O Comprometido Espectador
quarta-feira, junho 16, 2004
 
Unbloomsday
Faz hoje um ano nascia O Comprometido Espectador, um blog sobre… Sobre o que é que é, exactamente? Conta quem viu que, nesse dia, o céu se cindiu em dois e dele brotaram sete serpentes aladas, cada uma delas representando uma diferente qualidade humana: a temperança, a obstinação, a paciência, o vício, a inépcia, a fé e a constância. Testemunhas oculares afirmam terem visto um elefante de chifres rombos a urrar na Praça do Rossio. Relatos contraditórios dão nota de cem (nas palavras de alguns circunstantes) ou duzentas (nas palavras de outros) crianças com cauda de porco entoando o Padre Nosso no terminal da Carris à Pontinha. E existe mesmo o testemunho de uma mulher (por confirmar), segundo o qual, às 14.35 dessa tarde, um hipopótamo sem cabeça terá subido o elevador de Sta. Justa, em Lisboa.
Ora, que melhor maneira de comemorar um evento tão momentoso senão encerrando O Comprometido Espectador? Pois é exactamente isso que vai acontecer. Não foi decisão tomada ontem, durante o jantar, mas há meses. Desde há já bastante tempo que me dei o limite da data do primeiro aniversário d’O Comprometido Espectador para o encerrar.
Perguntarão os parcos (parquíssimos) leitores regulares do pasquim: mas porquê, Comprometido? Mas porquê, Espectador? Querem uma resposta sincera? Pois aqui vai. Por nada de especial, a não ser a falta de tempo (que, como toda a gente sabe, é falta de dinheiro). Isto dos blogs é muito divertido. Como sabem as pessoas que cá andam, divertido de mais. Quem, de entre nós, não passou já uma tarde inteira a matutar numa piadinha qualquer para pôr no blog, com o trabalho a empilhar-se na secretária? É que, pode não parecer, mas eu tenho uma profissão, a qual não é escrever blogs. Pode não parecer, mas eu tenho uma família, que não se alimenta de eu escrever em blogs. Pode não parecer, mas eu tenho vícios, que idem. Foi muito engraçado, mas agora é tempo de desligar aqui o bicharoco.
Termino apenas desejando a todos os que por cá continuam que continuem e continuem a divertir-se. Acrescento ainda uma pequena lista dos blogs que leio e gosto de ler (uns diariamente, outros mais espaçadamente). O número de blogs aumentou tanto ao longo deste ano que fui obrigado a ir seleccionado aqueles que ia lendo e continuarei a ler. Dos que não cito, alguns são blogs que não aprecio mesmo, outros serão blogs de que talvez gostasse mas não conheço o suficiente para recomendar. A quem caiba nesta categoria, peço desde já desculpa por não ser incluído. Igualmente peço desculpa por começar a lista pelos meus valorosos irmãos da UBL, benfazeja organização que é exímia na organização de jantaradas, todas elas dedicadas à mais sistemática prossecução da defesa dos nobres princípios da liberdade. A lista organiza-se não por ordem de preferência, mas alfabética.
Adeusinho e have fun
A Lista:
A UBL:
A Causa foi Modificada
Bomba Inteligente
Blogue dos Marretas
Contra a Corrente
De Direita
Fumaças
Gato Fedorento (Zé Diogo Quintela)
O Intermitente
Jaquinzinhos
Mar Salgado
No Quinto dos Impérios
Picuinhices
Tradução Simultânea
Valete Fratres!
Voz do Deserto

Os outros:
O Acidental
Africanidades
A Kathleen Gomes é um Boi
Babugem
Barnabé
O Bazonga da Kilumba
Blasfémias
Blogue de Esquerda (II)
Cartas de Londres
Causa Liberal
Como se fosse uma Baleia
Desesperada Esperança
Ditadura do Consenso
Estrada do Coco
Fora do Mundo
Homem a Dias
La Inqusición
João Pereira Coutinho
Ma-Schamba
Os Meninos de Ouro
Miss Vitriolica Webb’s Ite
My Moleskine
Nós e os Outros
Nova Frente
O Observador
O País Relativo
O Projecto
A Razão das Coisas
Roda Livre
Superflumina
Um em Muitos
Veritatis
What Do You Represent
 
