O Comprometido Espectador
sexta-feira, janeiro 30, 2004
 
Douce France une autre fois
Depois das grandes esperanças que depositavam no juiz Hutton, os nossos amiguinhos do costume tratam agora de nos explicar que o homem não passa de um serventuário do poder. Claro que se os resultados do inquérito fossem ao contrário, logo nos viriam dizer da isenção do senhor, de mais um notável exemplo de democracia vindo da mais velha democracia em funcionamento. Como não foi isso que aconteceu, já reverteram para aquilo que é a grande contribuição teórica da esquerda para a ciência política: a cabala, a conspiração, a tramóia, o conluio, a urdidura (remember?). É um tipo de teorização com pergaminhos na esquerda: afinal Marx não era muito diferente – segundo ele o sistema político liberal não era senão uma grande falácia, por baixo do qual reinava a sinistra e sanguinária burguesia. Para passar para tempos mais actuais, Chomsky continua a engrossar as fileiras do género: para ele, a América não é senão uma grande tramóia. And so on
Mas eu ontem falei aqui de uma notícia que, essa sim, parece mostrar a existência de uma urdidura real e ninguém se manifesta. Não percebo o vosso desinteresse pela coisa. Recordo que a documentação onde a acusação se funda é a mesma que levou à demissão de George Galloway, o deputado trabalhista inglês contra a guerra. Curioso também é notar como nenhum jornal francês menciona a história. A este respeito, só tenho a aconselhar a leitura de um artigo saído na Prospect de Janeiro, chamado "French Favours", onde se mostra o entendimento entre jornalistas e políticos que sistematicamente bloqueia a publicação de informação delicada para estes últimos (convém não esquecer que a França é o país onde todos os jornalistas souberam durante 20 anos que Miterrand tinha uma filha ilegítima e não disseram nada).
 
Basic economics
Numa atitude de rara coragem e desassombro, o famoso encenador português Jorge de Silva Melo recusou o Prémio Almada para teatro do Instituto das Artes, um organismo oficial, no valor de 25 mil euro (vem no Público, não consigo fazer link directo). Vale a pena ouvir as justificações do encenador: “não gosto de prémios de Estado porque acredito – fui educado assim – que o artista é por natureza um traidor ao poder instituído”.
Isto da boca de quem, ao longo da sua inteira vida (pelo menos nos últimos 30 anos), tem vivido com o estipêndio do poder instituído. No fundo, a coisa é explicável pela economia (da mais básica mesmo): o valor actual líquido daquilo que JSM foi recebendo ao longo de 30 anos sob a forma de subsídios, empréstimos ou doações é muito maior do que qualquer soma one-off (ainda por cima eram só uns míseros 5.000 contos) que agora lhe caísse nas mãos. E o que é mais: parecemos tão rebeldes, tão radicais com atitudes como esta, e isso não só garante umas notícias de jornal como cai sempre bem junto da clientela
 
Centenário
De Eduardo de Freitas, conhecido sociólogo português e autor de obras que acompanharam os primórdios da minha carreira académica, recebo a seguinte mensagem:

Em vôo rasante pela blogosfera, dei-me conta do seu Comprometido Espectador.
E lembrei-me que em 2005 passam 100 anos sobre o nascimento do Aron e 60 sobre o fim da 2ª guerra.
Ora havendo tanta gente 'distraída', o mais certo é que sobretudo no que se refere ao autor indicado, a evocação fique por pouco mais do que nada.
Eu acho que era altura para se pensar em iniciativas que levassem ao acordar de cabeças para a contemporaneidade da obra de um dos autores mais atentos e lúcidos do século de todas as crispações ideológicas.

E eu também acho a mesma coisa.
quinta-feira, janeiro 29, 2004
 
Douce France
"Saddam Bribed Chirac": e se for verdade? Onde estarão os iluminados teóricos de cabalas e conspirações?
More Merde in France? See Merde in France, Super Flumina e Valete Fratres.
 
