não sabendo nem da missa a metade, esteja tão segura da fantástica mistificação (quer sob a forma de “cabala” quer sob a forma de “palhaçada”) de todo o caso.
3) Sobre o Público, eu não tenho dúvida nenhuma de que aquilo que ontem saiu nas páginas do jornal é verdadeiro. Mas o que saiu não era o acórdão escarrapachado. Era uma leitura e uma publicação selectivas do que o acórdão diz. Aquilo que saiu estava, portanto, sujeito, por um lado, a uma interpretação de um jornalista e, por outro, a omissões do efectivo conteúdo do texto. Consequentemente, nenhuma discussão séria sobre o assunto pode dispensar as qualificações que fiz. Isto é, de que estava a tecer considerações sobre um texto que eu não tinha lido, mas outros tinham lido por mim.

Para voltar ao início, e para terminar, não sei o que é que levou o Terras do Nunca à hostilidade demonstrada no post que refiro. Se acaso essa hostilidade vem do facto de ontem eu não o ter citado na discussão sobre o caso Paulo Pedroso, tenho apenas a informar que citei só alguns (não todos) blogs cujos argumentos eram complementares do meu e não todos os blogs que falaram sobre o assunto. Se com isso o Terras do Nunca ficou ofendido, tenho muita pena. Até porque vinha a pensar também eu contibuir para a discussão Brel, cujos discos, por inerência familiar, acompanharam toda a minha infância e adolescência (ainda me lembro do dia em 1977, era eu um impúbere adolescente e não havia ainda FNACs nem internets em Portugal, em que a minha mãe, regressada de Paris, pôs no prato o LP Brel, o seu último). Não faz mal, fica para a próxima.
quinta-feira, outubro 09, 2003
 
Factos diversos (cf. também o Liberdade de Expressão)
Mal sabia eu quão cedo se revelaria exacto o meu último post de ontem (podem ver aí, um bocadinho mais abaixo). Temos nova coqueluche obsessiva: a libertação de Paulo Pedroso. E com isto, o extraordinário evento mediático que foi a presumível cunha entre dois ex-ministros foi devolvido às brumas do esquecimento. O governo ontem estava mesmo mesmo a cair. A democracia tinha sido ofendida e tudo. Hoje não se gasta um pingo de tinta com a coisa. Bem pode Durão dar graças a Ferro, Alegre e Cia.
 
Caxias, 2003
Continuo a funcionar ao retardador na blogosfera (sim, o computador caseiro continua na linha de montagem), e em horário laboral nem sempre posso vir aqui lançar o meu post de pescada. O que se segue deve ser, portanto, lido juntamente com o muito que já foi escrito na blogosfera sobre o assunto (ver, nomeadamente, o Flor de Obsessão, o Liberdade de Expressão, o Contra a Corrente, O Complot, o Homem a Dias, o Desesperada Esperança e o Tradução Simultânea, que me lembre). De qualquer maneira não queria prescindir de deixar aqui manifesto o meu agrado por mais um belíssimo espectáculo político-mediático com que o PS nos decidiu brindar. Toda a cena da libertação de Paulo Pedroso parecia um revival da libertação dos presos políticos de Caxias em 1974 (embora a abundância de Audis e BMWs destoasse um bocadinho no quadro). Mário Crespo na SIC falava de “um dia extraordinário para a República” e, para quem tivesse missed the connection, Manuel Alegre tonitruantemente declarava o dia um grande dia para a liberdade, porque “muita gente lutou para haver liberdade neste país, muita gente morreu para haver liberdade neste país”. O Público hoje declara as provas contra Pedroso “arrasadas” pelo acórdão do Tribunal da Relação.
Em suma, o disparate continua. Mas não é apenas um disparate. É um disparate perigoso. Quando um partido político associa as decisões de um determinado juiz a uma cabala neo-fascista e as decisões de um conjunto de outros juízes a uma vitória da democracia está a ridicularizar o inteiro sistema judicial português. E mais: está a dar sinais de que se calhar ainda não percebeu muito bem o que é uma democracia e um sistema judicial independente. Se eles acreditam mesmo na tese da cabala, eu pergunto-me o que farão quando deitarem as unhas ao poder.
E quanto a provas “arrasadas” pela Relação, eu convido as pessoas a ler o que o próprio Público traz relativo ao conteúdo do acórdão. Convém dizer que isto é o que o Público diz que o acórdão diz. Eu não sei na realidade o que é que o acórdão diz. E o que o Público diz que o acórdão diz é que terá havido, da parte do juiz do Ministério Público, por um lado, uma certa facilidade em aceitar o reconhecimento fotográfico por parte das testemunhas e, por outro, uma certa falta de zelo em confrontar as testemunhas com contradições nas suas declarações. Mas daqui não se pode inferir a destruição da base da indiciação (da indiciação, repito, não da culpa) de Paulo Pedroso. Afinal, há seis testemunhas que o mencionam em diferentes circunstâncias e, mesmo admitindo que o juiz foi apressado a tomá-las como suficientes para a indiciação, há pelo menos aqui qualquer coisa que necessita de esclarecimento. E há um dos juízes que valoriza positivamente os indícios e que votou vencido. E tudo se complica ainda mais quando há outros arguidos no caso e quando das informações relativas a esses arguidos podem constar coisas complementares que ajudaram a indiciar Pedroso.
Por muito que custe aos amigos de Paulo Pedroso e ao PS, até tudo isto terminar continuamos na mesma em termos substanciais (não em termos pessoais para Paulo Pedroso, cujo alívio deve ter sido enorme quando saiu daquela prisão): há um processo em curso, há arguidos, todos são presumidos inocentes até decisão judicial que infirme essa presunção.
Tanta coisa com a justiça popular... E a igualmente trauliteira justiça partidária e jornalística?
quarta-feira, outubro 08, 2003
 