Ardimanhas
Meu caro Ardiloso. Você não sabe, mas eis aí uma coisa que não sou: ardiloso. Direi mesmo mais: sou um nabo. Eu já ouvi falar desses programas e até já beneficiei, via amigos, dos resultados da nobre actividade. Mas (chame-me tosco à vontade), não sei bem porquê, sempre me faltou a paciência para instalar um aqui no computador. Mas não há estupidez que sempre dure nem preguiça que nunca acabe. E por isso você acaba de dar-me o último argumento para me deixar de parvoíces. Vai ver. Daqui a um mês até lhe mando o próximo disco dos Magnetic Fields. O quê? Só vai saír daqui a três anos? Pois vai andar a rodar cá em casa há três semanas.
terça-feira, junho 15, 2004
 
De 2002?
Meu caro Ricardo, Yankee Hotel Foxtrot é um dos melhores discos de 2002, 2001 e mesmo 2000 - em 2002 ouvi-o tão obsessivamente que a espessura do disco se deve ter reduzido a metade.
O que eu gostava era de saber como é que a 15 de Junho ouves um disco que apenas vai ser lançado a 22 - olh'áqui.
segunda-feira, junho 14, 2004
 
Análise eleitoral (XI)
Em Portugal:
Portugal: 1 - Grécia: 2

Eles jogam mal. Eles perdem.
 
Análise eleitoral (X)
Em Portugal:
PS - 44,5%

Eles têm Ferro Rodrigues. E ainda assim eles ganham.
 
Análise eleitoral (IX)
Em Portugal:
PSD/CDS-PP - 33%

Se eles continuarem assim. Eles vão voltar a perder.
 
Análise eleitoral (VIII)
Em Portugal:
CDU - 9,1%

Eles não batem bem. Eles têm 9,1%.
 
Análise eleitoral (VII)
Em Portugal:

BE - 4,9%

Eles batem forte. Eles têm 4,9%.
 
Análise eleitoral (VI)
Na Polónia:
Taxa de abstenção: 85%

Eles são polacos. Eles não votam.


 
Análise eleitoral (V)
Em Espanha:
PSOE - 43%
PP - 40%

Eles tiram tropas. Eles ganham à rasquinha.
 
Análise eleitoral (IV)
No Reino Unido:
Labour - 22%
Tories - 22%

Eles mentem. Eles empatam.
 
Análise eleitoral (III)
Em Itália:
Ulivo - 33%
FI - 21%
AN - 12%

Eles mentem. Eles aguentam-se.
 
Análise eleitoral (II)
Na Alemanha:
CDU - 46%
SPD - 23%
Verdes - 10,5%

Eles não mentem. Eles levam um bigode.
 
Análise eleitoral (I)
Em França:
PS - 30%
UMP - 17%
UDF - 12%

Eles não mentem. Eles perdem.