Sing another song
Muito bem, Daniel, excelente post: a entrevista do VPV é, efectivamente, uma coisa um pouco cabisbaixa. Já agora, explico de onde venho para dizer isto. Durante algum tempo, ao longo do meu período mais intenso de crescimento intelectual (que ainda não acabou, mas prossegue mais lentamente), o VPV foi para mim um ídolo. Primeiro, um ídolo historiográfico, graças ao livro O Poder e o Povo. O Poder e o Povo é um livro cheio de incorrecções, incompleto, apressado, onde o rigor é muitas vezes sacrificado à forma (coisa com o qual só tem a ganhar, de resto). Muito melhor, em termos de pensamento e compreensão do período da I República, é o livro do Rui Ramos, A Segunda Fundação. Seja como for, O Poder e o Povo é um dos grandes livros de história (e de ficção também, se calhar) portuguesa do século XX. O VPV foi, depois, um ídolo jornalístico, especialmente no período de ouro d’O Independente.
A sua última encarnação no DN já não me entusiasmava muito, mas o VPV mesmo em baixo de forma vale quase todos os outros colunistas portugueses juntos – o que não diz bem dele, mas simplesmente mal do jornalismo português. Esperemos para ver o que aí vem. Mas a entrevista ao DN é um mau sinal. A mim pareceu-me a rotina estafada de um artista de circo a quem já estão a cair as lantejoulas do fato. A mesma pose, as mesmas piadas, as mesmas ideias ruçadas, que foram engraçadas no Portugal subdesenvolvido dos anos 70 e 80, mas agora parecem elas próprias parte do mesmo subdesenvolvimento. A ver vamos. Custa-me sempre romper com heróis antigos. Mas a entrada não foi muito boa.
Termino só com uma coisa sobre ti, meu caríssimo amigo: dizes tu que gostavas de ouvi-lo dizer qualquer coisa que não esperasses ouvir dele. Também eu. Mas (e digo isto, ao contrário do que possas pensar - juro, juro, juro –, sem a menor malícia ou ironia) gostava um dia também de te ouvir a ti dizer coisas que não esperasse ouvir. És inteligente e tens jeito para alinhar palavras. Podias esforçar-te mais. E termino repetindo o meu pledge: isto não é ironia ou malícia.
quarta-feira, janeiro 28, 2004
 
Feira da ladra
A ONG (sigla que os brasileiros pronunciam “ongui”) americana Human Rights Watch considerou que a acção militar americana no Iraque não poderia ser justificada enquanto intervenção humanitária, nomeadamente por (e cito a mencionada ongui) “falhar cinco dos seis testes que definem uma intervenção humanitária”. O único teste que pode, “eventualmente” (palavras da ongui), ter sido cumprido é o de “o povo do Iraque ter ficado melhor” em consequência da dita acção militar. Cabe sempre perguntar se não valeria a pena pôr um sétimo critério do tipo: custo humanitário de não fazer nada perante um regime homicida como aquele.
Mas prescindindo agora de outros considerandos de ordem estatística (como, por exemplo, que ponderação atribuir à variável “volume de indivíduos fuzilados”, ou à variável “volume de indivíduos presos”, e de que maneira essa ponderação pode afectar o resultado dos testes, ou que ponderação pode ser dada à variável “povo ficou melhor” para se chegar à conclusão final), é interessante esta tendência actual de reduzir a arte da política (e da guerra também, que como se sabe é a continuação da política por outros meios) a uma espécie de tribunal científico, o qual depois se usa para extrair as mais extraordinárias consequências políticas. Por exemplo, toda a gente quer a prova provadinha de que o Iraque estava a abarrotar de armas químicas. Não se conseguiu provar até agora que estava. Daqui (que é uma conclusão de tipo técnico-jurídico do domínio da prova) faz-se o salto lógico seguinte: Blair? Bush? São uns mentirosos, enganaram deliberadamente o pobre povo do mundo. Que as armas possam ter sido enterradas, passadas para o outro lado da fronteira, destruídas um mês antes da guerra, que Blair ou Bush se tenha enganado e não mentido, nenhuma destas e outras hipóteses perpassam na cabeça do pessoal. E nem sequer se dispõem a discutir seriamente a verdadeira questão política relacionada com essas armas químicas (para além de todas as outras questões políticas que se recusam a discutir): existissem elas ou não agora por lá, a verdade é que não vão voltar a existir.
O mesmo se passa com a intervenção humanitária. Imagino a rapaziada da ongui lá em Nova Iorque a preencher formulários com cruzinhas: Sudão: “Ora, 100.000 mortos… ora, a dúzia do morto hoje está a … Eh pá, a quanto é que está o morto hoje?” Irão: (na alínea lapidação, excisão vaginal, castigos corporais sobre mulheres) “Passas-me aí o manual com o valor da excisão? Vá, rápido, rápido, que eu tenho que entregar esta xaropada ao Kofi logo às sete…”
Enfim, são estes e outros que enchem a boca com o humanitarismo, mas depois praticam a mais baixa ciência, o mais baixo direito, a mais corriqueira tecnocracia, a política mais baixota. Alguém leva aquilo a sério? “Ouve, um gaseado no Congo não vale um fuzilado na China… Eh pá, não me lixes, mete aí mais uns presos políticos, para ver se passa no teste, pá”.
sexta-feira, janeiro 23, 2004
 
