O Comprometido Espectador
terça-feira, dezembro 30, 2003
 
Comida para o pensamento
E pronto, mais um que passou… Vem aí o próximo. E tentando alimentar o vosso pensamento deixo-vos aqui dois excelentes artigos dos meus dois colunistas favoritos, Paulo Almeida Sande e Fernando Rosas. Não, agora a sério: Mark Steyn e Victor Davis Hanson. Até para o ano.
 
Acontece aos piores
(Daniel, desculpa o título. Era só para fazer uma piada. Tu não és dos piores.)
O texto que citas do teu amigo Miguel Portas é uma peça de opinião horripilante. Por várias razões:
1) Justifica o injustificável. Justifica o uso do véu como suposto sinal de resistência aos EUA. O problema do véu é que ele é um sinal de discriminação sexual. Mesmo uma mulher que o use voluntariamente fá-lo porque na origem há uma regra emanada da legislação islâmica que a obriga a tal. Onde está o teu amigo Miguel Portas que defende os direitos das mulheres? Ou será que tudo se justifica perante o horror americano? Se é esse o caminho que querem seguir, já vi coisas parecidas no passado. Não acabaram bem.
2) Insinua, sem ser explícito, que há uma relação entre o poder económico da comunidade judaica de Antuérpia e o racismo anti-islâmico na cidade. É melhor nem sequer dizer mais nada sobre isto.
Eu sou contra esta lei francesa relativa aos sinais de religiosidade na escola laica. Mas seria a favor de uma lei que impedisse as meninas de fé islâmica de usarem o véu na escola. Não se pediria que elas nunca o usassem. Pedir-se-ia que no espaço laico da escola elas deixassem de o usar. Seria uma maneira de dar um sinal de que num determinado espaço que é público a discriminação sexual pressuposta pelo véu seria condenada (e reprimida mesmo). O uso do véu é sempre uma violência sobre as meninas e as mulheres islâmicas. Vai contra as crenças islâmicas as meninas tirarem o véu? Pois vai contra as minhas que o usem. Seria pedir muito às famílias islâmicas que num determinado espaço e num determinado período do dia respeitassem os valores da sociedade em que vivem?
A generalização da lei a outros sinais de religiosidade é um completo disparate. Não há qualquer comparação, no domínio da discriminação sexual (que é o que está aqui em causa), entre o véu e o crucifixo ou até o kippah, que não implicam qualquer menorização de um sexo face ao outro.
 
Obrigada, obrigada, obrigada... (relembrando a Sôdôna Amália)
Olá queridos amigos. Missed me? Imagino...
Saio da toca (agora reparo que tenho que ir fazer esta barba...) apenas brevemente para uns agradecimentos e umas notas para ajudar a entrar no ano.
Os agradecimentos vão para o Contra a Corrente e o Barnabé, que distinguiram aqui o rapaz com uns prémios de final de ano. Houve muitos blogs a dar prémios, mas a mim só me calharam estes dois. Não faz mal, são duas das melhores coisinhas que por aí correm na blogosfera.
Um sincero obrigada, obrigada, obrigada...
Não termino a mensagem, porém, sem responder ao Daniel, que acusa a direita de estar de férias enquanto eles trabalham. São generalizações típicas da esquerda. No vosso blog colectivo (outro típico tique de esquerda, o blog tinha que ser colectivo) só 40% (tu e o Celso) têm estado ao serviço. Os outros 60% têm estado caladinhos e 70% deles estão de papo para o ar a gozar os inestimáveis prazeres do Novo Mundo (América do Sul e do Norte). A direita de férias e a esquerda a trabalhar? Por favor, Daniel... Toda a gente sabe onde vive e por onde se passeia o votante médio do "Bloco"...
terça-feira, dezembro 23, 2003
 
Season's Greetings
A loja encerra agora por uns dias, para férias. Desejo um Feliz Natal a todos e (provavelmente – pode ser que ainda dê uma palavrinha antes) um óptimo Ano Novo.
 
Are you the walrus?
O Morsa reagiu às minhas vagas notas sobre discos deste ano, classificando-me numa série de actividades (blogger, colunista de jornal, professor catedrático, músico e melómano). Meu caro Morsa, está quase tudo errado. A única dessas coisas que posso reivindicar com toda a convicção é a de blogger. Quanto a ser colunista n’O Independente, é verdade que tenho escrito para lá umas coisas, mas apenas desde o mês passado. Não se admire se chegar um dia em que por lá descubram a minha enorme falta de talento para aquilo. Também não sou professor catedrático, sou professor auxiliar. Pode parecer uma trivialidade, mas não é. Ser catedrático na academia é chegar ao fim da carreira. Ser auxiliar é estar quase no início. Também não sou bem músico. Digamos que toco umas coisas. Para ser músico teria que ser mais sistemático nessa actividade. O mesmo acontecendo com a melomania. Preferia que dissesse que sou um tipo que ouve uns discos. Mas também aqui não sou suficientemente sistemático para receber o epíteto que me apôs. Seja como for, muito obrigado pelas suas simpáticas palavras.
Só mais uma coisa: a célebre percentagem dos 95%. Eu disse que Let It Be Naked era melhor que 95% do que por aí se faz hoje. O Morsa acha isto exagerado. O Let It Be, para ele, é do domínio das obras-primas, e não têm ocorrido muitas ultimamente. Let It Be seria, portanto, incomparável com o que se vai fazendo nos dias que correm. Eu acho que ele tem razão, se falarmos do Let It Be versão original, não Naked. Mas eu estava a falar desta. Nesta versão, para mim, o disco deixa de ser uma obra-prima, para passar a ter apenas pequenas obras-primas lá dentro ("Across the Universe", "Let It Be", "Don’t Let Down"). Mas o disco está demasiado mutilado relativamente ao original (como já disse, faltam "Maggie Mae" e "Dig It", e depois há aquela versão assustadora de "The Long and Winding Road" – que nunca sairia se John Lennon fosse vivo e que na versão original eu colocaria junto das outras três pequenas obras-primas). Let It Be Naked não é uma obra-prima, mas (mantenho) continua a parecer-me melhor do que 95% do que para aí se faz hoje.
Bom Natal e um abraço ao Manuel.

PS – Uma curiosidade: a Morsa do nome do blog é o Walrus de "I am the Walrus" (muito provavelmente a minha canção favorita dos Beatles)?
 
Dallas e recebê-las
Peço desculpa pelo atraso em reagir aos comentários que o André Belo fez a meu respeito na 6ª feira passada. Vou ser breve: não sei se ele (lá por Dallas, Texas) anda a ler a blogosfera portuguesa. Espero bem que não. Espero bem que se esteja a dedicar a coisas mais interessantes. Agradeço os elogios, mas eles são completamente imerecidos. Não o digo por falsa modéstia, mas por ser rigorosamente verdade num caso concreto: a secção literatura anglo-saxónica mais recente é muito melhor dominada pela minha esposa do que por mim (eu é mais clássicos).
Mas houve qualquer coisa no post do André que me intrigou e que ele vai ter que esclarecer, nem que seja com um GI a apontar-lhe uma lanterna para o fundo da garganta: por que motivos “inconfessáveis” (palavras do próprio) serei eu o seu ódio de estimação?
Boas férias, moços!
sexta-feira, dezembro 19, 2003
 