sexta-feira, junho 11, 2004
 
O Sr. Churchill
Aqui há umas semanas atrás, o André Belo lançou-se numa diatribe sobre a utilização da história para fins políticos correntes. Havia muito a dizer sobre ela, mas se calhar um blog não é o espaço apropriado para isso. No final da diatribe o André utilizava o exemplo da oposição Churchill-Chamberlain para ilustrar as suas ideias genéricas e fazia uma espécie de petição para que a história, enquanto disciplina que deve cultivar uma certa objectividade, fosse capaz de dar uma imagem mais justa de Chamberlain e do chamado appeasement em geral – e também de colocar Churchill num lugar um pouco mais abaixo do pedestal onde foi posto desde a II Guerra Mundial. Visivelmente, o André desconhece a existência em Inglaterra nos dias que correm de uma verdadeira indústria historiográfica de reabilitação do appeasement e de desmistificação da lenda de Churchill. O inevitável Christopher Hitchens fez, de resto, há uns anos, uma análise dessa literatura, na qual também ajudava à festa iconoclasta (aqui). A sensação que me fica, mesmo depois de considerar essa literatura (que trouxe muita coisa válida e verdadeira, mas também muita irrelevância e falsidade), é que o mito resiste. Mesmo Hitchens, na violência verbal que o caracteriza, acaba por reconhecer isso mesmo a determinado passo.
De onde vem o mito de Churchill (e o correspondente anti-mito de Chamberlain)? A má imprensa de Chamberlain decorre essencialmente da sua acção enquanto primeiro-ministro entre 1936 e 1938, período durante o qual a Grã-Bretanha e a França (não apenas Chamberlain) tergiversaram perante as evidentes acções destabilizadoras de Hitler (a remilitarização da Renânia, o Anchluss e a invasão da Checoslováquia). Aquilo a que se chama appeasement são precisamente essas tergiversações. O appeasement fundava-se em princípios compreensíveis. Alguns dotados de uma certa nobreza, nomeadamente o princípio de ressarcir a Alemanha das injustiças do Tratado de Versalhes e o princípio de manter a paz na Europa, outros não, como a mal escondida simpatia por Hitler de alguns dos seus representantes. Curiosamente, neste período, Churchill não se destaca particularmente pelo seu “belicismo”. Não era um appeaser muito convicto, mas também não era um “belicista” muito convicto. Na verdade, oscilava entre dizer, em determinados momentos, que não se devia negociar com Hitler e aceitar, noutros, negociações. De resto, não é Churchill quem declara guerra à Alemanha, na sequência da invasão da Polónia, mas Chamberlain.
Onde a acção de Churchill é extraordinária e merecedora da memória eterna da humanidade não é, portanto, nesta altura, mas mais tarde, em Maio de 1940, já durante a guerra. Para se perceber porquê é necessário conhecer um dos mais importantes (e conhecidos, de resto) episódios da II Guerra Mundial, a chamada Batalha de França. A Batalha de França trouxe uma das mais humilhantes derrotas militares francesas. Essencialmente, num mês o exército alemão entrou em França e ocupou quase integralmente o seu território, com o exército francês a demonstrar uma desesperante incapacidade para lhe fazer frente. Com a débâcle francesa e com Churchill já em primeiro-ministro, colocou-se no War Cabinet de novo a questão de negociar com Hitler. Para muita gente na Grã-Bretanha, com a vertiginosa e inesperada derrota francesa, a guerra estava acabada e a vitória era alemã. Tratava-se agora, para a Grã-Bretanha, de procurar termos de entendimento com os novos senhores do continente. No governo presidido por Churchill, duas pessoas se destacaram pelo seu apoio a negociações, Chamberlain e Lord Halifax. Para eles, a situação, mais do que desesperada, era impossível de ser revertida. E muita gente na Grã-Bretanha acreditava nisso mesmo. Não Churchill, que em Maio dissera a Roosevelt: “if necessary, we shall continue the war alone. We are not affraid of that”. Foi contra uma larga parte da opinião pública britânica e de muita gente no seu próprio governo que Churchill impôs a sua posição. Assim se salvou a Europa de permanecer nas mãos da Alemanha nazi e o mundo de entrar numa das mais negras fases da sua história. É esta a extraordinária acção de Churchill que a posteridade recordará agradecida.
Altura em que podemos regressar à questão da avaliação histórica de determinados episódios. A história, enquanto disciplina científica (??), pode perfeitamente reabilitar Chamberlain, Halifax e todos aqueles favoráveis a um entendimento com Hitler. Afinal, tal posição é perfeitissimamente compreensível. Com a Europa, da França à Polónia, entregue à Alemanha nazi e à Itália fascista, e a Grã-Bretanha isolada na sua ilha, incapaz de qualquer acção ofensiva, como não compreender o desejo de negociação? Já a acção de Churchill pende mais para o lado do incompreensível. Um conselheiro sensato teria provavelmente dito a Churchill para não tentar a loucura de continuar em guerra com a Alemanha em circunstâncias tão desesperadas. Só que Churchill era, de facto, um pouco louco. E foi da sua insensatez, loucura e pura coragem (em larga medida incompreensíveis, à luz, por exemplo, de uma avaliação histórica assente na razoabilidade) que nasceu um dos mais notáveis momentos da história da humanidade.
A literatura dedicada a desmistificar Churchill nota o seu carácter inconstante, algumas duvidosas simpatias, os sistemáticos fracassos políticos e militares – em muito maior número do que os êxitos – e mil e um aspectos menos recomendáveis da sua vida. Tivesse Churchill morrido em 1938 e essa vida provavelmente resumir-se-ia numa palavra: fracasso. Semi-louco, alcoólico, tantas vezes patético, imperialista, com um curriculum militar carregado de desastres, Churchill seria talvez recordado assim mesmo com estas palavras que acabei de usar. Mas, não sendo Churchill, visivelmente, um santo, há na sua vida certos ingredientes das vidas dos santos. Tal como os santos se redimem de um passado pecaminoso comportando-se de forma benfazeja a partir de certa altura, o mesmo parece acontecer com Churchill e a sua obstinação anti-hitleriana de 1940.
Como a história é cruel, esta foi uma santidade ajudada pela vitória : o que diriam a opinião pública e os historiadores de hoje se a Grã-Bretanha tivesse sido derrotada na sequência da insensata decisão de Churchill? Desde logo, o mundo seria certamente diferente daquele em que vivemos. Mas mesmo admitindo que fosse igual, muito provavelmente diriam que essa derrota era previsível e que Churchill não teria passado de uma criatura disparatada que, a juntar aos fracassos anteriores, em 1940 lançara a Grã-Bretanha na mais insana das aventuras.
Mas é por tudo isto que eu acho que o mito sobrevive. Porque só um louco disparatado e insensato como Winston Churchill seria capaz de uma acção equivalente. Nenhuma criatura razoável e ponderada (como Chamberlain, por exemplo) o faria. No mais belo texto sobre Churchill que me foi dado ler, “Mr. Churchill”, de Isaiah Berlin (aqui), diz-se exactamente isto. Poucos políticos seriam capazes de dizerem com absoluta sinceridade que aquele preciso momento de 1940 era “a time when it was equally good to live or die”. Porque aquilo que resiste a todo o revisionismo é uma ideia, a qual, ao juntar-se com os restantes dados biográficos, dá origem a uma vida que se transcende a si mesma. E essa ideia é a ideia de que há momentos em que a rendição é impossível, porque vergonhosa, mesmo se a derrota aparece como mais provável do que a vitória. Momentos em que podemos morrer e sabemo-lo, mas antes isso do que vivermos manchados por uma vergonha intolerável. E isto, a história “objectiva” não “compreende”. A história “objectiva” certamente que “compreende” muito melhor as razões da rendição – afinal as mais sensatas. E quem ler o texto infestado de verrina de Christopher Hitchens ficará com a estranha sensação de que aquilo que ele diz está tudo certo (e nem sempre está: Hitchens toma como correctos erros revisionistas posteriormente desmentidos), mas rigorosamente errado ao mesmo tempo. Porque falta que Hitchens nos explique aquele momento único, que (goste-se ou não) é o momento fundador do mundo no qual vivemos actualmente. É por tudo isto mesmo que o mito de Churchill sobrevive. Porque a verdade é que só aquele homem carregado daqueles defeitos todos poderia feito a última e salvadora insensatez da sua vida. Salvando-se assim a ele, e com ele, salvando-nos a nós.
quinta-feira, junho 10, 2004
 
