O Comprometido Espectador
sexta-feira, fevereiro 27, 2004
 
O capuchinho e a loba má
Uma das heroínas do “novo” feminismo, Naomi Wolf, escreveu recentemente um artigo onde acusava um antigo professor seu, o famoso crítico literário Harold Bloom, de assédio sexual. Tudo se terá passado nos anos 80. Wolf era então uma jovem estudante universitária, Bloom uma celebridade internacional. O dito assédio terá constado de uma mão de Bloom na coxa de Wolf. Desconheço se esta última peça anatómica é realmente irresistível ou não, uma vez que só vi fotografias de Wolf do pescoço para cima. Mas admitindo que era irresistível, cumpre notar que o episódio teve lugar a sós, à noite, em casa de Wolf, depois de esta ter convidado Bloom a entrar. Exactamente o que é que cada um pretendia quando entrou naquela casa? Não sei muito bem. Que sinais deu Wolf a Bloom ao longo do episódio, e vice-versa? Também ignoro. Imaginemos que Bloom se convence ao fim de algum tempo de que aquilo era “mesmo o que parecia”. Lá lança a patucha. Francamente, não me parece boa ideia, dado o estatuto institucional de cada um. Mas, quiçá, dali não poderia nascer mais uma clássica história de amor entre professor e aluna.
Seja como for, o que importa é o que passou a seguir. Será que Wolf repeliu a mãozorra de Bloom? Se sim, o que fez ele? Retirou-a e pediu desculpa? Teve o episódio consequências directas para a carreira estudantil de Wolf? Ela diz que sim. Que desde esse dia entrou numa espiral descendente na qual ainda vive. Note-se que desde esse dia, Wolf teve uma excelente carreira académica, uma excelente carreira de articulista, uma excelente carreira de autora de livros, um casamento feliz (na confissão da própria), dois filhos e uma bela conta bancária. Será certamente um novo conceito de “espiral descendente”. Daqui resulta uma ideia triste: como este “novo” feminismo, que parecia liberto da velha conversa “vitimista” do feminismo de antanho, volta a colocar tudo no ponto de partida. Ou talvez mais atrás: antes do ponto de partida. A mão na coxa destruiu a estrutura mental da senhora? A isto não se chama vitimização. Chama-se histeria.

Ler também este artigo de uma senhora um pouco mais calma.
quinta-feira, fevereiro 26, 2004
 
Ainda a Espanha: glamour
A 1 de Fevereiro de 1908 D. Carlos Fernando Luís Maria Victor Manuel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Bourbon Saxe Coburgo Gotha, 32º rei de Portugal, 18º rei dos Algarves de aquém e de além-mar em África, senhor da Guiné, da conquista e da navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia e grã-cruz das Ordens Militares, caiu assassinado em pleno Terreiro do Paço. E assim acabava a monarquia em Portugal. É verdade que ainda houve mais um rei, D. Manuel II (o sobrevivo – ainda que ferido – do atentado de 1908), mas apenas por dois anos e em regime de morte ambulante.
Perante isto, esqueçam as conversas sobre a superioridade espanhola. A nossa monarquia ao menos acabou em grande estilo, com balas e sangue. A de Espanha vai acabar às mãos de uma antiga apresentadora de telejornais. Daqui não se espere glamour. É que o sexo (não sei se repararam) já não tem glamour. Aquilo que vamos ter, na morte da monarquia, será apenas o relato burocrático e multitudinário (nalgum tablóide) da animação da(s) alcova(s) reais.
 
A península das oportunidades
Estou com o nosso primeiro-ministro: "a Espanha não deve ser vista como uma ameaça, mas como uma oportunidade". E para prová-lo, cá está o nosso correspondente no coração da península, com mais uns faits-divers no aquecimento para as eleições. É belo ver a Espanha una a desagregar-se ao sabor das alianças necessárias para manter o poder central:

