O Comprometido Espectador
domingo, março 21, 2004
 
O blog é que paga
Até ao fim do mês estou com muito trabalhito. Em Abril estarei, por razões profissionais, mostly abroad, primeiro no Pequeno Satã (Londres), depois no Grande Satã propriamente dito (Los Angeles) - espero que a CIA e o MI6 façam os pagamentos em atraso pelo trabalho sujo que ando por aqui a fazer. O blog é que vai pagar, e é já a partir de hoje. Se o sr. Bin Bin não se lembrar de deitar abaixo os aviões em que vou viajar ou destruir as cidades que vou visitar, talvez lá para Maio regresse ao vosso ameno convívio. Entretanto, divirtam-se.
 
Século XXI = Século XX
Pedro, meu padrinho. Eu ensino numa escola de economia, local onde se procura explicar a forma mais eficiente de gerir os recursos disponíveis. Não me passaria pela cabeça remexer na livralhada para escrever uma insignificância chamada post, em resposta a outra insignificância do mesmo nome. Para infelicidade das criaturas que têm que suportar a exposição da minha fraca sabedoria nas aulas, eu ensino-lhes as instituições inglesas nos séculos XVII e XVIII, e portanto aquelas parcas notas estavam quase todas fresquinhas dentro da minha cabecita (toc toc). Não sei se o argumento 2003 = 1939 é imbecil. É capaz. Mas se for, olha que não é o único que por aí circula. E por uma questão de amizade nem sequer vou especificar quem os difunde de forma olimpicamente calma.
Seja como for, não era nesse argumento que estava a pensar. Era noutro. Não percebeste qual? Paciência...
 
Happy Birthday to You
Carlos, desculpa o atraso. Andei uns dias afastado das lides, mas parabéns. E continua com o teu Proper Study of Mankind.
quinta-feira, março 18, 2004
 
Novas novas do Al-Andaluz (terra a ser brevemente reconquistada ao infiel): Rossé Luís is back
Dada a gravidade dos eventos espanhóis, o correspondente deste blog em Madrid, José Luís Lencastre, decidiu (por livre iniciativa) reiniciar actividades. Eis o seu mais recente report:

Caro Luciano,

Não querendo ficar atrás na moda ora vigente, de envio de SMS, mails e debate em chats, para dizer mal do governo, convocar manifestações "espontâneas", pedir o fim da guerra, etc., junto lhe envio um mail que recebi hoje na minha caixa de correio, pedindo-lhe que o divulgue através do seu blog.
Melhores cumprimentos,
JLL

En respuesta a Pedro Almodóvar
Con estupor leo en ABC unos comentarios hechos por usted en los que afirma que lo sucedido el pasado domingo constituye la «recuperación de la democracia». Ésa es una opinión discutible, pero soy de los que creen en la libertad de expresión. A eso sólo cabría objetar que la democracia en este país no se ha perdido desde que se consiguió en 1975. Pero es que, junto a esa gratuita afirmación, usted se permite hacer una serie de valoraciones difamantes que, como poco, ofenden a mi inteligencia. Es por ello que me parece necesario contestarle.

En primer lugar, yo no soy militante ni simpatizante del PP. Soy alguien de izquierdas que, por repugnancia a determinados comportamientos pasados del PSOE, dejó -como tantos- de votar a ese partido. Me he guiado siempre por los resultados de los comportamientos de las personas, no en función de las ideas que dicen defender. En consecuencia, no soy alguien sospechoso de contestarle desde una tribuna afín a ningún partido

Pero, cuando usted se atreve a decir públicamente que está muy contento -e, «incluso dispuesto a arrodillarse ante el inventor de los móviles y de los mensajes en Internet»- porque gracias a ellos se torció el voto y pudo ganar el PSOE -manifestación digna de alguien que milita o, al menos, es simpatizante de ese partido- se hace necesario hacerle algunas precisiones que usted está en su derecho de ignorar. Esa alegría que le produjo el cambio de resultados no le da ningún derecho a decir algo tan terrible -y, sobre todo, inexacto- de que «el PP estuvo a punto de provocar un golpe de Estado». Pero, ¿cómo un golpe de Estado? ¿De dónde se saca ese argumento? Mire, señor Almodóvar, lo único que sí pudo haber sucedido, lo que todas esas manifestaciones convocadas por Internet y móviles estuvo a punto de provocar, es el retraso en la convocatoria a las urnas, que sería la segunda vez que sucediese si tomamos en cuenta lo que sucedió en las elecciones a la Presidencia de la Comunidad de Madrid

En mi opinión fue el PP quien tuvo la valiente actitud de no acudir a la Junta Electoral Central y pedir un retraso en la fecha de la votación. Algo que, pienso, hubiera podido hacer ante la intolerable intromisión que supuso tanto la convocatoria de manifestaciones como la intervención del señor Rubalcaba en la noche del día de reflexión, leyendo un comunicado a todas luces demagógico, en el que se acusaba al Gobierno de mentir. Algo incierto, por lo demás, ya que el ministro del Interior, Ángel Acebes, se dirigió a los ciudadanos a lo largo de todo ese día dando la información veraz de que disponía el Gobierno sobre la marcha de las investigaciones. ¿Y sabe por qué pienso que no acudió a la Junta Electoral con esa petición? Porque eso hubiera podido provocar muchas e imprevisibles crispaciones. Si tiene algún respeto por la opinión de los demás ciudadanos, no ofenda a la inteligencia de éstos diciendo insensateces demagógicas. Siga usted haciendo ese cine que ha venido haciendo, sin cortapisas, durante toda esa etapa que, en su torpe opinión, ha sido de «pérdida de la democracia», y no utilice el lugar en el que está para aparecer como alguien pensante. Ya tiene usted asegurado un lugar en el pesebre. Confórmese con eso y deje de decir estupideces.
En todos los años que llevamos de una democracia que, por supuesto, hemos contribuido todos -no sólo el PSOE- a instalar en nuestro país, puedo asegurarle que jamás he visto una más alevosa y torpe manipulación de unos terribles hechos con resultado de múltiples víctimas como la que resultó de las manifestaciones y declaraciones hechas en torno a ese lamentable asunto. Es de esperar que alguien del PSOE le rectifique a usted, ya que, de otro modo, eso significaría que da por buenas sus palabras y admite que hubo manipulación
Acaso convenga reflexionar en que ese «no a la guerra» que tanto se ha jaleado últimamente puede adaptarse perfectamente a contestar a actitudes de personas que, como usted, convierten el resultado de unas elecciones en argumento para lanzar prédicas desde una tribuna, con el solo objeto de contribuir a la crispación de todos. ¿O es que pretende que guerreen los ganadores y los perdedores de unas elecciones democráticas?
Por último quiero decirle que para mí, que me considero ciudadano del mundo, me duele en mi carne todas esas víctimas del 11-M. Pero también me duelen las víctimas del 11-S. Y el trágico modo de vivir de tantos pueblos sometidos a dictadores, tanto de derechas como de izquierdas. Y el hambre del mundo. Eso quizás pueda entenderlo usted si, como dice, se considera un demócrata.

Todo esto lo digo exclusivamente desde mi calidad de hombre perteneciente al mundo de la Cultura, que es el mundo en el que se consideran y defienden los valores universales de la Libertad de todo el género humano.
Ramiro Oliveros, Madrid

Actor


PS - Já agora esclareço, na realidade a mensagem SMS do José Luís foi uma carta ao director do ABC.
 