E agora dou-vos música
O Morsa também já reparou: saiu algures entre Novembro e Dezembro aquele que será provavelmente o melhor álbum pop do ano: Love is Hell, de Ryan Adams. Concordo com muitos dos discos que ele põe na sua lista de preferências, mas não com outros. O ano, diga-se, não foi famoso. Depositei grande fé nele, desde que (cedo no calendário anual) soube que Rufus Wainwright, The Strokes e Ryan Adams (precisamente) iam lançar os seus discos. Afinal, a coisa não correu bem. Wainwright, depois do fanstástco Poses, fez uma coisita frouxa, cheia de pretensões. Ouve-se, sem muito mais do que isso. Os Strokes não cumpriram a promessa velvetiana do primeiro disco. Em vez disso ligaram a máquina das salsichas e desataram a fazer um pop/rockn’roll eficiente, engraçadito, mas que é um mau sucessor de Is This It?. Depois, Ryan Adams. Fez dois discos, um razoável, outro óptimo. O razoável é Rockn’roll. Não se disse muito bem do disco, mas a mim não me pareceu tão mau assim: é uma homenagem descomplexada e desabrida ao rockn’roll dos anos 70 e 80, sem pretensões a mais. Eu diverti-me a ouvir o disco, embora seja talvez o pior de todos os que fez. Já Love is Hell é outra fruta. Por um lado, é um certo regresso ao estilo que mais gosto nele, o de Heartbreaker (o primeiro disco), por outro é uma mistura disso (onde sobressaem as componentes Dylan e Neil Young) com britpop, de que resulta uma mistela com graça. Prova disso é a melhor faixa do disco, uma versão dylanesca de Wonderwall, o célebre hit daquela que será provavelmente uma das piores bandas de britpop de sempre, os Oasis. Surpresa para mim foi o disco de uma banda que desconhecia inteiramente: The Hidden Cameras, com Music is My Boyfriend. Vai na tradição de Stephen Merrit e dos Magnetic Fields (inclusive num certo exibicionismo gay, um bocadinho irritante, aliás). Mas é pop da melhor. Finalmente, o Morsa também fala doutro disco do ano, curiosamente um disco com 30 anos: Let it Be, dos Beatles (agora em versão Naked). Ainda um dia me hei-de pôr aqui a falar sobre os Beatles. Mas não hoje. Let it Be é (na minha modesta opinião) o pior dos melhores discos dos Beatles. A minha ordem de preferência seria: White Album, Revolver, Rubber Soul, Abbey Road, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Let it Be (e o resto por aí abaixo). Mesmo assim quem dera a muitas bandas fazer o seu melhor disco a nível idêntico. Let it Be Naked é pior do que o original. Por um lado, não constam nele duas das mais divertidas canções do original: Dig it e Maggie Mae – os disparates Lennonianos da praxe, que McCartney fez o favor de tirar agora. Por outro, a versão alternativa de Across the Universe (sem as parafernálias de Phil Spector) é muitíssimo boa mas é idêntica em valor à original. Finalmente, a versão de The Long and Winding Road sem as orquestras de Phil Spector é um absoluto desastre. A grandiloquência da versão original perde-se e fica apenas o pior McCartney: o das melodias delicodoces, a resvalar perigosamente para o estilo Elton John. Seja como for, mesmo trinta anos depois, uma coisa de fazer inveja a 95% do que por aí se faz hoje em dia.
É tudo, e bom fim-de-semana.
 
Outra vez o ambientalista céptico
Depois de ter feito ontem aqui um post sobre a decisão do Ministério da Ciência dinamarquês em retirar as acusações de "desonestidade científica" que o Comité Dinamarquês para a Desonestidade Científica tinha lançado sobre Bjorn Lomborg, vários blogs se pronunciaram sobre o assunto. Eu não tenho nada de especial a acrescentar, restando-me reproduzir aqui uma mensagem (v. mais abaixo) que me foi enviada e linkar para esses mesmos blogs. Que me apercebesse, do lado pró-Lomborg tivemos o A Causa foi Modificada, o Super Flumina, o Contra a Corrente, o Valete Fratres! e O Intermitente. Do lado contra-Lomborg, o Blogo Social Português e o Cruzes Canhoto.
A mensagem do leitor Rui Miranda é esta:

Relativamente ao livro de Bjørn Lomborg, tive oportunidade de o ler nas férias de verão passadas e é, de facto, muito bom, apesar de altamente maçudo (foi imprescindível ler em doses curtas e espaçadas…).

É especialmente interessante verificar quais deveriam ser as prioridades ambientais actuais (água potável, esgotos, saúde pública, etc.), em vez daquelas às quais é dado o enfoque primordial.

No que diz respeito a polémicas, faça uma busca na Net e veja a quantidade de ataques a que Lomborg foi sujeito (com muito poucos defensores – o mais famoso destes últimos é Patrick Moore, com site em www.greenspirit.com, antigo dirigente do Greenpeace). É impressionante que um livro tão bem fundamentado possa ser tão vilipendiado por opiniões vagas e sem substrato. Fico feliz pela notícia que dá no seu blog relativamente ao desfecho do processo que lhe tinha sido movido na Dinamarca relativamente à sua suposta desonestidade científica.

Uma última questão: existe uma tradução em português, no Brasil, lançada em 2002, pela Editora Campus.

quinta-feira, dezembro 18, 2003
 
O ambientalista céptico
Em Janeiro deste ano (2003) o Comité Dinamarquês para a Desonestidade Científica, um órgão oficial, tinha classificado como (precisamente) “cientificamente desonesto” o trabalho de Bjorn Lomborg, The Skeptical Environmentalist (engano-me, ou neste país de alta cultura ainda não se fez uma tradução desta obra crucial?), um especialista dinamarquês em estatística. Eu li o livro. É uma chatice: um livro muito sério, que não passa de uma entediante colecção de dados e testes estatísticos. Como qualquer livro científico deve ser, de resto. Mas tem uma mensagem essencial: existem problemas ambientais, sem dúvida, mas também existem muitos falsos problemas ambientais, criados na cabeça e na propaganda dos movimentos ambientalistas, os quais não só criam esses falsos problemas como também exageram outros, ou então fazem previsões que (com base em dados reais) não podem ser cientificamente fundadas. Bjorn Lomborg foi vítima de uma extraordinária campanha de desinformação por parte de ambientalistas e cientistas pouco escrupulosos. A Scientific American (uma revista de divulgação, sem qualquer valor de investigação original) publicou artigo atrás de artigo diminuindo Lomborg, a New Scientist (igualmente de divulgação) não ficou atrás. Não sou biólogo, nem químico, nem nada com autoridade directa em assuntos relevantes para o tema. Sou apenas um historiador económico que, por via da parte económica da profissão, teve que aprender métodos estatísticos. O que me impressionou na leitura do livro foi, por um lado, o facto de ele conhecer a mais actualizada literatura em matéria de história económica para dados sobre população, clima, densidade florestal, etc. etc., literatura da qual muito historiador económico do nosso país pura e simplesmente ignora a existência; e impressionou-me também a seriedade com que os testes estatísticos eram conduzidos e a forma cautelosa como as conclusões desses testes eram extraídas (como sempre deve acontecer com qualquer cientista sério). O dito Comité para a Desonestidade Científica declarou Lomborg desonesto exclusivamente na base dos artigos da Scientific American e da New Scientist, sem ter feito qualquer refereeing próprio. Ontem, o Ministério da Ciência veio dizer que, afinal, Lomborg não podia ser classificado como desonesto a partir dos dados que foram usados pelo comité. Eis uma lição de desonestidade científica. Mas volta a chamar a atenção para um livro que toda a gente devia ler para limpar a cabecinha sobre ambientalismo. Feito (ao contrário do que muitas vezes se quer fazer crer) por um convicto ambientalista. Cuja grande vantagem consiste em não alinhar no alarmismo idiota e perigoso do ambientalismo oficial.
 
Arte bunga
Fala-se muito em música pimba, mas esquece-se muitas vezes de mencionar a arte bunga. Eis, porém, que um dos mais importantes prémios nacionais para jovens artistas a decide agraciar. Este ano o seu vencedor é um artista portuense de nome Bunga. Pois Bunga venceu, de acordo com o Público porque apresentou “os resíduos de uma arquitectura feita em cartão”. Segundo o mesmo periódico, “esta espécie de ruína resulta de uma destruição realizada antes da inauguração da mostra dos nove artistas que se apresentaram a concurso”. Quando incitado a justificar a sua pérola escultórica, Bunga (o artista) terá dito: “Interessa-me revelar o acelerar da degradação das coisas”. E ao tentar realçar o “lado simbólico da habitação” (nas palavras do Público), Bunga terá acrescentado: “Tenho uma relação afectiva com a cidade, por isso interessa-me usar casas, que também associo a uma certa ideia de maternidade”. Haveria aqui muito a dizer sobre o entendimento muito peculiar da relação causa-efeito que Bunga revela. Reparem: “relação afectiva com a cidade” > “casas” > “ideia de maternidade”. A tentação seria pensar do seguinte modo: “Há maternidades. As maternidades são casas. As cidades têm maternidades. As maternidades estão em casas. Ergo, a habitação tem um lado simbólico” (quem sabe se não se insinua aqui também uma leve crítica à legislação sobre o aborto?). Esse raciocínio, porém, conduz-nos a uma simplificação que não faz justiça à obra de Bunga. A ele prefiro o enquadramento que esse mestre último de todos nós, o Engenheiro Eduardo Prado Coelho, oferece para a obra de Pedro Cabrita Reis, o qual tem plena aplicação à de Bunga: “É o próprio Pedro Cabrita Reis quem nos dá o tema inicial: a ausência. Não uma ausência metafísica ou existencial, mas uma espécie de ausência social que deriva da deterioração que sofrem as coisas abandonadas a si mesmas. […] [Mas] o combate que Pedro Cabrita Reis trava com os materiais não é apenas o balanço contemporâneo de tudo aquilo que serve para fazer umas mãos […]. É também uma distribuição equitativa entre o corpo de quem faz e a matéria onde o fazer se exerce numa extensa teoria de agressões, violências, queimaduras, equimoses”. Hmm, hmm. E agora? Vai uma tacinha de branco?
quarta-feira, dezembro 17, 2003
 