Alguém me explique o que se passa
O problema é certamente meu, mas gostava que alguém me explicasse o interesse obsessivo, que dura há cinco dias, com a história dos (ex-)ministros e da filha de um deles. Já vamos no décimo Fórum TSF sobre o assunto, no quinto destaque do Público e no quadragésimo debate na SIC. A blogosfera também transpira de entusiasmo pela coisa. Fala-se em crise governativa, em credibilidade do governo ameaçada, num governo que ficou tem-te-não-caias. Na pior das hipóteses (embora haja outras menos más) a história configura um caso típico de nepotismo, provavelmente a mais velha e ecuménica actividade do mundo. Os que o terão tentado demitiram-se, como o deveriam ter feito, e pronto. E agora? Não percebo muito bem o que há a inferir daqui. Pretende, porventura, a oposição sugerir que jamais praticará o nepotismo? Que jamais o fez? Que está acima dessa tentação tão humana que é usar meios no limite da legalidade e da legitimidade para favorecer o seu clã e a sua família? Se está, Deus nos valha!! Quero (para citar o outro) este governo por mil anos. Pensava eu, ingenuamente, que política era fazer coisas interessantes. Deve ser, mas não certamente em Portugal.
 
Carvalhelhos
Vocês podiam estar a pensar que o propósito do post precedente era essencialmente humorístico (humor tipo pimba, claro, aquele que aparentemente consigo fazer). Mas não. Digam-me lá, com toda a franqueza, o que é que vos ocorreu quando viram ontem os meninos empunhando um cartaz que, ao fim de um dia de exercício da nova ministra, gritava (oh, meu Deus, porque sois tão previsíveis…?) as propinas são caras como o carvalho? Se a vossa resposta é: atirá-los pela janela, eu cá seria partidário de outra solução. O humor deles é, sem dúvida, do carvalho. Eu diria mesmo que o humor deles é seminal. Por isso, a minha solução era atirá-los pela sanita abaixo. Já têm o carvalho, já têm o papel higiénico, só falta mesmo é darem uso às coisas.
 