Ground Control to Major Tom
Em condições normais, a negação da realidade é um problema clínico, podendo mesmo conduzir ao internamento em determinadas instituições hospitalares. Mas, por razões misteriosas, a sociedade exterior aos muros dessas instituições alberga um certo número de indivíduos cuja inteira biografia adulta (admitindo que na pré-adulta a isso tenham escapado) foi gasta na negação da realidade.
Um caso recente, à atenção dos especialistas do ramo, é o de certas reacções à recente resolução da ONU para o Iraque. Parece que, afinal, a assinatura da dita resolução correspondeu a uma grande derrota para os EUA. Ground Control to Major Tom (pi pip), Ground Control to Major Tom: valerá a pena lembrar quem governava o Iraque há cerca de um ano atrás? E valerá a pena lembrar quem removeu quem governava no Iraque há cerca de um ano atrás? A ONU vem agora dar caução à presença militar das tropas estrangeiras e corroborar o calendário que o Presidente Bush anda a anunciar há meio ano. A ONU dá cobertura jurídica à desejável (embora ainda incerta) democratização do Iraque. Quem permitiu que essa democratização possa vir a verificar-se? Como deveria ser evidente a toda a cabeçita funcional, a nova resolução da ONU é um ajustamento de todas as partes que a assinaram a certas perspectivas dos parceiros. Mas convém lembrar de que ponto é que estamos a falar e como foi possível cá chegar. Se tivesse prevalecido a posição inicial dos outros membros do Conselho de Segurança, Saddam Hussein ainda governaria o Iraque por estas horas. É provável que esteja desactualizado e existam agora novos conceitos de vitória e derrota. Alguém é capaz de me ilustrar?
Pelo que termino aconselhando umas leituras, que podem ser terapêuticas para os casos ainda não perdidos, precedendo-as apenas de umas notas: quando se inicia uma guerra não se sabe como ela vai acabar. Quando se inicia uma guerra inicia-se um período de imprevisibilidade e permanente surpresa. Durante uma guerra fazem-se sempre, dos dois lados, muitos erros (uns mais lamentáveis que outros). E é necessário estar sempre a ajustar as nossas acções às acções do inimigo, com o máximo de agilidade possível. Neste momento, no meio dos vários erros e surpresas, um objectivo da coligação que conduziu a guerra no Iraque foi alcançado: remover o antigo mandante. Falta o outro, o mais difícil, mas que era impossível sem êxito no primeiro. Já houve muitos erros, surpresas e ajustamentos. E é provável que continuem a haver. Mas convém manter presentes os objectivos iniciais. Êxito e fracasso têm que ser medidos em relação a eles.
Ah, as leituras! São esta e esta, ambas de John Keegan (um dos melhores historiadores vivos) e ambas lidas no nós e os outros (um blog que prova a possibilidade da quadratura do círculo: afinal é possível ser-se inteligente e ao mesmo tempo apoiar a vitória de Kerry nas eleições americanas de Novembro).
 