Certamente os leitores deste blog, que leram o meu anterior post, em que no final dizia que o PSOE iria afirmar que há um pacto entre a ETA e o PP, devem ter pensado que estava a exagerar, ou que era excessivamente faccioso. A realidade quase sempre ultrapassa a ficção, e então a realidade política ultrapassa tudo e todos. Deixo, por isso dois pequenos apontamentos:
- O socialista José Blanco (braço direito de Zapatero nesta campanha eleitoral) entrevistado na televisão, a propósito de uma queixa que irá apresentar contra a TVE, por suposta manipulação de informação desta, aproveitou o tempo de antena que lhe foi dado para insultar Mariano Rajoy, o que vindo de quem vem é normal, acusando ainda o candidato popular de que “hay ayudado a ETA a entrar en campaña para ganar un puñado de votos”
- O presidente da Junta da Extremadura , Rodríguez Ibarra, destacado elemento do PSOE, declarou que Pasqual Maragall deveria retirar do seu governo todos os elementos do ERC, e não só o seu líder Carod-Rovira. No entanto, 2 dias depois, em entrevista à televisão, apoia incondicionalmente Zapatero, dizendo que fez muito bem em não impor a sua autoridade na Catalunha, o que acabaria com o pacto PSC-ERC. Mas isto é o menos, disciplina partidária oblige. O que não quero deixar de partilhar convosco é este raciocínio brilhante, que mais adiante expôs: o comunicado da ETA (transcrevo)“ha logrado que recupere el habla (refere-se a Mariano Rajoy), después de de 16 dias, y eso es porque electoralmente le interessa el assunto ETA”. Pelo que conclui: “ si a Rajoy le beneficia el asunto de ETA, todo aquel que vote a Rajoy está beneficiando a ETA”. Comentários para quê?

quarta-feira, fevereiro 25, 2004
 
Óleo e comida
A cada dia que passa parece confirmar-se: existia até ao repugnante blitzkrieg aliado no Iraque um belo esquema de enriquecimento de um grupito avulso de criaturas, sob os auspícios das angelicais Nações Unidas. Esse esquema recebeu o nome de “Oil-for-Food Programme” e destinava-se, em teoria, a evitar as piores situações de escassez no tempo das sanções. Ao que parece, destinou-se, na prática, a criá-las e agravá-las, enriquecendo ainda mais o homem do buraco de ratazana e alguns amigos. Não bastava a burocracia humanitária paga aos milhões. Não bastavam as reuniões, comissões e assembleias que nada decidem. Não bastavam aqueles soldados com uns capacetes apatuscados que vão para os mais diversos sítios em “missões de paz” para assistir a massacres ou fugir quando as coisas pioram, parece que afinal a ONU também patrocina a criatividade. Nomeadamente, a criatividade na contabilidade. Compreende-se. É por uma boa causa: a contabilidade é uma coisa tão chata que convém torná-la criativa. Mesmo que mais uns milhões fiquem sem comida ou um tirano não saiba já muito bem o eu fazer com ela. Detalhes? Aqui.
 
Na Europa, o Carnaval é quando um homem quiser
Parece que a União Europeia ajuda a causa do povo da Palestina. Sim, com dinheiro, e não apenas apoio moral. O dinheiro é entregue directamente à Autoridade Palestiniana. Dados os ínfimos níveis de corrupção desta e a geral boa-fé do líder dos 50 massacrados em Jeningrado, adensa-se a ideia de que muita da rapaziada do plástico ande a beneficiar do metal. Não faz mal, é Carnaval, e tudo isto é banal. São apenas bombas que cheiram mal. E, no fundo, Carnaval é quando um homem quiser. O dinheiro veio do meu (literalmente meu) bolso? Umas largas centenas de israelitas morreram no último ano graças (também) à minha contribuição para o orçamento comunitário? Resta-me agradecer ao Senhor Solana e Cia. o privilégio. Quais guerra no Iraque quais quê!!! Isto sim é contribuir para o progresso no Médio Oriente.
Esta e outras histórias graças aos blogs europeus e ao excelente Denis Boyles.
quinta-feira, fevereiro 19, 2004
 
Joder, esto si es un corresponsal!
Vivem-se na (por enquanto) Espanha una eventos momentosos.
Demonstrando o acerto da contratação de Rossé Luís Liencastre para correspondente do Espectador em Madrid, eis mais um relato seu dos eventos do dia, merecedor de leitura atenta:

Os jornais de hoje (ABC, El Mundo e El Pais) apresentavam todos na 1ª página a notícia do pacto que ETA fez com Carod-Rovira , líder do partido Esquerra Republicana de Cataluña (ERC), no sentido de não cometerem atentados na Catalunha, e que foi ontem divulgado pela ETA, através da televisão pública do País Vasco.