Ainda aqui estão?
O Pedro gosta de, às vezes, dar um bocadinho de lustro às suas intervenções blogosféricas com citações de episódios históricos. Agora lembrou-se de citar as famosas palavras de Oliver Cromwell ao Long Parliament (também conhecido nesta fase por Rump Parliament), quando o dissolveu em 1653. O Pedro devia estar desesperado para usar aquela frase em qualquer circunstância. Porque um dos propósitos destas citações históricas é constituírem alguma espécie de alegoria ou metáfora da situação com a qual se pretendem comparar. Por esse critério, a frase de Cromwell é um péssimo exemplo para o próprio Pedro. Cromwell foi, primeiro, um terrível belicista (e, também, um génio militar) e, depois, um ditador (talvez o primeiro ditador moderno). A sua ascensão política deve-se quase integralmente às suas façanhas militares enquanto comandou a célebre New Model Army durante as guerras civis inglesas dos anos 40 do século XVII. É em parte responsável pelo decepamento de Carlos I e pela instauração da chamada Commonwealth (o governo republicano subsequente à morte do rei). Ao seu nome estão ligados o massacre de Drogheda na Irlanda e a protestantização da dita. A dissolução do parlamento ocorre quando este se nega a alargar os poderes de Cromwell, bem como reformas institucionais que o eternizariam no poder. Depois de dissolvido o parlamento (momento durante o qual usou a frase transcrita pelo Pedro), Cromwell tornou-se Lord Protector e procedeu a uma espécie de militarização radical das instituições e da sociedade inglesas. Morreu poucos anos depois, sempre exercendo o poder de forma brutal.
Deve ser isto que o Pedro quer: que os líderes da coligação partam, para que lhes sucedam coisas muito piores. Infelizmente, já aconteceu inúmeras vezes no passado da esquerda: denunciar e destruir as imperfeições existentes em nome do paraíso na terra, para depois construir, afinal, verdadeiros e reais infernos na terra. Beware, pal, beware…
 
Novas do Al-Andaluz
Do meu colega espanholista NG recebo a seguinte mensagem:
Talvez queiras acrescentar ao teu blog que o comunicado dos terroristas que associa a vitória do PSOE ao fim dos atentados não aparece no Expresso online e vem totalmente distorcido na TSF sem referência ao PSOE (link: http://www.tsf.pt/online/internacional/interior.asp?id_artigo=TSF143521). Já a Cadena Ser também se "esqueceu" do comunicado link:http://www.cadenaser.com/noticias/) e o El Pais não lhe dá sequer destaque na edição online (link: http://www.elpais.es/), apesar de o comunicado anterior da mesma organização ter merecido grande destaque na 6a feira passada. Curioso, já que são apontados como os exemplos da comunicação livre e independente. A comunicação social de direita, obviamente manipulada pelo PP, anuncia esse comunicado para, claro está, manipular os cidadãos e fazer um segundo golpe de estado informativo...
Já o pedido do Kerry a Zapatero [Kerry pediu a Zapatero para reconsiderar na retirada do Iraque] não merece sequer referência na TSF nem no Expresso online !! Pelo menos a Cadena Ser tem a decência de o mencionar...

 
a+b = c, logo b+a = d
Obrigadinho Statler (fellow UBLian). É que um homem desespera: tantos anos a estudar para afinal não dominar sequer os mais rudimentares instrumentos da lógica. Comentários não tenho, meu amigo: isto aqui é um blog de direita, entendido? Sabes como é, a nossa tradição é ser-se facho, securitário, belicista e não ter comentários. Já a malta de esquerda (a propósito, o que é que fazes num blog com comentários, grande traidor?) tem um património diferente, todo florido, todo muito ligado a comentários e a um passado recente anti-facho, anti-secutritário e anti-belicista, visível em cumes da organização social e política como Cuba, a Coreia do Norte, a China, o Vietname, o Laos, o Cambodja, o Iémen, a Etiópia, o Quénia, a Tanzânia, Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Líbia, Argélia, Irão, Iraque, Síria, Roménia, Bulgária, Jugoslávia, Hungria, Checoslováquia, Albânia, Alemanha, União Soviética, oh pá, sei lá, são tantos e tão bons que lhes perco até a conta.
É um passado destes que nos permite estar sempre tão seguros de que é preciso ter cuidado com fachos como nós, que estamos aqui para matar tudo: as liberdades, as pessoas e, sobretudo (sim, sobretudo), os comentários.
quarta-feira, março 17, 2004
 
Volta Averróis, estás perdoado
O grupo terrorista membro da al-Qaeda que reivindicou o atentado de Madrid anunciou a interrupção dos atentados sobre o "Al-Andalus" (sic! - para quem não saiba Al-Andalus foi a designação que a península ibérica recebeu durante o período de domínio muçulmano) em consequência da vitória do PSOE - o resto está aqui.
Mea culpa: todos vós, arautos do diálogo, tínheis razão. Com diálogo e umas concessões tudo se consegue. Hoje Zapatero devolve o Iraque, amanhã o quê? O Al-Andalus?

 
Causas necessárias e suficientes
O que se ouve por aí:
A al-Qaeda foi autora do 11 de Setembro. Os EUA lançaram-se ilegítima e selvaticamente sobre o Iraque, que não tinha nada que ver com a al-Qaeda.
A al-Qaeda foi (foi mesmo? Assumamos que sim) autora do 11 de Março. A Espanha sai do Iraque, que não tem nada que ver com a al-Qaeda.
A al-Qaeda fez o 11 de Março porque a Espanha está no Iraque.

Gostava que me esclarecessem de uma vez por todas: tem o Iraque ou não que ver com a al-Qaeda e o terrorismo internacional?
Já agora, segue também um artiguito.

terça-feira, março 16, 2004
 
Asi sí
Eis um óptimo artigo: é ponderado e promete uma boa reacção da oposição de direita espanhola ao estado em que ficou o país depois do último fim-de-semana. Esperemos que ao governo de esquerda corresponda uma posição tão lúcida (sem abdicar do seu programa) quanto esta.
 
La hostia
Um correspondente indirecto na Catalunha fez-me chegar o seguinte texto que parece correr por Espanha. Vendo-o tal como o comprei. Sem saber de que jornal saíu nem quem o escreveu. Parece-me resultado de boataria descontrolada. Deve ser (imagino) boataria com origem na esquerda (vamos lá com calma, não estou a dizer que só a esquerda lança boatos, mas simplesmente que o teor me parece ter origem aí). E parece-me contraditório com a outra tese da esquerda segundo a qual o governo não quis revelar que o atentado fosse da al-Qaeda. Porque aquilo que é descrito no texto se justificaria melhor com a hipótese de atentado da al-Qaeda. Mas justamente por me parecer um disparate, vale enquanto documento da impreparação da opinião pública espanhola (europeia) para lidar com um evento como o 11/3. Quando um atentado deixa as cabeças predispostas a acreditar nestas coisas estamos muito mal:

Ayer (sábado) a las 00:00 de la noche el gobierno popular se
encontraba reunido y para redactar dos comunicados que debia firmar el
Rey. En esos comunicados se convocaba el estado de excepcion y se
retrasaba el proceso electoral. Habia un plan A, que pretendia
retrasar las elecciones hasta otono, y un plan B que pretendia
retrasarlas hasta dentro de dos meses. El informador, que se
encontraba en la Junta electoral central, vivió de cerca todo el
proceso: la presentacion de los comunicados a la junta electoral
central, segundo paso en este preocupante intento del gobierno tras la
presentacion de las denuncias a la JEC contra todo partido de la
opciscion y diversos medios de comunciación y la admision de estas por
parte de la JEC.
Posteriormente el ministro Acebes se desplazaba junto a otros miembros
del gobierno al palacio de la Zarzuela para intentar conseguir la
firma del rey, requisito imprescindible para convocar este estado de
excepcion. Dede Zarzuela se negaba esa firma, por considerarlo, segun
afirman fuentes anonimas de la casa real a nuestro informador, "un
golpe de estado de facto". El tono de las notas era, segun el
informador, alarmante, y en el se mencionaba la creacion de una
situacion nacional que incluia presencia no solo policial sino militar
en las calles.
La denegacion de la firma por parte de la casa real, asi como las
reiteradas negativas desde policia nacional para disolver con los
antidisturbios las concentraciones pacificas por todo el pais,
hicieron desistir de su intento al gobierno, que anunciaba a la JEC la
anulacion de ese proceso hacia las 2.15 de la manana, aludiendo ademas
de estos motivos, alarmantes nuevas noticias.
A lo largo del dia de hoy (domingo), hemos podido confirmar esta
noticia mediante diversas fuentes autorizadas, que además nos hablaban
de una reunion celebrada en Madrid entre diversos responsables de
servicios informativos de distintos medios en los que, dentro de una
gran polemica, se decidia no divulgar esta información en diarios,
televisiones y radios al menos hasta una proxima reunión en la tarde
de manana lunes, una vez terminado el proceso electoral.


 
Looking for a flat to let in the Sunni Triangle
Lentamente, normaliza-se a vida no Iraque e a população local considera que a intervenção americana teve um efeito essencialmente positivo na sua vida e no seu país. Como por acaso, abre-se uma nova frente: desta vez é no sítio certo, entre a verdadeira resistência iraquiana, isto é junto da opinião pública e dos eleitores ocidentais. Tanta bomba perdida no Iraque... Um verdadeiro erro de cálculo. Era aqui que tudo deveria ter começado: os primeiros resultados foram espectaculares.
Só sei é que, se calhar, um dia destes vai ser melhor viver em Bagdad do que em Madrid ou Paris.
segunda-feira, março 15, 2004
 
Último despacho de Madrid
Terminadas as eleições espanholas, o correspondente d'O Comprometido Espectador em Madrid para a cobertura do evento termina funções. A sua actividade foi muito apreciada, por mim e vários leitores que manifestaram idêntica opinião. Nos últimos dias o José Luís Lencastre reduziu a sua actividade, certamente sob o impacto de tantos eventos surpreendentes e chocantes. Mas foi um relator atento e divertido (enquanto o ambiente dava para diversões) do ambiente da campanha eleitoral espanhola. O blog continua aberto para o que ele quiser escrever.
Entretanto, manda-me o seu último relatório, colocando sobre a mesa a questão (que não deve ser excluída) de uma joint-venture ETA-fundamentalismo islâmico:

O PP perdeu as eleições por sua culpa. A inépcia total do ministro do Interior para lidar com os meios de comunicação social, e a frouxa campanha de Mariano Rajoy conduziram a este resultado.
Prevejo um futuro sombrio para a economia, e a prova disso é que a Bolsa já baixou 3 pontos, hoje,2ª feira de manhã.
Mas deixo essa análise para outros, e prefiro abordar um tema, que até há data, ainda não vi comentado: as ligações terroristas da ETA
Jon Juaristi, basco de nascimento, pertencente a uma família nacionalista, participante da luta anti-franquista e actual director do Instituto Cervantes publicou, ontem, no jornal ABC, um artigo com o seguinte titulo: ETA y Alá. O artigo não está on line, mas em síntese diz o seguinte:
Nos anos 60 a ETA foi abertamente pró-Israel, principalmente para justificar a formação do seu respectivo estado. A ETA, reconstruída nos anos 70, pelo contrário, aproximou –se das organizações palestinianas, da FLN da Argélia e até de Cuba, de acordo com a sua nova identidade marxista-leninista. Com a queda do muro de Berlim, começaram a perder apoios nessa área, e aproximaram-se às organizações terroristas islâmicas, aproximação que continua a existir na actualidade.
Daí que não será excessivo concluir que o atentado em Madrid possa ter sido feito em conjunto.
Para terminar, não quero deixar de agradecer ao Luciano a oportunidade que me deu para expor, sem entraves de espécie alguma, o meu ponto de vista no seu blog.

 
O 11 de Junho
Numa perspectiva mais nacional, também A Kathleen Gomes é um Boi comenta as tragédias associadas a dias 11.
 
Tic tac
Os resultados das eleições espanholas são trágicos. Não são trágicos pela reorientação à esquerda. Era o que faltava ouvir pessoas como o Daniel (instalado num movimento que colecciona partidos de génese anti-democrática – repare-se que falo de génese: até admito que hoje em dia sejam genuínos democratas) vir fazer lectures sobre aceitação de resultados eleitorais. Ainda militava o Daniel num partido estalinista e já eu defendia este sistemazinho que é capaz de lhe dar tantas alegrias. Calminha e respeitinho seriam coisas que lhe ficariam bem. Não é, portanto, a viragem à esquerda que é trágica: isso é assim mesmo, é a vida democrática. O que é trágico são as circunstâncias em que a mudança ocorre. Eu não me lembro de nenhuma eleição tão directamente influenciada por um atentado terrorista da gravidade deste. Até ao atentado a discussão em Espanha era sobre se o PP teria maioria absoluta ou não. Tudo mudou com as bombas.
Já aqui escrevi que a Europa poderá ser a grande cartada da al-Qaeda. Se os atentados de Espanha foram da al-Qaeda, a Espanha deu o pior sinal como resposta. Deu o sinal que eu receio o resto da Europa continue a dar. Cabe perguntar: que outras eleições europeias serão agora influenciadas por atentados do mesmo tipo? E a verdade é que, um dia depois das eleições, se multiplicam os que dão exactamente esse significado político aos seus resultados. A começar por Zapatero, cuja primeira primeiríssima promessa de governação, menos de 24 horas depois de se saber os resultados, é retirar as tropas espanholas do Iraque (é verdade que a promessa é antiga, mas porquê ser tão pressuroso a reiterá-la?). Se excluirmos a hipótese da mera coincidência, que outra resta? Continuando pelo Dr. Francisco Louça que afirma que este é o primeiro governo dos “quatro das Lajes” a “ser varrido”. Não foi um governo espanhol, com um determinado curriculum interno (e externo também) que foi afastado do poder. Foi um dos quatro “das Lajes” que “foi varrido”. Ora, a única coisa que une os quatro “das Lajes” é o apoio à guerra do Iraque. Não é preciso ser-se um génio político para se entender o sinal. E continua a mesma atitude pelo Barnabé, que reproduz e amplifica a reacção do Dr. Louçã.
Entretanto, vamos ter calma. O poder ensina muita coisa. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, ensina humildade. Pode ser que o PSOE no governo comece a entender o que está em causa. Pode ser… E é como diz o Pedro Oliveira, citando Lincoln, amanhã as coisas mudam. O problema dessa frase, Pedro, é que ela é circular e tu nunca sabes exactamente qual é o “tempo” em que “todas” as pessoas são enganadas. Será que foi agora? Já tiveste momentos mais felizes: usar essa frase, que descreve um sistema que acomoda vitórias que nos agradam e que nos desagradam, para manifestar alegria por uma vitória que nos agradou parece-me uma manifestação de incompreensão daquilo que a frase efectivamente significa.
Entretanto, para manter a cabeça limpa aconselho a leitura do Bruno, dos meus companheiros de feijoada “Fascista é a tua Mãe” (que são este, este e mais este ) dos Blasfémias e do Superflumina.
domingo, março 14, 2004
 