E quem disser o contrário...
...é porque realmente nunca ouviu isto.
Adenda a/c do Sr. Dr. Alberto Gonçalves, para relembrar uma conversa já antiga: onde se mostra quem, depois do JOÃO (todo com maiúsculas, que é como ele é), melhor cantou bossa nesta terrinha.
quarta-feira, junho 09, 2004
 
O mais correcto
Suspender a campanha eleitoral parece, efectivamente, ser o mais correcto sinal de respeito pela morte de Sousa Franco: acaba-se assim com o triste e enfadonho espectáculo que vinha decorrendo já há quase duas semanas.
terça-feira, junho 08, 2004
 
O OBNI
Afinal já ninguém sabe dizer muito bem de onde vem o padeiro, que assim se converte num verdadeiro OBNI (Objecto Batedor Não Identificado). E no entanto, esperem lá... Coloquem-lhe uns óculos (daqueles que não são esquisitos), umas melenas prateadas e deixem-no bater forte. Então? Ainda restam dúvidas sobre a identidade do grande panificador da classe operária e do povo trabalhador? Exactamente: é o Fernando Roswell.
segunda-feira, junho 07, 2004
 
Homo Luso-tropicalis
A sb tratou de esclarecer-me a mim e ao resto da blogosfera que não é um brasileiro a viver em Portugal, mas uma portuguesa a viver no Brasil. Quando as coisas chegam a este estado, colocam-se duas hipóteses: a) estamos perante um caso de alzheimer precoce (a minha); b) estamos perante a realização do sonho de Gylberto Freire para além do seu próprio sonho: a concretização absoluta do homem luso-tropical, nem português nem brasileiro, nem homem nem mulher, nem branco nem preto, nem sequer mulato, uma espécie de ser total, um ente sintetizando todas as características de cá e de lá. Será para aí que nos conduz a Estrada do Coco?
 
Eça é que é Eça
Entretanto, o Bruno Reis (um jovem e excelente historiador contemporâneo da praça) reagiu àquilo que aqui escrevi sobre o Dia D. O Bruno teria (quase) toda a razão caso tivesse dedicado a sua crítica a um post que, afinal, eu não escrevi. É provável que o problema seja meu, que não me tenha explicado bem. Vamos por partes:
1) Eu não quis dizer que apenas os americanos deram as suas vidas na II Guerra Mundial. É evidente que o esforço de guerra entre 1939 e 1945 não foi exclusivamente americano. É evidente que muitos europeus verteram o seu sangue contra o nazismo. Talvez seja até evidente que os mais heróicos momentos da guerra se deveram à Grã-Bretanha entre Maio de 1940 e Dezembro de 1941, quando permaneceu solitária contra o Eixo (e contra toda a aparente sensatez). Mas resta um contributo americano essencial: o da possibilidade e certeza da vitória. Podemos ser heróicos na nossa resistência determinada e não ter qualquer possibilidade de vencer. O que os EUA trouxeram a partir de 1941 foi, precisamente, essa possibilidade – quase certeza. Por muito heroísmo que muitos europeus tivessem demonstrado até 1941, só com a entrada em cena da máquina militar americana foi possível conceber uma vitória aliada. O Bruno não desconhecerá, certamente, o famoso desabafo de Churchill ao tomar conhecimento do ataque a Pearl Harbor (i.e., no dia da trágica destruição da frota americana do Pacífico): “so we’ve won after all”.
2) É evidente que a cooperação europeia é uma obra europeia feita por europeus. Mas (embora muitos europeus o ignorem ou queiram ignorar) é em larga medida (em larguíssima medida, aliás) também uma obra americana. Começa por ser uma obra americana pelas razões do ponto 1: esta Europa pacífica, democrática e cooperante em que vivemos tem entre as suas fundações aquelas vidas americanas. Para que ela existisse foram muitos os americanos que verteram o seu sangue. É também uma obra americana porque os EUA foram, durante os anos 50, um parceiro directo das negociações que conduziram à criação da EFTA e da CEE. Não só um parceiro directo como muitas vezes o parceiro decisivo para desbloquear negociações emperradas pelos egoísmos nacionais europeus. No actual ambiente reinante de anti-americanismo ignorante, isto pode passar por polémico. Mas não é. É do mais estrito domínio dos factos. Finalmente, é uma obra americana porque os EUA assumiram uma parte desproporcionada da defesa europeia durante toda a guerra fria.
Estava muito longe de mim negar que a actual Europa é obra de europeus: isso seria desafiar a evidência de forma absurda. Mas é importante percebermos que foram os EUA quem, muitas vezes, deram um sentido de unidade a um projecto onde as feridas e rivalidades do passado nem sempre tinham sarado e, o que é mais, chegaram a ameaçar a sua continuidade. Se queres que te diga, muito francamente não ponho as minhas mãos no fogo pela capacidade de entendimento entre os europeus no dia (se ele chegar) em que os EUA decidirem zarpar daqui. Hás-de desculpar-me a graçola fácil, mas… Eça é que é Eça.
domingo, junho 06, 2004
 
