O Comprometido Espectador
sexta-feira, novembro 28, 2003
 
O novo aborto
A chamada “nova direita”, acoitada nas páginas do lamentável Independente, anda a provocar estragos. João Marques de Almeida e Vasco Rato publicaram na semana passada, nas páginas do dito pasquim, dois artigos em que expendem a sua posição pessoal quanto a certos aspectos de costumes. O artigo que mais discussão provocou foi o do Vasco, onde ele defende a descriminalização do aborto. Esta semana, nas páginas do Indy, Vítor Cunha (indirectamente), João Pereira Coutinho, Carlos Blanco de Morais e três ou quatro leitores discutem o assunto. Vale a pena ler.
Sendo eu (ao que consta por aí) também da “nova direita”, lá tenho direito a um espaçozinho no jornal. Não o vou usar para discutir esta questão, e portanto faço-o aqui.
Das posições expressas no jornal aquela de que me encontro mais próximo é da do João Pereira Coutinho. Não exactamente pelas mesmas razões, mas por razões parecidas.
Qual é o problema de o aborto ser acomodado ou não pela lei? É preciso ser cru neste aspecto: o aborto é moralmente intolerável (para qualquer um de nós que tenha a vida humana como um valor insubstituível) se um feto for considerado uma vida humana. Se o feto for considerado uma vida humana, convém dizê-lo de forma inequívoca, o aborto é um homicídio. Não há maneira de sair disto. O aborto só é tolerável, para quem partilha aqueles valores, se o feto não for considerado uma vida humana.
Aviso já, para evitar mal-entendidos, que não sou crente (de qualquer forma do cristianismo ou outra religião). E portanto nem sequer sou sensível, por exemplo, aos argumentos oficiais da Igreja, como os da não interferência humana nos desígnios divinos. Sou, portanto, favorável aos vários métodos contraceptivos (se vos interessa, também não quero transformar o direito à vida num princípio constitucional). Mas a questão do aborto é outra: como disse, depende de o feto ser considerado ou não vida humana. A minha posição de há muito sobre o assunto é contrária à descriminalização ou à legalização do aborto. Essa posição funda-se na ideia de que a fusão do espermatozóide com o ovócito dá origem a uma forma de vida humana. Mas isto é baseado em ciência de pacotilha. Não sou médico, muito menos médico geneticista. Se, portanto, me for demonstrado que estou enganado. Que a vida humana não começa naquele momento, eu estou disposto a mudar a minha posição. Até lá, à cautela, considero que a vida humana existe a partir do momento em que, embora ainda sob forma gestativa, o ser que vai ser um Homem (com maiúscula, para incluir a mulher) plenamente desenvolvido está individualizado (embora ainda dependente do organismo da mãe). Dentro deste princípio, só serei favorável ao aborto (pelo menos favorável a considerar a possibilidade) se a sobrevivência do feto for posta em alternativa à da mãe ou à sua própria sobrevivência num momento ulterior.
Outras posições sobre o aborto podem ser moralmente fundamentadas. Mas nenhuma dispensa um qualquer critério sobre o início da vida humana. Isto é, um critério sobre o momento a partir do qual o ser em causa merece a mesma protecção que todos os outros seres humanos. O resto dos argumentos que em geral se apresentam para defender o direito a abortar, peço desculpa, não têm qualquer valor moral: o facto de ser muito praticado (também os assaltos são e não se legalizam); o facto de a mãe ser pobre (como se os pobres não pudessem ter filhos); o direito da mulher a dispor do seu corpo (tomado à letra, isto significaria a aceitação do aborto até ao momento do corte do cordão umbilical); todos estes são argumentos meramente expeditos. Argumentos que só são válidos se a vida de que se vai dispor não for considerada uma vida humana.
Em geral estou sempre mais próximo de pessoas como o Vasco do que de pessoas como o Carlos Blanco de Morais. Para usar a terminologia em voga, da “nova direita” do que da “velha direita”. Mas esta é a mais difícil das questões para haver posições políticas claras a partir da tradicional bipartição entre duas mundividências opostas.
Aliás, nunca percebi porque é que existe uma divisão esquerda-direita na questão do aborto. Todos somos supostos partilhar os mesmos valores de protecção da vida humana. Não sei em que é que naquilo que acabo de dizer me revelo como sendo de direita, a não ser pela razão de que tradicionalmente a direita não é favorável à legalização do aborto. Mas na essência do problema, onde é que está a esquerda e a direita?
 
Ele passa os dias à espera deste momento
É evidente que o Andrew Sullivan passa os dias à espera das minhas citações para o seu blog. Pois hoje, magnanimamente, lá faço o favor de linkar para lá: os posts publicados até agora são todos de ouro.
 
Joy
Para as meninas em busca de fortes sensações sexuais, confirmo aviso que aqui fiz ontem: lá saíu hoje no Público o prefácio aos contos eróticos do Presidente.
quinta-feira, novembro 27, 2003
 
Fascismo e direito administrativo
Do meu colega N. recebo via e-mail mais uma peça inspiradora referente ao valoroso resistente anti-fascista Prof. Freitas do Amaral. A sua aura de herói romântico parece ganhar fama mesmo além fronteiras (atenção às partes em catalão):

O Prof. Freitas do Amaral aproveita a sua sabática para fazer turismo com o snr. Josep-Lluís Carod-Rovira, lider da Esquerda Republicana da Cataluña (ERC), um partido tipo Bloco de Esquerda lá da terra (e neste momento kingmaker na Catalunha), o qual se diz fascinado pelas ideias revolucionárias do grande Freitas e admite
que "el antic candidat conservador a la presidència, Freitas do Amaral, avui en posicions més progressistes" contrárias "a la dreta, governant a la ciutat i al país, mai no ha tingut gaire interès a recordar la història" antifascista (entenda-se). Sabemos também que os portugueses estão com Freitas porque o nosso "govern no defensa prou la sobirania nacional del país davant l'arrogància tradicional d'un Estat veí que, de fet, mai no va pair que Portugal se'n declarés independent i que, en ocasions, certs gestos delaten que la voldria tractar com la divuitena comunitat autònoma." Confirma-se pois que o nosso homem é hoje um revolucionário anti-fascista. E ainda relações internacionais do Bloco de Esquerda (fica-me a dúvida se o Trotsky também iriaa almoçar ao "restaurant, A Travessa, a l'antic convent de les Bernardes" para conspirar contra o perigo das direitas iberistas e castelhanizadas e o seu obscurantismo que pretende limpar a história ... Como se nos últimos 100 anos as teses da federação ibérica não tivessem vindo dos pensadores da esquerda). Uma delícia...

E segue o link com a obra completa.
 