Tudo começou quando o diário ABC, em 26 de Janeiro, informou, em exclusivo, sobre as negociações entre Carod-Rovira e a ETA. O próprio apressou-se a confirmar tal reunião, mas invocou que a mesma se destinou para pedir a paz em Espanha, e não só na Catalunha. Em contrapartida o lider de ERC fez uma declaração a favor do “direito do povo vasco à autodeterminação”.

A divulgação deste pacto pela ETA, neste momento, veio causar graves problemas ao PSOE; não nos esqueçamos que o Partido Socialista da Cataluña (PSC) está no governo graças ao acordo que tem com ERC.

Pasqual Maragall, líder do PSC, deu 24 horas à ERC para resolver este assunto, que seguramente passará com a saída de Carod-Rovira do governo. Mas quanto à coligação, tudo se mantém, por supuesto, hombre!

Rodriguez Zapatero lider do PSOE, depois de se pronunciar contra o acordo, acusou o PP de tentar utilizar eleitoralmente o comunicado da ETA.. Isto porque o presidente do Governo, Aznar, recordou que o pacto anti terrorista que subscreveram PP e PSOE em 2000 não se compadece com o acordo existente na Catalunha entre o PSC e a ERC

Bom, a procissão ainda vai no adro, e muito ainda está para acontecer, por isso não me admiraria nada que, no final, mais uma vez, se venha a verificar a teoria da cabala, da conspiração e não sei mas quê e o PSOE venha dizer que o que realmente se está a passar, e a prejudicar o normal funcionamento das instituições democráticas etc., etc (a música é a mesma em toda parte) , é um acordo secreto que existe entre a ETA e o PP!

Cá estamos para ver.

 
Não repararam na novela?
Ambos dissertam sobre o mesmo tema. Ambos usam a mesma metáfora. Um, diz-nos que “o país quer circo e hoje dois espectáculos estão garantidos: o da política com Santana Lopes e o do futebol com o Euro. […] Muito circo, pouco pão”. O outro, “não consigo fugir à moral desta história de circo onde falta o pão”. Um defende a candidatura de Cavaco no Diário da Manhã da Esquerda Nacional, o outro é da Esquerda Nacional e escreve no Boletim de Candidatura de Cavaco à Presidência. Será possível interpretar estas coincidências? Eu, muito francamente, não sei o que dizer.
 
Chacrinha continua animando a dança
Parece que se demitiram três assessores de Gilberto Gil. Devem ter sido o percussionista, o teclista e o baixista.

 
Helena Roseta, a videastia e o deslumbramento dos lugares
Eduardo fala-nos hoje da Casa dos Dias da Água, um “lugar” que é um “deslumbramento”, e onde terá participado num colóquio sobre “a obra e o processo de criação”. Reuniram-se pessoas de vários tipos, “poetas, críticos, psicanalistas, psiquiatras, gente de teatro, fotógrafos, videastas”. Vide-quê? Ouve-se, legitimamente, perguntar. Étimos é coisa mais para a Charlotte, mas se bem identifico a origem da palavra, parece-me que a “videastia” se deverá contar entre as piores perversões sexuais. Adiante, cada um sabe o que fazer com os seus vídeos. Mas parece que algo ameaça a continuidade destas actividades na dita casa, o que leva Eduardo a perguntar-se se não será “possível fazer alguma coisa por um lugar tão deslumbrantemente assim?”
Talvez. E há bons exemplos disso mesmo. Repare-se noutro “lugar tão deslumbrantemente assim”, o Partido Socialista. Já sabemos, a coisa vai mal. Vai daí, um conjunto de militantes ou próximos decide juntar-se num “Clube” a que deram o nome de “Cidadania e Liberdade”. É bonito, o nome. E acresce ter motivos nobres, nomeadamente, o de combater o “afunilamento da vida partidária”. E quem pretende perseguir tão digno objectivo? As seguintes pessoas: Helena Roseta, Ana Benavente, Manuel Alegre, Alberto Martins, João Cravinho, Vera Jardim, Medeiros Ferreira, Jorge Lacão e Jorge Strecht. Eu tenho a certeza que isto não corresponde ao “afunilamento da vida partidária”, pela razão simples de que Manuel Alegre, Vera Jardim ou Jorge Lacão são eles próprios o “funil” de que falam, daqueles de latão com mossas e tudo. E doutra coisa tenho a certeza: são eles os protagonistas mais justos para que o PS continue a ser um lugar “tão deslumbrantemente assim”.
quarta-feira, fevereiro 18, 2004
 