Who’re you gonna call?
Continuando a falar na presunção de que os atentados de Madrid possam ter sido da autoria da al-Qaeda, os mesmos motivos que levam qualquer criatura razoável a descrer da capacidade da Europa para reagir a uma onda de eventos semelhantes no continente levam a alimentar alguma esperança. Pode parecer um paradoxo mas não é. Porque a mesma estupidez e cobardia intelectual que nos dizem que não temos inimigos, que ninguém nos odeia só por sermos livres, que conduzem à reacção segundo a qual acontecimentos como este “são também causados por nós próprios”, que “temos de debater” mesmo se vítimas de ataques conduzidos por alguém que (através desses mesmos ataques) não demonstra a menor vontade de “debater”, que temos de “negociar” com quem mata e destrói prédios e comboios simplesmente por sermos quem somos e como somos; essa mesma estupidez e cobardia intelectual pode rapidamente transformar-se numa imploração à única entidade política capaz de enfrentar ameaças do mesmo género (i.e., os EUA) para que nos ajude. Podemos rapidamente passar do imbecilismo acusatório de hoje para outro imbecilismo acusatório que talvez nos salve. Isso pode acontecer no dia em que estivermos bem ajoelhados, com o rabiosque virado para Meca e a boca para Washington. Assumiremos então a pose da varina: mão na anca e voz estridente berrando “então e os amigos?”, “então não somos todos parceiros ocidentais?”, “é assim que nos defendem, é?”
Porque só os EUA têm os meios de nos ajudar: armas, diplomacia e serviços de informações. Nós não temos armas. E não tendo armas não temos diplomacia eficaz: a ideia mais abstrusa que por aí existe é a de que pode existir diplomacia sem suporte militar. E como não temos inimigos, não temos serviços de informações.
Alguém imagina que a chamada guerra ao terror seja conduzida pelos EUA unicamente através das armas? As armas são um elemento de uma multiplicidade de outras acções. E as armas funcionam como ilustração do que pode suceder a quem não se sinta convencido apenas com ameaças verbais ou outras: o sr. Khadaffi já percebeu, o sr. Assad parece dar sinais de que começa a perceber, os “mullahs” do Irão também.
O terror na Europa será a grande cartada da al-Qaeda. Eis aqui o elo mais fraco do Ocidente. Um continente próspero, livre e democrático que o é porque foi protegido pelos bárbaros americanos durante 50 anos. Mas que deixará de ser isso tudo quando os mesmos bárbaros deixarem de o proteger. Um continente próspero, livre e democrático mas afundado na mais profunda vergonha de si próprio, sempre pronto a atribuir-se a si mesmo a culpa do que lhe acontece. Se a cartada da al-Qaeda for bem sucedida será a própria Europa a pedir para deixar de ser protegida pelos EUA. Mas é como digo: pode ser ao contrário. Assim queira Deus, Nosso Senhor, queira Alá, e todos os deuses das mitologias escandinavas.
sábado, março 13, 2004
 
12/3: novas da frente
Escreve-nos de novo o Tiago Gandra, relatando o ambiente vivido nas manifestações de ontem em Madrid:

Madrid, 12-M: Encontro com seis manifestantes madileños num café perto da Plaza
Colon, ponto de encontro de mais de 2 milhoes de almas enregeladas pela chuva.
À mesa circulam teorias da conspiraçao sobre a autoria dos atentados e sobre a
ocultaçao de informaçao por parte do executivo de Aznar, proclamada também
pelos líderes do PSOE e da Izquierda Unida. Estudantes de medicina trocam
pormenores clínicos sinistros directamente vindos do seviço de urgências do
hospital La Paz, onde foram atendidas algumas dezenas de vítimas dos atentados.
Depois da concentraçao na Plaza Colon, começa a marcha lenta em direcçao à
estaçao da Atocha. Primeira parte do percurso em silencio pesado, ensaiam-se
algumas piadas deslocadas, sem grande efeito. À medida que a multidao avança, o
silencio dá lugar à crispaçao e ouvem-se as primeiras palavras de ordem. "En
ese tren íbamos todos", "No estamos todos, faltan doscientos". Entre outras
menos retóricas, "Hijos de puta", "Asesinos".
Plaza Cibeles, a meio do percurso. A multidao tem mais dificuldade em caminhar
em qualquer direcçao que seja. Um idoso em cadeira de rodas insiste com
familiares, debaixo da chuva intensa, que esta manifestaçao é para levar até ao
fim. Outra luta de geraçoes torna-se mais evidente entre o que gritam os novos
e os velhos. Os primeiros mais empenhados em fazer desta uma manifestaçao anti-
PP - "Esto es lo que pasa/Por tener un gobierno facha".
Horas depois a multidao empapada pela chuva incessante avista-se finalmente o
ground zero, estaçao da Atocha. O trágico torna-se mais presente e o silêncio
também, enquano a multidao coloca cartazes escritos à mao e inúmeras velas que
cobrem de cera o pavimento.
00:30 na Puerta del Sol, uma aglomerado espontâneo de dezenas de pessoas
rodeiam um homem que à luz da vela lê em ordem alfabética os nomes dos mortos.
Ao todo chama por 198 nomes, todos ausentes.

 
Rubrica "I Can't Walk, My Trousers Are 'Round My Feet"
O Comprometido Espectador inaugura hoje uma nova rubrica, a que ficará associado o prémio "A New Belt to Hold Your Trousers" E já temos o primeiro candidato. Os melhores excertos:

Os autores materiais e morais do 11 de Setembro e do 11 de Março comportaram-se como auto excluídos da comunidade moral humana. Nesse caso, tratar deles é fazer prevalecer os valores da comunidade moral humana e colocá-los na impossibilidade de prolongar o seu ritual de horror, sem lhes fazer o favor de os reduzir, pela pura violência e força arbitrária, a condição inumana que possa servir de bandeira ao seu martírio simbólico. Donde resulta que a melhor reacção ao horror destes massacres é extirpar de raiz as alegadas razões desse martírio.

Nesse sentido, é necessário envolver quem está vivo, esteja em Madrid, Nova Iorque, Lisboa, Gaza ou Bagdade, num esforço colectivo que vá ao fundo da questão. Esse empreendimento global corresponde ao tratar dos vivos exigido pela actual globalização do terrorismo e suas putativas justificações. A sua realização põe desde logo a questão de saber como enfrentar a acesa divisão que se encerra nos conflitos do Iraque e da Palestina.