Tipping point? (2)
Claro que continuo sem certezas sobre se estamos ou não a viver o tipping point desta guerra (v. posts de ontem). Prosseguem, como seria de esperar, os atentados. Mas também há sinais contrários. Como tentei dizer, uma das características dos tipping points é o facto de antigos inimigos ou neutrais de repente começarem a namorar os futuros vencedores. De onde vêm hoje as boas notícias? Mais uma vez do lado do inefável Eixo das Doninhas. Não é que depois de exibirem a sua grande farronca (misturada com um paleio irrelevante qualquer sobre a soberania dos iraquianos), dizendo que não perdoavam as dívidas ao Iraque, agora afinal estão dispostos a fazê-lo? O Saddam uma ratazana? Peço desculpa, mas o Saddam ao menos ainda andou a lutar durante algum tempo, está preso e pode vir a enfrentar a pena de morte. Mas a estas osgas de arribação o que é que lhes pode acontecer?
terça-feira, dezembro 16, 2003
 
Hi oh Silver!
O cowboy responde:
André, eu não tomo ninguém por parvo, embora alguns argumentos contra a guerra do Iraque façam as pessoas que os produzem parecerem parvas (uma amostra representativa desses argumentos, alguns dos quais até tiverem eco aí no teu blog: Bush=Hitler, a cabala da Halliburton, a cabala do petróleo, a cabala judaica, a cabala neoconservadora, a cabala judaico-neoconservadora, a cabala do defunto Leo Strauss, para só nos ficarmos pelo mais imbecilzito do que se foi dizendo).
Pedes argumentos políticos. Pois bem, estou com pouco tempo para grandes elaborações, mas tenho a vantagem de já ter escrito sobre o assunto algumas vezes. Remeto, por isso, para quatro posts que escrevi vai para meio ano, em resposta a um artigo do José Pacheco Pereira no Público (a que ele nunca respondeu). São sobre as famosas AMDs, mas lá no meio (no quarto post, mais precisamente) alinhavo um conjunto de razões. São este, este, este e mais este.
O contexto em que foram escritos é um bocado específico, mas alguns aspectos essenciais estão lá. Podia acrescentar muitas outras razões. Talvez um dia o faça. Por agora, apenas para satisfazer o teu pedido, apresento estas.
 
Tipping point?
Em todas as guerras há um momento em que a sua sorte fica decidida, mesmo que o fim dos confrontos seja moroso. Nesses momentos já toda a gente sabe quem vai ganhar a guerra, mesmo aqueles que a vão perder. Estes apenas continuam o esforço na esperança de um milagre ou acontecimento dramático que, in extremis, infirme a vitória anunciada. Os exemplos mais famosos desse género de momento são a entrada dos EUA na I e II Guerras Mundiais em 1917 e 1941, respectivamente. Em inglês chama-se a esse momento o tipping point. A expressão é boa porque remete para um objecto em equilíbrio instável no topo de um suporte com dois declives. Durante a guerra, nalguns momentos o objecto em equilíbrio descai mais para um lado, noutros momentos descai mais para o outro. O tipping point é aquele momento em que, com um piparote, o objecto cai definitivamente para um dos lados.
Eu ainda não tenho a certeza que a captura de Saddam seja esse tipping point em nosso favor, mas há alguns sinais que apontam para aí. Temos o pressuroso pessoal de esquerda que, no meio de uma avalanche alucinada de depoimentos sobre a convenção de Genebra e julgamentos justos, parece reproduzir o comportamento de um insecto a quem lançaram uma nuvem de dum-dum em cima. Este pessoal, depois de andar muito contentinho nos últimos meses a asseverar que estávamos no Vietname outra vez, que isto era a derrota certa, a catástrofe, já não sabe muito bem o que dizer e creio que rapidamente desistirá desta linha de argumentação (a menos que uma verdadeira catástrofe sobrevenha). E depois temos os nossos sempre estimáveis amigos do Eixo das Doninhas. Na sequência de tanta conversa sobre vespeiros e atoleiros, a Al-Jazira Sur Seine (o Le Monde, na famosa expressão do Merde in France) concede que se abriu uma “segunda oportunidade para Bush”, e o PropagandaStaffel (o Libération, ainda segundo o Merde in France) apresenta um editorial do seu histórico fundador Serge July significativamente intitulado “Un tournant dans la guerre”, cheio de conselhos a Chirac para se reaproximar de Bush.
Eu só não acho isto tudo o sinal definitivo do tipping point porque este pessoal faz tantas previsões e engana-se tantas vezes que podem estar tragicamente enganados outra vez.
 
Conservative and proud of it
Pelo segundo dia consecutivo linko para o Andrew Sullivan e pelo mesmo motivo: mais uma notável colecção de impagáveis declarações de opositores à guerra.

 
Barnabé goes plural
O Barnabé está a ficar plural. Têem um novo membro, que funciona como um coro grego situado do lado direito. Chama-se Fernando Martins, foi meu colega de universidade e tem o condão de escrever óptimos comentários às patusquices que eles por lá debitam (v., por exemplo, o comentário a este post aqui).
segunda-feira, dezembro 15, 2003
 
Still not over
Dito isto, a guerra não acabou. O famoso cenário de fracasso (quagmire) é possível. Ninguém garante o contrário. Falo assim com tanta mais facilidade quanto já me exprimi em diversas ocasiões (há-de estar por aí nos arquivos e até houve amigos meus da blogosfera que me chamaram maluquinho por isso) contra aqueles que, hoje e já, decretam a quagmire. O meu argumento, antes e agora, sempre foi: decretar o fracasso ou o atoleiro agora releva da precipitação e da incompreensão do que é a heróica “resistência” iraquiana. Quem decreta o vespeiro agora é (sejamos francos) quem quer que ele aconteça. Não existe hoje (sete a oito meses depois de terminada a guerra convencional) qualquer base para ele ser decretado, face ao que por lá acontece. Mas a possibilidade de ele se vir a verificar continua a existir. Como é evidente, a captura de Saddam é um passo importante para que esse fracasso não se verifique. Mais por razões simbólicas do que por razões militares propriamente ditas. It’s still not over…
 
A festa é nossa, tá bem?
Para alguém que, como eu, desde antes do início desta guerra do Iraque tomou o partido da barbárie americana, não há nada de especial a dizer sobre o que aconteceu: a captura de Saddam Hussein é uma excelente notícia.
Sobre aqueles que neste momento conseguem, pateticamente, continuar a criticar os americanos sobre as mais diversas trivialidades, só tenho duas coisas a dizer. Uma: por favor, enxerguem-se… A outra: estão de ouro hoje, o Jaquinzinhos, o Andrew Sullivan, o Liberdade de Expressão, o João Pereira Coutinho e o Desesperada Esperança (que, como brinde, oferece posts muito bons sobre o fracasso da cimeira europeia; Bruno: quem me dera ter tido, aos 19 ou 20 anos, a cabecinha que você tem; eu precisei de pelo menos mais uma década de vida para organizar as coisas na minha pobre tola – e nem sequer com os mesmo resultados).
Sobre aqueles que, depois de andarem a criticar (pelos mais simples ou retorcidos motivos) esta guerra, agora se regozijam com a captura de Saddam, só tenho uma coisa a dizer também:
Comove-me muito a vossa alegria, mas chega um bocado tarde. Manifestem a vossa incontida alegria como quiserem, mas estas coisas têm uma assinatura e a vossa não está lá. Este momento só acontece porque os americanos fizeram aquilo que vocês não queriam que eles fizessem: foram lá fazer a guerra, quando vocês não queriam; ficaram lá ao fim dos primeiros meses de atentados, quando vocês começaram a dizer para eles se virem embora (e quando as tão incensadas ONGs, juntamente com a não menos incensada ONU, se piraram dali a sete pés). Quem merece rejubilar com este episódio são as seguintes pessoas:
1) Todos os iraquianos que se opuseram ao regime de Saddam; todos os iraquianos que não se opondo resistiram silenciosamente; todos os iraquianos que apoiaram e apoiam a coligação nos seus esforços de reconstrução (seja activamente, seja prosseguindo com o business as usual);
2) Os Estados Unidos da América e a Grã-Bretanha (e demais aliados, entre os quais nós);
3) Eu e todas as pessoas como eu que escrevendo, falando ou simplesmente não indo a manifestações contra a guerra também deram uma pequenina ajuda.
Vocês são uns tipos muito engraçados, mas hoje a festa é nossa, se não se importam.
sexta-feira, dezembro 12, 2003
 