Felizmente pouco intermitente
Entretanto, esqueci-me de dar os parabéns ao Miguel pelo primeiro aniversário do (felizmente pouco) Intermitente. A seguir àqueles três gajos, o Miguel era o gajo que eu primeiro espreitava nas minhas primeiras visitas blogosféricas. Era sempre reconfortante ter a jornada pontuada por pensamentos do dia tirados da obra do one and only, lord, master and commander of us all, His Highness Friederich A. von Hayek.
 
Rumsfeldiana
Eis, via Jay Nordlinger, mais uma das muitas contribuições de Donald Rumsfeld para a clarividência do debate político:

Just when I think I like Donald Rumsfeld a little too much — that I've gone a little bit overboard — something occurs that makes me think, "No, actually — I may have undervalued him."

One of the beautiful things about him is that he refers to the West Bank and the Gaza Strip as "the so-called occupied territories." (For all I know, he uses "Judea" and "Samaria" when doors are closed!) But I'm thinking now about something else. At the recent conference in Munich, Rumsfeld was asked why the United States doesn't make a fuss about Israeli nuclear weapons. We're supposed to be against nukes, right? Why don't we go after Israel?

Replied the secretary of defense: "You know the answer by yourself, and the whole world knows the answer. Israel is a small country with a small population. It is a democracy, but exists among neighbors who want to see her in the sea. Israel has made it clear that she does not want to be in the sea, and as a result, over several decades, has organized in such a manner as not to be thrown into the sea."

Savor it now, ladies and gents, for we will probably never — ever — see the likes of this fellow, in an office this key, again.

 
Dispatch from Madrid
Inicia hoje a sua colaboração, tão ansiosamente esperada, o nosso correspondente em Madrid José Luís Lencastre. O José Luís (Rossé Luíss, em espanhol) faz uma pequena nota com toque humorístico, que nos devolve ao ambiente de pré-campanha no país vizinho:

O bom do Zapatero quer tanto ter um debate televisivo com o Mariano Rajoy que se propôs, através do coordenador da sua campanha (José Blanco), dar a uma ONG 50% do orçamento da sua campanha eleitoral. O orçamento da campanha é de 10,5 milhões euros, pelo que o donativo seria de 5,25 milhões de euros. O engraçado da questão é que veio logo um colaborador do dito senhor Blanco dizer que não era bem assim, porque havia gastos que não se podiam cortar, e mais isto e mais aquilo, e então ficava o dito donativo em 1,95 milhões de euros. Além disto ser tudo propaganda eleitoral para deitar poeira para os olhos de alguns eleitores, é para mim óbvio que ao Mariano Rajoy não lhe interessa nada um debate televisivo com o Zapatero. Este não tem nada a perder, e todos sabemos que os debates em tempo de eleições são uma algaraviada em que o que interessa é esmagar o adversário a qualquer custo. E depois vem a questão da fotogenia em TV (desde o célebre debate Nixon vs Kennedy que os directores de campanha sabem o que é isso) e aí o Zapatero (o bambi, como lhe chamam os comentadores do ABC) teria alguma vantagem sobre o Mariano Rajoy.
Mas a pré campanha do PSOE também começou com flamejante logotipo, ao estilo das campanhas dos EUA, ZP (Zapatero Presidente), que se prestou ao maior dos gozos pelos comentadores do ABC. Desde logo Zapatero perde até uma série de outras hipóteses para o significado da letra p, algumas delas bem forte. E o vice primeiro ministro, Rodrigo Rato, no Domingo, na reunião de apresentação das listas do PP, referiu-se sempre ao Zapatero por ZP.