É repugnante, sim senhor!
Do meu colega NG recebo esta pequena pérola que nos mostra a direita na mais repugnante das suas facetas:

Já tinha ouvido mas não queria acreditar. Esperei para ler hoje e ter a certeza. Disserta o nosso amigo Miguel Sousa Tavares sobre política de imigração. A sua crítica fundamental e fundamentada que aliás serve de letras gordas ao artigo é que, e cito o Diário Económico, "o PP é descarada e vergonhosamente contra a imigração clandestina." Pensava eu que com a excepção das máfias todos nós éramos descarada e vergonhosamente contra a imigração clandestina e a favor da imigração legal e legalizada. Pelos vistos, o nosso articulista, profundo estudioso destas matérias, tem uma outra visão do problema, e é descarada e desavergonhadamente a favor da imigração clandestina. É assim quando se faz conversa de café na televisão e nos jornais... Ou quando não se faz o trabalho de casa...
 
Twin Peaks-upon-Tagus
É constante nos filmes de David Lynch a obsessão pela anormalidade que se esconde dentro da normalidade, ou então pela anormalidade que convive desprezada ao lado da normalidade. Se exceptuarmos Dune, todos os filmes de Lynch (de Eraserhead e The Elephant Man até Lost Highway ou Mulholland Drive, passando por Blue Velvet e Wild at heart) giram em torno deste tema. Mesmo The Straight Story, na sua aparente normalidade, não é senão uma inversão perversa da perversidade tradicional de Lynch: nada no mundo pode ser tão normal, tão “straight” como Lynch o faz nesse filme. Um dos mais famosos momentos na carreira de Lynch foi a série de televisão Twin Peaks, onde, no cenário bucólico do estado de Washington, entre uma pequena comunidade rural, ocorriam as mais perversas relações humanas: quintessential David Lynch.
Enfim… O verdadeiro intelectual é o intelectual que se esforça. E vem este arrazoado pedante a propósito de uma actividade a que me dediquei ontem pela primeira vez: ver o Telejornal da TVI. Depois de uma, duas, três horas (quanto tempo exactamente demora aquilo?) em frente ao televisor comecei a dizer para mim mesmo: eu vivo em Twin Peaks e não me tinha apercebido. Afinal, eu levanto-me cedo, vou pôr a criança mais velha à escola, dou umas aulas, escrevo uns artigos (científicos e jornalísticos), blogo, almoço com amigos, volto para casa, às vezes saio para jantar ou ir ao cinema. Mas à minha volta sucedem-se eventos extraordinários. Uma amostra casual do Telejornal de ontem:
- Em Loures um homem foi parcialmente devorado pelo seu cão;
- Em vários pontos do país, indivíduos dados como mortos são levados para a morgue, acordando in extremis entre cadáveres dentro de um frigorífico;
- Foi desmontada em Esposende (repito: em Esposende) uma rede de tráfico de ecstasy;
- O Presidente Sampaio constipou-se em Vagos.
E poderia continuar ad infinitum: o freak show da TVI não tem fim.
E no final dele comecei mesmo a inquietar-me: se isto é todos os dias assim, alguma coisa está mal. Ou são os traficantes de ecstasy de Vila Nova da Barquinha que são os Homens-elefante desta história e de quem eu me rio, ou sou eu que sou o homem elefante, metido numa jaula de normalidade absolutamente risível para quem acabou de ver a sua perna comida por um cão.
terça-feira, janeiro 20, 2004
 