Uma pequena biografia contemporânea: Muita giro!
David Hicks, o famoso “talibã australiano” preso em Guantanamo, recebeu finalmente a visita do seu advogado, o qual começa a preparar a sua estratégia de defesa. Aquilo que se pode dizer de Hicks é que teve uma vida “muita gira”. Aos 14 anos drogava-se e consumia álcool, tendo sido expulso do liceu e acabando aí os seus estudos. Começou então a trabalhar, tendo feito coisas tão giras quanto ser esfolador de cangurus e caçador de tubarões. Mas mais giro mesmo foi quando foi trabalhar para um rancho na Austrália profunda e casou com uma aborígene (que giro…), de quem teve dois filhos. Separou-se da senhora (uma coisa muita gira e típica na cultura aborígene australiana) e foi para o Japão tratar de cavalos. Entretanto, fez uma coisa mesmo mesmo gira, que foi converter-se ao islamismo, tendo ido combater nas fileiras do Exército de Libertação do Kosovo, de onde transitou depois para um grupo islamista paquistanês de Caxemira. Da última vez que falou com o pai ao telefone (a quem ia relatando os seus diversos sucessos) estava no Afeganistão, alistado entre os talibãs (a sério? Que giro!), a caminho de Cabul, “a capital ameaçada pelas bombas dos EUA e pelos soldados da Aliança do Norte”, na heróica expressão do Público.
Quando entrevistado, o pai de David, Terry Hicks, revela-se como sendo da escola do “muita giro”: diz que (prontos) o David é mesmo assim, "tem uma curiosidade aventureira e quer ver o que está do outro lado da montanha”, e que “não, ele não é um sujeito perigoso”, e que, no fundo, não é senão um moço que quer fazer coisas giras, “um rapaz típico, incapaz de assentar”.
Pois é, Terry, parece que agora o David lá teve que assentar. Mas também, com conselhos paternos desses não sei bem de que outra maneira é que ele acabaria.
 
Correcção
Disse ontem e anteontem aqui que o PS andava a namoriscar o Bloco de Esquerda. Enganei-me: pelos vistos anda é a namoriscar o Bloco de Direita. Parece que um tal Vítor Baptista, deputado do PS por Coimbra (e apresentado pelo Público como “líder do PS/Coimbra”, whatever that means), votaria Bloco de Direita (i.e, Partido da Nova Democracia) se não votasse PS. O homem clama pela existência de (hã, hã, cá está o regresso da urdidura…) uma “intriga”. A mim também me intriga o PS: o líder não se vê e quando se vê parece que saiu de uma sala de chuto; o seu fundador e líder histórico parece andar desde há algum tempo sob o efeito de cogumelos alucinogéneos; e ainda surge assim este pessoal a quem parece que tiraram ontem o colete de forças. Ou talvez não. Se calhar o homem tem razão: qualquer dia, pela quantidade de tolices que ambos dizem, tanto faz votar PS ou ND.
quinta-feira, dezembro 11, 2003
 
Blocos
Pedro, obrigado pelos elogios moderados (eram elogios, não eram? ou era ironia?) quanto à minha obsessão anti-bloquista. De qualquer maneira, eu acho que não sou assim muito obcecado com o Bloco. Eles são é muito patuscos e, por isso, constituem um bom alvo para mandar umas piadas (que é que a gente faz aqui nos blogs, no fundo).
Quanto à respeitabilidade, tanto dos Verdes como do BE, só duas coisitas:
1) Não há dúvidas quanto à evolução pragmática do Verdes. Mas o eleitorado deles era, mutatis mutandis, o mesmo do BE cá. O contexto alemão é que é diferente, nomeadamente por causa da destruição sistemática de todos os movimentos comunistas durante o nazismo e a tutela americana do país até aos anos 50. E eles foram oferecendo à governação do SPD uma cor ideológica mais marcada em muitos domínios.
2) Eu aposto em como não falta muito para vermos o dia em que alguém no PS nos vai apresentar o BE como um parceiro de coligação perfeitamente respeitável, dada a sua “evolução pragmática” para se tornar um “partido de governação”. O namoro está em curso. Só falta ver como é que acaba.

 
Amiguinhos
Houve um tempo em que agradecia a todos os blogs que mencionavam o Espectador ou o colocavam nos links permanentes. Era o saudoso tempo em que isto era, como lhe chamei em tempos, um blog de culto. Parece que já não é. Muita gente o lê, cita, ou toma como referência para esta e aquela coisa. Quando vejo no Technorati os blogs que citaram o Espectador sou surpreendido com os mais abstrusos blogs. Não tenho mãos para todos os que me citam, por isso vou ter que individualizar alguns de que estou a gostar de ler, mesmo correndo o risco de cometer algumas injustiças. Por enquanto vão apenas alguns. Talvez aumente a lista mais tarde, à medida que for lendo mais dos muitos blogs novos.
Gosto do morrisseyano There is a light that never goes out (a escolher do mesmo pacote, eu escolheria mais um nome como That joke isn't funny anymore, mas também está bem assim);
do cinéfilo (e melómano) Babugem;
do Estrangeirados (ainda por cima com um template muito bonito);
do Classe Média (feito das entranhas dessa tão injustamente odiada classe);
e (já disse, mas repito) sou fanático (só é pena que escrevam tão pouco) do A Kathleen Gomes é um boi (este post sobre o Natal em Portugal está quase ao nível do outro que citei há alguns dias sobre a Revista Xis) - já agora, parece que as raparigas não são de arquitectura do Porto mas de belas-artes (do Porto também, presumo). Por mim, tudo bem, é lá com elas, desde que continuem a fazer o blog.
 
Duas razões para estar contra o “sim” ao projecto de constituição europeia
Os dois artigos de hoje de um conjunto de personalidades portuguesas e europeias. Não tenho tempo para elaborar porquê agora. Talvez amanhã, talvez no fim-de-semana. Talvez não. Depende.
 
Ilusões
Sinceros agradecimentos, André, pela tua tentativa para me salvares do meu naufrágio mental. Sei que o fazes com a melhor das intenções. Apenas quatro breves notas:
1) Tenta, da próxima vez, escolher autores que escrevam melhor do que Pierre Bourdieu (já nem sequer peço ideias mais interessantes). O estilo, tanto nos artigos mais “ligeiros” como nos livros, sempre me pareceu um bocado rebarbativo.
2) Não era preciso vir com o Pierre Bourdieu para me colocar face a face com a minha ilusão biográfica. Eu tentei apenas dar umas muito parcas notas sobre um momento de ruptura da minha vida, do qual resultaram consequências futuras. Como também digo por lá a certa altura, eu não segui O Caminho, mas apenas um caminho. O qual, coisa que também faço notar, não teve nada de heróico. Foi antes um processo lento e muito indeciso até hoje. Para além disso, esse caminho não estava pré-definido. Foi algo que fui fazendo com as minhas escolhas contingentes. Outros caminhos teriam sido possíveis.
3) Mas já que estamos no domínio das ilusões, até admito que o Bourdieu (e tu através dele) apanhem bem a minha fraqueza intelectual e biográfica. Mas, e tu, André, de que ilusões é que te alimentas? Que instrumentos utilizas para te colocares num determinado ponto do espaço e do tempo? Ou será que, assim como eu sucumbi à ideia da totalidade de uma vida individual, tu já fragmentaste a tua em múltiplas direcções do espaço sideral?
4) Enganas-te sobre o facto de eu ter construído uma clara identidade pessoal. Fi-lo apenas num pequeno domínio: o da política. Quanto ao resto reina grande confusão. E eu já tentei dizer a mesma coisa noutra altura neste blog: a política é mesmo uma parte pequena da minha vida. Como diria o meu maitre à penser Raymond, “talvez os intelectuais se desinteressem da política no dia em que descobrirem como ela é um instrumento limitado”.
quarta-feira, dezembro 10, 2003
 
USA Day II: Back in the USSR
Howard Dean, o homem que acredita que a União Soviética ainda existe e acha que Bush sabia do 11 de Setembro, viu a sua candidatura nas primárias do Partido Democrata ser apoiada por Al Gore, o inventor da internet (sorry, Pacheco Pereira…), aquele que nos vai salvar do aquecimento global com um toque do dedo mindinho na via láctea, o homem que devia ser o actual presidente dos EUA. Se estes cromos ganham, deixo de ter sítio para emigrar, meu Deus!!
Ambos representam o drama da “esquerda moderada” actual, que tem vários avatares do outro lado do Atlântico (nem todos nominalmente de esquerda, de resto). Na época do inequívoco triunfo do capitalismo sobre as várias ilusões alternativas que se foram propondo, essa esquerda teve que oferecer qualquer coisa que desse a entender que estava metida no comboio: chamou-se Terceira Via. Mas nunca acreditou nisso. E esteve sempre à espera de uma oportunidade para oferecer uma “alternativa”. Pois parece que está a chegar o momento e todos os dias aparecem dos mais insuspeitos sítios descontroladas diatribes contra o capitalismo selvagem e barbáries quejandas. Estes moderados agora roçam os Blocos de Esquerda dos vários países: por cá, o PS e o BE; na Catalunha o PSOE local (chama-se PSC) e a Esquerda Republicana da Catalunha; na Alemanha, Schroeder e os Verdes (o BE do sítio); em França, muito provavelmente nas próximas eleições, o PS e a coligação trotskista; nos EUA, Dean e Gore. Enquanto é na Europa, é mau, mas é como o outro. Agora, ver os EUA cair nas mãos destes maluquinhos é que era de um homem dar um tiro na cabeça.
 