Jorge e Barbarella
Numa famosa sequência do filme Barbarella de Roger Vadim Jane Fonda entrava numa malévola máquina que a punha a arfar de desejo (nunca na sua vida esteve Jane tão bem). Pois parece que agora, não sei se inspirado neste episódio, um cientista americano desenvolveu uma máquina de orgasmos femininos (vem no Público, na p. 32, não tem link). O feito tem honras de entrevista na New Scientist e pressente-se um lauto financiamento por trás. Se mais faltassem, eis o argumento definitivo que comprova a estupidez dos americanos. Uma dinheirama medonha por uma coisa destas quando nós, com um milionésimo do orçamento, conseguimos resultados bem mais espectaculares (no nosso caso os orgasmos são múltiplos): é já amanhã que sai no Público o prefácio do Presidente Jorge Sampaio ao Vol. VII da sua obra Portugueses. Vá meninas, controlem-se, por favor…
segunda-feira, novembro 24, 2003
 
Jihad
São neste momento incontáveis as fatwas lançadas por imãs em mesquitas de Londres a Jakarta, passando por Paris, Cairo ou Teerão, em favor de uma jihad contra o mundo ocidental. Não podem restar dúvidas de que uma parte do mundo islâmico entrou em guerra civilizacional com o ocidente, coisa que (utilizando uma expressão que tenho visto muito usada ultimamente quando os argumentos escasseiam) só não vê quem não quiser ver. Sabemos que não é a totalidade do mundo islâmico que declarou esta guerra civilizacional, mas uma parte, mais ou menos substancial, mais ou menos ruidosa. O que não percebo é porque é que foi só esta parte. As razões para um levantamento civilizacional do Islão contra o Ocidente e do próprio Ocidente contra si mesmo acumulam-se dia a dia. Dois exemplos avulsos: Tino de Rans vai candidatar-se às próximas eleições legislativas, através da sua organização, o Grupo dos Tinos de Portugal; Pedro Abrunhosa lançou um disco triplo (triplo! Querem maior sinal de decadência civilizacional?). Diz-se que o fundamentalismo islâmico quer fazer o Islão regredir até à Idade Média. Pois Tino e Pedro (que tal mais uma dupla cómica?) querem fazer os seus campos de actividade respectivos (a política e a música) regredir até um estádio anterior à hominização. Há uma jihad contra o Ocidente? Eu já lá estou: Alah Akhbar!
 
Franllemagne
Franceses e alemães continuam a falar seriamente da possibilidade de uma união franco-alemã. Já aqui gozei um bocadito com a ideia. Mas há coisas mais sérias a dizer sobre o assunto. Há algo essencial que muitas vezes se esquece sobre a União Europeia. A União Europeia tem sido um êxito até agora entre outras coisas pelo seguinte motivo: a generosidade dos países grandes em aceitarem um papel dos países pequenos nos mecanismos de decisão da união desproporcional à sua efectiva importância em termos económicos, demográficos ou geoestratégicos. É verdade que tudo isso foi feito na década de 50, quando os países europeus sem excepção se sentiam enfraquecidos. Mas seja lá porque razão for, é algo basilar à existência da união.
Essa generosidade está a desaparecer. Os países grandes procuram (em nome da eficiência) aumentar o seu poder nos mecanismos de decisão; países como a França e a Alemanha procuram ditar a política externa europeia, à revelia dos restantes ou impondo a sua posição como diktat; agora, a França e a Alemanha, perante as ameaças de vários países de que não vão aceitar o projecto de constituição em discussão, ameaçam ir-se embora e fazer a sua própria união. Este caminho é completamente contrário à tradição da União Europeia (e, anteriormente, da CEE) e, portanto, contrário aos princípios que determinaram o êxito do projecto até agora. Mas é um caminho que certos países estão ansiosos por seguir.
Fala-se de imperialismo americano. Pois, pois. Vontade de imperialismo sinto eu todos os dias na nossa União Europeia e ninguém se queixa.
 
Um boi
Continuo em registo de baixa intensidade. Volto só para mandar umas bocas (já estava com saudades). E a primeira boca é para assinalar o meu novo blog de culto (descoberto através de outro blog interessante, o Duo Dinâmico). Chama-se A Kathleen Gomes é um Boi, e é aparentemente feito por duas meninas da Faculdade de Arquitectura do Porto. Se acaso lerem O Comprometido Espectador, elas devem-no achar uma das coisas mais imbecis da blogosfera e arredores. Estou-me nas tintas. Já me diverti com elas como há muito não fazia. Assinalo particularmente este post aqui sobre a Revista Xis, aquela que sai aos sábados com o Público. Como eu gostaria de o ter escrito…
PS - Caro Camarada a Dias (para citar o meu íntimo amigo Almocreve das Petas): a ver se este blog não parece um bocadinho um Gost World blogosférico?
terça-feira, novembro 18, 2003
 
Notas finais
Mais saudações vieram também quer dos meus amigos d'O Complot, quer de um tal Senhor Vertigem. Agradeço muito as palavras injustas.
Incomensuravelmente mais injustas foram, ainda, as palavras do Alberto. Jasus, Homem, que exagero!! Mas já que é esta a onda, deixem-me que vos diga umas coisitas sobre o Alberto Gonçalves. Também eu não o conhecia até ver menções diversas na blogosfera acerca da sua coluna de opinião à 6ª feira no Correio da Manhã (aquele jornal que é mau mas não é tão mau quanto o pintam, sobretudo se compararmos com os outros que nos dizem que são bons mas na realidade são maus). Como é evidente, hoje em dia, não passo sem a leitura da sua coluna todas as sextas-feiras. E frustram-me aqueles dias em que não aparece um post no Homem a Dias. O Alberto escreve como ninguém na imprensa portuguesa escreve, se exceptuarmos o Vasco Pulido Valente e o João Pereira Coutinho. E o Homem a Dias é dos blogs mais engraçados, inteligentes e elegantes que por aí andam. De tal maneira, que eu próprio já escrevi posts à la Homem a Dias (sem uma fracção da graça do original), porque quis experimentar o estilo. E mais: o Alberto é sociólogo. E não é de esquerda.
 
O lugar da História
Também o nosso Ambrose Bierce (para os amigos, Pedro Mexia) fez uma saudação cum polémica (com o Pedro Oliveira) à minha chegada ao Independente. Sabes Pedro (Mexia)? Houve um tempo (há uma década atrás, aproximadamente) em que, também eu, fui sofisticado. De tal maneira que as páginas da revista História se abriram à minha prosa académica. Hoje em dia isso já não se passa. E tenho que procurar outros outlets mais frustes, como O Independente, por exemplo. Isto é mesmo assim: na vida humana como na natureza existem mecanismos de selecção natural.
Mas deixa-me que te diga mais alguma coisa sobre o Pedro (Oliveira). Não o trates muito mal. Por um lado, é o meu padrinho de casamento. Por outro, é um rapaz em quem deposito algumas esperanças de cura (na verdade, devia desenganar-me, porque há anos que espero e a coisa tem piorado ultimamente). O restante pessoal do Barnabé, infelizmente, é irrecuperável. São todos óptimas pessoas, diria mesmo gajos porreiros. Mas, politicamente, não há nada a fazer deles. Talvez no leito de morte, com a mão dada aos seus filhos, de voz trémula digam: “desculpem meus filhos, por ter querido trair o vosso futuro. Felizmente, fomos salvos pela lucidez e coragem de homens como o Pedro Mexia e o Luciano Amaral”. Nessa altura, porém, já será tarde para se salvarem. Mas o Pedro, enfim, há ali (para citar as suas próprias palavras) “virtualidades” a aproveitar.
E as ideias dele sobre O Independente são ditadas pelo profundo conservadorismo que o caracteriza (o que, vendo bem, nem sequer é mau sinal). O que me conduz a umas notas sobre O Independente e sobre as razões porque fiquei contente com o convite que me foi dirigido. O Independente é há já alguns anos o jornal com as melhores colunas de opinião da praça. Inicialmente apenas com o João Pereira Coutinho, o João Marques de Almeida, o Vasco Rato e o Vítor Cunha (já lá havia outros, mas não os aprecio assim tanto), a que depois se acrescentaram tu e o Pedro Lomba. Em qualidade de prosa e de ideias, eis um grupo de pessoas que dá, hands down, um bigode ao que por aí circula na restante papelada. Como se tudo isto não bastasse, O Independente foi capaz de contratar, para ir fazendo um trabalho histórico de divulgação e reflexão política notáveis, o meu amigo Rui Ramos, à vontadinha o melhor historiador sobre história contemporânea vivo e (não estou a exagerar) um dos melhores historiadores portugueses do século XX.
Com tudo isto, devo dizer que encarei o convite como uma distinção. Honra-me muito escrever ao lado desta gente toda, que tenho em muita conta. Só o tempo mostrará se o convite foi justo ou não.
 