Ah ganda Zé!
Pois é JCD, se as obras do túnel do marquês pararem dá mesmo jeito. Mas o Zé, tázaver?, é advogado, e um gajo quando é advogado tem que fazer pela vidinha. E portanto um bocadinho de publicidade é coisa que não pode fazer mal lá ao escritório. Táza perceber a perspectiva do Zé: “eh pá, a malta não gosta do túnel, não é?, vai daí, pertantos, faz-se uma coisa contra o túnel – aquilo há-de ter ilegalidades, afinal todas as obras têm, não é? -, a malta acha que eu sou um gajo que me vou a eles, pá, que não tenho medo de ninguém, pá (quantos são? quantos são?), apareço na televisão e nos jornais, fico com uma ganda imagem, e é só clientela a pingar”. E realmente, se isto funciona com o Garcia Pereira (embora o Garcia Pereira faça a coisa subsidiada pelo Estado, na altura das campanhas eleitorais), porque não com o Zé?
segunda-feira, janeiro 19, 2004
 
Zeropa
Meu caro Bruno, não vou voltar a elogiá-lo em abstracto, porque já sabe como é, aqui na blogosfera há logo uns vigilantes que nos explicam que somos uns masturbatórios horríveis, e ficam logo abespinhados com esse género de actividade. Não sei porque assim é, mas devem ser pessoas que não acreditam na existência de elogios sinceros.
Seja como for, é mesmo como você diz. A Teresa d’Suza há já muito tempo que se instalou com a sua “valise de carton” num ponto qualquer do eixo Paris-Bruxelas. Como você nota muito bem, esta ideia de que há uma Europa unida e que andam aí uns mauzões americanos ou americanóides a querer dividi-la, é uma retinta asneira. A essência da Europa (feliz ou infelizmente) é mesmo estar dividida, coisa que eu tentei dizer num artigo que escrevi há uns tempos para O Independente (não está on-line). A essência da Europa está nas posições muitas vezes não coincidentes (noutras sim) sobre diversos assuntos, nomeadamente em matéria de política externa, onde justamente é mais difícil substituir as várias políticas externas por uma só. A Europa faz-se através da afirmação do interesse nacional dos vários países e não através de um projecto abstracto de superação desse interesse nacional, uma espécie de entidade nascida do nada que se afirmasse no mundo. De resto, quando um país aparece a falar em nome d’A Europa (como o Sr. Raffarin no artigo do Público no outro dia) é melhor começar a descascar a coisa, para ver qual é o interesse que está por trás. Ora o interesse nacional francês toda a gente sabe qual é: dominar a Europa, afirmar-se, ao mesmo tempo que mantém a Alemanha debaixo da asa e a Grã-Bretanha à distância – os outros países não interessam muito, embora entrem na equação de uma maneira ou outra. Tal como você muito bem diz também, a Europa dividiu-se espontaneamente sobre o Iraque, sendo que nesse episódio, porém, a França e a Alemanha mostraram a mais triste das arrogâncias. Quando os EUA mostraram determinação em fazer a guerra, a França e a Alemanha trataram logo de dizer, sem consultar ninguém, que a “posição d’A Europa” era contra. Mas qual Europa? Alguém lhes passou procuração para falarem por todos nós? Este magnífico episódio acabou inclusivamente com o Sr. Chirac a ralhar aos países com vontade de aderir que estavam a favor da guerra, dizendo-lhes que tinham “uma boa oportunidade para ficar calados”.
Quando escrevi o tal artigo houve alguns amigos que me perguntaram se eu era anti-europeísta. Eu respondi que muito pelo contrário. Mas, ao invés do que eles pensam, a Europa não é esta Coisa que os seus auto-proclamados defensores dizem que é. Todos os europeístas têm que perceber uma coisa muito simples: se há algo que mais contribui para a não-construção da Europa é a percepção de que ela existe para além da afirmação da vontade expressa ao nível do continente pelos diversos estados. A Europa só pode ser feita dessa maneira e pelo caminho há-de sempre haver motivos para uma certa refrega.
sexta-feira, janeiro 16, 2004
 