Overlord: o dia mais longo do século
Quando o dia 6 de Junho de 1944 nasceu, os jovens americanos, ingleses e canadianos que, embarcados nos LCIs (Landing Craft Infantry), se aproximavam da costa da Normandia, presenciaram um espectáculo tão exaltante como aterrador. Tanto quanto a vista podia alcançar, o mar tinha-se coberto de navios. No céu, o cortejo de aviões esmagava-os com um barulho ensurdecedor. Diante de si, acima da linha das dunas e mais além, o chão rebentava em erupções de pó e fumo, resultantes dos bombardeamentos aéreos. Do outro lado da frente, os jovens alemães que há semanas esperavam o iminente desembarque nas praias que ficaram conhecidas pelos nomes de código Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword, terão ficado ainda mais aterrados com o que viram. Os únicos elementos de fragilidade de que poderiam aperceber-se eram os homens que, carregando o seu equipamento e acabados de desembarcar, lutavam para avançar através da rebentação ou dos obstáculos deixados na praia. Pouco depois, também a praia começaria a explodir, agora sob o impacto do seu próprio tiroteio. Começava assim a operação que recebeu o nome de código Overlord e aquele que Rommel chamou “o dia mais longo do século” – na verdade, o real começo da operação tinha-se dado ainda durante a noite, de forma muito menos espectacular, com o lançamento de tropas aerotransportadas para dentro do território francês. E começava assim, pela França, a libertação da Europa da ocupação nazi.
Foram desembarcados na Normandia cerca de 160.000 soldados. Metade deles do exército dos EUA, a outra distribuindo-se entre britânicos e canadianos. Cerca de 10.000 foram atingidos, 60% dos quais americanos (a maior parte no matadouro de Omaha Beach), 25% britânicos e 10% canadianos. A II Guerra Mundial iria durar mais um ano na Europa e um ano e alguns meses no Pacífico, mas com o desembarque bem sucedido do exército americano na Europa, deixaram de restar dúvidas acerca do resultado final. E o que é mais: finalmente a democracia regressava ao continente, até então submergido pelos totalitarismos nazi e soviético.
Era a segunda vez no século XX que tropas americanas desembarcavam na Europa para resolver querelas europeias – a primeira tinha sido em 1917. Em 1918 os americanos não quiseram assumir a tutela da Europa. Mas em 1945, sim, não fosse necessário desembarcar uma terceira vez para decidir mais um conflito de proporções catastróficas. Assumiram a tutela e obrigaram os europeus a entender-se. O Plano Marshall foi oferecido à Europa sob a condição de os europeus cooperarem. E foi dessa cooperação que nasceu a CEE – que, em última instância, resultaria na actual UE. Os EUA tutelaram todo o processo de criação das primeiras instituições europeias e (mais do que qualquer país europeu) quiseram aqui criar uma federação, se possível à imagem da federação americana. As tropas dos EUA permaneceram na Europa e defenderam-na contra as intenções expansionistas da URSS. Essas tropas constituem, ainda hoje, as verdadeiras Forças Armadas Europeias, sem as quais o continente, neste seu actual formato pacífico e próspero, provavelmente já não existiria.
Um dos mais tristes disparates que hoje em dia se repetem consiste em opor a “civilização europeia” à “civilização (?) americana”, supostamente inferior. Nós seríamos ricos, justos e pacíficos. Os americanos, apenas ricos (e apenas quando brancos). Isto é um disparate, entre outras coisas que demorariam muito tempo a esclarecer, porque a tradição europeia até 1945 é o exacto contrário disso. O que marca a existência do continente europeu até 1945 é a sucessão de guerras, no seu solo e exportadas para fora dele. Se a Europa viveu os últimos 60 anos em paz deve-o aos EUA, que não só obrigaram os europeus a entender-se como se substituíram a eles na sua própria defesa. Coisa que lhes permitiu, adicionalmente, cortar nos desnecessários gastos militares e engrossar os do celebrado welfare state, o tal que os autoriza a considerarem-se mais justos do que o resto do mundo.
Os europeus de hoje não sabem que são filhos da América. Ou melhor, não sabem que as suas presumíveis virtudes são filhas dos presumíveis defeitos da América. E também ainda não perceberam que quando se emanciparem terão de perder muitas dessas presumíveis virtudes e adquirir muitos daqueles presumíveis defeitos. Ou talvez não. Caso em que a Europa deve preparar-se para seguir o caminho de tantas outras notáveis civilizações pretéritas: o cinzeiro da história – na expressão do afamado Trotsky.
sexta-feira, junho 04, 2004
 
