O Comprometido Espectador
sexta-feira, abril 30, 2004
 
Estou aqui
Estou aqui, Paulo. Desculpa o atraso na resposta, mas tens de compreender, aquelas sujeitas de Malibu não me largavam da mão. Os teus elogios são completamente desporpositados, mas agradeço na mesma. Então decidiste juntar-te a esta pandilha? Eu bem suspeitei que por aí não havia muito trabalho. A propósito: devo-te um artigo, remember? Não o escrevi porque entretanto houve o fogo-de-artifício de Atocha, seguido da decisão de abandonar a minha carreira de colunista (coisa para a qual visivelmente o Criador não me forneceu os melhores dotes). Talvez um dia dê para isso. Seja como for, muito bem-vindo. É sempre bom ter ter-te por aqui.
 
Back in business
Como se diz em bom português: e prontos... regressei. Como provavelmente saberão, estive em missão civilizacional do outro lado do Atlântico (mesmo do outro lado do outro continente do outro lado do Atlântico, nas margens do outro oceano do outro lado do outro continente do outro lado do Atlântico).
É simples. Tal como aqueles famosos rapazes (os da praia), recebi um chamamento. Eles explicaram isso muito bem em 1985:

California callin'
I'll be there right away
There's some beautiful women
Gonna find me one
To show me how to ride the ultimate wave

Now I've joined the surfin' nation and so
I'll take a permanent vacation and go
To the golden shores of 'Frisco Bay
I'll ride 'em all the way to Malibu

And I'll take ya' boogie boardin' with me
'Cause when we're surfin' it's so great to be free
And when you're on a California beach
You might even find 'em windsurfin' too

California callin'
I'll be there right away
There's some beautiful women
Gonna find me one
To show me how to ride the ultimate wave


Parti com a ideia de levar luzes e sofisticação àquele povo de brutos ignorantes. Queria explicar-lhes o que é o 25 de Abril. Vai daí, fiz questão de no próprio dia 25 subir a Pacific Coast Highway com um chaimite de 1970. Com o meu camuflado do exército português, estacionei em Malibu e montei a banca com cartazes alusivos e CDs da “Grândola” e do “E Depois do Adeus”, e mais algumas coisas avulsas (um best of do Tino Flores, um sortido de discos em vinil do José Mário Branco, livros de Joaquim Pessoa e José Fanha, enfim, o trivial, capaz de mostrar àquelas bestas o que é um verdadeiro país europeu sofisticado e de alta cultura). Incompreensivelmente, todos eles sabiam o que era o 25 de Abril. Ao perceberem que vinha de Portugal, diziam-me: “yeah, sure, Portugal: Eusébio, Amália, 25 de Abril”. Mais: não só sabiam o que era como o comemoravam furiosamente. Uma loura coberta com uns vestígios de roupa que se interessou pelo meu chaimite explicou-me depois que os americanos viam no 25 de Abril algo anterior ao próprio 4 de Julho. A lógica era muito simples: Abril antecede Julho, sendo inevitável retirar aquela conclusão. Enfim, para eles Otelo é um Jefferson em crisálida, Costa Gomes um Franklin mais ilustrado e Vasco Gonçalves um Washignton a quem não deixaram ser Presidente.
Incapaz de desenvolver a tarefa a que me tinha obrigado, acabei por resvalar para o nível cultural local: troquei o chaimite por um Ford Mustang vermelho (agora não estou a brincar), convidei a loura a acompanhar-me (agora estou) e continuei a subir a Pacific Coast Highway. Foi então que quis que o 25 de Abril fosse sempre.

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