De facto, a inclusão da invasão do Iraque na resposta ao 11 de Setembro é uma das mais funestas ideias do século no contexto do combate ao terrorismo.

O mundo está hoje menos seguro do que estava dois anos atrás. Inúmeras autoridades dos mais variados países, com especial relevo para os próprios Estados Unidos e Grã-Bretanha, vêm demonstrando que a ameaça terrorista à escala global não é vencível por meios essencialmente militares. Pelo contrário, o recurso maciço a intervenções militares pode mobilizar reacções terroristas a uma escala dificilmente controlável.

É o que está sucedendo em resposta à invasão do Iraque. É preciso repor a legalidade internacional sob a égide das Nações Unidas acabando com uma ocupação colonial reminescente daquilo que por essas partes do mundo as grandes potências fizeram no século XIX. Enquanto esse caminho não estiver consolidado a Al-Qaeda terá sempre motivações para espalhar a morte e o horror por todo o Ocidente.

E não é apenas no Iraque que se joga a possibilidade de romper o ciclo do terror e do contra-terror. Para esse efeito é imprescindível um acordo duradouro que ponha fim ao conflito Israelo-Palestiano.

Está aí a chave da paz autêntica entre todo o mundo islâmico e o chamado Ocidente. A convicção geral que dá força popular à Al-Qaeda é que os Estados Unidos apoiam quase incondicionalmente Israel, enquanto que a União Europeia pouco faz para alterar esse enviesamento. É fácil de ver que os fundamentalismos, tipo Al-Qaeda, são grandes beneficiários do comportamento dos Estados Unidos e seus aliados nessa zona do globo. Tratar dos vivos é acima de tudo corrigir com firmeza, ainda que gradualmente, esse comportamento.

[...]

Na actual conjuntura, Portugal é um dos países mais visados. Porque levianamente destacou forças para ocupar simbolicamente o Iraque e porque oferece ao terror organizado um alvo tão apetitoso como o próximo Euro 2004.

É preciso convocar desde já em benefício da segurança do Euro 2004 a reforçadíssima cooperação antiterrorista dos diversos países da União Europeia. E porque a caridade bem entendida terá de começar pela nossa própria casa, cabe tirar razão urgentemente às importantes falhas de segurança que vêm sendo denunciadas por várias entidades nacionais.



sexta-feira, março 12, 2004
 
Our turn?
Vamos então supor que a autoria dos atentados de Madrid é da al-Qaeda. Isso poderá significar que chegou a vez da Europa. Que este pode ser o primeiro de muitos episódios idênticos no “continente civilizado”. Já se ouviu por aí a muita gente dizer que é preciso “compreender” e “dialogar” para melhor eliminar o terrorismo.
Muitas vezes, os que lidam com problemas políticos são classificados de acordo com duas categorias: os “realistas” e os “idealistas”, estes normalmente mais dispostos a aproximações do tipo “compreensivo”. Na Europa dá-se o caso curioso de, em matéria de ameaças internacionais, ambos coincidirem. Pela razão simples de os europeus só terem à sua disposição uma forma realista de lidar com elas: dialogando. Onde estão os exércitos europeus capazes de punir Estados que alberguem terroristas? Onde estão os exércitos europeus capazes de desfazer duas bases do terrorismo internacional e, ao mesmo tempo, protegerem militarmente a construção do primeiro regime árabe decente no Médio Oriente – sem dúvida a melhor vacina contra o patrocínio do terrorismo fundamentalista? Onde estão? Não estão. Resultado: só se pode dialogar e negociar. Ora, qualquer negociação pressupõe trocas, concessões. O que é que nós europeus temos para conceder ou trocar? O que é que a al-Qaeda pede? É muito simples: a al-Qaeda não pede nada, o que quer dizer que pede tudo. Dito de outro modo: a al-Qaeda pede o Ocidente numa bandeja de prata. E é apenas isso que nós, europeus, temos para negociar e conceder: um bocado de Ocidente. Vamos a isso! Vai ser bonito de ver. E aqui entre nós que ninguém nos ouve: em certos casos e coisas não se perdia rigorosamente nada.
 
Da frente
Segue mensagem do José Luís Lencastre. Não é nenhum report. É um desabafo. O homem está lá na frente. Acho que merece o espaço:

Começa a circular a ideia de que o atentado terrorista de ontem foi perpetrado pela al–Qaeda, porque a ETA avisa e mais não-sei-quê... É preciso dizer, claramente e sem ambiguidades, que terrorismo é terrorismo, venha de onde vier. E que com terroristas não há diálogo possível, ao contrário de que nos querem fazer crer idiotas úteis, tipo Carod – Rovira ou Francisco Louçã.
É também sintomático que vários jornais e televisões, nomeadamente a BBC, não chamem à ETA um grupo terrorista, mas sim um grupo separatista basco.
Aos terroristas há que os perseguir, prender e julgar com a dureza máxima que a lei permitir.
Os partidos políticos suspenderam a campanha eleitoral, e hoje haverá manifestações em todo o país, convocadas pelo governo, com o seguinte título “Con las víctimas, con la constitución, para la derrota del terrorismo”
A de Madrid começa às 19h, na Plaza Cólon, e eu vou estar presente.

quinta-feira, março 11, 2004
 
Give me your tired, your poor...
Mais testemunhos portugueses do three-eleven:

Quem nos fala agora é o Tiago Gandra:
Sem querer fazer concorrência ao excelente trabalho do corresponsal oficial do
espectador, ponho ao dispor o meu relato destas últimas horas:

Estudante de erasmus em Madrid e a viver na calle Atocha, a uns 500 metros da
estaçao do mesmo nome, acordei às 08:30 com uma chamada de telemóvel. Com as
múltiplas sirenes das ambulâncias como fundo conforto a um amigo de Sevilla,
legitimamente preocupado uma vez que aquela estaçao faz parte do meu percurso
quase diario. A primeira de uma série de chamadas a oscilar entre a
preocupaçao, o pânico e a raiva (esta mais evidente entre os madrileños que
entre a comunidade erasmus, por supuesto).
À medida que o roda o contador das vítimas (neste momento 173 mortos e mais de
600 feridos), momentos de hipocrisia pouco elegante como a do Sr.Ibarretxe a
mandar "un abrazo de corazón de todos todos los vascos a las victimas del
atentado" (ou algo parecido) elevam o nojo a um nível maior.
Entretanto mudança de cenário para a cafetaria da faculdade de medicina, onde
os estudantes deambulam ente a consternaçao e a pura indiferença (que às vezes
me lembra o dia 11 de setembro de 2001, onde no meu café do costume se olhava
laconicamente para os noticiarios enquanto se jogava matrecos). Sítio ideal
para coleccionar depoimentos intrigantes como o do Miguel, que afirmando-
se "anarquista liberal de izquierda" (!) me garante "esos hijos de puta (ETA)
son todos unos fachos" (!!), o que fundamenta alegando nas escolas de Euskadi
os bascos pequeninos aprendem que o povo basco tem o sangue Rh-(!!!).
Com mais ou menos simpatia pelo Sr.Zapatero ou pelo Sr.Carod-Rovira (que
continua convencido que se o deixassem negociar em paz com os srs.etarras nunca
mais aconteciam coisas destas ), todos tencionam juntar-se à manifestaçao de
repulsa pelos atentados. A ver se entao é mais evidente o sentido de activismo
e cidadania que me parece invejável na sociedade espanhola. Contra o terror e
sem tréguas.