Pedagogia
Leio hoje (vem no Público, secção Sociedade, não tem link) que uma professora marroquina lançou, por razões de disciplina, dois dos seus alunos pela janela da sala de aula. É compreensível. De resto, Marrocos sempre se caracterizou por estar na vanguarda dos mais modernos métodos pedagógicos. Não sei porquê, mas sempre tive a noção instintiva de que esta era a melhor maneira de lidar com os meus alunos. Nunca me senti suficientemente seguro, porém, para passar à aplicação do sistema. Iluminado agora pelo farol marroquino, proponho um aprofundamento da prática, inspirado no famoso desporto australiano throwing the dwarf. Em vez dos tradicionais critérios de avaliação de performance dos professores, as nossas faculdades deveriam começar a adoptar o critério da distância, nomeadamente a distância a que cada um de nós, professores, conseguisse atirar os seus alunos da janela para fora. Haviam de ver como, subitamente, se acabava a nossa falta de literacia matemática nos inquéritos internacionais.
terça-feira, outubro 07, 2003
 
Síndroma João Hugo Faria
Será que o mui saudoso João Hugo Faria se mudou para aqui?
 
Fontes primárias
Sérgio, temos tese!!! No outro dia fez um artigo muito lúcido sobre a falta de ideias no socialismo actual, que na altura tive oportunidade de comentar. Não é que vem hoje no Público que o Presidente Jorge Sampaio depositou os seus "escritos políticos " dos últimos 20 anos na Torre do Tombo... O tema é excepcional, já temos documentos, já temos case-study, toca lá a trabalhar!
 
Coupling
Pedro. Li o post anunciando que se encontra outra vez disponível. Sabe que eu quero sempre o melhor para as pessoas cá da casa. E não é que (veja a coincidência) praticamente na mesma altura veio no Público que a mesma coisa aconteceu à Halle Berry. Eu sei que ela é moça mais para a minha do que para a sua idade, mas uma oportunidade assim... Ainda por cima o futuro governador da Califórnia nunca pôs a sua manápula asquerosa em cima daquela obra-prima da natureza. Como nos vamos vendo pelos corredores aqui da nossa instituição, eu depois dou-lhe umas dicas (quando é que se lhes deve telefonar, como fazê-las esperar, como fazê-las desesperar, como fazê-las chorar, rir, está a ver, não é?). Está no papo, meu amigo...
 
Yom Kippur
Enquanto estive desligado da blogosfera houve mais um atentado em Israel, desta vez na véspera do Yom Kippur. O simbolismo da acção, a sua pura gratuitidade (o terrorismo já é em si mesmo gratuito, ainda mais quando pretende atingir um símbolo identitário tão forte) tornam-na, se possível, ainda mais repugnante do que é costume. Em resposta a este atentado, aviões israelitas bombardearam, dentro da Síria, um campo de treinos da Jihad Islâmica, a organização que reivindicou a coisa. Perante a acção israelita, as vozes do costume (na véspera tão caladinhas perante a morte de 20 pessoas e o estropiamento de mais não-sei-quantas dezenas) levantaram-se contra a “acção desproporcionada de Israel”. Nada de novo deste lado. Surpreendeu-me foi ver, também, José Manuel Fernandes, em editorial na segunda-feira, cair no logro da equivalência entre os “extremistas” israelitas e os “extremistas” palestinianos.
A acção contra a Síria mostra a quem persistiu em ignorar a história do Médio Oriente no último meio século uma coisa: na Palestina continua a haver uma guerra convencional latente entre Israel e os estados árabes da região. Israel teve oportunidade de derrotar diversas coligações militares desses países de 1948 em diante. Incapazes de fazer frente a Israel no campo de batalha aberto (apesar de Israel ser um país de apenas cinco milhões de pessoas, contra as centenas de milhões dos outros países todos juntos), esses estados (se exceptuarmos o Iraque pós-Saddam e, talvez, a Jordânia) usam os grupos terroristas palestinianos como carne para canhão à espera de melhores dias.
Claro que há extremistas de um lado e do outro. Mas os extremistas israelitas são uma minoria e sempre foram. E Israel sempre aceitou (mesmo se admitirmos que, no início, o possa ter feito instrumentalmente) a solução dos dois estados. Foram os árabes da Palestina e os outros estados que nunca a aceitaram. E continuam a não aceitar, há que dizê-lo (como na rábula do Herman) com toda a frontalidade. Do lado dos palestinianos e dos países árabes a dificuldade não está em encontrar extremistas, está em encontrar moderados. Ainda aqui há dias falámos de Edward Said, um palestiniano moderado. Era tão moderado que criticou Arafat por em Oslo ter prescindido do direito de retorno dos refugiados palestinianos (coisa que, toda a gente sabe, corresponde ao fim do estado de Israel por outros meios).
A Síria é um país fornecedor de infra-estruturas para organizações terroristas (do Hamas, da Jihad, do Hezbollah, que se saiba…). E é ainda o país que mantém uma espécie de colónia (o Líbano) quase integralmente transformado num enorme campo de treino para aquelas mesmas organizações.
Acção desproporcionada, a de Israel? Desproporcionados são eles é quando não fazem nada…
 