Meio do caminho
Quase sem exagero se poderá dizer que o dia 4 de Junho de 1942 (hoje, há sessenta e dois anos) foi aquele em que a civilização ocidental (chamemos-lhe assim, por convenção) terá sido salva da extinção. É fácil perceber porquê, se olharmos para o estado do mundo no dia anterior. No maior país da Europa vigorava desde 1917 um dos mais tenebrosos regimes políticos que a humanidade conheceu, o comunismo soviético. O resto do continente tinha-se entregue a regimes também violentos, embora de signo oposto, tendo um equivalente perfeito no nazismo alemão. A única excepção a este quadro era a Grã-Bretanha. Sozinha na guerra contra a Alemanha desde 1940 (na sequência da trágica débâcle francesa), a Grã-Bretanha esperou um ano e meio pela participação militar da grande democracia americana na II Guerra Mundial. Coisa que aconteceu em Dezembro de 1941, com a destruição da frota do Pacífico estacionada em Pearl Harbor. Os EUA, ao contrário do Japão, não estavam preparados para a guerra em 1941. Com Pearl Harbor atingiu-se o fundo, e ninguém apostaria num futuro de liberdade e democracia no Ocidente.
É nestas trágicas circunstâncias, portanto, que chega o dia 4 de Junho de 1942. Para responder à ocupação, ilha a ilha, que o Japão ia fazendo do Pacífico, os EUA sentiram-se na necessidade de reagir. Em 1942, porém, os EUA não tinham ainda montado a destruidora máquina militar que desembarcaria na Europa dois anos depois. Em consequência, todas as suas acções militares no Pacífico se revelaram inócuas. Pronto a resolver o incómodo com rapidez, o Japão decide responder em força, enviando a sua frota para um combate decisivo. O qual efectivamente ocorreu naquele dia e ficou conhecido como Batalha de Midway (do nome da ilha a meio caminho entre a América e a Ásia).
Os americanos tinham à sua disposição um número de navios que era menos de metade do japonês. Também a qualidade do material era infinitamente inferior do seu lado. Entre porta-aviões, restantes navios e aviões, o material japonês era o estado-da-arte do combate marítimo e aéreo. Contra as modernas embarcações japonesas, os EUA tinham para oferecer navios reparados muitas vezes à pressa, ou requisitados do Atlântico, já afectados por combates. Contra os famosos Zero (talvez os melhores aviões de combate da II Guerra Mundial), a resposta americana era uma variedade de aviões obsoletos e lentos. Nas palavras de um oficial americano da época, a Batalha de Midway seria sempre um “desperate affair”. Do lado japonês, a confiança não tinha medida, raiando a arrogância.
A batalha começou com o ridículo ataque à frota japonesa dos ridículos Devastators comandados por Jack Waldron. Este ataque foi tão ridículo quanto crucial para o desfecho do confronto. Todos os homens que montaram naqueles aviões sabiam que iam morrer, fosse porque seriam atingidos, fosse porque não teriam combustível para regressar ao porta-aviões de origem. Naquele tempo, o combate aéreo não era feito com armas teleguiadas, lançadas de milhares de pés de altitude. Um ataque aéreo de precisão obrigava os aviões a aproximar-se tanto quanto possível do alvo inimigo para, enfrentando a resposta das baterias anti-aéreas, terem a certeza de o atingir. Os Devastators eram de uma lentidão exasperante. Na sua aproximação à frota japonesa, vários foram abatidos pelas defesas anti-aéreas, outros pelos Zeros que levantaram. Os poucos que conseguiram largar as suas bombas falharam totalmente os alvos – e nenhum conseguiu, efectivamente, regressar. Nos decks dos navios japoneses, pilotos e marinheiros abanavam a cabeça, sorrindo do amadorismo da acção. Mas ela foi suficiente para manter ocupado um certo número de aviões japoneses, que foram então obrigados a pousar para reabastecimento de combustível e munições. A acção da esquadrilha de Waldron havia encoberto um perigo desconhecido para os japoneses: a esquadrilha de bombardeiros de mergulho (dive bombers) sortidos comandada por Wade McClusky, que os sobrevoava fora do alcance da visão, acima do nível das nuvens. A situação mais frágil para um porta-aviões ocorre quando os seus aviões necessitam de reabastecimento – é então que o deck se enche de munições e combustível, altamente inflamáveis. Pois foi nesse estado que McClusky encontrou a frota japonesa na manhã de 4 de Junho, às 10.22. E foi a essa hora que os 36 aviões por si comandados iniciaram um vôo picado sobre os porta-aviões japoneses. Não é difícil imaginar a excitação, num misto de terror e euforia, que estes pilotos sentiram ao lançar os seus aparelhos em direcção ao mar a uma velocidade de cerca de 600 Km por hora – terror pela possibilidade de morrerem, euforia por estarem conscientes do carácter decisivo da sua acção. Nove aviões conseguiram atravessar o nevoeiro mortal dos projectéis anti-aéreos. Em cerca de 5 minutos, destruíram três dos mais importantes porta-aviões da frota japonesa, abrindo assim caminho à vitória final americana.
Midway foi a primeira grande vitória das democracias na II Guerra Mundial, e uma vitória tanto mais exaltante quanto obtida em condições terríveis. Claro que, já antes, a resistência britânica tinha sido crucial. Mas tratara-se sempre de uma resistência desesperada, defensiva. Se a Batalha de Midway tivesse sido perdida pelos EUA o nosso mundo seria, com toda a probabilidade, completamente diferente daquele que conhecemos. Mas em cinco minutos, o Ocidente, pela mão de nove pilotos da Força Aérea americana, começava a subir a parede do poço fundo em que tinha caído havia já muito tempo. Era apenas o começo. Nem sequer era o meio do caminho.