Chamem os homens de branco!
Agarrem-no à cama, prendam-lhe os braços com ligadura, dêem-lhe aquele sedativo para casos agudos e depois aguentem um bocado: a ambulância está quase a chegar.
quarta-feira, janeiro 14, 2004
 
De pé, oh vítimas do consumo
Leio no Público e interesso-me: o PCP tem uma loja virtual. Acho, sem mais, uma boa ideia: afinal, para um partido virtual o mais adequado é mesmo uma loja virtual. Percorro os items expostos e parecem-me todos muitos interessantes. Há talvez um certo excesso de gadgets derivados do painel mural colectivo existente na sede do partido ali à Rua Soeiro Pereira Gomes, talvez demasiados vídeos e livros dedicados ao 25 de Abril de 1974. Mas já a presença, entre as obras expostas, do Livro do XI Congresso do PCP ou do Programa/Estatutos do PCP me parecem extraordinários achados de marketing. Sem querer meter a foice em seara alheia (não sei se perceberam a alusão…), talvez fizesse mais algumas sugestões de objectos a disponibilizar pela loja. Apenas alguns exemplos:
- Sapatos de Krutchev: tratar-se-ia de réplicas do famoso sapato com o qual o antigo secretário-geral do PCUS martelou as bancadas da ONU;
- Para nos mantermos na mesma época, réplicas do relatório do mesmo Krutchev ao XX Congresso do PCUS, no qual ele conta aquela famosa anedota segundo a qual 10 milhões de pessoas teriam sido mortas pelo regime entre os anos 30 e 50;
- Réplicas do famosos tanques das séries T, BT e IS que reclamaram para a liberdade a Hungria e a Checoslováquia em 1955 e 1968.
- Kit eleições soviéticas: tratar-se-ia de um boletim de voto com os vários candidatos e uma caneta de tinta invisível, deixando o sentido do nosso voto ser livremente (daí a liberdade…) interpretado pelos escrutinadores do acto eleitoral;
- Pack Vida Soviética: colecções inteiras da famosa publicação onde pontificavam operários, camponeses, soldados e reformados em pose sorridente;
- Machado Trotsky: seria um objecto um pouco ao estilo do canivete suíço e constituiria no fundo uma réplica do machado com que Trotsky foi acidentalmente atingido (cuidado Prof. Freitas) no México em 1936;
- Action Leaders: bonecos ao estilo action man, com Lenine, Estaline, Fidel, Ho Chi Mihn, etc.. Cada boneco teria as suas armas especiais e roupas adequadas às mais diversas circunstâncias – reunião do presidium, visita ao gulag, verficação de fuzilamento, etc.;
- Balsas: (para uso das crianças nas férias do Verão) réplicas em tamanho real dos pequenos barquitos usados pelo feliz povo cubano para fazer as suas férias no Mar das Caraíbas;
- Kit Internet cubana: vender-se-ia em packs tipo Sapo (com banda larga e tudo), dando acesso à especialmente vasta rede de Internet cubana;
- Korean Nukes: tratar-se-ia de uma banda de jovens comunistas de múltiplas nacionalidades interpretando versões techno e house de êxitos como Avante Camarada, A Internacional, o hino da URSS, ou então peças instrumentais com samples de José Carlos Ary dos Santos a dizer poesia.
Enfim, há tanta coisa, caros camaradas… Pick and choose. E se quiseram uma consultoriazinha de marketing, sempre ás ordens.
segunda-feira, janeiro 12, 2004
 