USA Day I: Recrutamento para o tablóide do Pedro
Pedro Oliveira, meu grande amigo: tenho uma óptima sugestão para o teu já célebre tablóide de esquerda. Quando a coisa for para a frente, por favor rouba o cartoonista desse outro tablóide semanal que se chama Expresso (o formato broadsheet é só para enganar). Chama-se António, o homem. Viste o último cartoon, no sábado passado? Bush, de gravata stars and stripes, fuma uma nota de 100 dólares, da qual sai fumo com a forma de cogumelo atómico. Bolas, Pedro, se aquilo não é um génio… De cogumelo atómico, pá! Não sei se percebeste a insinuação… Mas aquele gajo, pá… É de um gajo, pá... Não sei… Um gajo fica sem palavras…
De qualquer modo, eu adivinho para o teu projecto um futuro radioso. Em matéria de textos, acho que não terias problemas. Pessoal com talento para escrever num tablóide de esquerda não falta (até aí na vossa baiuca estão bem fornidos). Onde eu vejo mais problemas é na oferta de page-three girls. Sabes como é: a mulher de esquerda é uma mulher mais recatada, que não aprecia a exibição do corpo. Exige ser reconhecida por outras qualidades, mais do domínio do intelecto. Mas há uma hipótese de fuga. Crias uma page three maso-fetichista. Mulheres completamente vestidas (de preferência com camisas de fazenda – em homenagem ao líder do homónimo líder do Bloco) castigam-se, fustigam a mente, com obras de Chomsky, Boaventura ou a tese de doutoramento de Francisco Louçã. O que achas? Tem pernas para andar (já que não as mostra).
terça-feira, dezembro 09, 2003
 
Conversos
Releio o último post e apercebo-me de que o que digo no ponto 6 pode ser interpretado como o uso de um argumento que detesto: o argumento muitas vezes apresentado de que os conversos a uma causa, ideia ou conjunto de ideias são piores do que os que sempre acreditaram nelas. Nunca diria uma coisa semelhante. O que quis dizer é que o conhecimento que as pessoas mencionadas possam ter (e não faço ideia se Helena Matos o tem) do funcionamento de organizações esquerdistas as possa ter feito crer que o Daniel caberia numa categoria em que não cabe.
Aproveito este potencial equívoco para umas breves notas de autobiografia política. O “argumento do converso” já me foi lançado a mim por membros do Barnabé. Significativamente, foi-o por aqueles membros do blog que pior me conhecem: o próprio Daniel e o Celso. Significativamente também, aqueles que me conhecem verdadeiramente bem, o Rui, o Pedro e o André, nunca o fizeram. E nunca o fizeram porque sabem que eu não sou converso recente de nada. Andamos há, pelo menos 10 anos (creio eu), às turras políticas.
As notas autobiográficas que a seguir vou alinhavar não são o relato de uma corajosa gesta política ou qualquer coisa de semelhante. Pelo contrário. Eu sou uma pessoa muitas vezes lenta a tirar as devidas consequências políticas de certas escolhas ou situações. E o que vou dizer são uns pequeníssimos mas sinceros apontamentos sobre alguns aspectos da minha evolução política.
Eu também venho da extrema-esquerda. Não por escolha, mas por inerência, digamos assim. Nasci numa família de intelectuais de esquerda lisboetas. Entre os meus 8 e 10 anos vivi o 25 de Abril e o PREC num vórtice de loucura militante, entre manifestações e ocupações. Passei o verão de 1975 numa herdade ocupada no Ribatejo, entre trabalhos do campo e correrias montado em Unimogs e Berliets da Polícia Militar (os representantes do MFA na ocupação). Ao contrário de muitos que terão sido formados politicamente pelas leituras de Marx, Engels, Lenine, Bakhunine, Rosa Luxemburgo e demais heróis da praxe, eu fui deformado na minha adolescência pelas mesmas leituras. Quando cheguei à universidade há 20 anos atrás vinha todo preparadinho para usar a luta de classes, os modos de produção e a teoria da mais-valia a tudo o que me aparecesse à frente. Para minha grande desilusão à época e alegria futura percebi que havia maneiras mais complexas de olhar a realidade. Ao mesmo tempo, os desastres sociais, económicos e políticos dos países socialistas tornavam-se por essa época cada vez mais conhecimento comum. Depois destes vários choques, passei por um natural período de desalento. Dessa viagem interior resultou uma posição negativa sobre o meu património intelectual trasmitido via familiar e um absoluto vazio alternativo. Até que um dia, não me recordo já por que portas travessas, me vieram parar à mão três livros de Raymond Aron: Dix-Hit Leçons sur la Société Industrielle, Démocratie et Totalitarisme e, sobretudo, O Espectador Comprometido (numa horripilante tradução portuguesa que guardo com o maior carinho). Estávamos algures entre 1987 e 1988 (tinha eu muito pouco mais do que 20 aninhos) e data daí a minha conversão. Conversão, à época, simplesmente aos valores da democracia ocidental (e acessoriamente, da social-democracia, coisa que depois abandonei). No essencial não mudei desde aí. Faltavam-me muitas leituras e conhecimentos, e tinha medo de romper comigo mesmo, com o que antes tinha sido. Não segui, nessa altura, Aron até ao fim. Mas, afinal, a minha formação estava apenas a começar. A qual foi feita adquirindo o património do liberalismo clássico (ou, melhor, da sua revisitação no século XX). Li, mais ou menos por esta ordem, Popper, Hayek, Berlin, Nozick e Rawls, e através deles fui levado à fonte original: David Hume, John Locke, Adam Smith, Edmund Burke e Tocqueville. Lento como sou, continuei sem tirar as devidas consequências de tudo isto e pus-me a estudar economia. Deste estudo, para além de autores como Milton Friedman, Robert Lucas ou Ronald Coase (e outros menos significativos como Robert Solow ou Paul Romer), ficou-me aquela que me parece ser a mensagem principal da economia que foi vingando no mundo académico desde o final dos anos 70 e princípio dos anos 80: a de que há uma ordem espontânea (mais ou menos anárquica) na forma como o nosso mundo se organiza, ordem essa que não requer a sistemática intervenção do Estado, apenas algumas fundações legais essenciais. Acho esta uma mensagem muito importante. Mas o liberalismo que perfilho vai para além disto. Mas para falar sobre isso ficaríamos aqui muito mais tempo.
É verdade que hoje não defendo coisas que defendia há 20 anos atrás. Será também verdade que sou hoje uma pessoa diferente do que então fui. Mas neste período não houve conversão a nada. Limitei-me a seguir um caminho (outros, diferentes do meu, seriam sem dúvida possíveis) dentro do mesmo trilho. Há momentos, leituras ou episódios que nos fazem ter um click que muda algumas das coisas nas quais acreditávamos e, só então percebemos, não fazem parte do tal trilho em que seguimos o nosso caminho. Mas fora essas mudanças (algumas delas até muito bruscas) sou, na minha essência política, a mesma pessoa de há 17-18 anos atrás: incapaz de crer no marxismo que me foi transmitido pelo biberão e crente de que há algumas verdades essenciais (não todas as verdades) na interpretação do mundo que o liberalismo oferece e nas recomendações para a acção que daí decorrem.
Oooops... lá foi outra missa...
segunda-feira, dezembro 08, 2003
 