 
A long, long time ago
Há muito, muito tempo (um ano?) encontrei-me como o meu amigo Miguel Maduro no restaurante do local onde ambos à época trabalhávamos. Diz-me o Miguel: “já viste esta coisa dos blogs?” Ao que lhe respondi que “sim, já tinha visto”, e que achava graça “àqueles três gajos” (percebam o carácter coloquial do vocabulário, é conversa de hora de almoço). “Não conheço nenhum dos gajos”, disse eu, “mas acho piada às coisas que um deles escreve n’O Independente”. “Eu conheço um dos gajos”, disse o Miguel. “Um tipo muito esperto”, concluiu. E perguntou a seguir: “não queres abrir um blog?” A minha resposta foi: “Assim de repente, não sei, nunca me passou pela cabeça”. E o Miguel: “Vamos a isso. Tu deves ser bom para aquilo, com a tua arrogância intelectual”. “Arrogância intelectual??!!”, “Eu??!!”. Enfim, não se pode considerar um grande elogio, mas se era bom para blogs, tudo bem, era bom para blogs.
Os meses passaram, não abríamos o blog e eu cada vez mais viciado na leitura “daqueles três gajos” e mais algumas coisas que gravitavam pela blogosfera. Comecei eu a ter vontade de o abrir. Só que ao Miguel, entretanto, correu-lhe bem a vida (não vos digo qual foi o último carro que o vi a conduzir) e deixou de ter disponibilidade (e mesmo possibilidade) de fazer uma coisa semelhante. Entretanto, sigo on-line o fim “daqueles três gajos”. E falo com o Miguel. “Olha”, diz-me ele, “se queres saber mais fala com o gajo que eu conheço. Tens aqui o telefone”. Falei com o gajo e (para além de outras coisas que não divulgo) ele encorajou-me a abrir um blog. Coisa que fiz. Entrei para este mundo sem conhecer ninguém, excepto o tal gajo e um célebre itálico do Blog de Esquerda. Durante muito tempo senti-me completamente sozinho neste meio, apesar das recepções simpáticas que outras pessoas logo na fase inicial me foram fazendo, em particular os irmãos Noronha. Mas, se queria um ombro blogosférico, era para o tal gajo que me virava. E assim foi durante meses. Entretanto, muitas coisas mudaram. Na minha vida, em especial. O tal gajo não sabe, mas ele foi um dos meus padrinhos blogosféricos, não só por me ter aconselhado a abrir o blog, mas também por ser aquele amigo que te leva a um bar esquisito pela primeira vez e tu ficas à espera que te diga os segredos da casa. Entretanto, autonomizei-me do padrinho. Mas não esqueço esses momentos iniciais desta minha carreira. É por isso que me entristece a partida do Pedro Lomba do meio para o qual entrei, em boa parte, por sua causa. Um abraço e vamo-nos vendo por aí.
sexta-feira, fevereiro 13, 2004
 
The first cut is the deepest
Eis aqui uma bela história, com várias coisas a ensinar:
1) O número diário médio de visitas ao meu blog é idêntico (ligeiramente superior, vá lá) ao de um blog de adolescente americano. Considerando que ainda não abandonei completamente aquele ciclo da vida, sinto-me recompensado;
2) Como a blogosfera pode vir a salvar a juventude (tomem-me como exemplo!), especialmente dos disparates aprendidos da boca de muitos professores de liceu. O problema é quando alguns desses professores de liceu (os que ainda são e os que deveriam continuar a sê-lo) abrem os seus blogs...
quinta-feira, fevereiro 12, 2004
 
O Portal Místico
Entretanto, enquanto as energias cómicas (ou será cósmicas?) se concentram no desenterramento das pérfidas armas de destruição de Babilónis, o evanescente Principal do Quadrante 9, as Forças do Bem planeiam uma expedição à Interzona Olissipo, para nela instalarem o celeste Portal Místico (consultar aqui o Boletim local). Sob as indicações transtemporais de Meishu-Sama (isto é, o Senhor da Luz), o etéreo Portal (ou Paraíso Messiânico) constituirá o imprescindível escoro da disseminação da Mensagem do Johrei. O Amatsu-Norito será difundido publicamente e, graças ao poder vibratório dos seus fonemas, destruirá todos os Pontos Móveis e Bases Translógicas do maléfico Déspota Intergaláctico. Os habitantes da Interzona passarão então a dominar os princípios da técnica johrei na sua integralidade. Basta apontar a palma da mão para outro habitante do cosmos e dela jorrará imediatamente uma corrente de energia com capacidades terapêuticas (voltar a consultar aqui o mencionado Boletim). Para facilitar a aterragem da Estação espacial BE-NUTS-000-000 na Interzona está já a ser construído um túnel numa das suas colinas, promovido pelo Regente Supremo local. Abra-se o Portal Místico! Entremos no Cosmos da Realidade Paralela!
 