Grandes cromos
Na SIC Notícias de domingo vejo uma reportagem sobre um dos mais recentes divertimentos infantis na Cisjordânia: uma colecção de cromos com bombistas-suicidas e eventos terroristas. A iniciativa não é privada, mas da própria Autoridade Palestiniana. Trata-se de criar modelos para comportamento futuro das crianças palestinianas. É sempre bom apontar às novas gerações exemplos de vidas bem sucedidas e, sobretudo, completas.
Imagino as criancitas a correrem à tabacaria mais próxima para comprarem nova caderneta e a trocarem cromos repetidos com os amigos. Penso até que há aqui espaço para uma significativa expansão do negócio. Eu lembro-me, quando pequenito, de esperar ansioso a semanada para comprar cromos que imortalizavam os remates explosivos de Eusébio (em fim de carreira, é certo), o drible incendiário de Jordão, os inflamatórios golos de Yazalde, as defesas fogosas de Damas, os voos fulminantes de Conhé ou as cabeçadas ardentes de Hilário. Também no Médio Oriente se poderia expandir a actividade, partindo dos cromos para um campeonato desportivo. Teríamos, por exemplo, um campeonato regional de ataques a objectivos israelitas, ocidentais ou iraquianos em que existiriam equipas como os “Baghdad explosives”, os “Ramallah Chemicals”, os “Fallujah Blow-uppers”, os “Beirut Blow-jobbers” ou os “Ryad Dynamites”, as quais disputariam o concurso dos fantásticos Ali “the Scud”, Anwar “Grenade” Husseini, “Missile” Ahmed ou “Mustard Gas” Ibrahim. Tudo rematado com um programa de comentário ao domingo, chamado “Domingo Explosivo”, com apresentação de Cecília Carmo Armadilhado. Hã, não digam que isto não é contribuir para o advancement da causa palestiniana…
quinta-feira, janeiro 08, 2004
 
Os Paulos Coelhos dos ricos
Celso, não quero entrar em mais uma daquelas polémicas intermináveis em que vocês aí na vossa tasca têm a mania de me meter (se não fossem meus amigos não vos dedicava nem metade da atenção que dedico – não é por mais nada, mas é que o meu tempo é escasso e precioso), mas digo mais qualquer coisinha sobre este assunto.
O Luiz Pacheco não tem grandes livros? Eu acho que tem. São, como ele bem diz na entrevista, sobretudo “colecções de artigalhada”, mas coisas como os Textos Malditos ou os Textos de Circunstância ou O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor ou Comunidade, são grandes coisas na literatura portuguesa. Também o Jorge Luís Borges, um dos maiores escritores de sempre da humanidade, nunca escreveu mais do que contos e poemas.
Já o José Saramago ou o António Lobo Antunes, eu gostava de conhecer um grande livro deles (para além dos livros grandes que cada um tem). Tu achas francamente que qualquer deles é um grande escritor?
A oposição deles ao Pacheco era obviamente um pouco retórica, mas queria dizer qualquer coisa. Podia, se viesse a jeito, opô-los ao Carlos de Oliveira ou ao Vitorino Nemésio, autores que tanta gente não leu, ao mesmo tempo que devora cada coisa nova (?) com que os outros dois nos brindam todos os anos. O efeito deles na presunção de cultura dos portugueses é algo que mereceria mais atenção. Sem estar a exagerar muito, eles são uma espécie de Paulo Coelho ou Margarida Rebelo Pinto das Classes A e B (coisa que o Público também é para os jornais, por exemplo). Assim como a rapaziada menos culta do subúrbio se convence de que lê literatura com Paulo Coelho ou Margarida, também a rapaziada mais letrada lê os nossos José e António e considera cumprida a sua obrigação cultural. Isto fá-la, para além disso, pensar-se habilitada a dizer que é culta e a não ler praticamente mais nada.
Não tenho nada contra isto, cada um lê o que quer. Para mim pessoalmente, a meia dúzia de livros de cada um que li (por mero escrúpulo de opinião) foram experiências penosas que não aconselho a ninguém. É como digo: cada um lê o que quer. Mas não me obriguem é a achar aquilo grande literatura.
quarta-feira, janeiro 07, 2004
 