Taz
Depois, tenho que agradecer a menção algo sumária de outro meu amigo barnabeico, o Pedro Oliveira. O Pedro Oliveira parece estar na sua fase diabo da Tasmânia. Para quem não saiba, o diabo da Tasmânia é mais um dos muitos peculiares mamíferos da Oceânia (e no Barnabé há muitos mamíferos peculiares). Caracteriza-se ele por alternar períodos da mais funda imobilidade com períodos de um frenesi selvático. Pois assim parece estar o Pedro: passa meses sem mandar um post que se veja e, de repente, desata a encher o belo template do Barnabé com aquilo que começa a ser conhecido na blogosfera como a sua “moderação à esquerda”. Neste período hiperactivo ele debitou muita conversa, muita dela sensata, muita disparatada.
Retenho apenas duas coisas: uma, a confissão de não-anti-americanismo. Ele sabe que isto não é verdade. O Pedro não é anti-americano no sentido em que o Daniel num post feito pouco tempo depois comprovou sê-lo, ao mesmo tempo que gritava que não era. O Pedro não é anti-americano no sentido em que fosse pessoa capaz de usar cartazes dizendo Bush=Hitler. O Pedro faz parte daquela classe de anti-americanos que os trata como se eles fossem um povo primitivo. Basta ver aquele tom de etnólogo que descreve uma tribo da Polinésia, falando das “virtualidades da democracia americana” ou da “vitalidade da sua cultura popular”. Está muito bem, é uma forma mais aceitável de dizer mal (sem dizer) dos EUA. Também é uma forma um bocadito ridícula: o Pedro, cidadão de uma “velha”, “estabelecida” e “sólida” democracia ocidental (o nosso Portugal tão queriducho) concede que existam “virtualidades” no sistema político de um país recentemente saído da revolução neolítica. E também reconhece que há ali alguma “vitalidade” na sua cultura popular. O que significa muito, vindo de um cidadão de um país cuja cultura popular não tem rival no planeta. Claro, o mesmo raciocínio se poderia aplicar à filosofia americana, à literatura americana, à arquitectura americana, à ciência americana, tudo coisas a que nós, aqui no nosso cume civilizacional, temos, apesar de tudo, que reconhecer alguma “vitalidade”.
Outra coisa que retenho do que o Pedro foi dizendo (havia mais, mas estou com pouco tempo) liga-se com a nota dele segundo a qual a minha entrada como colunista d'O Independente faria parte de um esforço do jornal em abrir as suas páginas a uma “direita menos convencional”. Tenho duas coisas a dizer sobre isto. A primeira digo já. A segunda vai para o post seguinte. A primeira: eu estou farto de pedir aqui que me digam o que é que querem dizer com direita. Mas, pronto, admitamos que sou de direita e que sou pouco convencional. Uma coisa é certa: ao menos há uma direita menos convencional. O que tarda em aparecer é uma esquerda com as mesmas características. E aquilo que se vai vendo por aí não augura nada de bom.
 
Manifesto Popular
Entretanto, as reacções à minha contratação para a imprensosfera multiplicaram-se, todas genericamente em tom agradável. Desde logo a do meu amigo barnabeico Daniel, que me dedicou o seguinte post: Luciano, os meus parabéns atrasados por seres agora colunista d’O Independente. Espero que tenhas o mesmo gesto quando eu começar a escrever no Luta Popular.
Obrigadinho, rapaz, embora tenha um reparo a fazer-te. Não se deve invocar a Bíblia (i.e. o Luta Popular) por dá cá aquela palha. Penso que deves ser mais contido. De qualquer maneira, aproveito o ensejo para também eu te dar (muito atrasados) os parabéns por escreveres no Manifesto. Eu sei que são meros copiadores da Bíblia, mas já é um começo, rapaz, e é assim que o caminho se vai fazendo.
 
Volto já
Eu sei que existe uma Espectadormania. As fãs descontroladas amontoam-se à porta de minha casa, fazem vigílias nocturnas com velas e retratos meus. De vez em quando, magnanimamente, eu venho à janela e atiro-lhes uma ou outra peça de roupa interior. Eu sei isto tudo, mas vou mesmo ter que abrandar, pelo menos até ao fim do mês. Os compromissos profissionais são de monta e O Independente convidou-me para coisas um pouco mais sofisticadas do que passar uma esfregona nos lavabos da redacção. Não gostava, porém, de entrar neste novo ritmo sem avisar e devolver uns mimos que entretanto me foram dirigidos. É o que vou fazer já a seguir. São posts longos, mas depois vou estar calado muito tempo, de maneira que podem ir lendo à medida que vos apetecer.
domingo, novembro 16, 2003
 