Revolução Permanente
(Reuters, Mexico City) – Foi encontrado morto no seu escritório de exílio na cidade do México o Prof. Trostky do Amaral. Junto ao corpo inerte jazia um picador de gelo. Contactada pela Reuters, Ferida com Calo, a pintora a quem é atribuído um breve caso amoroso com o famoso activista político, afirmou acreditar tratar-se de um suicídio. Perante a insistência da Reuters de que talvez o tirano homicida Paulo Kobas pudesse estar por trás da acção violenta, Ferida refutou a possibilidade com veemência: “Kobas é terrível, mas Diego [Trotsky] estava a viver momentos difíceis. Ele atravessava uma crise identitária que o tinha levado, por exemplo, a tentar a violência física sobre [Diego] Rivera. Não suportava que ele tivesse o mesmo nome. E foi também encontrado a deambular sozinho num parque do centro da cidade a gritar: Força, Força, Companheiro Vasco!” Por sua vez, Rivera elogiou a pureza de carácter do amigo: “ele nunca percebeu uma coisa que eu me fartei de lhe explicar – ser-se comuna é muito mais giro quando o Rockefeller paga o serviço. Diego nunca quis ver isso e até ao fim manteve-se acima de tais vilezas”. Também Paco Louçã, no seu testemunho confessa ter estranhado o comportamento do Professor no último congresso da IV Internacional: “dizia coisas sem nexo, do estilo que Viriato tinha sido traído pelo seu Ministro da Defesa… não percebi bem”. Com a crueza característica dos americanos, mais frontal foi um agente do FBI em missão de luta contra a droga deste lado da fronteira. Quando inquirido sobre as causas da morte também ele procurou refutar a tese do assassinato pelo tirano Paulo Kobas. À pergunta: acredita então que foi suicídio, respondeu: “yeahh, sure, the guy was on drugs”.
 
Want one?
OK, OK, OK, gotcha, gothcha, gotcha... O Tradução Simultânea nota uma leve discordância minha consigo na avaliação do novo disco de Rufus Wainwright, Want, One. Não é bem uma discordância. Ambos gostámos do disco, mas enquanto ele atira foguetes e faz um festalhaço eu limito-me a dizer que sim senhor, que está bem.
Eu percebo o que ele diz: o disco é o melhor do ano da semana. Na (es)crítica pop às vezes é um bocado assim, e convém dar o desconto. Ocorre que eu penso que Poses é efectivamente uma das melhores coisinhas que por aí foram lançadas nos últimos anos. O que quer dizer que escapa a esse ditirambo imediato tantas vezes próprio da avaliação dos discos pop. E por isso estava à espera de mais. Embora, se calhar, devesse estar à espera de menos. São poucos os que conseguem fazer o seu melhor disco até ao próximo disco durante muito tempo: afinal Lennon/McCartneys ou David Bowies não nascem das árvores todos os dias.
 
Pois é, Alberto...
E já agora, para retomar uma conversa a que chego atrasado: quem pode não amar Ghost World (um dos únicos filmes em que apetece ter uma sequela, trequela, tetraquela...)?
sexta-feira, outubro 03, 2003
 
Ciao, bambini
Still no computer at home ("ó chefe, está na montagem, já lhe disse; também não queria um computador baratucho e que estivesse em sua casa no dia seguinte, pois não?"). A próxima 2ª feira adivinha-se arrasadora. Deverei regressar só na 3ª.
 