Odetes da casa
Ao que parece, anda para aí uma polémica sobre a publicação pelo Daniel Oliveira no blog Barnabé de uma fotografia de Odete Santos com uns paramentos teatrais que terá utilizado numa peça de revista. Não percebo a polémica. Quando vi o post em causa nem sequer liguei muito. O Daniel não precisa que eu o defenda, pois tem mais do que idade e capacidade para o fazer sozinho, mas mesmo assim vou ensaiar uma pequena defesa sua neste caso. Sou amigo do Daniel, mas não simpatizo com as suas ideias. Não sou amigo de José Pacheco Pereira nem de Helena Matos, mas simpatizo com a maior parte das suas ideias. Neste caso, porém, tomo o partido do amigo cujas ideias não são as minhas.
1) Odete Santos é uma mulher adulta e é uma figura pública. Enquanto tal sabe o que faz e tem que rodear as suas aparições das cautelas que todas as figuras públicas usam nessas circunstâncias.
2) Entrapar-se com umas vestes clownísticas para participar num teatro de revista é um episódio degradante na vida de qualquer pessoa (também o seria numa peça avulsa do nosso lamentável teatro “independente”, o que não muda nada às circunstâncias), muito mais se isso é visto como uma missão política de rejuvenescimento da imagem de um partido execrável – o que não sei se é o caso, mas até é mesmo capaz de ser.
3) Não sou nem um milionésimo sensível aos problemas do Daniel sobre a herança do PCP (estou-me mesmo nas tintas para essa herança), mas percebo o que ele quer dizer. Goste-se ou não, há um princípio de seriedade e de aparência na política que uma fotografia como aquela (ou a correspondente reportagem televisiva, que eu vi e que foi motivo de comentários descorçoados de pessoas de todos os quadrantes políticos) pode destruir.
4) Odete Santos é livre de fazer o que fez. O Daniel também. Daqui partir para uma diatribe sobre a misoginia do Daniel e a utilização da suposta fealdade do retrato para denunciar o Daniel enquanto estalinista que exige o comportamento dócil das camaradas, parece-me uma coisa francamente descabelada.
5) Descabelada sobretudo porque redunda numa espécie de super-moralismo politicamente correcto. Ele há boas e más imagens (a célebre fotografia de Che Guevara, algumas fotografias antigas de Cunhal, a fotografia de Sabine Hérold nas ruas de Paris, Churchill com o charuto a fazer o V da vitória, etc.) e pronto. A de Odete é má. Porque é clownística, porque é de teatro de revista, porque é um ponto baixo na imagem da pessoa em causa e do partido que representa.
6) Não conheço a biografia política de Helena Matos. Mas a sua reacção parece-me a de alguém que (tal como o José Pacheco Pereira) também andou pela extrema esquerda e sabe como as coisas se passavam nesses partidos em realção ao comportamento exigido às mulheres. Pois eu posso afiançar uma coisa: o Daniel, por muito de esquerda que seja, está tão longe disso como eu.
7) E pronto.
quinta-feira, dezembro 04, 2003
 
A Argentina na outra esquina
Há quem pense que nenhuma das desgraças económicas da Argentina serve de exemplo ou aviso para as economias europeias. Afinal, a Argentina é um país lá do terceiro mundo, endemicamente subdesenvolvido. Talvez muita gente o ignore, mas a Argentina já foi um dos dez países mais ricos do mundo (mais rico do que a maior parte dos mais ricos países europeus), em finais do século XIX e até aos anos 30 do século XX. A partir daí é o declínio, até à catástrofe corrente.
Eis aqui o que se pode ler n'O Intermitente, sobre a consideração lá para os lados da capital do império de se introduzirem controles de capitais e câmbios na UE, a pretexto de um valor insustentavelmente elevado do euro. Isto é do mais degradante terceiro-mundismo económico. O qual, de resto, não faz senão acrescentar-se aos outros sinais já visíveis há mais tempo do mesmo fenómeno: descontrole das finanças públicas nos maiores países, descontrole do desemprego (nalguns países chegando aos 40% entre os jovens), absurda regulação de mercados, um crescimento económico (se excepturamos a Irlanda) a passo de caracol.
Ainda é difícil a argentinização da Europa? Ainda. Mas não é impossível. E sobretudo: já esteve mais longe. Muito mais longe.
 
Scary stuff
Eis aqui um magnífico link, obtido via Andrew Sullivan. Neste link mostra-se como o director da Biblioteca de Alexandria decidiu pôr uma tradução árabe do Protocolo dos Sábios de Sião na secção de manuscritos da biblioteca, sob pretexto de ser uma das (entre aspas vão as citações) "bases sagradas dos judeus, uma espécie de sua primeira constituição, a sua lei religiosa, o seu modelo de vida". E acrescenta que o Protocolo é "talvez mais importante para os judeus sionistas do mundo do que a Torah". Para quem não saiba, o Protocolo dos Sábios de Sião é um texto anti-semita russo do início do século XX (inspirado num texto equivalente francês de meados do século XIX), feito para dar a ideia de ter sido escrito por judeus em busca da conquista do mundo. Há muito tempo que foi denunciada a falsidade do texto, cujo propósito era o de criar reacção contra a suposta ameaça mundial judaica. O texto, não obstante a sua demonstrada inverdade, foi sempre usado ao longo do século XX por todos os anti-semitas deste mundo para justificarem as mais diversas campanhas anti-judaicas.
Agora é o director da novíssima biblioteca de Alexandria que vem recuperar este horrível espectro do passado. Eu lembro-me quando foi inaugurada a biblioteca de Alexandria. A ONU financiou o projecto, uma fortuna foi gasta no projecto arquitectónico e na aquisição das obras. O Público deu destaque nas 3 páginas de abertura, e até entrevistou o director da biblioteca, classificado (como de costume nestas circunstâncias) como um "respeitado intelectual egípcio". Pois este link dá-nos ainda mais umas primorosas citações do "respeitado intelectual", que não resisto a transcrever aqui: na sua opinião, exposta num qualquer artigo, "Hitler matou apenas um milhão de judeus [porque] não havia cianeto suficiente"; a verdade para ele é que houve "cinquenta milhões de vítimas dos nazis [aparte meu: pelos vistos para estes já havia cianeto], dos quais um milhão de judeus e o resto ciganos, polacos e outras nações". O "respeitado intelectual egípcio" citado pelo Público dá como facto o mais repugnante revisionismo histórico. O mesmo revisionismo histórico que levou o mesmíssimo Público a decidir, de forma expressa em editorial, não voltar a publicar textos de teor idêntico embora muito menos arrojado.
Eu não compro toda a conversa do anti-semitismo actual. Mas que ele anda por aí, anda. E que anda em sítios muito respeitáveis e muito elevados no nosso querido planeta também não podem restar dúvidas.
quarta-feira, dezembro 03, 2003
 
Remate
Sobre o tema dos últimos posts disse que não ia responder ao André e não vou. Volto à questão apenas por dois motivos. Um, é que só tardiamente (hoje à tarde, precisamente) me apercebi de que esteve em curso, paralelamente à minha discussão com o André e o Celso, uma discussão dentro do Mar Salgado ,e do Mar Salgado com o Bloguítica sobre o mesmo exacto assunto. É de elementar justiça pedir desculpa pela desatenção e linkar para lá.
O outro motivo é para publicar uma mensagem que recebi via e-mail de um leitor assíduo, o Nuno Carneiro. Escusei-me a discutir com ele, sob o argumento de estar cansado (de discutir o assunto e tout court), mas prometi-lhe que publicava a sua mensagem (que como verão não me é favorável, ou é-o apenas em parte). Têm que desculpar a ortografia do Nuno porque ele estuda em York, no Pequeno Império do Mal, bárbaro país onde não se usa o mais sofisticado sinal de desenvolvimento civilizacional: os acentos.
Aqui vai:

Discordo de certos aspectos da sua
argumentacao e queria discuti-los aqui:

Pelo que tenho lido no seu blogue, nao e medico. Nem eu. E somos ambos
homens. Logo, em caso algum podemos fazer um aborto. Da forma como a lei
esta, nem sequer podemos aconselhar mulheres (a esposa, amigas,
familiares, etc...) ou amigos medicos, neste assunto. Porque a lei, pura
e simplesmente proibe. Sem mais. Nao ha discussao possivel sobre o
assunto. A lei, como esta, exclui-nos (e todos os homens que nao sao
medicos) da discussao do aborto. E exclui a Igreja tambem (os membros da
Igreja que sao mulheres, nao engravidam ...). A unica coisa que
poderiamos fazer (nos e a Igreja), se a lei nos deixasse, seria
influenciar a sociedade a que pertencemos. Fazer lobby. Voce faria lobby
contra. Outros fariam a favor. Fair enough. Mas nao. Antes que qualquer
um de nos abra a boca, todo o discurso ja e esteril. Porque o Estado ja
proibiu. Confesso que na discussao legal (que foi a referendo, nao a
questao moral) nao compreendo a posicao da Igreja. A Igreja devia apoiar
uma lei que permitisse o aborto. Depois, faria aquilo que diz ser a sua
missao na terra: dirigiria a sociedade nesta questao moral. Diria "Sois
livres de o fazer. Porem, sigam a nossa opiniao: E errado faze-lo". A
lei tal como esta, faz-nos uns impotentes perante o aborto.
Depois ha a difusa linha onde comeca a vida (a linha onde termina, nao
e mais nitida). Concordo que e uma questao fulcral. Nao sei responder.
Mas o local onde voce a poe parece-me exagerado. Um ovulo fecundado nao
e mais que uma celula. Distingue-se do ovulo e do espermatozoide, porque
tem 46 cromossomas e nao 23. Nao quer estabelece a evidencia de vida no
numero de cromossomas, quer? Contem toda a informacao para produzir um
novo ser vivo? Bom todas as outras celulas, a excepcao do espermatozoide
e do ovulo, a contem. Somente nao estao programadas para o fazer. Mas
entendo a sua posicao. Do ponto de vista conservador, parace-me tambem,
ser preferivel considerar uma base bem solida e bem certa, a
indefinicao, ao vazio. Em todo o caso a sua base esta muito recuada.

 
Segue longa missa
O post que se segue é grande, muito grande. É só para os mais bravos dos corajosos. Quem, legitimamente, não quiser ler, faça o favor de se dirigir ao blog seguinte.
André, obrigado por elevares um bocadinho o nível de uma conversa que já estava a assumir contornos um pouco desagradáveis. De qualquer modo, penso que chegámos áquele momento em muitas discussões em que não se passa de um ping-pong de argumentos repetidos. Dou-te esta resposta e encerro a loja para o tema: tenho uma vida para ganhar e uns seres vivos para alimentar aqui em casa. Dito de outro modo, dou-te a última palavra, se a quiseres usar.
Começo com uma menção histórica: o Presidente dos EUA que antecedeu o actual, Bill Clinton, ficou famoso por várias coisas, entre as quais a maneira como manipulava as palavras para fins de defesa em tribunal. Uma das suas mais famosas manipulações é aquela em que, quando inquirido sobre se teria tido sexo com Monica Lewinsky, respondeu: “it depends on how you define sex”. Menos famosa, mas que prefiro, foi uma outra, que na realidade não sei se é lenda urbana ou mesmo verdade, segundo a qual, no mesmo contexto, terá dito: “it depends on what is is” (“depende do que é é”). Vem isto a propósito da tua invocação do catecismo católico para dizeres que a Igreja não chama “homícidio” ao aborto, apenas dizendo que se encontra “em grave contradição com a lei moral”. Se leres o que lá está, não sei se é preciso ser-se mais explícito. Considera-se que a vida humana deve ser protegida desde a concepção; condena-se o aborto ao mesmo tempo que o infanticídio (os quais se diz estarem “em grave contradição com a lei moral”) e fazem-se várias considerações sobre terminar com vidas inocentes. A Igreja não considera homicído? Só se me disseres que “depende do que é é”. De qualquer modo, isto é a Igreja, não sou eu.
Dizes que não concordas que seja necessário definir um limiar para a vida humana para se ter uma posição sobre o aborto, porque achas que uma “lei sobre o aborto não deve tomar posição sobre a origem da vida humana, devendo antes considerar as questões sociais e relativas à saúde pública”. Como assim? Imaginemos que me sento à porta da rua de minha casa a matar galinhas. Provavelmente serei punido por infringir alguma lei, mas certamente não por galinocídeo. Mas se me puser sentado no mesmo sítio a matar criancinhas vou imediatamente preso com pena máxima. Há uma óbvia diferença qualitativa entre galinhas e crianças que a lei prevê (implicitamente, claro). Uma lei sobre o aborto é, como se torna evidente, também uma lei que define um período durante o qual eu posso eliminar sem consequências uma vida humana e um período a partir do qual enfrento consequências penais. Nem que seja de forma implícita essa lei está a tomar posição sobre a origem da vida humana, pelo menos está a tomar posição sobre a origem da vida humana para fins criminais. Não sou eu que defendo que a lei sobre o aborto deve tomar posição sobre a origem da vida humana. É a lei que, quer queira quer não, a toma para fins jurídicos.
É aqui que entra a outra parte da tua argumentação, que se liga com a fundamentação científica, “para fins metafísicos” (como dizes), da minha posição. Eu não peço uma fundamentação científica consensual sobre o assunto, que certamente não existirá. Eu peço uma fundamentação científica que me satisfaça. E peço que a tal definição implícita da origem da vida humana para fins penais seja o mais próxima possível desta fundamentação. O argumento do continuum da gestação da vida que apresentas levar-nos-ia muito longe, até terminarmos muito provavelmente nos tais carapaus à espanhola e mesmo mais além (aconselho-te, a propósito, a leitura de uma filósofo australiano, Peter Singer, que defende que certos animais têm mais direitos que certas pessoas e certamente mais direitos do que um embrião humano). É por isso que dato a origem da vida humana no momento inicial em que um novo organismo humano começa a sua existência mesmo em forma embrionária. É arbitrário? É sim senhor. Mas a cada dia que a gestação avança esse arbítrio torna-se cada vez menos sustentável. A menos que (e é aqui que entra a tal fundamentação científica) algum dia alguém me mostre por métodos científicos que o embrião a partir de certa altura adquire uma organização celular que o torna qualitativamente humano, coisa que antes desse momento não era. Eu não conheço ninguém que o tenha feito, mas deixei a porta aberta por escrúpulo intelectual, chamemos-lhe assim. Eu não conheço ninguém que o tenha feito, mas não posso excluir que isso aconteça e o argumento seja convincente. Argumentos como o do sistema nervoso central ou o da não-dependência orgânica da mãe não me convencem. Mas reconheço-lhes o mérito de serem um esforço no mesmo sentido.
E chegamos à questão da gravidez indesejada. Se queres que te diga, simpatizo com o sofrimento de muitas mulheres que têm uma gravidez indesejada e tentaria minorar ao máximo esse sofirmento. Mas não simpatizo com o sofrimento de outras mulheres. Esta gravidez pode ser a de uma Tia de Cascais que deu uma facada no casamento e tem (chamemos-lhe assim) o “azar” de ficar grávida. Pode ser a de uma qualquer mulher que foi violada. Pode ser a de uma adolescente a quem numa tarde de Verão aconteceu o que aconteceu. Pode ser a de uma mulher do Bairro da Liberdade que já tem 10 filhos e não quer ter 11. Pode ser a de uma mulher de classe média que não quer ter um filho deficiente. Podem ser mil e uma situações. Com umas há razões para simpatizar e ser sensível, com outras (peço desculpa) mas não há. Mas mesmo com aquelas com que se pode simpatizar cabe ponderar a solução proposta. Se a solução proposta é a eliminação de uma vida, por muito dramática que seja a situação da gravidez indesejada cabe perguntar o que deve a lei proteger: a dita vida ou as possíveis (mas não absolutamente certas) penas associadas a essa gravidez indesejada. Ser uma gravidez desejada ou não releva de escolhas e expectativas subjectivas contra as quais tens que ponderar um valor que penso não ser subjectivo: o valor da vida humana. Se eu tenho um filho bonito (e tu sabes como os meus filhos são bonitos) que, de hoje para amanhã, se queima e fica desfigurado, justifica-se livrar-me dele só porque as minhas expectativas de ter um filho fisicamente impecável se esboroaram de um momento para o outro? Se o meu carro foi assaltado (como já foi por três vezes) justifica-se que eu aprove legislação que elimine todos os assaltantes da face da terra? Nada do que até agora disse, obviamente, aponta para um programa de felicidade humana. Mas a vida não é só felicidade. Falo disto com tanto mais à vontade quanto a minha vida desde os 18 anos (como tu bem sabes, aliás) foi marcada por alguns eventos trágicos que ainda hoje são bem visíveis para quem me conheça pessoalmente. Em suma: a lei não deve ser o veículo para a prossecução de todos os programas de felicidade humana (se houver nem que seja um pequeno grupo de pessoas que só obtêm a sua felicidade através de actos canibais pretendes tu legalizar o canibalismo, por exemplo?). Deve ser um corpo de regras que incorpore ou se fundamente num conjunto de princípios mais ou menos universalmente partilhados por toda a gente. E o valor da protecção da vida humana é certamente dos menos incontroversos. E onde é que chegámos? Ao mesmo sítio do princípio: a partir de que instante deve esta vida ser incondicionalmente protegida, independentemente das consequências que ela possa trazer para a vida de outras pessoas?
Ita missa est.