Saigão-a-Nova
Apesar de quase integralmente mergulhado na informação que os meus queridos pupilos me ofereceram (e em mais uma fruste tentativa de prosseguir a carreira inaugurada com tanto estrondo na última 6ª feira), tenho tido oportunidade de ir seguindo as novas de Bagdad e respectivos comentários anexos.
Tenho apreciado, sobretudo, a excitação que por aí corre com o “fracasso” da operação aliada na Babilónia. O pessoal anda todo contente a esfregar as mãozitas, imaginando estar a viver um novo “Saigão”. Sobre o “fracasso” há a apreciar a coerência (ao bom estilo Cunhal) de quem o decreta. O “fracasso” foi decretado logo ao fim do primeiro dia de hostilidades, para quem não se lembre. E lá continua a ser decretado a cada dia que passa. Ninguém está a salvo de um “fracasso” e a operação bem pode acabar “num”. Mas a actual excitação com o “dito cujo” e a crença de que estamos a assistir a um novo “Saigão” é a mais óbvia das parvoíces. “Saigão” ocorreu ao fim de 50.000 soldados americanos mortos e a palavra “fracasso” remete para avaliações subjectivas. Na medida em que a morte de uma pessoa é um “fracasso”, já houve cento e tal “fracassos” americanos (e vinte italianos e meia dúzia ingleses). Mas decretar um “fracasso” ao fim de seis meses parece-me relevar da mais estrita das precipitações.
Que a operação “fracasso decretado” é uma pura desonestidade intelectual mostra-se com a indiferença relativamente aos mortos do outro lado. Por cada soldado americano morto, quantos são os dos baasistas? Peço desculpa pela morbidez, mas é este o nível a que o debate desceu ultimamente. Que, na maior parte do território iraquiano, se vá regressando ao funcionamento normal das actividades quotidanas, não ocorre a ninguém dizer. Que Israel viva há anos com uma violência terrorista de muito maior escala e continue a ser uma funcional e próspera economia também ninguém se lembra. Que tudo isto signifique que é possível um funcionamento relativamente normal das instituições e da economia com o corrente nível de violência também não parece passar pela cabeça do pessoal.
Os terroristas iraquianos sabem a quem se estão a dirigir. E aqueles a quem eles se dirigem fazem o favor de lhes dar conversa. Se a cada atentado não houvesse da rectaguarda a habitual gritaria sobre o “fracasso”, esses atentados muito provavelmente já teriam desaparecido e a reconstrução lá correria mais célere. Para quem ainda não percebeu, não é a “população” do Iraque que está contra os aliados, nem é a “resistência” dessa população quem pôe bombas. É um grupo restrito de pessoas, que neste momento vive da amplificação mediática no ocidente das suas acções.
Resta, finalmente, a questão das alternativas. Quem quer que os aliados saiam dali rapidamente e em força dá a entender que preferiria que por lá se tivesse mantido o anteiror governante. Ou então que preferiria que aquilo caísse nas mãos dos rapazes que agora tanto se esforçam com os seus explosivos para se alçarem ao poder. Tudo, menos a tentativa de instauração de um regime político mais ou menos decente por aquelas bandas.
E agora, se me permitem, volto à hibernação.
 
Still alive after all those reports
Continuo imerso na prosa encantatória dos jovens amantes de Tarantino cuja educação intelectual tenho a cargo. Não dá para blogar.
Regresso à superfície só para duas coisitas. Uma, uns agradecimentos à legião de fãs que histericamente reagiram à minha aparatosa estreia enquanto comentador jornalístico. Que me apercebesse foram eles o meu corajoso companheiro na luta pela liberdade Manuel e os meus velhos amigos (da blogosfera) d’O Projecto (sem mencionar, claro, figuras menores como Mark Steyn, Andrew Sullivan e Donald Rumsfeld – este último com uma mensagem que aqui reproduzo: “Great piece, fellow. A bit too long, though”).
A outra coisita vai para o post seguinte.
quinta-feira, novembro 13, 2003
 
Vocês não vão acreditar…
Vocês não vão acreditar no que estes gajos andam a pensar: uma união franco-alemã (vejam aqui: é coisa séria)… Não são boas notícias? Livravamo-nos destes melgas e, junto com os gregos, os italianos, os espanhóis, os ingleses e os escandinavos fazíamos (nas palavras desse grande europeísta que é Artur Jorge) uma coisa bonita (e convidávamos os turcos também, claro). Anda por aí algum papel para o abaixo-assinado em favor do projecto? Allez-y, les gars!!
 
FêQuêPê
O João Pereira Coutinho não precisa de links meus para ser muito lido e apreciado na blogosfera e fora dela. Mas o seu texto de hoje dos diários é particularmente acertado. A ideia que lá está é corrente fora do Porto. Mas é importante que uma pessoa de lá a explicite. A xenofobia saloia que (não toda, mas) muita gente no Porto tem face a Lisboa é um dos mais infelizes efeitos colaterais do sucesso desportivo do FCP. Eu nasci no Porto mas sempre vivi em Lisboa. E nos últimos anos, à boleia das vitórias do FCP e da conversa incendiária do seu presidente, tenho-me defrontado ocasionalmente com uma cretinice e uma idiotice anti-mâuro que me exaspera. A noção de muita gente do Porto de que (sem exagero) vai para o estrangeiro quando vem a Lisboa, as manifestações de asco (verdadeiramente sentido) por uma cidade tão bonita e tão simpática como é Lisboa (que o Porto também é, de resto), para falar apenas nos disparates mais risíveis, são coisas com que já tive que me confrontar. Solução para isto: pessoas como o Rui Rio ganharem as eleições autárquicas e pessoas como o JPC fazerem pedagogia (já que a nós, aqui da Mouralândia, não nos ligam).
 
Aprendiz de Torquemada
O recadito vai para este rapaz aqui. Visivelmente, ele não sabe no que se meteu. Começou cheio de farronca e agora lá se vai desfazendo em comutações de pena. Meu caro amigo: não é Torquemada quem quer e, caso ainda não se tenha apercebido, quem tem a lenha e os fósforos na mão sou eu (I can pound you to pieces!).
Como sou benevolente não exercerei represálias sobre esta ingénua alma cheia de si. Dou-lhe apenas uma pequena lição (mais uma). Jovem: se eu tivesse (já tive, já tive…) a sua idade (e a ignorância e pobreza intelectual que a caracterizam) muito provavelmente também adoraria Tarantino. Mas é para não ficarmos sempre na mesma que as pessoas crescem. E é por isso que uns ensinam e outros aprendem, e uns escrevem trabalhos e outros corrigem-nos. Cresça e logo se aperceberá que 10 minutos de Bugs Bunny ou qualquer genérico do double-o-seven valem mais que os filmes todos juntos do nerd que você traz no altar.
 
Just, just…
Continuo meio de baixa (vocês não sabem o que é a minha vida…), e regresso ao local do crime apenas para uns recaditos, uns agradecimentozitos e umas notitas.
Os agradecimentozitos vão para os representantes na blogosfera do nosso newspaper of record. O Comprometido Espectador lá aparece no último lugar de uma lista de 20 blogs que os irritam. Não sei qual é o critério de ordenação. Alfabético não é certamente. Presumo que seja por grau de irritação provocado. A ser isto verdade, dos que os irritam serei o que os irrita menos. Agradeço a dupla distinção: irritar e irritar pouco.
Já agora, e se vos interessa: ainda não me irritei convosco.
terça-feira, novembro 11, 2003
 
Fraccionismo
Pois é Rui. Também não percebo... Na última reunião da DORW (Direcção da Organização Regional de Washington) o camarada Wolfowitz deu instruções peremptórias aos camaradas Dahrendorf e Brzezinski para seguirem sem rebates as instruções do camarada Amaral nas matérias Califórnia e Iraque. São fraccionistas e traidores como esses que vão acabar por derrotar a causa.
 