(Adenda: agradeço ao leitor Miguel Henriques uma pequena correcção)
 
The Charm of the Highway Strip

I was young, then not so young
Scary either way
One more rung down that black ladder
Every day
One more floor down the elevator
To oblivion -
What fun -
But the singularly awful one
Is being born


Stephin Merritt, "I was Born", in The Magnetic Fields, i.
quarta-feira, junho 02, 2004
 
Nietzsche, Maquiavel e o padeiro
Relembrei há uns dias atrás uma famosa passagem de Nietzsche, na qual, ao estabelecer uma possível similitude entre a verdade e a mulher, ele diminui os esforços da filosofia. Para o célebre nihilista, se os filósofos tivessem tanto talento para alcançar a verdade quanto o normalmente demonstrado para alcançar uma mulher, a verdade fugir-lhes-ia como o diabo foge da cruz.
Tentarei secundar Nietzsche, oferecendo material empírico que ajuda a comprovar a sua asserção. Leia-se esta passagem d'O Príncipe , de Nicolau Maquiavel (tradução caseira):
"a sorte é mutável, enquanto os homens são obstinados nos seus procedimentos, [e portanto] os homens prosperam quando sorte e política estão de acordo, falhando quando elas colidem. Eu acredito sinceramente no seguinte: que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é uma mulher, e para ela ser submissa é necessário derrotá-la e coagi-la. [...] Sendo uma mulher, ela entrega-se mais facilmente aos homens jovens, porque eles são menos circunspectos e mais ardentes, e porque a dirigem com maior audácia".
Não admira, repito, não admira que o mundo esteja como esteja. Se isto é das melhores coisinhas que um dos maiores vultos intelectuais da humanidade tem para oferecer, então tudo se explica.
Meu caro Nicolau: as suas ideias são prejudicadas pela sua percepção dos desejos da mulher, e a sua percepção dos desejos da mulher parece-me profundamente errada. Afinal, toda a gente sabe que elas gostam é de quem lhes bate forte.
terça-feira, junho 01, 2004
 
Momento Betty Ford
São já incontáveis os telefonemas, as cartas, as mensagens de e-mail perguntando-me sobre o sucesso do programa de desintoxicação. Calma, rapaziada. Eu estou bem. Juro. Estou bem. Não passei sequer pela fase peru frio (do inglês, cold turkey). Vejo o meu dealer todos os dias e nem sequer sinto a tentação. Tive apenas uma pequena recaída no dia 12 de Março, perfeitamente compreensível, dada a gravidade do momento. Quanto ao mais, é verdade: são já três meses sem ler o Público e quatro sem ler o Expresso.

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