The Tender Trap
Entretanto, o dia 5 de Outubro vai ficar memorável para os vindouros, não pela instauração da República em Portugal, mas pelo facto de dois seres livres virem a deixar de o ser no próximo domingo (5 de Outubro, precisamente): vão contrair (esta palavra vem de um contra o outro, não vem?) matrimónio. A cerimónia decorrerá num paraíso terreno de nome de Santa Margherita Ligure, na Ligúria, Itália (mostro-vos esta, esta e mais esta fotografias só para ficarem invejosos). Eu (e respectiva família) deveria lá ir. Mas Deus nosso Senhor não deixou. Resta-me, pois, gritar daqui, para que seja ouvido no dia e na hora da desgraça: tanti auguri!!!
 
Holiday historian
Rui Ramos, meu amigo e holiday historian do Independente, publica hoje mais um artigo nesse mesmo jornal, desta vez dedicado ao 5 de Outubro. Vamos lá a ver se nos entendemos: quem não leu este livro que aqui está, tem que ler o artigo. O livro são para aí umas 700 páginas dedicadas a ilustrar profusamente uma tese crucial para se entender o século XX português: a Ditadura Militar (1926-1933) e o Estado Novo (1933-1974) não destruíram um regime demo-liberal (a I República) para implantar uma ditadura. Eles destruíram um regime de partido único para-totalitário informal, substituindo-o por um regime autoritário formal. Ao contrário do que reza a lenda, a liberdade em Portugal não acabou em 1926 (no 28 de Maio), mas em 1910 (no 5 de Outubro, que alegremente comemoramos todos os anos). Democracia, democracia (embora parca em liberalismo), só a partir de 1974.
 
Ilustrem-se, por favor (II)
Se querem ficar a perceber alguma coisa do relatório do Iraq Survey Group, façam um favor a vocês mesmos e não leiam os jornais nacionais. Eis onde devem ir: ao blog do Andrew Sullivan.
 
Ilustrem-se, por favor (I)
Já o disse aqui várias vezes: Mark Steyn é o melhor colunista político vivo (perdoe-me, Alberto). Deixo-vos aqui uma amostra de um artigo desta semana no Chicago Sun-Times. Esta é a melhor parte, mas não dispensa a leitura do artigo todo:

Wanna score some government dope? In Canada, the courts recently ruled that patients suffering from AIDS, cancer and other diseases were entitled to enjoy the benefits of ''medical marijuana'' -- and not just any old marijuana, but official government marijuana, supplied to them by Health Canada, the government health system. Health Canada mulled it over and set up a program to grow the court-ordered federal pot in a disused mine in Flin Flon, Manitoba.

Of the first 10 patients to be supplied with the government weed, half claim it's the worst pot they've ever smoked. They're sending it back to Ottawa and they want a full refund. ''It's totally unsuitable for human consumption,'' says Jim Wakeford, an AIDS patient in Gibsons, British Columbia. ''I threw up,'' says Barrie Dalley of Toronto.

Health Canada insists their dope contains 10.2 percent THC, the main active ingredient. But the respected pot lobbyist Philippe Lucas says the government weed is only 3 percent THC and full of contaminants like lead and arsenic. Aren't lead and arsenic dangerous? To modify Nancy Reagan: ''Just say no to government drugs.''

One of the reasons I'm in favor of small government is because there's hardly anything the government doesn't do worse than anybody else who wants to give it a go. Usually when I make this observation, I'm thinking of, say, Britain's late unlamented nationalized car industry. But when the government of a G7 nation can't run a small marijuana sideline as well as a college student with a window box, that seems to set an entirely new standard for official underperformance. Big government goes to pot, in every sense.

Instead of its hugely wasteful ''war on drugs,'' the U.S. government might have been better just to legalize them, give the contract to the government of Canada, and in three months the entire drug market would have collapsed and guys would be huddled in darkened alleys saying, ''Hey, man, do you know where I can get some butterscotch pudding?''

 
Campanha eleitoral
A propósito, Luís Filipe Menezes sugere (podem ver aqui) que o PSD precisa de um Schwarzenegger. Luís Filipe, Luís Filipe, seu maroto: sempre a pensar no melhor para as mulheres de Gaia…
 
Desilusão
Vem nos Los Angeles Times (e o Público noticia): Schwarzzie, o favorito na recall election para governador da Califórnia, “apalpou seis mulheres em 25 anos”. Francamente, a mim parece-me pouco. O período a que se refere a notícia é 1975-2000. E são seis (6) mulheres. Tentem recordar. Eu já fiz o esforço e (não quero parecer presunçoso, mas é assim a vida), nesse período, eu apalpei mais mulheres do que Arnie (belos tempos de liceu e faculdade…). É verdade que foi sempre com o seu consentimento, mas apalpei, OK?
Mas o mais importante não é isso (depois não me venham dizer que não há media bias). O mais importante é saber se elas gostaram. E se, neste domínio, Arnie tiver obtido nem que seja um taxa de 10% dá-me uma abada sem nome.
 