So 80s: a true encyclopedia
Pedro: apreciei a tua prosa nostálgica, mas não posso perdoar certas omissões. Onde se faz, nela, menção a Adam Curry (o americano-holandês de nome hindu), que agora até tem um blog? Ao Nino’s Show, o programa com as piadas mais tristes alguma vez ouvidas em prime-time? Aos Kajagoogoo e Limahl? A ícones do eurotrash como Sandra (leia-se Zándrá, de I’ll Never be Maria Magdalena – You’re a Cretaure of the Night), o malogrado Falco (Rock me Amadeus) e, cada um ao seu estilo, os monarcas do género, Modern Talking (Brother Louie) e Sabrina (Boys, Boys, Boys)? Estas coisas não se esquecem, Pedro, até porque sem elas a década de 80 provavelmente teria sido muito diferente. Em vez do Adam Curry a nossa juventude seria marcada por um programa de vídeos apresentado por um membro do Conselho da Revolução, com o top oscilando entre o Hino do MFA e as últimas do Sérgio Godinho, do Fausto ou do Vitorino.
 
O marçano do povo
Como pudemos viver sem ele durante tanto tempo? Manuel Monteiro himself premeia Famalicão com um regresso em grande forma. Monteiro é liberal, mas combate as multinacionais, que se instalam em “países ditatoriais” e usam “trabalho escravo” (não sabia que Francisco Louçã era o seu ghost writer). Monteiro sabe “o que é o povo” mas mestrou-se em Paris. Tudo isto, ao contrário de constituir um mau sinal, revela um aspecto muito positivo da personalidade do Homem, do Político, do Cidadão: tal como José Saramago afirmou a respeito de Álvaro Cunhal, também Monteiro é, não apenas mas também, um homem. Percebo o ponto de Saramago: não quer que confundamos o herói comunista com uma vaca (sagrada). Já Monteiro não sei que comparação faunística autoriza. Seja como for, ei-lo que nos aparece (quase) homem vivo e contraditório, defendendo isto e o seu contrário com uma rapidez apenas tolerada aos génios. A síntese resultante é, em todos os casos, um prodígio de dialética. Mas há uma contradição que permanece por resolver: ficámos a saber pela boca do (também) homem que o seu pai começou como marçano (ajudante de mercearia), mas Manuel seguiu o trilho da política. A verdade é que ainda hoje esta traição às origens se nota: Monteiro, enquanto político, não passa de um ajudante de mercearia. E o ramo da mercearia tem sentido muito a falta da sua ajuda.
sexta-feira, novembro 07, 2003
 
Abrupto
O JPP diz o que deve ser dito sobre Cunhal e a nossa esquerda.
 
Músicas
Vi no mesmo suplemento cultural que saíu hoje mais um disco de Ryan Adams. Não tenho tempo para elaborar muito, mas Ryan Adams (Não confundir com Bryan Adams) é das coisitas mais engraçadas que por aí andam.
E também saíu um disco da filha da Elis Regina, Maria Rita Mariano. Ainda não ouvi, mas tenho curiosidade. Não sei nada do que vale a filha. Mas a mãe está, para mim, lá bem nos píncaros.
 
Kill Bond
Quentin Tarantino tenciona pôr as suas patorras sujas em Bond, James Bond (vem hoje no suplemento cultural do Público). Isto é intolerável. Ninguém mexe em James Bond. Eu vi-os todos e não sei, não me lembro, nem quero lembrar dos nomes dos realizadores dos filmes. Bond é para ser chunga. Mas chunga mesmo, não pseudo-, neo-, revisited-chunga como Tarantino.
E há mais: Tarantino não tem sentido de humor. Ou melhor, tem um sentido de humor pesadão, feito do gozo com clichés. James Bond é o contrário disso. Até porque é ele mesmo um cliché. Tarantino a fazer James Bond era para desconstruir, desmontar, alarvar o original. As lines de James, os trocadilhos (ou melhor dito, os puns, palavra tipicamente britânica que não tem tradução fácil) seriam rapidamente arrasados pela serra eléctrica de excesso e parvoíce tão típicas do homem.
Façam já um abaixo-assinado, que eu assino.
 
Comunicação ao país
Portuguesas, portugueses
O país atravessa uma grave crise moral, institucional, económica e social. É verdade, mas não é disso que vos quero falar.
Quero falar-vos, sim, de uma interrupção (este fim-de-semana) e alguma intermitência (nas próximas duas semanas) desta minha actividade. Eu sei que o país já não vive sem o luminoso fluxo de gemas litarárias que daqui todos os dias brota, e, por isso, sinto que devo ao país uma explicação.
1 - A interrupção de fim-de-semana deve-se a uma deslocação profissional à Lusa Atenas. Não só vou estar a trabalhar, como, para além disso (e toda a gente sabe) o rácio computadores/cidadão reduz-se drasticamente a norte de Alverca.
2 - Talvez venha a ter novas actividades na minha vida, as quais me vão obrigar a uma reorganização do tempo quotidiano.
3 - Esperam-me para a semana 250 trabalhos 250 (da famosa ganadaria de Campolide), cuja correcção absorve o tempo, a paciência e o talento até do maior bonacheirão da espécie.
4 - Não vou desaparecer neste espaço de tempo. Vou apenas acalmar.
5 - Antes de ir deixo só três pequenitas mensagens a seguir.
quinta-feira, novembro 06, 2003
 
Tribunal constitucional
Parece que o PS acusa o governo de, na lei de aposentação dos funcionários da Administração Pública, ter violado de forma "grosseira e quiçá provinciana" a nossa constituição. Aos constitucionalistas e sexólogos presentes na blogosfera eu pergunto: o que é uma "violação provinciana" da constituição?
 
União das Repúblicas Socialistas Europeias
O economista Miguel Portas (pelo menos é assim que aqui o identificam) pariu (para usar da brutalidade e terminologia próprias do teatro independente português) mais um dos seus regulares artigos. Eu gosto de amontoados de palavras, embora prefira que eles façam algum sentido (não obstante a prosa do Arcebispo Eduardo Prado Coelho, que muito me enleva, como vou dando provas de vez em quando aqui no pasquim).
Dos 5% de texto compreensíveis da supracitada pilha de vocábulos há algo que ressalta: os nossos amigos são agora (nas palavras dos próprios) "convictos europeístas". Como vão longe os tempos em que a Europa era não só indefensável como estava condenada. Isto não seria mau se o namorisco correspondesse a alguma aprendizagem sensata. Mas rapidamente se percebe que o amor à Europa tem como objectivo principal (com o apoio de companheiros de luta como o camarada Chirac) criar uma espécie de URSE (União das Repúblicas Socialistas Europeias), que siga "um caminho diverso do prometido pela globalização capitalista tal como ela se lê e pratica do outro lado do oceano".
O pior de tudo isto é que o homem, ao contrário do que ele nos quer fazer crer, encontra muito pouca discordância nas elites políticas e intelectuais europeias. Pior ainda é que a URSE já esteja, bel et bien, em construção.
 
Amores Ferros
Pois é Miguel. Também eu vinha com uma piadinha preparada sobre a "corajosa" (olá arquitecta Roseta)e "determinada" (olá Professor Engenheiro Eduardo Prado Coelho) decisão do nosso herói ferrugento, mas você antecipou-se.
Sobre o que não podem restar dúvidas é da alegria incontida que certamente se viverá ali para os lados de S.Bento. Durão Barroso é o homem na pele de quem todos gostaríamos de estar. Ver aquela parelha de cómicos a disputar-se a gerência da tasca é algo que só pode provocar a mais saudável hilariedade. Laurel & Hardy, Jerry Lewis & Dean Martin, Namora & Granja, tudo isso são parelhas do passado. Ponham os olhos no Largo do Rato. É lá que está o futuro do humor em Portugal.
 