 
Notícias da frente
O director-subdirector-redactor-repórter-copydesk-estafeta e porteiro desta publicação está com muito pouco tempo, mas, fazendo jus à dimensão ibérica da dita, não gostaria de deixar de saudar a mais recente acção da "resistência" (atenção às aspas) basca com dois relatos embedded de Madrid (um é do já nosso conhecido correspondente). Apenas uma nota pessoal: conheço bem a Estação de Atocha, um espectacular exemplar da arquitectura do ferro, do outro lado do Paseo de Prado (salvo erro) em relação à Calle Atocha (onde outrora existia um local "de tapas" orgulhosamente chamado "Casa Luciano"). Trata-se do centro centríssimo de Madrid. Imagino o pavor.

Do Ricardo Sousa:
Chamo-me Ricardo Sousa e trabalho em Madrid, costumo ler o teu blog
(desculpa-me se te trato por tu mas aqui em Espanha é assim mesmo e além
disso somos mais ou menos da mesma idade). Sei que tens um corresponsal
mas, para o caso de ele näo te ter podido pôr a par do que se passa,
digo-te que aqui estamos todos em choque com a violência do que sucedeu.
Neste momento o Ministério do Interior fala em 62 mortos, mas väo ser
mais com certeza. As reacçöes dos políticos säo as do costume, com as
campanhas eleitorais suspendidas, para näo dizer terminadas. Mas näo
posso deixar de salientar Carod-Rovira que pede que "quem tenha
capacidade de decidir" dialogue com a ETA como forma de acabar com "esta
barbárie". Haverá um limite para para o cinismo?


Do José Luís (que pede que o seu texto seja lido como uma ironia):
A las 7:45 de la mañana se produjeron tres explosiones en la estación de Atocha, destrozando un tren de cercanías. Al mismo tiempo, en la estación de Santa Eugenia se producían otras dos explosiones. Por último, otro artefacto explotó afectando a la estación de El Pozo del Tío Raimundo. De momento hay 15 víctimas, aunque algunas fuentes dicen que esta cifra se puede disparar hasta los 50 muertos.
Foi com esta notícia que me deparei, hoje de manhã, quando cheguei ao trabalho e acedi à internet. E pensei para comigo: Os terroristas da ETA, os tais que estão a beneficiar o PP, como repetidamente tem alertado o PSOE, finalmente conseguiram levar a cabo uma acção, depois de tantas tentativas frustradas. Queres ver que agora é que o PP ganha mesmo as eleições? E que o PSOE, e com razão, vai contestar o resultado?
Depois, apercebi-me que um dos atentados tinha sido relativamente próximos do meu local de trabalho.(o bairro de Salamanca, está próximo da estação de Atocha) e não me contive: “Hijos de puta de ETA”
Chegaram mais colegas, tendo alguns deles passado pela estação de Atocha e cercanias, e descreveram-me a situação. È o caos total em Madrid!
Acho que vou pedir um subsídio de risco, joder hombre!


quarta-feira, março 10, 2004
 
José Luís de Madrid? Claro que sí!
Mais novas transfronteiriças, do nosso correspondente na capital do império espanhol:

A campanha eleitoral não tem tido novidades de relevo. Sucedem-se os comícios, os tempos de antena, etc. Enfim, o costume. Eu sei que a campanha eleitoral faz parte da liturgia da democracia, e que os projectos apresentados diferem bastante. O PP defende um projecto de centro-direita liberal, com provas dadas, e o PSOE .....não sei o que defende. Sorry.
Se não for Aznar a aquecer um pouco a campanha eleitoral, morre-se de tédio. Outro dia, num comício, disse, “levo oito anos e meio como presidente do governo, e conheci quatro dirigentes e meio do PSOE. De todos eles, este de agora é o mais insolvente de todos, sem dúvida nenhuma.”
Ou, como de uma vez em que lhe perguntaram por Zapatero. “Por aí anda”, foi a resposta displicente de Aznar.
Ainda sobre o Aznar, dia 8 deste mês deu uma entrevista ao “Le Monde”, que vale a pena ler, por referir, entre outros assuntos mais específicos de Espanha, as dificuldades que atravessam as relações na UE, e que pode ser lida aqui.
Ou então o Carod-Rovira (o tal que negociou com a ETA a paz na Catalunha), que se ofereceu como Ministro do Interior (cá o nome ainda é este), caso ganhe o PSOE, só para negociar com a ETA! Depois demitia-se. Garanto que isto é autêntico, basta consultar on-line qualquer jornal espanhol.
As sondagens desta semana, e são as ultimas que podem ser divulgadas, dão um avanço do PSOE, e a perda da maioria absoluta do PP. Mas sondagens são sondagens, e valem o que valem. Parece que aqui os erros de previsão, por vezes, têm sido estrondosos.

 
Man U, here's to you
Que tal a criação do Dia Internacional da Menina, em homenagem a 11 meninas que queimaram vivos dentro de um relvado 11 homenzarrões feios?
terça-feira, março 09, 2004
 
A "pena de morte"
Diz-se aqui que Arafat "decidiu" (servem as aspas para citar) restaurar a "pena de morte" (bem... aqui já não servem para citar: toda a gente sabe que há certas "coisas" que "não existem") na AP. Eu aprecio especialmente o "decidiu", conceito profundamente democrático, pelo menos à luz do fuhrerprinzip, em que a vontade do povo é suposta transubstanciar-se (tal qual como a hóstia sagrada) no corpo do fuhrer. E também gostava de saber de que forma a "justiça" será aplicada pelos "tribunais" locais.
Juro ter ouvido a muita gente dizer que "a fronteira que separa a civilização da barbárie é a da pena de morte". Talvez seja verdade no caso da pena de morte. Mas tudo é diferente quando se trata da "pena de morte". Aquilo não é bem pena, nem morte. Não é pena porque não se sabe o que castiga e não é morte porque quem a aplica acredita que há vida extraterrena. Eis aqui uma boa explicação para muito do que se passa por ali: afinal os "terroristas" palestinianos não usam plástico, mas sim "plástico", e não usam bombas, mas "bombas".
Afiança-nos ainda a mesma fonte que Arafat não terá também apreciado certas críticas que lhe foram dirigidas por um dos chefes policiais. Resultado: "decidiu" retirar-lhe o direito ao uso do carro. É capaz de ter havido aqui alguma precipitação: as críticas se calhar não eram bem críticas, mas antes "críticas". Ou talvez estivéssemos só a falar de um "carro"... Adiante.
Independentemente de outras considerações, tudo isto me parece uma forma admirável de resolver problemas. Na realidade, aquilo que é um problema pode facilmente ser convertido num "problema" e desaparece. Vistas bem as coisas, no fundo talvez seja essa a técnica ideal. Com jeitinho e muita "bomba", Israel poderá passar do estatuto de problema ao de "problema": basta que deixe de ser Israel e passe a ser "Israel" e tudo se resolverá a contento.
segunda-feira, março 08, 2004
 
Tenho um míssil balístico apontado contra mim
É por demais conhecido que a presidência Bush é um coito de conspiradores. Mas o mundo pode ainda não ter visto tudo. Eis aqui mais algumas informações obtidas em primeira mão por este vosso criado:

Sabia que George W. Bush baixou os impostos para que as companhias petrolíferas e as grandes empresas pudessem oprimir os iraquianos?
Ou que George W. Bush falsificou as eleições de 2000 para que Ann Coulter e a "Christian Coalition" pudessem matar os muçulmanos?
Ou ainda que George W. Bush mandou prender Michael Jackson para que os judeus, as empresas petrolíferas e Rush Limbaugh pudessem conquistar a França?
Ou mesmo que George W. Bush permitiu que o 11 de Setembro acontecesse para que os judeus, as grandes empresas, as companhias de petróleo, os Republicanos, Rush Limbaugh, Ann Coulter, os homens brancos, a "Christian Coalition" e os portadores de armas pudessem assassinar as mulheres?
Ou então que George W. Bush ainda não capturou Osama bin Laden para que os judeus, os homens brancos e os portadores de armas pudessem oprimir os beneficiários do "welfare"?
Tudo isto eu soube graças a um amigo dedicado, que me enviou o endereço deste site, onde podes encontrar estas e outras conspirações (incluindo a tua própria).
domingo, março 07, 2004
 
Toxicodependentes Anónimos
Um mês sem ler o Expresso, uma semana sem ler o Público (and counting...)
 
Banana Split again
Eu sei que o homem não é propriamente um génio, mas...
(para quem não saiba, John Kerry é senador pelo Massachusetts):

"The candidates [to the Democratic primaries] are an interesting group, with diverse opinions - for tax cuts and against them, for NAFTA and against NAFTA, for the Patriot Act and against the Patriot Act... And that's just one senator from Massachusetts"
George W. Bush, 23/2
sexta-feira, março 05, 2004
 
Comic strip
Descreve-nos, hoje, o André Belo uma utopia. Um pouco incompleta: faltou-lhe acrescentar que, àquele saudável quotidiano, Gainsbourg (por vezes com a ajuda do arfar de Jane, por vezes com o de B.B) somou a melhor música pop francesa do século XX e da melhor música pop de sempre. Do final dos anos 50 a meados dos anos 70 brotaram daquela cabecinha algumas das mais fantásticas ideias musicais que a nossa terrinha alguma vez conheceu. Daí para a frente, talvez por causa da propulsão a álcool com que a utopia era alimentada, sobreveio um período menos inspirado. Mas o mundo já tinha visto nascer (sem pretensões a exaustão, é o que me vem assim à memória): "Le poinçonneur des Lilas", "Chez les Yé-yé", "Bloody Jack", "Docteur Jekyll et Monsieur Hyde", "New York, USA", "La Décadanse" e tantas outras, a que apenas juntaria o meu personal best: "Bonnie and Clyde", "69, Année Érotique", "Comic Strip"e "Je T'aime, Moi non plus".
Outro dia fui ao cinema ver uma coisita um bocadito para o lamentável chamada 21 Gramas, de um rapaz mexicano a quem deram a tradicional oportunidade de Hollywood. As duas únicas coisas dignas de menção no dito são as namoradas de Sean "look how good an actor I am, so much so that I even won the Oscar" Penn: Naomi Watts e (imagine-se) Charlotte Gainsbourg. Quase me vieram as lágrimas aos olhos. A moça é engraçadinha, embora não seja grande actriz. Mas é uma criação de Gainsbourg: só pode merecer a minha reverência.
quinta-feira, março 04, 2004
 
Alta literatura
Ui J, que elegância... Mas convém reconhecer que pelo menos numa coisa continuas a ter razão: não te consegues mesmo calar.
 
O silêncio é de ouro
Ora, se não é o meu amigo J... Estás bom, pá? Acho que não te importas que te trate assim, já que foi com a mesma familiariedade que me trataste há algum tempo, sem me conheceres de lado nenhum. Se bem me lembro, pá, foi a propósito de uma conversa sobre Israel em que, já na altura, revelaste duas coisas que (há que ser justo) pareces ter em abundância: ignorância e má-educação. Agora, lembraste-te de me chamar salazarista. Dizes que não conseguiste ficar calado com qualquer coisa que leste por aqui. Hmmm... parece-me que estamos a chegar ao teu problema principal: não consegues ficar calado.
 
Alka-Seltzer e Orlando Figes
Oh meu querido amigo Daniel... Então ficaste agoniado com as minhas comparações? Apenas um conselho desinteressado: primeiro toma um alka-seltzer, depois, em vez de escreveres tantos posts, senta-te a ler um ou dois bons livros de história do século XX. Vais ver que te passa logo a agonia.
quarta-feira, março 03, 2004
 
A conversa agora é outra
Os atentados de ontem no Iraque são dramáticos. Mas, para quem não tenha reparado, o seu significado tem vindo a mudar. Antes, os atentados aparentavam ser obra da “resistência” (entre aspas – é cá uma mania minha e do Alberto) à “ocupação” (ooopps…) americana. Agora são dirigidos ao maior grupo étnico-religioso do país. Só não vê quem não quer: no Iraque as coisas essenciais para o funcionamento da economia e da sociedade vão correndo bem (com inevitáveis dificuldades). Para além disso, prepara-se a transição de poderes, com a assinatura até de uma constituição interina. O “terrorismo de atrição” (os pequenos atentados, todos os dias, contra soldados americanos) está a desaparecer, para dar lugar a acções maiores e mais espectaculares, contra iraquianos. Tudo isto é sinal de uma coisa: a guerra acabou mesmo. Agora estamos já no pós-guerra e na reconstrução. Mas não vale a pena achar que vai ser fácil. Para o provar, aí estão os atentados de ontem. A que há que acrescentar o pessoal que, cá nas nossas terrinhas (de John Kerry para baixo), há-de continuar os seus simpáticos esforços para dificultar o que já era difícil. Direi mesmo, agora é que entrámos na parte mais difícil: a construção de um regime político decente e consensual.
 
O ovo da serpente
Entretanto, assisti ontem pela televisão a um evento lamentável. Um determinado deputado nacional (do agrupamento político que aglomera vários partidos comunistas, trotsquistas, maoístas, pró-albaneses, etc., etc.) apareceu a brandir um artigo de Paulo Portas de 1982, em que ele defendia a despenalização do aborto. Eu quero lá saber de Paulo Portas: é um mau ministro de um governo péssimo (se me estás a ler, sorry Paulo Pinto Mascarenhas). Agora, um trotsquista qualquer (como se alguém pudesse ser membro de um partido “goebbelsiano” ou “himleriano” e, ao mesmo tempo, ser considerado respeitável), que faz parte de um partido que faz parte de um amontoado de partidos anti-democráticos (alguém julga que lá porque Trotsky foi morto por Estaline seria diferente dele; enquanto viveu não só não foi diferente como foi até muito pior – faltou-lhe foi a oportunidade para chegar onde o outro chegou), trazer aquele papelucho escrito há vinte anos como se fosse de algum interesse para o que quer que seja. Aquilo a que assistimos foi algo do mais sinistro que me foi dado observar em política ultimamente: o desprezo absolutamente gélido pelo adversário, por certas convenções que mantêm os sistemas democráticos, o abandono de um mínimo de cortesia que também é crucial para que nos entendamos por muito que os nossos pontos de vista divirjam. Tudo isso destruído na satisfação rasteira de um exercício da mais baixa política. Que o dito trotsquista o faça nem sequer me surpreende muito, agora que ninguém ache a coisa repugnante é que já me preocupa mais.
 