Money for nothing
Enquanto o corrupto Sharon é investigado pelas "democráticas" instituições do corrupto Estado de Israel, a Sra. Arafat tem que ser investigada por tribunais franceses: contas na Suiça, estranhas transferências e fundos de proveniência ignota (vem no Público, não tem link). É de notar que a senhora é esposa de um indivíduo que foi recentemente listado pela Fortune como constando entre as 100 maiores fortunas pessoais do mundo. Como ele passa a maior parte do seu tempo a tremelicar lá na Mukata e tem poucas oportunidades para usar o capital, não custa muito adivinhar para onde é que ele se dirige... Percebem agora a escassez de plástico nos mercados mundiais?
 
Loura Burra
Parece que se foi de vez o amigo de Hillary Clinton (ooohhh...) e vamos mesmo ter que ficar com o amigo de Jane Fonda.
quarta-feira, fevereiro 11, 2004
 
By the rivers of Babylon
Ninguém me perguntou nada, mas na eventualidade disso acontecer, eslareço desde já: não me incomoda absolutamente nada o facto de até agora não terem sido encontrados "stockpiles" ("stocks", "pilhas": esta qualificação é importante), chamem-lhe o que quiserem, de armas de destruição maciça no Iraque. Não foi essa a justificação que dei para apoiar a guerra. Quem assentou o seu apoio nesta razão tem realmente esclarecimentos a fazer.
Estava para não me pronunciar sobre este assunto, irrelevante para mim depois de já ter escrito vai para quase oito meses a minha primeira opinião sobre ele. Está aqui a dita opinião, façam o favor de ler. É o quarto de uma série de cinco posts dedicados a discutir um artigo então escrito por José Pacheco Pereira, e também já tive oportunidade de há dois meses atrás, numa discussão semelhante, remeter para lá. Apenas regresso ao tema porque me confrontei com a paciência infinita do Miguel Noronha e do maradona em voltarem a explicar as coisas direitinhas. Era só para subscrever.
Quanto às acusações de desonestidade intelectual que agora é moda lançar sobre o parceiro do lado a respeito deste assunto, seria bom guardá-las na sacola. A mim não são certamente dirigidas. Mas quem sabe se não poderão ser dirigidas a alguns daqueles que as proferem? Para citar o premonitório ex-Presidente Soares: pela boca morre o peixe.
terça-feira, fevereiro 10, 2004
 
Um poster
Ricardo, a decisão é excelente. Mas fiquei preocupado com alguns elementos do resto da encomenda.
Barbra Streisand, sim: quem não recorda com saudade monumentos corny como A Star is Born ou Yentl... E acresce que a senhora foi contra a guerra do Iraque e adora Paul Krugman, Bill Clinton e Howard “Yeeeeaaaarrggghhh” Dean. Casa tudo bem. Já fui acusado algures por aí de fazer parte de uma “certa direita estética”. Independentemente do que isso signifique exactamente (ilustrem-me, por favor), temos aqui um inequívoco caso de uma “certa esquerda estética”: Barbra “Funny Girl” Streisand, Paul “Bush lied” Krugman, Bill “blow job” Clinton e Howard “we’ll win in New Hampshire” Dean compõem um notável ramalhete de foleirice. É o trash no seu estado mais puro. Vale a pena contemplar e rir.
Já Norah Jones, não: é um mero pop-jazz delicodoce, a resvalar muito para o new age. Cantiguitas engraçaditas, muito suavezitas, muito para casalinhos agarradinhos e outras coisitas… Claro, a moça é muito girinha. Mas para isso, caro Ricardo, um poster bastava.
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
 