Obrigada, arigato
O Virtualidades adicionou O Comprometido Espectador aos seus links e qualifica-o de (and I quote) "fantástico" (end quote). No post imediatamente acima publica ele uma fotografia de Edmund Burke, sob o título Génios do seu tempo. Foi apenas por momentos, mas chegou a parecer-me que o qualificativo se referia a mim. Não referia e contento-me com o "fantástico". Já o Virtualidades, não sei: cita Burke, considera O Comprometido Espectador fantástico... Se não é génio, para lá caminha muito seriamente.
quarta-feira, novembro 05, 2003
 
Estar em vez de assistir (ou de como a beleza do mundo convoca um espaço de infinita ruptura com o devir)
Mas talvez, no fundo, João Soares tenha decidido seguir o conselho desse mestre enorme de todos nós, Sua Alteza Real o Exmo. Professor Doutor Eduardo Prado Coelho. Pelo menos é assim que eu interpreto a sua crónica de hoje (uma graciosa cornucópia de retórica política). Na aparência o professor fala-nos de Fernanda Fragateiro. Na realidade, estamos muito longe disso. O importante aqui é captar a mensagem subliminar. Repare-se: João Soares parece ter-se decidido a estar (na liderança) em vez de assistir (ao combate por ela). E o que nos diz o Mestre? Que, efectivamente, o que importa agora é “estar”. Cito-o (e sublinho o animismo implícito, na bela imagem da casa respiratória): “um estar em vez de um assistir. Um estar junto a uma janela ao fim da tarde, um recolher a luz filtrada através da geometria dos vidros, um sentir a oscilação da cortina transparente que reproduzia essa mesma geometria, e nos dava o sentimento feliz de ver uma janela a respirar, de ver a respiração tranquila de uma casa. Ou então um percurso no solo onde um espelho criava sob os nossos pés a vertigem leve de um infinito”. Repare-se como tudo isto surge enquadrado pela nostalgia da acção e do pensamento. Citemo-lo, de novo: “Existe um caderno, com argolas que prendem as folhas. E um horizonte alto levemente povoado de azul e nuvens. E uma janela […]. Sentimos uma série de rimas interiores: o ângulo entre a esferográfica e a mão, entre a mão e o caderno onde assenta, ou ainda a introdução abusiva de um triângulo que cria um paralelismo em desequilíbrio imperceptível”. Preparação argumentativa que nos conduz à inevitável conclusão (onde cabe realçar, de novo, o animismo implícito): “o lápis não toca o papel, pensa; e há neste pensar de uma escrita suspensa uma luz que nos comove e deslumbra perante a beleza do mundo”. Finalmente, a impossibilidade de manter a mera atitude expectante e a vertigem do compromisso radical: “nós estamos implicados neste processo em que os lugares perfeitos são quase iguais àqueles onde distraidamente vivemos, mas com a decisiva diferença de que alguém [...] os soube convocar para a perfeição”.
Não podem restar dúvidas: é deste cadinho de ideias que se faz a cultura em Portugal.
 
A bright, bright future
Imagino o comentário do Dr. Durão Barroso à notícia da candidatura do Dr. Soarito: (com um movimento brusco do braço e punho fechado) yesss!!!
 
E eles a dar-lhe…
João Soares vai candidatar-se à liderança do PS. Não sem antes fazer notar que há uma “intriga” para o forçar a tomar posição. Mas esta gente não pensa em mais nada? Tudo é “intriga” ou “maquinação”. Meus amigos: é certo que a psicose não se cura, mas anda para aí muita medicação disponível para controlar os piores instintos. E há mesmo métodos mais simples: uma semanita de cama com paninhos frios na testa para fazer baixar a febre, ou então um crucifixo brandido por um padre durante 20 minutos para afastar a maldição.
 
Dum-dum mata-os bem mortos
O Mata-mouros está no quiosque, nomeadamente com este artigo do seu CL, que esboça as perguntas e as respostas que necessariamente devem ser feitas e dadas à dita cuja Constituição Europeia. Por razões profissionais também eu tive que me ir ilustrando sobre constitucionalismo. Posso perceber o essencial, mas faltam-me os conhecimentos técnicos para elaborar muito sobre o assunto. CL tem ambas as coisas e os artigos estão escritos no tom certo: de divulgação, mas com o mínimo de jargão técnico necessário a qualquer bom artigo sobre um tema tão complicado. Finalmente, as minhas preces começaram a ser ouvidas.
 
Not just a pretty song
O Voz do Deserto já chamou a atenção e eu confirmo: não se pode perder o último vídeo dos White Stripes. Eis, em breves pinceladas, o argumento: Kate Moss, em fase pós-anoréctica, a tentar seduzir um strip pole.
terça-feira, novembro 04, 2003
 
Some alternative
Enquanto o mundo prosseguia o seu rotineiro curso, um historiador inglês e judeu, Tony Judt, decidiu passar uma alucinação à forma de artigo escrito. Chama-se Israel: The Alternative e foi publicado na New York Review of Books. O objectivo final do artigo é sugerir o fim do estado de Israel tal como o conhecemos, o fim da solução dos dois estados e a criação de um único estado bi-nacional (árabe e judeu). Convém começarmos por perceber uma coisa: a ideia de um único estado bi-nacional não é novidade. Foi proposta algumas vezes durante todo o período do mandato britânico na Palestina, mas nunca funcionou, basicamente porque nunca nenhum dos lados aceitou a solução.
Os argumentos de Judt raiam o delírio. Segundo ele, Israel seria um anacronismo porque pretenderia sobreviver assente num conceito de nacionalidade típico do século XIX, num mundo onde “nations and peoples increasingly intermingle and intermarry at will; where cultural and national impediments to communication have all but collapsed; where more and more of us have multiple elective identities and would feel falsely constrained if we had to answer to just one of them; in such a world Israel is truly an anachronism”. Isto é tudo o mais notável disparate, sobretudo porque confunde o que Judt provavelmente quererá para o mundo e aquilo que ele efectivamente é. Conheço poucos países que sejam multiculturais e onde as diversas culturas vivam em pé de igualdade. Ainda menos conheço países onde isso aconteça e que para além do mais sejam democráticos. Talvez o local do mundo onde estas características estejam reunidas com mais felicidade (embora muito longe da perfeição) sejam os EUA. Todos os países europeus são fundados nos mesmos princípios étnico-culturais, o que nalguns casos é levado ao extremo da prevalência para a nacionalidade do jus sanguinum. Estamos ainda muito longe do mundo das nacionalidades electivas de que ele fala e (eu não me canso de o dizer aqui) vamos ver como é que, no sítio onde mais próximo disso estamos, a civilizada Europa Ocidental vai reagir ao volume crescente de imigrantes a entrar pelas suas portas adentro. O argumento é absurdo porque se ele fosse verdadeiro, qual seria a razão para a existência de nações? E ainda é mais absurdo quando aplicado ao ambiente específico do Médio Oriente, onde as nações árabes se definem por elementos étnicos de exclusão face ao exterior. E ainda mais absurdo quando se pensa que, para além precisamente de Israel, não há uma única democracia digna desse nome no Médio Oriente.
Se Israel é fundado num anacronismo do século XIX, a ideia de Judt é fundada num a-cronismo com origem exclusivamente na sua cabeça. Um mundo de gente feliz partilhando, elegendo e respeitando incondicionalmente identidades múltpilas. Mas cabe perguntar o que fariam os árabes palestinianos no dia em que se vissem a viver na mesma entidade política que os judeus. Árabes que têm atrás de si um século inteirinho de história feito da recusa da existência de um estado judaico na Palestina. O que os impediria então de fazer, ainda por cima em maioria demográfica, o que têm tentado fazer desde que o estado de Israel foi criado? Isto é, expulsá-los da Palestina. O que impediria os outros estados árabes da região de cumprir finalmente esse objectivo?
A solução dos dois estados continua a ser a única que permite a existência das duas comunidades no mesmo solo. O que é necessário é que existam as devidas concessões de parte a parte. Que não é fácil, não é. Mas que um judeu inglês de esquerda venda tão barata a história de Israel custa um pouco.
 