Entrevistas de Circunstância
O Pedro(AS) já mencionou, mas eu cauciono. Como o Pedro(Oliveira) diz que eu digo, façam um favor a vocês mesmos e leiam a entrevista de Sua Excelência Libertina Luiz Pacheco ao DN de hoje. Há quem nunca tenha lido um texto desta criatura abjecta mas gaste o seu precioso tempo com as sucessivas parvoíces de Saramago ou Lobo Antunes. Isto é como tudo: também há quem tenha ouvido e tenha gostado do último disco de Luís Represas. Uns breves excertos da entrevista, apenas para melhorar o aspecto do blog:

“Ao pé de Agustina, falar de Saramago é como falar do cão…”

P: As suas histórias com adolescentes, hoje, fariam condená-lo por pedofilia.
R: Ah, pois! Ia preso. Mas a miúdas eram mais adultas do que eu, não havia pedofilia nenhuma.”

“No caso em que fui condenado por estupro, eu tinha 17 anos e a rapariga 14, sexualmente feita: era a estopa ao pé do lume. Ardia.”

P: Foi pai de quantos filhos?
R: Sete e meio: um não sei se é meu.”

P: Quando tinha afinidades intelectuais não tinha atracção erótica?
R: Nas raparigas eu gostava era do natural, primitivo.
P: Do PCP ainda gosta?
R: Já não tenho idade para isso. Foi uma ilusão de época.”
segunda-feira, janeiro 05, 2004
 
Justiça de bancada
2004 começou bem: o Sporting deu uma justíssima abada ao Benfica e recomeça o Carnaval Casa Pia (yessss!!!). Neste último caso as razões para nos regalarmos são inúmeras. Todo o mundo fez a sua operação de mudança de sexo. Jornalistas que se comportam como políticos, políticos que se comportam como jornalistas, políticos que se comportam (está bem, não é novidade…) como anormais, jornalistas que se comportam (idem) como anormais, advogados que se comportam como jornalistas, advogados que se comportam como políticos, jornalistas que se comportam como advogados, amigos de advogados que se comportam como psiquiatras, arguidos que se comportam como santinhos, e toda a gente a comportar-se como taxista, sentindo-se no direito de mandar o seu belo e autorizado bitaite sobre cartas anónimas, nomeações de juízes e prazos de prisão preventiva. É um novo e grave choque sobre a sociedade portuguesa, que ainda mal tinha recuperado do lançamento do último disco de Luís Represas.
 
Resolução de novo ano
A vida está difícil para todos, e para mim também. A sociedade, a humanidade, o SIS, o processo Casa Pia reclamam a minha participação. Não posso recusar. São ponderosos valores que se alevantam. Sou conduzido a fazer uma resolução de novo ano:
Tenho de deixar de alimentar o blog numa base essencialmente quotidiana. Vou passar a fazê-lo três a duas vezes por semana. Isto se exceptuarmos eventos momentosos que sejam dignos de comentário mais urgente: mudança de suporte das mensagens de Osama (da K7 para o CD ou o DVD multirregiões), eleição de Miguel Portas para o Parlamento Europeu ou lançamento de um novo disco de Luís Represas.

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