Credibilidade
Vai ganhando corpo entre os mais sólidos comentaristas a ideia de que a credibilidade dos EUA sofreu um rude golpe com o episódio da mentira sobre as ADM iraquianas. É o que diz, por exemplo, o preclaro Miguel Sousa Tavares (escourado no clarividente Zbigniew Brzezinki, a quem na escola chamavam o “Zezinski"). Para Miguel, Rumsfeld não passa de um “paranóico” (nem era preciso dizer, Miguel, a gente já tinha visto na cara dele) e a administração americana está dominada por um grupo de “gurus da extrema-direita”.
Eu, no essencial, concordo com isto. Até porque eles continuam a mentir-nos, desta feita sobre o seu próprio arsenal de ADM, que talvez fosse melhor renomear para AMDF. Ora o que são as AMDF? Pois as AMDF são a mais destrutiva das mais recentes armas desenvolvidas pelo complexo militar-industrial americano e significam, muito simplesmente, A Mama De Fora. As armas do tipo AMDF (A Mama De Fora) pretendem ter um efeito preventivo e, essencialmente, de ameaça. Suponhamos que Bashir Assad sugere o desenvolvimento de um programa nuclear. Bush responde-lhe com determinação e clareza: se a Síria tentar desenvolver tal programa, os EUA lançarão nas televisões do mundo Christina Aguilera com AMDF. O Sudão instala uma fábrica de armas químicas? Os EUA respondem com Susan Sarandon com AMDF. Chirac ameaça vetar uma resolução na ONU? A resposta é Christina Ricci com AMDF. É por coisas como estas que se vê o abismo tecnológico que separa os EUA do resto do mundo. Nós, por exemplo, também temos o nosso programinha militar de armas de destruição em massa, mas a única coisa que até agora conseguimos desenvolver foi as UDLR, i.e., Último Disco de Luís Represas. Senhor Ministro da Defesa, você também é da "extrema-direita". Tem que se esforçar mais no financiamento do ministério. Assim não vamos lá...
 
AA (não, não é o que pensam...)
Afinal há por aí um homónimo meu e do André Belo, chamado (precisamente) Luciano Belo... Sorry, chamado André Amaral, que antes de mim já tinha opinado muito sensatamente sobre Espanha no seu blog, em termos semelhantes ao que usei aqui ontem. Ide ver.
quinta-feira, fevereiro 05, 2004
 
O cheiro deles
Deve ser mesmo isso ("The Smell of Our Own"), Alberto. O disco de que disponho é uma coisa pirateada de um amigo, que fez o favor de pôr uma fotocópia surrada da capa, da qual a única coisa que consigo perceber é o nome dos rapazes (sem ofensa). A coisa é tão difusa que durante muito tempo nem sequer percebi a magnífica "moldura humana" (que talvez ficasse melhor nas traseiras) que ornamenta o objecto.
 
É uma questão de Mérrito
Quando me ocorrem (e às vezes ocorrem) instintos VPVianos sobre a blogosfera: "são todos uns anormais, eu é que sou bom, a blogosfera é uma trampa, é só criaturas insignificantes, invejosas, pequeninas, ninguém diz nada de jeito, ninguém percebeu nada e ninguém sabe pensar", rapidamente sucede qualquer coisa para me reconciliar com ela. É o que se passa com o culto demonstrado já por mais do que uma ocasião por este senhor, este , estes e mais este (que me apercebesse) a Stephen Merrit e, mais em especial, à sua encarnação enquanto Magnetic Fields. Onde, fora da blogosfera, seria eu capaz de me reunir no meu escritório com mais quatro almas a quem foi revelada a verdade?
A propósito, algum deles ouviu uma espécie de discípulos do homem chamados The Hidden Cameras (cujo disco é Music is my Boyfriend)?
 
Amor à camisola
É recorrente nas jeremiadas contemporâneas a ideia de que o que hoje em dia falta é “amor à camisola”. “No meu tempo”, diz-se, “trabalhávamos por amor à camisola”. “O Benfica dos grandes dias”, dizem certas pessoas, “era o que era porque o Eusébio, o Coluna e o Zé Augusto tinham amor à camisola”. Um fulano acordar cedo para ir trabalhar não custava, porque “havia muito amor à camisola”.
Desconheço a vossa opinião sobre isto, mas eu tenho uma certa tendência a simpatizar com a ideia, nomeadamente perante acontecimentos que se sucedem com uma frequência assustadora dia a dia. José Mourinho, por exemplo, demonstrou no sábado passado uma notável falta de amor à camisola, ao rasgar furiosamente a camisola de Rui Jorge. Não… é por estas e por outras que isto está onde está. E os exemplos não se ficam pelo nosso país. No último domingo Justin Timberlake demonstrou uma grande falta de amor à camisola de Janet Jackson, rasgando-a num determinado local. É porque isto, no fundo, sem amor à camisola, anda “tudo à mama, meu amigo”.
Muito francamente, meus caros, há coisas prioritárias no diagnóstico dos males do mundo: Bush e Blair mentiram e Saddam Hussein era um querubim alado? O que é que isso interessa quando se vê por aí tanta falta de amor à camisola?
quarta-feira, fevereiro 04, 2004
 