Atenção ao evanescente Karla
Valorosos e puros combatentes:
Tenho apreciado os vossos esforços no sentido de ripostar ao arsenal tóxico (e biológico) que o inimigo persiste em lançar sobre as benignas actividades da organização a que recentemente aderi. Penso, porém, estar na altura de moderarmos estas intervenções. Recebi uma nota daqui preocupada com o facto de demasiada informação sobre a nossa actividade se estar a tornar pública. Entretanto, daqui, o Rummy pediu-me igual moderação, com excepção da publicitação do estabelecimento próximo da Comissão de Actividades Anti-Portuguesas (onde se esperam algumas deserções aparatosas) – a propósito Daredevil, agora que estamos a coberto do código, aquela máquina de electrochoques encomendada a estes rapazes quando é que chega?
PS - Entretanto acumulam-se pilhas de transcrições do Echelon lá no meu escritório. Para proceder à entrega de tarefas podemo-nos encontrar junto ao homem das castanhas do Cais do Sodré.
segunda-feira, novembro 03, 2003
 
A Bulgária na outra esquina
Durante o fim-de-semana esse baluarte da luta contra o barrosismo (que não é senão, sejamos clarinhos como água aqui, pá, outro nome para o cavaquismo, pá, que não é senão outro nome para o americanismo, pá, que não é senão outro nome para o capitalismo, pá, que não é senão outro nome para o salazarismo, pá, que não é senão outro nome para o fascismo, pá, que não é senão outro nome para o McDonald's, pá, que não é senão outro nome para a Pizza Hut, pá, que não é senão outro nome para as hemorróidas, pá) de nome Sport Lisboa e Benfica elegeu (?) um presidente: moço distinto, de farta capilaridade sub-nasal e impecáveis pergaminhos democráticos. Esta eleição (com um resultado evocativo da saudosa Bulgária socialista) é um natural prolongamento da actividade de oposição ao barrosismo (que não é senão outro nome para... bem, vamo-nos ficar por aqui...), soberanamente representada na famosa vaia de há uns dias. Esta vaia, tão acarinhada por todos os oposicionistas ao sistema (o sistema, tás a perceber, pá?), passou agora a ter um significado político muito mais claro: o que a malta quer é um primeiro-ministro de bigode (bigode, tás a perceber, pá?) e que ganhe as eleições com 90% dos votos. Pá.
 
Café Bagdad
Prosseguem os atentados no Iraque. Entre outras coisas, isto é um sinal de que a teoria flypaper está a funcionar: centenas de milhares de soldados americanos entre o Tigre e o Eufrates são um poderoso magnete para tudo o que é terrorista islâmico tentar molhar o pão na sopa. Por outro lado, cabe perguntar: quanto tempo aguentam as opiniões públicas ocidentais uma situação como a actual? Convém sermos claros sobre uma coisa: a situação tal como nós a percebemos é em parte uma fabricação mediática (digo fabricação não no sentido da urdidura, mas no sentido de os atentados explorarem o instinto natural dos media ocidentais em dar lugar desproporcionado ao barulho sem ligar ao humdrum quotidiano) e é em parte um problema real. O problema real não está no facto de os atentados representarem derrotas militares para a coligação. Não representam. São, nesse aspecto, arranhões que nem sequer de penso precisam. Mas esse também é o seu grande problema. Com pouca coisa, os autores dos atentados podem atingir grandes objectivos. Sem ganharem nada, podem erodir a coligação onde interessa: nas suas opiniões públicas. Isto porque se esses atentados significam pouco para a situação no terreno, têm uma amplificação mediática que permite a meio-mundo gritar desastre! e catástrofe! Há uns meses as manifestações na rua eram sinal de que “os americanos” não “eram queridos” pela população. Agora, não há manifestações. Há uns meses a falta de electricidade e de água eram sinais do desastre na gestão do pós-guerra. Hoje, essas situações (com falhas) vão regressando à normalidade. O Museu de Bagdad reabriu intacto e a maior parte das instituições necessárias ao dia-a-dia (escolas, mercados, hospitais, etc.) está a funcionar a níveis que começam a ser aceitáveis. Mas a isto ninguém liga.
Às vezes pergunto-me: e que tal, para fazer a vontade aos que o pedem insistentemente, saír de lá agora? Entregar aquilo ao primeiro candidato que apareça, garantir uns contratos de petróleo e bazar. Seria uma boa solução, se resolvesse o problema de calar os que gritam “Go Home”. O que se passa é que não resolve. No dia em que a retirada se começasse a esboçar, começariam as manifestações contra a vergonha de quem deixou o Iraque entregue ao caos e à guerra civil. E isto por uma razão muito simples: a Brigada do “Go Home” está-se (para usar o conceito ferriano) bem evacuando para o Iraque. O que ela quer é chatear, independentemente do pretexto. Aliás, mesmo que as coisas venham a correr bem (com um regime político e uma economia a funcionarem de maneira decente), a mesma malta lá se desentranharia em encontrar novo motivo para nos martelar a cabecita. Mas enfim, é mesmo isto a vida. E contra isso cá estará a UBL para o que der e vier.
 