Hããã?
Eis John Kerry a 22 de Janeiro de 1991, em carta dirigida a Wallace Carter, de uma organização chamada Newton Center:
"Thank you for contacting me to express your opposition to the early use of military force by the US against Iraq. I share your concerns. On January 11, I voted in favour of a resolution that would have insisted that economic sanctions be given more time to work and against a resolution giving the president the immediate authority to go to war."

Eis John Kerry a 31 de Janeiro de 1991, em carta dirigida a Wallace Carter, de uma organização chamada Newton Center:
"Thank you very much for contacting me to express your support for the actions of President Bush in response to the Iraqi invasion of Kuwait. From the outset of the invasion, I have strongly and unequivocally supported President Bush's response to the crisis and the policy goals he has established with our military deployment in the Persian Gulf."

Já sabíamos que Kerry era um banana. Agora ficámos a saber que é um Banana Split.
terça-feira, março 02, 2004
 
Outra vez o Mel
David Frum, merecedor da nossa eterna estima pela criação do conceito de "Eixo do Mal", discute hoje profundamente, com leitores da National Review, a questão d'A Paixão de Cristo e do anti-semitismo. A conversa terá sido desencadeada por uma crónica de 29/2. As reacções e a crónica estão aqui. É tudo um pouco longo, mas quem se quiser ilustrar um bocadinho não dará o tempo por perdido.
 
Colores primários
Mais um despacho de Madriz, do correspondente José Luís Lencastre:

Segundo uma sondagem publicada pelo jornal ABC, este Domingo, o PP está a beira de uma nova maioria absoluta.
A sondagem, realizada entre os dias 10 e 25 de Fevereiro, dá aos populares uma margem entre 174 e 177 deputados, o que dá uma percentagem de 42,2 %. Com este resultado o PP estaria com menos 6 a 8 deputados dos 183 alcançados por Aznar em 2000 (44,5%). De qualquer modo, mesmo não conseguindo a maioria absoluta (176 deputados), podem sempre governar com a “Coalición Canaria”, como de resto o fizeram no 1º governo de Aznar. E por referir Aznar, não é por acaso que, tanto a revista Time, como o jornal Times, nos últimos dias, lhe façam os maiores elogios, pela forma como ele, e o seu governo, conseguiram tornar Espanha numa das histórias de êxito da Europa
O grupo terrorista ETA tentou executar um novo atentado, o que, a ter acontecido, seria o maior de sempre. 500 quilos de explosivos causariam danos num raio de 1500 metros. Mais uma vez os terroristas da ETA contrataram amadores para executar o atentado. Recorde-se que na véspera do Natal de 2003, também foram capturados 2 membros da ETA, em part-time, (um era desenhador, o outro professor). Isto revela a debilidade a que chegou o referido grupo, muito devido à firmeza deste governo. E é claro que assim nenhum governo está na disposição de negociar o que quer que seja. O senhor Carod Rovira (ERC) é que deve estar satisfeito. De facto, conseguiu negociar a paz na Catalunha, só na Catalunha.
Mas, mesmo que o futuro governo do PP decida negociar mais autonomia com bascos, catalãos e tutti quanti, não me parece que seja benéfico para as ditas autonomias, senão vejamos:
O catedrático Mikel Buesa apresentou um estudo titulado “ Economía de la secesión. El proyecto nacionalista y el País Vasco”. É um estudo que descreve as repercussões negativas no País Basco no caso de os seus governantes virarem as costas ao resto de Espanha, e no qual participaram 16 professores de 4 universidades. (Complutense, Cantabria, Valencia e Rey Juan Carlos.)
As principais conclusões a que chega o referido estudo são as seguintes:
PIB – Pode reduzir-se até uns 20% menos, devido aos custos que traria o estabelecimento de fronteiras, tanto para separar de Espanha, como do resto da Europa.
Emprego .- O desaparecimento de mais de 178.000 postos de trabalho, o que pode levar a taxa de desemprego para cima dos 29%
Empresas – 55% das empresas consideram prejudicial o plano Ibarretxe. 25% estuda a hipótese de abandonar o País Basco.
Pensões de reforma – O deficit seria multiplicado por 13 no ano de 2010. O sistema de pensões, no País Basco, não é sustentável sem a solidariedade do resto de Espanha.
Moeda – A independência obrigaria o governo basco a abandonar o euro e a criar uma nova moeda. Os custos anuais, por operar com uma nova moeda, seriam equivalentes a 1% do PIB.
Comércio - O comércio do País Basco com o resto de Espanha é 16 vezes mais que com os restantes países do mundo, de modo que dificilmente poderão prescindir deles.
Creio que este estudo, idóneo e independente, mostra bem o muito que por aí anda de ambição do poder, misturado com demagogia e utopias serôdias.

 
Ora aqui está uma boa ideia:
I'm not saying every benefit recipient is a terrorist welfare queen. I am saying that the best bet at saving the next generation of Susan Moores is if the US declares European welfare systems a national security threat.
O resto está aqui.
segunda-feira, março 01, 2004
 
Alcoólicos Anónimos
Três semanas sem ler o Expresso, três dias sem ler o Público (and counting…).
 
A sopa do Mel
A Paixão de Cristo não passará nas salas de cinema francesas (v. aqui). É o chamado savoir faire francês, já anteriormente revelado no caso dos (como eles dizem) “sinais religiosos ostensivos”.
Não vi o filme (nem sei se vou ver: Mel Gibson não é certamente a minha chávena de chá). Também não sou suficientemente versado nos Testamentos para emitir mais do que umas trivialidades dispensáveis. Simpatizo com Israel, por razões que nada têm que ver com a religião. A histórica perseguição de judeus em países cristãos merece-me o maior contristamento (embora a perseguição de cristãos noutras circunstâncias históricas e geográficas também mo mereça). Não sei se o filme realmente apresenta a versão mais anti-judaica na responsabilidade da condenação à morte de Jesus. Mas, face ao pouco que historicamente com rigor se sabe, há responsabilidade de judeus (o que não é o mesmo que Os Judeus – afinal o próprio Cristo era judeu) no evento. Eis uma evidência que não requer qualquer posição de princípio. Se o filme adoptar este olhar sobre o assunto, em que se denunciam pessoas e não grupos, a histeria em seu redor parece-me injustificada.
De resto, sempre me pareceria injustificada. Afinal, estamos a falar de uma produção de Hollywood, a maior fábrica de desrespeito pela verdade histórica que existe à face da terra. Digo isto sem crítica: um filme não é uma obra histórica, que tenha de seguir preceitos científicos. Mas já vi muito disparate (e muito disparate ideologicamente muito perigoso) em muito filme de Hollywood.
Digo o seguinte invocando os meus pergaminhos de apoiante israelita e agnóstico observador das manifestações religiosas: o vitimismo pavloviano de muitos judeus também farta. Tal como noutros casos de vitimismo, tanto chamar de atenção para a desgraça própria banaliza-a. Tanto chamar de atenção para a desgraça própria pode até alienar os melhores amigos. Por favor, chorem menos e pensem nisto.
 
Carlos,
também pode ser.


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