Precisamente…
Sérgio “fracturante” Sousa Pinto oferece-nos (obrigado ao Senhor, por este dia) um artigo hoje no Público. Parece (é a opinião dele) que o “socialismo está à deriva”. O sumo (hmmmmm – OK, OK é uma autocitação de mau gosto, mas não resisti) da tese é a de que o actual socialismo europeu anda completamente falho de ideias. A crítica é violenta, ácida, desesperada. E é um testemunho pessoal dramático: não é todos os dias que se faz uma autocrítica tão devastadora.
 
Tão bem conservada…
Por razões que eu cá sei, sinto-me obrigado (mas não me queixo) a dar os parabéns à Charlotte pelos seis meses do Bomba Inteligente. Seis meses, a sério? Mas está tão bem conservada que parecem só quatro…

quinta-feira, outubro 02, 2003
 
Onde iremos parar?
Já não se pode confiar em nada. Até há pouco tempo sempre podíamos acreditar numa coisa: na atribuição do Prémio Nobel da literatura. O prémio era uma decisiva recomendação para não ler a obra do escritor agraciado. Ultimamente, porém, também esse farol acabou. Depois de Naipaul há uns dois ou três anos, agora é Coetzee a recebê-lo.
Ou talvez não: afinal Vargas Llosa e Philip Roth estavam na lista e não receberam o prémio. Sempre há alguma esperança de que esta instituição continua ser o que era.
 
Domingo Desportivo
EPC, talvez o nosso melhor futebolista no activo, decide fazer hoje uma breve antologia de algumas das suas melhores frases e análises, num texto significativamente intitulado O Jogo Infinito . Podem ler na íntegra, mas o Espectador receia que nesta antologia se perca o contexto original em que muitas foram proferidas. Assim, num aturado esforço de reconstituição, o Espectador está em condições de devolver as gemas do artista à conjuntura de que foram retiradas. A maior parte delas tem origem numa famosa entrevista concedida ao jornal desportivo Domina o Blogosférico:

Domina o Blogosférico: Mais uma vitória e o caminho para a reconquista do campeonato pela sua equipa está à vista. O que tem a dizer sobre a sua equipa?
EPC: O conjunto impressiona-nos logo de entrada pela (…) preserverante determinação de formas, preenchimento minucioso dos espaços, declinações exaustivas das possibilidades da cor.
DOB: Percebo… Mas não é isso que é, essencialmente, o futebol? No fundo, um jogo...
EPC: Jogo infinito de um número finito de formas e de cores (…). De certo modo, vai-se [jogar] para definir uma matriz e vai-se desenvolver essa matriz em sequências combinatórias intermináveis.
DOB: Sim. Embora as substituições sejam sempre cruciais…
EPC: O gosto de acrescentar sempre mais um elemento (…) é apenas uma travessura num plano obcecado de inventário, não do mundo, mas dos elementos com que se faz o mundo. Daí que não haja propriamente narrativas, que implicam uma orientação do espaço, mas uma espécie de prazer enciclopédico que joga circularmente com as escalas, com a reprodução por separação, com uma descida ao mais primitivo e ao mais ingénuo, que faz que o lúdico e o espectacular dissimulem algumas feridas, múltiplas angústias, cortes viscerais.
DOB: Reconhecem-se claramente em si os ensinamentos do Professor Carlos Queirós. Mas será você o último a rir neste campeonato?
EPC: Um riso solar deixa entrever nalguns sinais de uma gramática obsessiva uma noite sufocada e um medo sem limites. Mas a taça é nossa!!!
 