Rei Taumaturgo
A nova coqueluche da esquerda europeia, Jacques Chirac, andou a passear-se por África. No Mali visitou líderes tuareg que organizaram uma recepção, onde, entre camelos, cavalos e máscaras tribais, o nomearam “Hogon dos Dogon”. Os hogon dos dogon são feiticeiros locais aparentemente dotados do poder de fazer chover. É evidente ser este um dom absolutamente obrigatório para qualquer líder político moderno, assim como o de extirpar o demónio com um simples olhar ou o de curar gastroentrites com um ligeiro toque da mão esquerda sobre o ventre do enfermo. Chirac, no seu papel de combatente anti-americano, visivelmente não se poupa a nenhum exercício carnavalesco em nome da Francophonie. O exemplo mais claro desta parada é uma determinada missão militar francesa na Costa do Marfim: um consumado desastre, mesmo pelos padrões do Iraque. Mas Chirac não é senão o mais cómico de uma geração de políticos europeus inteiramente incapazes de compreender a desgraça para que caminha a Europa Ocidental. Irrelevância internacional, maquilhada de multilateralismo e idiotices anti-americanas e anti-israelitas; esclerose económica; uma taxa de desemprego irresolúvel nas próximas décadas; e, claro, a bomba-relógio da imigração. Enquanto Chirac faz nevar em África, não passa um dia em França em que não ocorra um (maior ou menor) conflito inter-étnico. O que se compreende: para alimentar 12% de desempregados com lautos subsídios é necessário um volume de mão-de-obra a preço de saldo que não pode ser pequeno. E o que não sentirá um imigrante perante um vizinho francês que, mesmo não tendo emprego há anos, contrata a sua mulher para empregada doméstica? Quem produz, efectivamente, riqueza? Quem mais beneficia dela? E quem tem tomates para rever o welfare state europeu de alto a baixo? Pois: pôr um osso no nariz e dançar à volta da fogueira é fácil, mas lá tirar a chucha da boca dos meninos é que é complicado.
 
Acknowledgments
Gostava de agradecer ao Luís Carmelo (muito bonito o template novo, a propósito) o prémio Miniscente Frases Felizes – 25. É uma injustiça que muito me honra. E à Clara Macedo Cabral o prémio Desejo Casar Frases Infelizes – 1. Neste caso ficou em mim a dúvida sobre se a Clara está efectivamente chateada comigo ou levou, como deveria ter feito, o meu post como uma inocente brincadeira.
domingo, novembro 02, 2003
 
Inauguration
Depois de multiplas negociações secretas, mantidas entre o Pentágono, Downing Street, Langley (Va.) e a Base Aérea do Montijo O Comprometido Espectador aderiu à União dos Blogs Livres. No acto de adesão, com a mão sobre a Bíblia, jurou cumprir os princípios da seguinte declaração:

I solemnly declare to abide by the principles of the Union of Free Blogs, namely those of Liberty and the rule of law. I furthermore state my determination to fight with all strengths with which the Creator has empowered me the evils of tyranny, opression and totalitarianism. I additionally declare that I hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty, the pursuit of Happiness, dinner-parties in Lisbon, post-dinner-parties in Bragança or any other place the Almighty will find appropriate to stand by the cause of Freedom and Righteousness. So help me God.
sábado, novembro 01, 2003
 
A esquerda com interesse (e com valor e futuro, de resto)
Continuo a citar o Diário da República: lá se diz hoje que o Sr. Guimarães (também conhecido por Rorty da Av. de Berna) quer convidar Daniel Cohn-Bendit para vir a Portugal discutir o "futuro da esquerda" (podem não acreditar, mas é verdade). Eu não sei se na Av. de Berna já se aperceberam, mas o Maio de 68 já foi há quase 40 anos. É verdade que há coisas (como certas chagas) que não passam. E o ar dinâmico, eternamente jovem e profundamente arrogante do Sr. Cohn-Bendit é certamente uma delas. Mas, "futuro da esquerda"? Não há nada melhor na loja? Por exemplo, malta nova, como o Poeta "dos valores", o Dr. Guevara Soares, o (para nos ficarmos pelo mesmo apelido) Dr. Bernardino "pyong yang" Soares, o Professor Viriato do Amaral ou a Engenheira Maria de Lurdes. Ou até (e é uma sugestão que fariam bem em acatar) a Dra. Vera Roquette. Leiam a sua crónica de hoje no DN, "'O direito à indignação' e à repulsa" (um título que é todo um programa). Reparem na evocação de Marx no primeiro parágrafo da crónica: aquilo que em Marx era "os filósofos limitaram-se até hoje a interpretar o mundo, agora é preciso mudá-lo", em Roquette é "de que serve ter uma caneta na mão e assobiar para o lado?" Reparem na concepção radical de democracia: "não façam do noso povo estúpido que, de estúpido não tem nada", complementado com a notável mensagem anti-elitista: "tem aliás [o povo] uma sabedoria inata que ultrapassa inteligências enfatuadas". E o grito pungente: "Chega de poeira nos olhos!" Suplementado pela ironia: "Então, agora, os sr. Bibi está amnésico?! Fantástico!". Tudo rematado com um definitivo: "A repulsa ofende-nos. Profundamente". O Sr. Guimarães oferece Dany. Eu ofereço muito melhor: Vera Roquette. Agora escolham.
 
A esquerda dos interesses
O poeta Manuel "a-mim-ninguém-me-cala" Alegre lá faz hoje o enésimo diagnóstico (ou será autópsia?) do socialismo europeu e português. E recomenda um plano de luta, no qual propõe que "o PS assuma com clareza o combate da esquerda dos valores contra a direita dos interesses". Eu sei que a direita tem, hoje em dia, mais interesse do que a esquerda, mas é sempre reconfortante perceber que a esquerda também tem tanto interesse como interesses. O "Bloco", por exemplo, tem um óbvio interesse na permanência de Ferro Rodrigues na direcção do PS (o que explica a notícia do Diário da República segundo a qual Louçã acredita em Ferro). Só o actual e clarividente líder do Rato é que apaparicará a rapaziada (ponham lá o Sócrates e verão o que é que acontece). Mas, para além disso, é visível que o "bloco" também tem interesses. Se não, que dizer da frase de Jorge Costa (aparentemente, de acordo como mesmo periódico, um membro do "núcleo dirigente do 'Bloco'") segundo a qual um futuro governo de esquerda pode "ficar de mãos atadas", porque "os instrumentos de acção social deixam de estar nas mãos do Estado"? Pois é, se o Estado deixar de deter os "instrumentos de acção social" como é que se poderá continuar a debitar esmolitas conforme vai dando jeito? Não há dúvida que a esquerda "dos valores" dá muito valor ao poder do Estado. Ou, dito de outro modo, o poder do Estado tem muito interesse para alimentar os "valores" da esquerda.
 
É vossa
O Diário da República (em certos meios também conhecido por Expresso) aconselha hoje os angolanos a aceitar ajuda de Portugal para fazer o seu país renascer das cinzas. Amigos angolanos, se acaso (entre cortes de electricidade, quebra de linhas telefónicas e censuras à internet) algum de vós lê este vosso amigo, ouça um bom conselho. Não se deixem enganar. Nós já mandámos nisso aí em tempos e não deixámos legado particularmente notável. Entretanto, vamos mandando por aqui e estamos a preparar-nos para deixar herança ainda menos recomendável. Pela vossa saúde (e a dos vossos filhos - got the hint?) não aceitem a oferta. É certo que precisam de ajuda, mas eu consigo pensar, pelo menos, numa dúzia de outros países que não vos ensinem apenas a construir 10 estádios de futebol, a cagar para o segredo de justiça e a apaparicar o vosso impoluto presidente. Angola é vossa e ajuda é coisa de que também estamos muito carentes pelas nossas bandas.

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