PS – Pela segunda vez perguntas o que é uma execução capital. Não há tempo nem espaço para tudo, mas ainda respondo a essa: é um homicídio. Não tem outro nome. E é por razões parecidas, mas não iguais, às que apresentei acima que eu, Luciano Amaral, pró-americano convicto, te digo: sou contra pena de morte. Mas mesmo assim há diferenças qualitativas importantes entre a pena de morte e um aborto. A pena de morte é aplicada a alguém que é culpado de alguma coisa (se excluirmos a possibilidade do erro judicial), não a uma vida inocente. Pelo menos nos EUA, onde existe um sistema judicial que (com os defeitos que se quiser) oferece garantias de fair trial. Em Cuba ou na China já não será assim.
terça-feira, dezembro 02, 2003
 
Já te atendo, Monsieur Belô
Quanto a ti, André, meu protozoário, zoavo, iconoclasta, arenque fumado, já te atendo. A resposta para ti tem que ser mais longa, e já já estou sem tempo. Talvez mais logo. Se não, amanhã.
 
Cachimbo da paz
OK, Celso, aceito o cachimbo da paz que me estendes. Entre pessoas que se conhecem (mais ou menos bem, mais ou menos mal) prefiro que acabe tudo numa nota positiva. Sem querer entrar em muitos detalhes, parece-me apenas que andas (ou tens: afinal és o Barnabé que pior conheço) com um problema com a ironia. Entre várias outras coisas que não vale a pena explorar muito, pela repetição com que o mencionas, parece que te afligiu muito o meu comentário sobre vocês serem casos perdidos. Já que andas tão atento aos arquivos deste blog podes ir lá ver que o comentário era obviamente jocoso e dizia, especificamente, que vocês eram casos perdidos politicamente. A distinção era feita com o Pedro, que, dizia eu a brincar também, era ainda passível de cura, no sentido de deixar de acreditar nalgumas coisas próprias da esquerda. (entretanto reconsiderei a minha posição: vocês continuam a ser casos perdidos politicamente, e o Pedro também) E é tudo. Se levaste isto para o lado do fracasso pessoal, tenho muita pena, mas não é o que quis dizer.
O que me irritou no tom do teu post (e de outros anteriores também, de resto) foi, em primeiro lugar, o recurso à adjecitvação baratucha (a "parvoeira modernaça") sem qualquer discussão do assunto em causa, e foi, em segundo lugar, uma coisa que tens utilizado recorrentemente, que é o da insinuação da espertalhice ("prefiro um olhar beato mas sincero" - itálico meu -, por exemplo) para descrever as minhas posições. Vindo de outra pessoa não me incomodaria. Quem não me conhece pode, de facto, permitir-se a imaginar que eu seja o mais inconcebível pulha. Agora tu, Celso... Caramba, afinal já nos falámos o número de vezes suficiente para que esse género de argumentos não tenha lugar nas discussões entre nós. Eu farto-me de comer pancada dos Barnabés (e dou também). Nunca me chateei com rigorosamente nada do que os outros disseram ("velha direita", "beato de armário", "trauliteiro", "poeira sideral", para só mencionar alguns mimos). Mas já o teu ar de quem me está a topar mais do que os outros. O teu ar de quem insinua que eu sou um mero arrivista vivaço, francamente, já me andava a irritar há algum tempo.
Dito isto, estou pronto para recomeçar o tom da nossa relação pessoal no ponto imediatamente anterior ao do início desta discussão. Um abraço.
segunda-feira, dezembro 01, 2003
 
Vivinhos vivaços
Não escrevi o post anterior, sobre a minha posição pessoal relativamente à questão do aborto, para gerar reacções. Escrevi-o enquanto statement sobre o assunto. Ocorre que vários membros do Barnabé ragiram. Mal, mas reagiram. Com umas graçolas inconsequentes, nalguns momentos raiando o mau gosto. Como não disseram nada de substancial nos posts que escreveram, estava a pensar não dizer mais nada sobre o assunto. Mas, por acaso, eu que não gosto de comentários em blogs e, em geral, não os leio, acabei por ler os que lá no Barnabé foram feitos a propósito da questão. E deparei com dois excelentes comentários, um favorável à minha posição, outro desfavorável. Ambos feitos por pessoas que julgo conhecer (se eles são quem eu julgo que são), o Fernando Martins e o João Miguel Almeida. Estes comentários geraram outros comentários vagamente mais sofisticados de alguns membros do blog. E assim regresso ao tema. Aconselho a quem queira seguir a discussão ir ler os comentários a este e mais este posts.
As gracinhas dos barnabeicos têm todas o objectivo de me devolver a sítios a que não pertenço: à “velha direita” (pelo Daniel) e ao catolicismo (pelo Celso e o André). O propósito é, claro, o de me colocarem num terreno em que não me coloquei mas que eles reconhecem melhor e onde podem atirar as munições piadísticas sem discutir nada. O Fernando e o João Miguel, porém, lidam directamente com o que eu disse.
Tudo espremido, o meu post resume-se na seguinte questão: não é possível ter uma posição sobre o aborto sem definir um limiar para a vida humana (para quem partilhe valores de protecção desta). Eu defino esse limiar no momento da concepção de um novo ser humano. A razão porque digo que estou disposto a mudar a minha posição se me demonstrarem que a vida humana não começa ali é porque não sou versado em genética e pode haver argumentos científicos que me façam ver a coisa de outra maneira. Os piadéticos do Barnabé não discutem o assunto. Mas tanto o Vasco Rato, no artigo d’O Independente, como o João Miguel (ambos com posições favoráveis à legalização do aborto) fazem-no. Para o Vasco esse limiar é definido pelo momento em que o feto desenvolve o sistema nervoso central e passa a ter sensações idênticas às dos seres humanos plenamente desenvolvidos. Não me convence. Para mim a vida humana já começou antes. A sensação não é um critério de definição de vida humana. Para o João Miguel esse limiar acontece quando o feto sobrevive fora do organismo da mãe, graças a máquinas que o consigam manter vivo. Também não me convence. A não-dependência orgânica da mãe também não me parece critério definidor de vida humana. Para além de que, se imaginarmos uma qualquer tecnologia que mantenha o feto vivo desde a primeira hora de existência, a posição do João Miguel passa a coincidir com a minha. Mas quem não for capaz de oferecer um limiar para a vida humana tem que me explicar porque é que o aborto não é aceitável a partir das 14 semanas, das 24, das 30 ou até dos nove meses de vida intrauterina (ou mesmo extrauterina, até ao momento do corte do cordão umbilical). Que diferença qualitativa ocorre em qualquer um desses momentos para a dita criatura merecer a protecção da lei que é oferecida ao resto da espécie? O que é que acontece em qualquer um desses momentos para o feto passar a ser um Homem e deixar de ser outra coisa qualquer pré-humana, proto-humana, pró-humana (escolham o prefixo) que não merece o mesmo grau de protecção que conferimos aos membros da nossa espécie?
O Celso acha isto tudo uma “parvoeira modernaça para fazer currículo”. Não sou teu pai e tu já és crescidinho. Mas se pudesse dava-te um conselho: o de adoptares outro estilo para discutir com pessoas que não são estúpidas (categoria na qual penso incluir-me). Seja como for, a escolha de adjectivos é muito agradável, mas eu tenho o prazer de a devolver com o mesmo carinho com que me foi atirada a mim. Com uma qualificação. As tuas parvoeiras, Celso, também são enormes parvoeiras, diferindo das minhas apenas por uma razão: são pré-modernaças. Em primeiro lugar não vejo que me contradiga ao dizer que posso aceitar um aborto quando a vida da mãe estiver em risco. É vida humana contra vida humana. A escolha é trágica e dolorosa, mas terá que ser feita. Depois há a parvoeira pré-histórica de o espermatozóide ser vida, dado como exemplo da inconsequência da minha posição. Pois, uma mosca também é um ser vivo e eu mato-a alegremente. E uma galinha também, para me alimentar. O ser que resulta da fusão do espermatozóide com o ovócito é que já é o mesmo ser (em forma pouco complexa) que vai resultar num ser humano completo. E finalmente há a parvoeira intemporal dos “carapaus à espanhola”. Exactamente o que dizer de alguém que compara um feto humano com “carapaus à espanhola”? Não sei muito bem, mas talvez “que te façam bom proveito”, juntamente com o resto das parvoeiras que pelos vistos consegues emitir enquanto o diabo esfrega um olho.

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