And the Oscar for best comical line goes to...
Kim Jong-il, por ter classificado Donald Rumsfeld como um psicopata ditatorial e um velho politicamente analfabeto. Ainda segundo Kim, Rumsfeld não consegue compreender a presente realidade.
A competição foi acesa e a decisão do júri hesitante até final. A frase rival, que se classificou no imediato segundo posto, é da autoria do Prof. Freitas do Amaral, na sua já antológica entrevista à revista Nova Gente, onde afirma que existe hoje em Portugal um afastamento relativamente aos verdadeiros ideais de Abril.
Por forma a obter-se o desempate, a decisão final do júri teve em consideração o critério "outstanding contribution to comical script" - embora nos corredores da Academia se insinue a possibilidade de essa mesma decisão ter sido influenciada pela actividade de lobbying da famosa marca de shampoo brasileiro Os Caras não se Enxergam (mêmo).
quarta-feira, outubro 01, 2003
 
Nem tudo é política
Alguém amigo me avisa que dizer que Fernando Rosas "erra em tudo o que faz ou fez na vida" (v. post anterior) é uma formulação injustamente geral. É sim senhor: na realidade eu não queria dizer tudo. A frase deveria ser "erra em tudo o que politicamente faz ou fez na vida".
Ecco! Agora já posso continuar a brincar.
 
É Rosas, senhor, é Rosas
Fernando Rosas perpetrou, como é seu hábito à quarta-feira, mais uma coluna de opinião. Fernando Rosas foi meu orientador de tese de mestrado (já lá vai para 10 anos) e eu conheço-o bem. E posso falar-vos da sua principal característica: para além de me ter deixado passar no mestrado, ele erra em tudo o que faz ou fez na vida (inclusive ter pensado que eu alguma vez tinha talento académico).
E a provar isto mesmo está o artigo de hoje. Repete o nosso passionário que o ensino superior deve ser tendencialmente gratuito. Isto já foi explicado muitas vezes e de muitas formas, mas convém sempre lembrar as verdades simples: “não há almoços (e, consequentemente, universidades) grátis”. A questão não está em saber se o ensino é gratuito (nunca é), mas quem o paga. E quem o paga são sempre as famílias. Para quem ainda não se apercebeu, o principal custo de um curso universitário nunca serão as propinas, mas a despesa que os pais têm para manterem a sua criancinha em casa até aos 22-23 (na melhor das hipóteses) anos (com comidinha, roupinha, disquinhos, concertozinhos e outras coisas indispensáveis à vida). É por isso que as universidades são essencialmente frequentadas por filhos de ricos ou da classe média. O facto de se pagarem propinas meramente simbólicas apenas facilita a vida destas pessoas.
Burgueses de todo o mundo (ou pelo menos de todo o país), uni-vos! Eis os vossos novos líderes: o Bloco de Esquerda e Fernando Rosas (reparem como na fotografia on line ele até já aparece de gravata).
 
Bute multiplicar espaços
O nosso inestimável EPC anuncia na sua coluna de hoje a abertura, na Bairrada (Anadia, mais precisamente), de um Museu do Vinho. O comissário do Museu do Vinho é alguém chamado Maçãs de Carvalho. Há aqui uma certa falta de concordância de género (um homem não chora e não se chama maçãs) e uma certa falta de concordância botânica (os carvalhos não dão maçãs), mas o valor cultural do empreendimento permite perdoar essas pequenas coisas.
EPC considera que só com Maçãs o museu vale a pena, para combinar a dimensão geográfica e social do conhecimento de uma região e de uma cultura como a do vinho com as preocupações relativas à arte contemporânea (desculpem o estilo, mas não é meu).
E para provar isso descreve-nos três exposições que por lá estariam: Fernanda Fragateiro multiplica espaços e lugares para olhar os espaços, alterando de um modo quase insensível os modos de relação com o mundo (que é como quem diz: o Mister diz que o Sokota jogou bem no último derby). Por seu lado, Duarte Belo interroga a mudez de um mundo que se transforma e que tem uma dimensão local e outra universal (que é como quem diz: ler com sotaque de Carlos Queirós - el Real no à jogado bien, emos perdido concentrassión competitiva).
Eu até gosto de algumas ilustrações de Fernanda Fragateiro, mas com publicidade assim, eu, quando passar por lá, vou é ao verdadeiro museu da Bairrada, onde se “multiplicam os espaços e lugares para olhar os espaços”: o Pedro dos Leitões.

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