Correspondente em Madrid
Segue aqui um comentário de um leitor, que interessa a quem tem acompanhado o que se passa na política espanhola. O que por Espanha se vê é o desconchavo absurdo do PSOE, incapaz de oferecer uma agenda política alternativa a um partido conservador que (usando as mais repelentes medidas neoliberais) tem mantido a economia espanhola a crescer quando toda a Europa está em recessão e, sobretudo, conseguiu baixar o desemprego dos valores terceiro-mundistas que existiam no tempo do PSOE (à volta de 20%) para os valores semi-terceiro-mundistas da Europa de hoje (à volta dos 10%). Claro que o PP de Aznar tem tido uma governação reformista (nem sequer muito ousada) que não se envergonha da matriz liberal que representa. Eis aqui uma lição para o nosso timorato governo, que confunde reforma liberal da economia com a obsessão pelo deficit. Reformar economias estatizadas e sociedades subsidiadas custa alguns dissabores no curto prazo, mas traz grandes coisas no médio e longo prazo. É ver o caso da Espanha e, sobretudo, da Irlanda. A Irlanda era há quinze-vinte anos atrás um país tão rico quanto Portugal. Hoje é o mais rico da UE (se excluirmos o Luxemburgo, que não é sequer bem um país, mas é assim mais uma espécie de entroncamento).
A esquerda cá (do eixo PS-BE) também é um desastre, mas o nosso governo parece não saber capitalizar isso.
O leitor que me manda a sua mensagem é José Luís Lencastre e vive em Madrid. O José Luís ofereceu-se para ir comentando para o Espectador as eleições (e o caminho até lá) espanholas de Março. Eu aceitei. Trata-se da primeira expansão desta pequena empresa, que passa agora a ter um correspondente internacional.
Eis a mensagem:

Estou a viver em Madrid, há cerca de um ano, e é através dos blogs que vou acompanhando o que se passa na nossa terra. O seu é um dos que leio diariamente.

Hoje, quando li o que escreveu sobre as cabalas que a esquerda sempre atribui à direita, quando as coisas lhe correm mal, claro, não posso deixar de concordar e reforçar o que diz com o que se está a passar aqui em Espanha.

Em Maio do ano passado foram as eleições para a Comunidade de Madrid, e a unidade da esquerda (PSOE e IU) para ocuparem a dita Comunidade foi desfeita pela fuga de 2 trânsfugas do PS. Foi cabala da direita (PP) , dos construtores civis, eu sei lá. Houve um inquérito que demorou o verão todo, não se provou nada (claro!) e em Outubro o PP ganhou por maioria absoluta.
Agora é o caso do Carod-Rovilla, que teve um encontro com membros da ETA. E de quem é a culpa novamente? É do PP que usou o serviço de informação do Estado para divulgar a notícia, e assim tirar proveito para as próximas eleições gerais em Março.
Que fazer com estas esquerdas?

 
Que reste-t-il de nos amours?
A propósito do post imediatamente abaixo, acerca do caso dos pagamentos de Saddam a políticos franceses, recebi (via email) reparos de dois distintos bloggers, o André Belo e o Rui Oliveira, dizendo-me que era falsa a minha afirmação segundo a qual a imprensa francesa não se tinha pronunciado sobre o caso. Prometi-lhes que fazia aqui uma correcção e cá está ela: afinal o Proche-Orient Info fez uma notícia e o Le Monde também. Para além disso, o Le Monde transcreve umas declarações de Charles Pasqua, o principal visado, o qual desmentiu que fosse beneficiário de quaisquer pagamentos iraquianos.
Está feita a nota. Seja como for, a docilidade da imprensa francesa (e o silêncio que se lhe seguiu) perante o caso continua surpreender-me: as declarações de Pasqua são ao estilo entrevista de desagravo ou de encomenda. E depois disso nada de significativo (ou mesmo nada) tem aparecido. Isto perante uma história cuja aparente (por enquanto apenas aparente) gravidade é enorme: nem uma investigação, nem um editorial, nem um pouco de reflexão sobre o assunto. Porquê?

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